Revista Movimento Movimento Movimento: crítica, teoria e ação

O PSOL deveria debater um programa para 2018

Roberto Robaina, vereador de Porto Alegre e dirigente do PSOL, avalia as negociações que parte da direção do partido tem conduzido com Guilherme Boulos.

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A possibilidade de Guilherme Boulos assumir a tarefa de ser candidato presidencial pelo PSOL tem crescido. Boulos é dirigente do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST). É a figura mais conhecida deste movimento que se fortaleceu depois de junho de 2013. Tudo indica que sua decisão de filiar-se ao PSOL e disputar a presidência pelo partido tenha sido tomada. Os informes que tenho são de que tal decisão foi debatida na coordenação do MTST. Não tenho dúvidas de que é uma vitória do partido ter uma aliança com este importante movimento. Mas para que uma aliança seja exitosa deve ser bem feita. Apesar de considerar que o partido pode ganhar, estou convencido de que a condução que vem sendo dada para concretizar a candidatura de Boulos pode enfraquecer o próprio Boulos e o PSOL. Talvez, também enfraqueça o próprio MTST.

A negociação de sua filiação e candidatura não tem sido feita nas instâncias do PSOL de modo transparente e democrático. Na verdade, tais instâncias partidárias sequer estão debatendo. Apenas uma parte da direção tem tomado parte desta discussão. Um assunto tão importante, no entanto, deve ser discutido pelo conjunto das instâncias. O congresso nacional do PSOL, reunido em dezembro de 2017, definiu que a candidatura de Boulos poderia ser uma hipótese a ser escolhida. Mas de lá para cá não ocorreu nenhum debate de programa, por exemplo. E há pelo menos mais quatro nomes que se apresentaram como pré-candidatos: os camaradas Hamilton, líder negro, quadro dirigente da Bahia, que foi candidato a vice na chapa de 2010 encabeçada por Plinio de Arruda Sampaio; o próprio Plinio Sampaio Jr., um professor marxista qualificado da Unicamp e militante do PSOL desde 2005; além do economista Nildo Ouriques; e a líder indígena Sônia Guajajara.

Em nenhum momento, até hoje, os companheiros mencionados foram chamados para debater. O diretório nacional e nem sequer a executiva nacional do partido debateram sobre estes nomes ou sobre o programa que o PSOL apresentará em 2018. A realidade é que não houve rigorosamente nenhuma discussão sobre a linha da campanha. Se o partido tivesse uma maioria clara e bem legitimada pela militância, esta já seria uma situação grave. Mas nem isso o partido tem ainda. Como todos que são militantes ativos e conscientes sabem, um partido é uma construção difícil. O PSOL, por exemplo, está longe de ter uma direção nacional sólida. Ainda não tivemos a capacidade de organizar congressos fortes, com sua soberania e legitimidade consolidada. Todos que conhecem o PSOL sabem que o último congresso foi o terceiro em que uma pequena diferença definiu o resultado entre os blocos que disputam a direção partidária. O fiel da balança, que determinou o resultado nas três ocasiões, foi determinado por delegações questionadas. É com estes delegados que se forma a direção do partido e com o apoio deles que muitas vezes se forma a maioria.

Por que tal discussão é séria? Primeiro, porque quando há divergências a respeito do programa, o partido deveria primeiro definir o programa. Ou, pelo menos, deveria discutir com seus militantes e aliados acerca do programa. A partir da discussão, poderia ser feita uma definição coletiva. Em segundo lugar porque há outros camaradas e coletivos que defendem outros nomes como candidatos a presidente. Se há mais nomes, é importante ter um método democrático de escolha. Para isso o partido teria que realizar prévias, nas quais a base partidária poderia escolher e decidir. Mas por enquanto não é o que está previsto. A escolha está marcada para ser feita numa conferência eleitoral baseada na mesma relação de forças do congresso com legitimidade questionada. Se Boulos realmente tivesse o apoio de 80% das forças e da militância, como alguns disseram, isto não seria grave. Não é o caso. A maioria das correntes questiona seu nome em função das posições políticas que ele tem expressado atualmente, em particular sua reivindicação do caráter progressista dos governos do PT, enquanto o PSOL sempre definiu os governos petistas como governos que traíram os interesses dos trabalhadores. Também entre a militância não está claro o apoio que Boulos tem, igualmente em função de suas posições políticas.

É claro que Boulos tem direito de pensar e defender livremente suas ideias. Mas, sendo candidato pelo PSOL, sua campanha seria muito mais forte se suas ideias fossem discutidas com a base do PSOL. E que ele também pudesse escutar esta base, suas correntes, seus quadros e suas direções regionais, que há anos se dedicam à construção do partido. Infelizmente, a condução das negociações não levou nada disso em conta.

Assim, uma candidatura que poderia expressar o espírito de junho está sendo construída de cima para baixo, no espírito oposto ao de junho. Não acuso Boulos. Ele foi convidado: não é do PSOL e não conhece o partido. Mas os que o convidaram deveriam estar preocupados em fortalecê-lo. Isto não se faz violando o processo democrático, impondo um nome a partir de uma maioria questionada e se recusando a debater o programa que o partido levará para a campanha.

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Apresentamos uma revista especial sobre os 50 anos do Maio de 1968 com o orgulho de herdar uma tradição. Assim como a Comuna de 1871, a Revolução Russa de 1917 e as lutas contra as ditaduras na América Latina, consideramo-nos parte deste excepcional movimento mundial de luta política, protagonizado por jovens e trabalhadores de várias partes do mundo, como nas famosas barricadas de Paris. Consideramos suas lições e sua potência como atuais. Boa parte dos leitores da Revista Movimento participaram ativamente das Jornadas de Junho de 2013 em nosso país. Aos cinco anos deste acontecimento, queremos contribuir para o encontro e a síntese de tão distantes e ao mesmo tempo tão próximas gerações.

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