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Quem é o Presidente Macron da França?

O recém-eleito presidente da França, Emmanuel Macron, conseguiu se manter na obscuridade melhor do que a maioria.

O presidente francês Emmanuel Macron - Reprodução
O presidente francês Emmanuel Macron - Reprodução

Políticos em todos os lugares ocultam partes de seu itinerário político e pessoal. Às vezes, a exposição de tais “segredos” causa desilusão e/ou apoio reduzido de eleitores que apoiavam essa pessoa. O que varia é a medida na qual os políticos podem manter esses segredos obscuros.

O recém-eleito presidente da França, Emmanuel Macron, conseguiu manter na obscuridade melhor que a maioria. Portanto, é útil tratar de responder a pergunta de quem (realmente) é. Por um lado, há um enorme desacordo em torno desta pergunta. Essa diferença não é somente uma entre apoiadores e antagonistas mas também dentro de cada um dos dois grupos.

O que sabemos sobre seu passado? Ele estudo em duas instituições de elite da França – Sciences Po e École Nationale d’Administration (ENA) – onde se formou brilhantemente.

Ao se graduar, obteve um posto como banqueiro na Goldman Sach. Nesse momento, era filiado ao Partido Socialista, então governando a França. Em 2009, ele mudou sua filiação partidária para Independente.

Quando Manuel Valls, o líder da facção mais “centrista” do Partido Socialista, formou seu segundo e mais conservador gabinete, Macron foi recrutado para ser seu Ministro da Economia. A tarefa de Macron era implementar um giro neoclássico nas políticas governamentais da França. Macron (e Valls) obtiveram sucesso apenas parcial.

As eleições presidenciais de 2017 foram se aproximando. Valls buscava a candidatura pelo Partido Socialista. Macron não só não o apoio como ao invés disso criou sua própria estrutura partidária. Ele a denominou de “En March!”, que significa “ir adiante” mas também replica as iniciais de Macron (EM).

O apoio ao Partido Socialista diminuiu drasticamente, muito por causa da aguda impopularidade do presidente socialista na ocasião, François Hollande. O candidato do outro partido mainstream, o Les Républicans de centro-direita, era François Fillon que surpreendentemente venceu as primárias no seu partido, usando como principal argumento comparativo sua retidão moral.

O candidato da extrema-direita, Partido da Frente Nacional, Marine Le Pen, havia conseguido que o partido adotasse posições mais “respeitáveis” à custa de romper publicamente com o fundador do partido e seu pai, Jean-Marie Le Pen.

Num primeiro momento, parecia que os dois candidatos que sobreviveriam ao quadro fragmentado do primeiro turno seriam Fillon e Le Pen, que tornaria o segundo turno em uma contenda entre centro-direita e a extrema-direita. Tal possibilidade foi impalatável para muitos eleitores.

De repente tudo mudou. Fillon viu-se envoltou num escândalo, mas se negou a retirar-se com o objetivo de permitir que seu partido nomeasse outro candidato. Esse declínio subsequente de apoio ao Fillon permitiu que Macron se afirmasse como o único candidato que poderia derrotar Marine Le Pen no segundo turno.

Macron apresentou seu partido nem como esquerda nem como direita, rompendo com o padrão esquerda-direita que prevaleceu durante um século tanto nas eleições quanto nos governos. No primeiro turno, Macron obteve 24% dos votos e Le Pen conseguiu 21%. No segundo turno, Macron venceu com 65% dos votos.

Em sua campanha, Macron usou outro argumento central derivado das tradições do Partido Socialista. Sempre foi o principal defensor da laicidade contra as tradições dos partidos direitistas, cuja base era fortemente constituída por eleitores católicos. Macron atacou primeiro Fillon e depois Le Pen por buscar posições socialmente conservadores em questões como um aborto, direitos LGBTs, etc.

Tão pronto assumiu o mandato, Macron buscou atrair para seu governo os principais políticos dos dois partidos mainstream assim como ecologistas e centristas. Claramente esperava que isso destruísse as perspectivas futuras dos dois partidos mainstream e consolidasse o domínio de seu próprio partido na política francesa nas próximas décadas.

Agora que ele está entrando no segundo ano de seu governo, o que podemos dizer sobre quem é ele? Ele é indubitavelmente uma pessoa da direita em todas as questões econômicas. Ele foi o primeiro político capaz de fazer maiores revisões nas estruturas do estado de bem-estar da França. Quando Hollande tentou uma versão muito mais suave de tais reformas, metade estava na rua, e as propostas foram retiradas. Quando Macron fez isso, não ocorreu tal reação. Em particular, os sindicatos não puderam mobilizar seus membros.

Macron mostrou que é extremamente ambicioso. Enquanto Hollande foi incapaz de manter a posição da França como um aliado equânime do dueto que controla a política europeia (França-Alemanha), Macron entrou no vácuo criado pela posição agora muito mais fraca da Alemanha. Ele não parou por aí. Desafiou as pretensões hegemônicas dos Estados Unidos sem abraçar uma postura abertamente anti-americana.

No entanto, ele procurou tornar a França um ator importante na arena do Pacífico, na África e no Oriente Médio, e mesmo na América Latina. Parece que aquilo que está oferecendo é uma versão mais palatável das políticas mundiais dos EUA mais do que qualquer coisa mais progressiva.

Quanto às questões comportamentais, Macron é bastante prudente. Sim, ele apoia causas demandadas pela esquerda, mas ele é muito cuidadoso para ir rápido demais. Ele não deseja despertar os eleitores católicos para se envolverem em protesto de ruas.

Para mim, a conclusão é que a França tem agora o político de direita mais eficaz e astuto no poder na história moderna. Pode-se pensar em outros que procuravam oferecer um pacote de políticas semelhante, mas não conseguiram juntar a coalizão que o permitiu. Macron sem dúvida foi ajudado pelo estado caótico do sistema-mundo. Mas seu próprio papel deve ser reconhecido. Ele tem implementado efetivamente os objetivos conservadores.

1 de fevereiro de 2018

Movimento - Crítica, teoria e ação

Apresentação

Publicamos a décima edição de nossa Revista Movimento. Dessa vez, celebramos os 80 anos de fundação da IV Internacional, comemorados em setembro de 2018, com uma seção especial. Há, também, artigos na seção internacional e de teoria. Fechamos esta edição quando a eleição brasileira se encerrava. Como não poderia deixar de ser, nesta décima edição de Movimento, apresentamos nossas primeiras análises sobre os resultados eleitorais. Sabemos que a vitória de Jair Bolsonaro trará graves ataques à classe trabalhadora e ao povo brasileiro. Estaremos com nosso povo, lutando em defesa das liberdades democráticas e de nossos direitos. Mais uma vez, esperamos que a revista seja uma ferramenta útil de construção e formação para nossos camaradas. Boa leitura!

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