Revista Movimento Movimento Movimento: crítica, teoria e ação

“Não vamos enterrar o Maio de 68”

Uma resposta de Alain Krivine e Alain Cyroulnik em defesa de Maio de 68.

Manifestantes tomam as ruas de Paris em 6 de maio de 1968 - Goksin Sipahioglu
Manifestantes tomam as ruas de Paris em 6 de maio de 1968 - Goksin Sipahioglu

Dentro de alguns meses, vai comemorar-se o cinquentenário do Maio de 68. Já foram publicados dezenas de livros e outros estão em vias de publicação. A “M Magazine du Monde” (revista do Le Monde de 6 de janeiro) acaba de anunciar que Daniel Cohn-Bendit e Romain Goupil1 estão a fazer um filme para a televisão…

Entre Sarkozy que se propôs “liquidar de uma vez por todas a herança do Maio de 68” e quem quer reduzi-lo a uma revolução cultural e sexual que teria modernizado os nossos costumes, o que prevalece é, sobretudo, o desejo de apagar do imaginário coletivo o que representa a dimensão subversiva do que foi a maior greve geral da história social francesa (na linha do legado da Comuna de Paris ou da greve de 1936), tanto para as gerações que a viveram como para as posteriores. É uma tentativa de escrever uma novela histórica francesa sem menção à luta de classes e aos massacres coloniais, não restando mais do que Carlos Magno, São Luís, Joana d’ Arc na fogueira, Luís XIV, Napoleão, De Gaulle e… “Júpiter Macron”.

Este último hesita em comemorar o Maio de 68. Hesita entre a manifestação operária de 13 de maio2 e o desfile reacionário de 30 de Maio3. E porque não comemorar ambos ao mesmo tempo, já que deixou de haver esquerda e direita. Além do mais, ele tem ao seu lado Cohn-Bendit e Goupil, ou como diz o Le Monde “De Maio de 68 a Macron, a viagem de uma geração”.

Uma das maiores greves da nossa história

Pois… não! Nós não estamos a comemorar esse Maio de 68, porque não estamos a enterrar o que foi uma das maiores greves da nossa história. Sem irritar Dani, que consegue juntar toda a direita do parlamento europeu com as suas piadas e com um liberalismo que nada tem a ver com o Maio de 68, nem Romain, que se vangloria de ter desfrutado do belo e de ter abandonado tudo: “Não suporto ver um militante político. Sou como os ex-alcoólicos. Tornei-me intransigente”.

E uma vez mais, não! O Maio de 68 não foi a euforia de um momento ou uma crise da puberdade. Também não tem nada a ver, nem é compatível, com os renegados e os seus pequenos esquemas. Não foi consensual e continua a não ser. Não foi patrioteiro, nem liberal. A nossa geração, nascida durante a Segunda Guerra Mundial levantou-se contra o pesadelo das guerras da Argélia e do Vietname. As guerras que os países ocidentais conduzem, entre os quais a França, em África ou no Médio Oriente, continuam a provocar-nos náuseas. Queríamos um mundo não submetido nem a Washington nem a Moscovo e queríamos devolver ao socialismo a sua face humana. O rosto horrível do capitalismo continua a repugnar-nos tanto como então.

Bandeiras vermelhas ao alto

Para nós, 68 não se reduz a uma revolução cultural nem à libertação sexual, mesmo que, sem dúvida alguma, se tenha dado tudo isso; da mesma forma que se dá em qualquer mobilização social em que as pessoas se tornam irreconhecíveis por estarem tão felizes e alegres. Em França, o Maio de 68 foi, sobretudo, 10 milhões de grevistas a ocupar fábricas com as bandeiras vermelhas ao alto, os estudantes a ocupar as suas faculdades e institutos durante semanas, e as pessoas a discutirem em conjunto, por todo o lado.

As nossas lembranças não têm nada a ver com uma grande festa ou com uma farsa, mas fundamentalmente com um momento intenso em que milhões de pessoas começaram a existir. Guy Hocquenghem4, que foi o nosso editorialista em 1968, enfrentou uma parte dessa geração que passou para o outro lado num livro escrito dois anos antes de morrer: Lettre ouverte à ceux qui sont passés du col Mao au Rotary (Carta aberta àqueles que passaram de Mao para Rotário),(1986, reeditado por Agona em 2003). Pois bem, nunca fomos desses e também não seremos agora.

É verdade que a situação mudou: hoje em dia constroem-se muros e grades em todos os lugares, há milhares de mortos nas estradas, nos mares do exílio e sob as bombas das guerras que acontecem em todos os continentes, e em França, onde existem quase 10 milhões de pessoas no desemprego e na precariedade.

A Renault Billancourt desapareceu

É verdade que já não há 500.000 estudantes mas cerca de dois milhões, e metade tem que trabalhar para pagar os seus estudos ou a sua habitação. As grandes fábricas como a [emblemática] Renault Billancourt desapareceram, mas a população explorada e excluída nunca foi tão numerosa. Uma população que não se reconhece nem na direita nem na esquerda; na direita que faz a política da extrema-direita e na esquerda que faz a política da direita.

Não… Não vamos enterrar o Maio de 68. Pelo contrário, atualmente temos tantas ou mais razões, que naquele tempo, para nos revoltarmos. Após trinta anos de ofensiva liberal que permitiram à extrema-direita chegar à segunda volta nas eleições presidenciais e contaminar todo o debate político, o espírito do Maio de 68 tem mais atualidade que nunca.

Para nós, o Maio de 68 continua a ser o que falta fazer, mas sendo capazes de coordenar as lutas, de suscitar nas empresas e nos bairros, nas cidades e nos campos, um verdadeiro poder das e dos trabalhadores, juntando todas e todos, pessoas não organizadas, associações ou sindicatos, partidos, pessoas com ou sem emprego, franceses ou estrangeiros, que acreditam que outro mundo é possível e que o querem construir, sem fronteiras, sem muros e sem ódio, como afirmava esta consigna de Maio 68: “Que se lixem as fronteiras!” (“Les frontières on s’en fout!”)

A solidariedade militante, a esperança na revolução para varrer o “Velho Mundo”, por um novo Maio de 68 do século XXI que, desta vez sim, consiga os seus objetivos… Sim, nós continuamos a lutar por isso.

Artigo de Alain Krivine (antigo membro da comissão política da LCR, membro do NPA) e Alain Cyroulnik (antigo membro da comissão política da LCR, membro de Ensemble), publicado no “Le Monde” (disponível aqui). Tradução para português de Carlos Santos para esquerda.net


 

1 Daniel Cohn-Bendit, um dos líderes do Maio de 68, popularmente conhecido como Daniel o vermelho, pertencia naquele tempo à corrente anarquista. A partir da década de 70 aproximou-se dos Verdes alemães e desde 1994 é deputado europeu e co-presdidente do grupo parlamentar verde no Parlamento Europeu.
Romain Goupil é um cineasta francês, foi líder estudantil em 1968, militante trostkista no início de 79, a partir do ano 2000 evoluiu para posições neoconservadoras.
Ambos apoiaram E. Macron nas presidenciais de 2017.

2 Dia da greve geral massiva. Nota da tradução.

3 Manifestação convocada pelos gaullistas, “Em defesa da República”.

4 Guy Hocquenghem (1946–1988) foi ensaísta, romancista e ativista LGBT.

Movimento - Crítica, teoria e ação

Apresentação

Publicamos a décima edição de nossa Revista Movimento. Dessa vez, celebramos os 80 anos de fundação da IV Internacional, comemorados em setembro de 2018, com uma seção especial. Há, também, artigos na seção internacional e de teoria. Fechamos esta edição quando a eleição brasileira se encerrava. Como não poderia deixar de ser, nesta décima edição de Movimento, apresentamos nossas primeiras análises sobre os resultados eleitorais. Sabemos que a vitória de Jair Bolsonaro trará graves ataques à classe trabalhadora e ao povo brasileiro. Estaremos com nosso povo, lutando em defesa das liberdades democráticas e de nossos direitos. Mais uma vez, esperamos que a revista seja uma ferramenta útil de construção e formação para nossos camaradas. Boa leitura!

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