Há cinquenta anos, o Maio de 68 do Senegal
RFI

Há cinquenta anos, o Maio de 68 do Senegal

De como o levante no país africano, ainda que com algumas semelhanças, guardou diferenças importantes com as revoltas ocorridas na França.

Paul Martial 9 mar 2018, 14:59

A União dos Estudantes Senegaleses (estudantes indígenas) e a União dos Estudantes de Dakar (estudantes de diferentes países africanos) tiveram um papel decisivo na revolta de maio de 68 no Senegal que mirou particularmente as condições de estudo e o imperialismo francês.

“Igual a um Toubab”1: foi nesses termos que Senghor, presidente do Senegal nos anos 1960, criticou os estudantes senegaleses acusando-os de “imitar os estudantes franceses”. Contudo, compreender o maio senegalês implica também apreender as particularidades do país, para além das fortes semelhanças que existiram entre os dois eventos.

O Maio de um país dominado

A universidade do Senegal data do fim da colonização e possuía uma vocação regional. O funcionamento e o ensino eram modelados a partir das universidades francesas, o que será fortemente rejeitado pelas duas organizações estudantis, a União dos Estudantes Senegaleses (UDES), que reagrupa os estudantes indígenas, e a União dos Estudantes de Dakar (UED), que aglomera os estudantes dos diferentes países africanos. Essas duas organizações terão um papel decisivo na revolta de maio de 68.

Outra particularidade, o Senegal é um país majoritariamente camponês, os assalariados se encontram nas grandes cidades e, sobretudo, empregados na economia informal. A União Nacional dos Trabalhadores Senegaleses (UNTS) é a central sindical que tenta defender sua independência frente a um poder particularmente autoritário.

Por último, mas não menos importante: o Senegal é um país dominado e a questão do imperialismo ressoa de forma bem diferente do que na França. Se as mobilizações em solidariedade ao Vietnã se desenrolaram até Dakar, a questão central permanece a presença francesa em todos os setores chave do país. Um exemplo é o escritório da Câmara de comércio do Senegal que, embora independente, contava com oito franceses e apenas um senegalês.

Bolsa ou revolução

Contra o projeto do governo de diminuir as bolsas de estudos, um primeiro chamado à greve é lançado no meio de março. O movimento se amplifica rapidamente e os estudantes votam pela greve geral com ocupação. A mobilização se estende nas escolas e colégios. O poder envia as forças da ordem para desalojar os estudantes, que são presos, enquanto que os estudantes africanos são reenviados aos seus países de origem. A UNTS decreta então uma greve geral e convoca para o dia 31 de maio uma manifestação na bolsa do trabalho, que será duramente reprimida, e fará com que os dirigentes sindicais sejam, por sua vez, aprisionados. O toque de recolher é decretado e Senghor faz um apelo ao exército francês. O poder gaullista se apressa em aceitar e os soldados franceses vão ao Senegal para “tranquilizar” os pontos vitais da capital.

Encurralado, o poder senegalês inicia as negociações, os prisioneiros serão liberados. Do lado dos trabalhadores, o salário mínimo recebe um aumento de 15%, e se inicia uma política de “senegalização” da economia. Do lado universitário, os estudantes africanos que tinham sido expulsos são autorizados a retornar ao país, as bolsas de estudo são revalorizadas e investimentos são lançados para melhorar o campus.

Neste balanço, convém adicionar que uma nova geração de militantes nasce na África com uma forte experiência de luta e de auto-organização, o que se verificará alguns anos mais tarde em Madagascar.

Artigo originalmente publicado no site do NPA. Tradução de Pedro Micussi para a Revista Movimento. 


1 “Toubab ” significa branco europeu.


Parlamentares do Movimento Esquerda Socialista (PSOL)

Capa da última edição da Revista Movimento
O MES completa 20 anos. A edição n. 14-15 da Revista Movimento é dedicada por completo ao importante evento que marca duas décadas de nossa história. Apesar de jovens, podemos dizer que poucas organizações na história política da esquerda brasileira alcançaram essa marca com tamanho vigor. Longe de autoproclamação, desejamos transformar nossos êxitos em força social e militante para novos e amplos impulsos. Ainda não cumprimos uma maratona, mas nossa história sem dúvida deixou para trás a visão de curto prazo, que alguns adversários nos chegaram a prognosticar. Diante das muitas provas, vitórias e algumas derrotas, podemos celebrar e somar forças para enfrentar as tarefas imediatas: derrotar a tentação autoritária de Bolsonaro e avançar na construção de uma alternativa socialista.