Capitalismo e Anticapitalismo: a luta segue
Forças de repressão atuam diante de manifestações contra encontro do G8 em Gênova, em 2001 - Jeanne Menjoulet (flickr)

Capitalismo e Anticapitalismo: a luta segue

Quais as justificativas da necessidade em sustentar uma perspectiva anticapitalista em tempos de aceleração e aprofundamento capitalista?

Massimo Modonesi 16 mar 2018, 14:00

Vivemos tempos de aceleração e aprofundamento capitalista e, neles, também se desenvolvem todas as contradições que o são próprias. Porém, delas não se depreende mecanicamente a emergência de sujeitos e movimentos anticapitalistas de massa. Ainda que massas importantes de trabalhadores e de outras classes subalternas resistam objetivamente à exploração, ao despejamento e à depredação, os que se opõe conscientemente ao capitalismo formam pequenos grupos. Minorias ativas, às vezes simplesmente testemunhais, que se insertam, no melhor dos casos, no interior das lutas de resistência que seguem acontecendo em todo o mundo e tratam de politizá-las e orientá-las em direção a uma maior radicalidade. Às vezes seu discursos e suas práticas soam fora de lugar e anacrônicas, em outros casos contribuem para mobilizar, organizar, politizar e desmascarar as distorções por meio das quais se empacota e se vende o capitalismo como o melhor mundo possível.

Entre lutas anticapitalistas objetivas e tentativas de subjetivá-las politicamente, a conjuntura atual não parece dar razão a este movimento difuso, já que seguem imperando não somente a imposição violenta e o controle social por meio dos quais se reproduz a lógica e o círculo da ganância, mas também pelo fato de que o saldo da batalha dos anos 60-70 permitiu uma vitória das direitas tão contundente que se arraigou profundamente no terreno cultural. A máxima thatcheriana do TINA (there is no alternative [não existe alternativa]) acompanhava a queda do muro e o colapso do bloco soviético, a dissolução de um projeto libertário e ineficiente, mas que havia surgido da vontade de superar o capitalismo. Entre os escombros, mas também graças ao terrorismo contrainsurgente dos 60-70, se gestou a vitória e a contraofensiva do liberalismo. Uma contraofensiva que implicou uma restauração do capitalismo desregulado, que liberou o capital e espremeu as cadeias da exploração do trabalho. A magnitude da derrota dos esforços anticapitalistas de construir um mundo diferente – um mundo socialista, livre de exploração e guiado pelo princípio da satisfação das necessidades de todos – se mede não apenas na imposição, mas também na capacidade hegemônica de consensuar com o fim da história, o fim da disputa histórica entre capitalismo e socialismo, o triunfo definitivo do principio de livre mercado. Apesar dos sobressaltos de várias ondas de movimentos locais e globais, seguimos nesta etapa da historia, ainda não nos recuperamos da derrota do fim do século XX. Parafraseando o dirigente chinês Zhou Enlai, quando perguntado o que pensava da revolução francesa, poderíamos dizer o mesmo: é muito cedo para avaliar seu real alcance histórico.

Enquanto isso, já que a luta segue, ainda que seja em forma de resistência, valem duas considerações pontuais que justificam a necessidade de sustentar uma perspectiva anticapitalista no curto e no médio prazo.

A primeira é que a luta anticapitalista tem sentido no curto prazo já que se insere nas resistências em curso, introduzindo alguns elementos indispensáveis de politização e radicalização, além de contar com um acervo de experiências e tradições militantes que se mantiveram e, ao mesmo tempo, se renovaram. O anticapitalismo é parte integrante das lutas de nossos dias e uma parte ativa, dinâmica, consistente e persistente. Isso não implica desconhecer os limites da ação dos anticapitalistas e os erros que são cometidos ao longo deste processo. Ainda com esta advertência, desde a derrota, envolvidos nas resistências, não podemos prescindir do anticapitalismo para projetar o pessimismo, para frear a barbárie que avança.

A segunda é que o anticapitalismo mantem viva a chama da possibilidade de mudar o mundo – chama utópica e fogo real que já esta operando a mudança em pequena escala. Enquanto se acumulam forças, se constroem contrapoderes e práticas de autodeterminação, se modifica a correlação de forças e, real e hipoteticamente, se abre o horizonte do possível sendo que, ainda que em condições determinadas, são os homens e as mulheres que fazem a história e, frente à barbárie, podem defender a bandeira de uma alternativa emancipatória, seguindo sendo chamada de socialismo ou não.

Tradução de Pedro Micussi para a Revista Movimento.


Parlamentares do Movimento Esquerda Socialista (PSOL)

Capa da última edição da Revista Movimento
Na 16ª edição, estão disponíveis dois dossiês. No primeiro, sobre o ecossocialismo, podem-se se encontrar as recentes teses de Michael Löwy, além de uma entrevista com o sociólogo e dirigente da IV Internacional. Também publicamos uma entrevista com Zé Rainha, dirigente da FNL, sobre sua trajetória de luta e os desafios dos socialistas no Brasil; uma entrevista com Antônia Cariongo, dirigente quilombola e do PSOL-MA; e artigos de Luiz Fernando Santos, sobre a lógica marxista e a Amazônia, e de Marcela Durante, do Setorial Ecossocialista do PSOL. O segundo dossiê traz algumas análises iniciais sobre a pandemia de coronavírus. Há artigos de Mike Davis e Daniel Tanuro; documentos do MES e do Bureau da IV Internacional; além de uma densa análise de nossas companheiras Evelin Minowa, Joyce Martins, Luana Alves, Natália Peccin Gonçalves, Natalia Pennachioni e Vanessa Couto e de um artigo do camarada Bruno Magalhães. A seção de depoimentos traz um instigante artigo de Pedro Fuentes sobre a história de seu irmão Luis Pujals, o primeiro desaparecido político da história da Argentina. Já a seção internacional traz uma análise do sociólogo William I. Robinson sobre a situação latino-americana.