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Aos Revolucionários do Brasil

29 anos após a morte de Luís Carlos Prestes, publicamos manifesto escrito em 1930 no momento em que se separava da ala tenentistas getulista se aproximando do comunismo.

Foto da Coluna Prestes - Reprodução.
Foto da Coluna Prestes - Reprodução.

Camaradas!

Com a quartelada do Rio de Janeiro, está terminada a primeira parte da contra-revolução que, dirigida pelos politiqueiros de Minas e do Rio Grande, com a conivência consciente ou inconsciente, mas sempre criminosa, de oficiais “revolucionários”, foi iniciada em diferentes pontos do País, nos primeiros dias de outubro.

É chegado, portanto, o momento de reafirmar a minha posição de inteira e constante solidariedade com as grandes massas trabalhadoras do Brasil, no instante em que assistem à mudança de uma ditadura por outra, naturalmente pior e mais sangüinária.

Não cabe neste documento um estudo das causas econômicas do golpe militar da Aliança Liberal e do nauseante oportunismo dos generais que dirigiram a quartelada do Rio de Janeiro. É evidente que a profunda e difícil crise que atravessa a economia nacional, ferida no seu principal produto de exportação — o café —, e agravada pela crise mundial do capitalismo, principalmente nos Estados Unidos, assinalava o momento propício a um maior avanço do imperialismo, no sentido da exploração monopolista do Brasil.

Da influência imperialista na formação e preparo da Aliança Liberal, é exemplo típico, entre muitos, a maneira por que foi gerada a “frente única” rio-grandense, força política necessária numa luta contra a hegemonia dos fazendeiros de café. Com capital norte-americano, foi fundado o Banco do Estado do Rio Grande, e, por seu intermédio, com generosos empréstimos aos estancieiros gaúchos, facilmente reconciliadas as duas facções políticas que naquele Estado, há quase quarenta anos, se digladiavam. Feita a união Borges [de Medeiros]-Assis [Brasil], foi fácil conseguir, para chamada “cruzada liberal de regeneração nacional”, o apoio indispensável de [Artur] Bernardes, Antônio Carlos [de Andrada] e Epitácio [Pessoa]. Como a farsa precisava ter caráter militar e, se, por uma parte, devia amedrontar os senhores do poder, por outra, precisava enganar as grandes massas esfomeadas e descontentes, começou-se a compra dos politiqueiros demagogistas e dos militares com prestígio “revolucionário” no País. Com um cinismo capaz de revoltar as mais pesadas consciências, foram comprados e arrolados na lista dos futuros “heróis” os mesmos homens que já haviam, desde 1922, combatido os politiqueiros venais e sanguinários, como Borges, Epitácio e Bernardes. E assim, prometendo dirigir um movimento de preparação, alistaram-se nas hostes aliancistas [Juarez] Távora, Miguel Costa, Isidoro [Dias Lopes], João Alberto e outros militares, bem como todos os politiqueiros demagogistas, tendo à frente Maurício de Lacerda.

No Brasil, como em toda a América Latina, os mistificadores servem-se da palavra “revolução” para enganar, grosseiramente, as grandes massas trabalhadoras. É a tática mais natural dos agentes dos imperialistas. Com idêntico objetivo, muitos elementos da Coluna Prestes foram utilizados para enfraquecer o movimento proletário, com a promessa de um movimento de preparação, e para ameaçar e fazer pressão sobre os conservadores, obrigando-os a ceder às exigências do imperialismo.

É já evidente que o papel de todos os “revolucionários” que pegaram em armas com a Aliança Liberal foi de simples agentes militares do imperialismo. Vencedores agora, sustentarão o mesmo regime de opressão. Com promessas de honestidade administrativa e voto secreto, procurarão enganar os trabalhadores de todo o Brasil, a fim de que melhor possam ser explorados pelos fazendeiros, pelos senhores de engenho, pelos grandes industriais.

Nesse sentido, as opiniões de Távora são bastante conhecidas: é declaradamente contrário à revolução agrária e defenderá os interesses dos imperialistas. Nas suas primeiras declarações, depois da tomada de Recife, afirmou que massacrará os operários conscientes e todos os que não se submetam ao novo credo, para cuja prática começou colocando um usineiro e latifundista ultra-reacionário à frente do governo de Pernambuco.

No Rio Grande do Sul, os mentores da mazorca desmascararam-se logo de início, ameaçando passar pelas armas, sumariamente, todos aqueles que, por atos ou por palavras, procurassem censurá-la, principalmente quando se tratasse de “partidários das idéias comunistas”, conforme um comunicado do chefe de polícia de Sant’Anna do Livramento. E, segundo relatam vários fugitivos, muitos já foram os trabalhadores que, não querendo ingressar nas fileiras aliancistas, foram assassinados, sob pretexto de serem comunistas.

Se não bastassem esses fatos, as declarações de todos os chefes liberais, as manifestações aos cônsules da América do Norte e da Inglaterra, em Porto Alegre, e a pastoral do arcebispo da mesma cidade serviriam para acentuar o caráter contra-revolucionário da mazorca. Os objetivos são claros: dado o golpe militar, é derrocada uma tirania. Essa derrocada, feita com o auxílio de elementos ainda não contaminados pelo poder, serve para embriagar as massas com a ilusão de vitória, ampliando, portanto, a base interna sobre que se apóia o domínio imperialista. Prepara-se, assim, a vinda de outra tirania, mais clara, mais brutal, mais violenta e contando, já agora, com o que não contava a anterior – o prestígio popular e “revolucionário”. Graças a este prestígio, tornam-se mais fáceis todos os negócios dos imperialistas, podendo os novos senhores vender, mais barato e sem maiores exigências, as terras, as minas e os serviços públicos que interessarem a Londres e Nova York.

É o que precisam compreender todos os que realmente se dispõem a lutar contra os imperialistas que nos vão escravizando cada vez mais, todos os operários que vão sendo cada vez mais explorados, recebendo salários de fome, quando não são abandonados na legião dos sem-trabalho; todos os camponeses que derramaram o seu sangue, mas continuam sem um pedaço de terra onde possam viver; todos os soldados e marinheiros que são obrigados a jogar a vida em proveito de uma meia dúzia de senhores que mandam fuzilar os trabalhadores conscientes.

É necessário reagir contra tanta miséria e tanto cinismo! Arranquemos, de uma vez por todas, a máscara de “salvadores” com a qual se embuçam os homens que aproveitaram o prestígio adquirido combatendo Epitácio e Bernardes para, com eles e todos que os cercam, inclusive os generais de “mãos limpas”, organizar uma nova tirania. Diziam aceitar alianças indecorosas para fazer a “primeira etapa” da “revolução”, e, agora, degolam e fuzilam os trabalhadores que procuram continuar a luta. Távora, Miguel Costa, Isidoro e todos os outros estão servindo de instrumentos nas mãos dos politiqueiros. Sacrificaram, com sua traição, a memória dos revolucionários que, com Joaquim Távora, morreram lutando contra Bernardes e Flores da Cunha. Tornaram-se indignos de todos os soldados, operários e camponeses que, com o seu sangue, assinalaram através do País, numa marcha de dois anos, a sua intransigência com os exploradores constantes das grandes massas trabalhadoras. Arrastaram, com o prestígio que conseguiram, lutando contra os politiqueiros com que agora se uniram, os soldados e as massas inconscientes e obscurecidas a uma luta armada em proveito da burguesia assassina e ladravaz.

Que farão, agora, os vencedores? Em que consistirá a obra de reconstrução de que tão vagamente falam?

Procurarão, naturalmente, resolver, à custa dos trabalhadores a atual crise econômica. Os salários serão reduzidos e os pequenos funcionários, que não tenham parentes ou padrinhos no novo governo, serão dispensados. Os colonos e camaradas das fazendas de café passarão “patrioticamente” a trabalhar de graça para os fazendeiros, senhores das terras, que terão a magnanimidade de lhes permitir que plantem um pouco de mandioca com que matem a fome… Nas estâncias do Rio Grande e Mato Grosso, como nos canaviais do Nordeste, a situação dos peões e trabalhadores continuará a mesma ou agravada com novos impostos. Aos ingleses serão feitas mais algumas concessões de terras e serviços públicos e, no Pará, Ford terá os seus domínios ampliados, para que possa “civilizar” a Amazônia. As tarifas das estradas de ferro inglesas, tanto em São Paulo como no Nordeste, não serão reduzidas, pois o novo governo não pretende prejudicar os interesses dos capitalistas. O mesmo acontecerá com todas as usinas elétricas que estão, em quase todo o Brasil, nas mãos dos norte-americanos. Naturalmente, a Itabira Iron iniciará os seus trabalhos, porque a ditadura satisfará todas as suas exigências, em troca de mais alguns dólares. O regime feudal, tão conhecido dos “revolucionários” que estiveram no Paraná e em Mato Grosso, continuará o mesmo nas grandes empresas ervateiras daqueles estados. As grandes massas abandonadas e analfabetas do interior do País continuarão dirigidas pelos mesmos chefetes, até que, convencidas da traição de que foram vítimas, resolvam, por si próprias, tomar as terras que lhes pertencem, expulsar os miseráveis que as exploram e organizar o seu próprio governo.

Camaradas! A nova tirania procurará resolver a atual crise econômica à vossa custa. A racionalização da economia do café será a fome generalizada. Para satisfazer os senhores de Londres e Nova York, a vanguarda revolucionária será brutalmente perseguida e, a exemplo do que já fazem as ditaduras do Peru, da Bolívia e da Argentina, serão presos, deportados ou mesmo fuzilados todos os que não se submetam ao novo credo.

Haverá anistia e liberdade de imprensa e de propaganda, em palavras, é claro, pois os verdadeiros revolucionários continuarão perseguidos pelos modernos fontouras e laudelinos, e sua imprensa não poderá ser lida nem divulgada.

A experiência destes últimos meses, no Brasil e em toda a América do Sul, deve servir para convencer os trabalhadores das cidades e dos campos, os soldados e marinheiros, de que só eles poderão fazer a Revolução; que os falsos revolucionários, mesmos os que eram considerados honestos e sinceros, facilmente se vendem por alguns galões e bordados que lhes ofereçam Bernardes e seus companheiros.

Camponeses! A terra em que trabalhas é tua, dela te deves apossar. Se não queres ver os teus filhos e companheiros na mais negra miséria, esmagados pelos novos tiranos, procura uma arma e, junto com os teus vizinhos, exige e luta pela posse da terra em que trabalhas. Confraterniza com os soldados e os operários e organiza o teu próprio governo, o único capaz de lutar contra os imperialistas.

Operário! Entra no teu sindicato e luta pelo seu desenvolvimento como organização revolucionária. Prestigia, material e moralmente o teu partido de classe, o único capaz de lutar, firme e conseqüentemente, pelas tuas reivindicações – o Partido Comunista.

Soldado! Marinheiro! Não te deixes estupidamente matar na defesa dos interesses dos teus inimigos. Ajuda os teus irmãos — operários e camponeses — a tomar a terra, as fábricas, os bancos, fornecendo-lhes as armas que estiverem ao teu alcance.

Os intelectuais pobres, estudantes, pequenos funcionários e empregados no comércio, todos os que forem realmente revolucionários, que não se queiram vender aos novos tiranos, e sobre os quais também já se fazem sentir a exploração e as injustiças deste regime, precisam, igualmente, trabalhar e lutar pela Revolução, compreendendo, desde logo, que só o proletariado será capaz de dirigi-la e que, portanto, com ele se devem identificar, se realmente querem lutar contra o domínio imperialista e abater o atual regime.

Lutemos todos pela abolição, sem indenização da grande propriedade, entregando a terra aos que a cultivam!

Lutemos pela confiscação e nacionalização das empresas estrangeiras, concessões, bancos e serviços públicos, e pela anulação das dívidas externas!

Lutemos pelas reivindicações mais imediatas dos trabalhadores das cidades e dos campos, socializando os meios de produção!

Organizemos o único governo capaz de satisfazer as necessidades dos trabalhadores, de dar a terra aos que a trabalham, de lutar intransigentemente contra os imperialistas – o governo dos conselhos de operários, camponeses, soldados e marinheiros!

Buenos Aires, 6 de novembro de 1930.

Fonte: https://www.marxists.org/portugues/prestes/1930/11/06.htm

Movimento - Crítica, teoria e ação

Apresentação

Apresentamos uma revista especial sobre os 50 anos do Maio de 1968 com o orgulho de herdar uma tradição. Assim como a Comuna de 1871, a Revolução Russa de 1917 e as lutas contra as ditaduras na América Latina, consideramo-nos parte deste excepcional movimento mundial de luta política, protagonizado por jovens e trabalhadores de várias partes do mundo, como nas famosas barricadas de Paris. Consideramos suas lições e sua potência como atuais. Boa parte dos leitores da Revista Movimento participaram ativamente das Jornadas de Junho de 2013 em nosso país. Aos cinco anos deste acontecimento, queremos contribuir para o encontro e a síntese de tão distantes e ao mesmo tempo tão próximas gerações.

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