Revista Movimento Movimento Movimento: crítica, teoria e ação

Há cinquenta anos, o Maio de 68 do Senegal

De como o levante no país africano, ainda que com algumas semelhanças, guardou diferenças importantes com as revoltas ocorridas na França.

RFI
RFI

A União dos Estudantes Senegaleses (estudantes indígenas) e a União dos Estudantes de Dakar (estudantes de diferentes países africanos) tiveram um papel decisivo na revolta de maio de 68 no Senegal que mirou particularmente as condições de estudo e o imperialismo francês.

“Igual a um Toubab”1: foi nesses termos que Senghor, presidente do Senegal nos anos 1960, criticou os estudantes senegaleses acusando-os de “imitar os estudantes franceses”. Contudo, compreender o maio senegalês implica também apreender as particularidades do país, para além das fortes semelhanças que existiram entre os dois eventos.

O Maio de um país dominado

A universidade do Senegal data do fim da colonização e possuía uma vocação regional. O funcionamento e o ensino eram modelados a partir das universidades francesas, o que será fortemente rejeitado pelas duas organizações estudantis, a União dos Estudantes Senegaleses (UDES), que reagrupa os estudantes indígenas, e a União dos Estudantes de Dakar (UED), que aglomera os estudantes dos diferentes países africanos. Essas duas organizações terão um papel decisivo na revolta de maio de 68.

Outra particularidade, o Senegal é um país majoritariamente camponês, os assalariados se encontram nas grandes cidades e, sobretudo, empregados na economia informal. A União Nacional dos Trabalhadores Senegaleses (UNTS) é a central sindical que tenta defender sua independência frente a um poder particularmente autoritário.

Por último, mas não menos importante: o Senegal é um país dominado e a questão do imperialismo ressoa de forma bem diferente do que na França. Se as mobilizações em solidariedade ao Vietnã se desenrolaram até Dakar, a questão central permanece a presença francesa em todos os setores chave do país. Um exemplo é o escritório da Câmara de comércio do Senegal que, embora independente, contava com oito franceses e apenas um senegalês.

Bolsa ou revolução

Contra o projeto do governo de diminuir as bolsas de estudos, um primeiro chamado à greve é lançado no meio de março. O movimento se amplifica rapidamente e os estudantes votam pela greve geral com ocupação. A mobilização se estende nas escolas e colégios. O poder envia as forças da ordem para desalojar os estudantes, que são presos, enquanto que os estudantes africanos são reenviados aos seus países de origem. A UNTS decreta então uma greve geral e convoca para o dia 31 de maio uma manifestação na bolsa do trabalho, que será duramente reprimida, e fará com que os dirigentes sindicais sejam, por sua vez, aprisionados. O toque de recolher é decretado e Senghor faz um apelo ao exército francês. O poder gaullista se apressa em aceitar e os soldados franceses vão ao Senegal para “tranquilizar” os pontos vitais da capital.

Encurralado, o poder senegalês inicia as negociações, os prisioneiros serão liberados. Do lado dos trabalhadores, o salário mínimo recebe um aumento de 15%, e se inicia uma política de “senegalização” da economia. Do lado universitário, os estudantes africanos que tinham sido expulsos são autorizados a retornar ao país, as bolsas de estudo são revalorizadas e investimentos são lançados para melhorar o campus.

Neste balanço, convém adicionar que uma nova geração de militantes nasce na África com uma forte experiência de luta e de auto-organização, o que se verificará alguns anos mais tarde em Madagascar.

Artigo originalmente publicado no site do NPA. Tradução de Pedro Micussi para a Revista Movimento. 


1 “Toubab ” significa branco europeu.

Movimento - Crítica, teoria e ação

Apresentação

Publicamos a décima edição de nossa Revista Movimento. Dessa vez, celebramos os 80 anos de fundação da IV Internacional, comemorados em setembro de 2018, com uma seção especial. Há, também, artigos na seção internacional e de teoria. Fechamos esta edição quando a eleição brasileira se encerrava. Como não poderia deixar de ser, nesta décima edição de Movimento, apresentamos nossas primeiras análises sobre os resultados eleitorais. Sabemos que a vitória de Jair Bolsonaro trará graves ataques à classe trabalhadora e ao povo brasileiro. Estaremos com nosso povo, lutando em defesa das liberdades democráticas e de nossos direitos. Mais uma vez, esperamos que a revista seja uma ferramenta útil de construção e formação para nossos camaradas. Boa leitura!

Solzinho

Uma biografia inédita de Stalin escrita por Leon Trotsky Uma biografia inédita de Stalin escrita por Leon Trotsky

Leon Trotsky Joseph Stalin

MES: Movimento Esquerda Socialista MES: Movimento Esquerda Socialista