Revista Movimento Movimento Movimento: crítica, teoria e ação

Por uma Palestina laica, democrática e não racista

Texto publicado pelo dirigente argentino em 1982 oferecendo um eixo de luta e reivindicações aos socialistas na causa palestina.

Reprodução
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Estimados companheiros:

Recebemos sua carta de 31 de julho com perguntas “sumárias” e críticas implícitas e explícitas a nossas posições sobre o Oriente Médio. A chave de nossas diferenças, inclusive no que toca ao método para abordar o problema, radica em sua afirmação de que a política e palavra de ordem “Palestina laica, democrática e não racista” são burguesas e só podem ser apoiadas “se surge um Estado dessas características, em luta contra o sionismo e o imperialismo”.

Por outro lado, nossas diferenças ficam mais precisas quando, ao final da carta, afirmam que “naturalmente” coincidem conosco na “caracterização da guerra do Líbano, com as palavras de ordem centrais anti-imperialistas, e na tomada como eixo a destruição do Estado sionista”. Além disso, as diferenças também se realçam quando aprovam nossa palavra de ordem “axial” de apoio militar à OLP e às tropas sírias.

De modo que, numa primeira aproximação, as diferenças pareceriam ser meramente táticas. Segundo vocês, estaríamos completamente de acordo com “o eixo” e com “a base” (a “destruição do Estado sionista”) e vocês marcam seu desacordo no que seria necessário construir “depois”: para nós, seria a palavra de ordem “burguesa” de um Estado palestino, laico, democrático e não racista; para vocês, em contrapartida, a palavra de ordem que consideram “transicional” e “clássica do trotskismo”: assembleia constituinte palestina sobre a base da destruição do Estado sionista. Veremos que não é assim:

Quem o destrói?

Ao formular esta primeira pergunta logicamente derivada de nosso acordo principista, começam as profundas diferenças de método, que logo se refletem nas políticas e palavras de ordem. Se o propósito decisivo e fundamental é a destruição do Estado sionista, trata-se de estabelecer quais são as forças objetivas neste momento que estão embarcadas nessa tarefa progressiva, histórica, e quais as melhores palavras de ordem para apoiá-las e conseguir que cumpram sua missão com o maior entusiasmo e força.

Acaso estão fazendo isso os explorados e discriminados sabras e sefarditas de Israel? Ou são os trabalhadores asquenazes? Neste momento, essas forças são baluarte do Estado sionista, e não a vanguarda de sua destruição. A aristocracia operária asquenaz, através do partido trabalhista, está com tudo no sionismo. Os sabras e sefarditas deram a base eleitoral ao [primeiro-ministro Menachem] Begin e apoiam com entusiasmo seus planos de colonização das terras árabes.

Isso deixa atualmente como único setor social em luta permanente contra Israel o movimento árabe e maometano, em cuja vanguarda indiscutida estão os palestinos, expulsos de sua pátria pelos sionistas. Há 34 anos, quando se construiu o Estado racista, a forma de luta por sua destruição tem sido apoiar a justa guerra dos palestinos e muçulmanos. Não vemos outra maneira, porque não há outra força na realidade objetiva que enfrente o sionismo com armas na mão.

Como trotskistas, devemos tratar de achar então as palavras de ordem adequadas a essa realidade objetiva, ou seja, que ajudem a mobilização e o combate árabe. Esse é o nosso método, mas não o de vocês.

Palavra de ordem para cumprir a tarefa ou para depois de cumprida?

Quando nossas diferenças metodológicas se corporificam em palavras de ordem distintas, surge o novo problema do papel e da localização que elas devem desempenhar na luta. Quando e para quê deve ser utilizada uma palavra de ordem?

Se nos guiamos pela de vocês – constituinte palestina – se adia para depois de cumprida a tarefa “base”. Não serve para ajudar a melhor cumpri-la, mas para resolver um problema posterior a ela, algo que neste caso surgiria depois da destruição do Estado sionista.

Essa é a metodologia que Trotski definiu como dissolver o concreto no abstrato e futurológico. Com efeito: vocês estão dissolvendo o concreto, que é a luta maoemetana e palestina para destruir o Estado fascista, racista e baseado no Velho Testamento, na abstração futurológica de que, uma vez que o Estado seja destruído, chamarão seus habitantes atuais, que são sionistas e têm a maioria absoluta sobre os palestinos, a uma constituinte para discutir a reorganização do país, dando a cada um deles um voto, em pé de igualdade com os palestinos.

Nós, por outro lado, cremos que a palavra de ordem deve estar a serviço da tarefa, neste caso, da destruição do Estado israelense. Não para responder à problemática posterior a essa destruição – e muito menos quando a abstração futurológica é completamente reacionária –, mas para implementá-la, para melhor mobilizar os palestinos.

Sua palavra de ordem não serve para que os únicos agentes atuais da destruição do Estado sionista tenham cada vez mais audácia e coragem; ao contrário, ela atenta contra esse propósito. A assembleia constituinte palestina, consciente ou inconscientemente, hoje serve ao sionismo, contemporiza com ele e é a causa pela qual Lambert a levanta, não todo o trotskismo e menos o revolucionário.

A armadilha do apoio envergonhado

Um dos problemas básicos da guerra que, sob diversas formas, se desenvolve há 34 anos, é a disputa sobre quem tem direito a permanecer em Israel. Ou seja, se os sionistas vão seguir ou não, se o enclave imperialista apoiado nos judeus vai sobrar ou será destruído. Os palestinos clamam e lutam para que os sionistas – e os ocupantes que chegaram a fortalecer o enclave – vão embora.

Se o enclave permanece, ou seja, se Israel ganha a guerra, pode adotar distintas formas. Pode chegar a assimilar uma minoria palestina colaboracionista e permitir-lhe alguns direitos – inclusive, eleitorais, por que não? Mas se este enclave é destruído pela guerra palestina, significará que os sionistas sairão de Israel e, com isso, os que lhes dão sua base social e política. Esta palavra de ordem “Fora Sionistas de Israel” é decisiva, é aquela que dá conteúdo a nossa formulação de destruição do Estado sionista. Não há outra maneira de destruir o Estado sionista que não seja expulsando os sionistas. Que classe de destruidores do Estado sionista somos nós se nossa bandeira principal é a de permitir aos sionistas que ganhem ou participem de uma eleição de assembleia constituinte, pelo qual nos comprometemos a lutar junto a eles e contra os palestinos, (pois estes não consideram voto útil ao dos sionistas) ?

A assembleia constituinte palestina, depois da destruição do Estado sionista e de validar sua presença, dar-lhe-á um verniz “democrático” à sua usurpação fascista.

Caso se pretenda insinuar que essa constituinte seria feita com populares judeus não-sionistas, implicitamente já respondemos antes. Esses habitantes imaginários não existem. Se o proletariado judeu chegasse a romper com seus aparatos sionistas (algo pelo qual chamamos), deveríamos estudar a melhor maneira de se juntarem à luta palestina. Mas isso é música do futuro.

Um erro teórico

Em sua carta, há um erro teórico que os conduz à palavra de ordem da constituinte, apesar de, como vimos, não servir para mobilizar os palestinos e ser pró-sionista. Vocês acreditam que seja “transicional” e por isso superior à nossa, que seria burguesa.

Isso é falso. É uma palavra de ordem estritamente burguesa, tão burguesa como a nossa. Nenhuma das duas tem um só elemento classista. A constituinte é uma reclamação democrático-burguesa, que não se baseia em classes, mas em cidadãos. Para cada habitante, um voto. É a máxima expressão do direito político burguês.

Como toda reivindicação, independentemente de sua origem histórica, pode desempenhar um papel transicional, progressivo, regressivo, revolucionário ou contrarrevolucionário, que depende do contexto. Por exemplo, é criminalmente contrarrevolucionária em todo o enclave colonial, pelo qual o imperialismo costuma esgrimi-la a fim de se defender. Nós não reconhecemos nenhum direito democrático burguês aos povoadores dos enclaves enviados pela metrópole. Quando ocuparmos Guantánamo, não chamaremos uma constituinte com igualdade de direitos para os cubanos e para os colonizadores da base. Nossa palavra de ordem é, desde já, fora ianques de Guantánamo, a mesma que temos em Israel.

Em Israel, atualmente, a constituinte é igualmente contrarrevolucionária. Somente podíamos levantá-la ultra propagandisticamente – e não serviria para nada –, precedida de uma longuíssima explicação dizendo que só será realizada, sempre e quando os palestinos quiserem isso, quando se tiver retirado de Israel todos os judeus sionistas, fascistas, racistas e que se recusem a conviver com os árabes.

Se isso não for esclarecido devidamente, pode se dissolve numa fórmula abstrata como a da destruição do Estado israelense, sem explicitar que essa destruição implica obrigatoriamente o afastamento de seus habitantes atuais. Com efeito, a palavra de ordem significaria aceitar o fato consumado da ocupação judia de Israel e dizer que a partir de agora seremos todos democráticos, inclusive os fascistas.

Por que a abandona a direção da OLP?

Por outro lado, a palavra de ordem burguesa e não-classista de Palestina laica, democrática e não-racista, além de ser a mais progressiva que levantou o movimento palestino, pode abrir passagem para a revolução operária. Em outra situação, poderia se tornar contrarrevolucionária, mas hoje cumpre um papel preciso, equivalente a “fora ianques de Guantánamo” ou “fora sionistas de Israel”, que é o que efetivamente significa o “não-racista” da fórmula. E isso nos parece muito bom: que os racistas judeus sejam retirados da Palestina. E no dia de amanhã, também os racistas árabes. Mas amanhã, não hoje. Porque hoje o racismo árabe frente ao de Israel é progressivo: destrói o Estado sionista.

Tão boa é a palavra de ordem que, à medida que a direção da OLP e o movimento árabe se tornam cada vez mais reacionários, a abandonam, e com ela, a linha política de destruir o Estado israelense, para aceitar que se levante um Estado palestino num lugar do Oriente Médio.

Nós ficaremos sozinhos levantando a palavra de ordem democrático-burguesa mais sentida e avançada do povo palestino. Não é tomar um “desvio” burguês ou pequeno-burguês. Insistimos que o papel de cada palavra de ordem depende do contexto no qual ela se esgrime. Neste sentido, é bom recordar a tática aconselhada por Trotski depois que Hitler tomou o poder. O velho aconselhou que se estudasse a possibilidade de levantar a convocatória do parlamento que escolheu Hitler, com a qual poderia se ter tentado que a pequena burguesia rompesse com o fascismo e se unisse ao proletariado, através da legitimidade parlamentar. O mesmo na Áustria. Como ali a classe operária não acreditava na democracia operária, nem na ditadura do proletariado, Trotski aconselhou a linha de defender a democracia burguesa com métodos de mobilização de classe.

Assim como um parlamento ultrarreacionário, a democracia burguesa ou a assembleia constituinte podem, em determinadas circunstâncias, converter-se em palavras de ordem progressivas ou transicionais, nós cremos que no Oriente Médio a palavra de ordem que cumpre esse papel é a de Palestina laica, democrática e não racista.

Ela está servindo – na medida em que é abandonada pela direção da OLP – , para atacá-la com um bumerangue e o mesmo ocorre a todos os reformistas que pactuam com o imperialismo, entregando a luta contra o Estado sionista. Aparecemos como os únicos “democratas consequentes”, pois estamos dispostos a utilizar todos os meios de luta para destruir o Estado de Israel, impondo o grande objetivo das massas árabes.

O que é a OLP?

Nossas diferenças metodológicas e políticas estão intimamente ligadas àquelas que também temos em relação à caracterização global da situação e da própria OLP. Quando vocês escrevem que “se surge um Estado dessas características (laico, democrático e não racista), em guerra contra o sionismo e o imperialismo, apoiamos isso. Mas não fica claro porque o reivindicamos como nossa palavra de ordem”, demonstram que não creem que já existe uma organização laica, democrática e não racista, em guerra contra Israel e o imperialismo. No entanto, ela existe em germe desde 1948 e consolidou-se em 1969, quando se fundou a OLP.

Para nós, a chave da situação do Oriente Médio é a guerra às vezes declarada, às vezes não, mas permanente do movimento árabe e especificamente palestino, contra o Estado de Israel. Essa guerra se expressou sob distintas formas, global ou limitadamente, com enfrentamentos entre Estados – como os que protagonizaram Egito e outras nações árabes – ou com pequenas e grandes ações guerrilheiras.

Das distintas nações e nacionalidades em guerra permanente contra Israel, há uma – a dos palestinos, que quando organizaram a OLP formaram essa organização laica, democrática e não racista – que está na vanguarda da guerra contra o sionismo. Apoiamos esta nação desde já? Ou esperamos que ganhe a guerra, ocupe Israel, recupere seu território e, com isso, torne a se conformar como um Estado, para então apoiá-la? Se fizéssemos isso, apoiaríamos quando a guerra terminasse, quando nosso apoio não significasse nada e quando a palavra de ordem perdesse seu caráter transicional.

Vocês caracterizam a OLP como se fosse um partido político a mais. Para nós, ela representa a nacionalidade palestina como organização estatal sui generis laica, democrática e não racista, em guerra. É quase um Estado: é uma frente única que abarca todo o movimento palestino em luta por reconquistar sua pátria e voltar a ser um Estado. De fato, é um governo: reclamamos por seu reconhecimento do mesmo modo que o fazíamos pela FSLN na Nicarágua. É uma nacionalidade organizada a qual lhe foi suprimida a terra: quando a recuperar, voltará a ser nação. É uma nação sui generis.

Quando vocês desconhecem essa função da OLP, considerando-a uma simples fração política dos palestinos, outorgam-lhe um fundamento de “esquerda” a caracterização do imperialismo. Também ele a desconhece como organização nacional palestina, definindo-a como uma corrente terrorista. Em troca, está disposto a negociar com personagens palestinos que ninguém conhece e, eventualmente, com os prefeitos palestinos de Judeia e Samaria, porque eles colaboravam com Israel.

A negativa de vocês em reconhecer esse caráter de nação sui generis sem território significa avalizar o roubo sionista e imperialista e dar razão a eles quando sustentam que, ao serem expulsos, os palestinos deixaram de ser uma nacionalidade organizada.

Hoje, a nacionalidade organizada conta com cerca de 5 milhões de habitantes, divididos em dois setores: os que estão nos campos de refugiados, dirigidos pela OLP, que são a maioria, e a camada de profissionais, técnicos e, em geral, classe média acomodada, que é a mais avançada do mundo árabe, e que se desenvolve principalmente nos países do Golfo Pérsico. Eles não perderam sua nacionalidade palestina: são militantes ou cotizam para a OLP, a qual tem sedes e embaixadas em todos os países árabes e em muitas outras nações.

A OLP e seu governo

A caracterização sectária que vocês fazem da OLP, na qual confundem sua totalidade progressiva com o fato de que tem uma direção traidora, capituladora ou conciliatória, produz várias consequências. Em primeiro lugar, em relação a sua guerra histórica, vocês se parecem com os sectários que não queriam apoiar a Argentina na guerra contra a Inglaterra, porque aquela era governada por Galtieri.

Porém, tampouco são capazes de golpear a direção por suas verdadeiras capitulações que, a nosso juízo, se baseiam no abandono da palavra de ordem por uma Palestina laica, democrática e não racista.

A mesma raiz tem a crítica de que somos uns iludidos porque chamamos a OLP a lutar pelo socialismo.

Sem ser esta nossa palavra de ordem fundamental, já que como dissemos ela é a recuperação da terra para reconstituir a nação, expulsando os sionistas e terminando de constituir uma Palestina laica, democrática e não racista, nosso chamado a OLP para que lute pelo socialismo se baseia naquilo que consideramos uma nação sui generis. Dizemos “OLP socialista” como dizemos “Chile socialista”. Não pedimos isso à sua direção burguesa ou pequeno-burguesa, do mesmo modo que no Chile não pedimos isso a Pinochet. Vocês se esquecem de notar que cuidadosa e sistematicamente – como fazemos com todo governo burguês que dirige uma guerra justa – , criticamos a direção da OLP e não lhe brindamos nenhum apoio político.

A mesma confusão os leva a assinalar que não agitamos a necessidade de construir partidos trotskistas na Palestina e no Oriente Médio. Evidentemente, é necessário fazê-los desde já! Porém, o primeiro passo para construí-los é um programa concreto. Nós damos esse programa: triunfo militar da OLP, apoiado na mobilização das massas árabes contra o sionismo, para destruir seu Estado e para que voltem os palestinos, ou seja, a OLP. Esse é o ponto fundamental. Junto a isso, fazer uma OLP que rompa com a burguesia, ou seja, um estado palestino que rompa com as burguesias árabes e pratique a luta de classes. Isso é o que dizemos sistematicamente.

Podemos discutir qual dos polos do programa devemos ressaltar, se o da ruptura com a burguesia ou o da destruição do Estado de Israel. Pensamos que se queremos trabalhar sobre as massas árabes e palestinas, impõe-se o que viemos fazendo: a frente comum de luta contra os sionistas, dentro do qual reclamamos uma nova direção.

Com essa orientação trabalhamos e queremos trabalhar na OLP. Nos parece a mais adequada, em rigor, a única, para construir, com seus melhores combatentes e com seus setores mais explorados, o partido revolucionário.

Este artigo faz parte da edição n. 7-8 da Revista Movimento. Para ler os demais textos desta edição compre a revista aqui!

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Apresentação

Apresentamos uma revista especial sobre os 50 anos do Maio de 1968 com o orgulho de herdar uma tradição. Assim como a Comuna de 1871, a Revolução Russa de 1917 e as lutas contra as ditaduras na América Latina, consideramo-nos parte deste excepcional movimento mundial de luta política, protagonizado por jovens e trabalhadores de várias partes do mundo, como nas famosas barricadas de Paris. Consideramos suas lições e sua potência como atuais. Boa parte dos leitores da Revista Movimento participaram ativamente das Jornadas de Junho de 2013 em nosso país. Aos cinco anos deste acontecimento, queremos contribuir para o encontro e a síntese de tão distantes e ao mesmo tempo tão próximas gerações.

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