Revista Movimento Movimento Movimento: crítica, teoria e ação

Eleições na Rússia: uma democracia dirigida?

A “democracia dirigida” tolera as liberdades políticas na medida em que não representem uma ameaça grave para a continuidade no poder da elite política.

Vladimir Putin acompanha atividades em comitê de campanha de seu partido durante eleições parlamentares- ALEXEI DRUZHININ / AFP/GETTY IMAGES.
Vladimir Putin acompanha atividades em comitê de campanha de seu partido durante eleições parlamentares- ALEXEI DRUZHININ / AFP/GETTY IMAGES.

Os discursos de Putin durante sua breve campanha eleitoral não indicam nenhuma mudança importante nas políticas nacional e exterior. No âmbito internacional, pode-se esperar a contínua degradação das relações com “Ocidente”, do qual é em grande parte responsável. Também pode-se supor que haverá um importante esforço para preparar a sucessão de Putin depois de 24 anos no poder (desde 1998 como Diretor de Segurança até o final de seu mandato atual em 2022). No entanto, não é seguro que abandone o poder num sistema no qual as relações pessoais de corrupção desempenham um papel importante.

Alguns porta-vozes do regime cuja natureza o situa entre uma ditadura clássica (que não tolera oposição organizada e pública) e uma democracia capitalista que tolera as liberdades políticas (mas na qual os interesses da classe dominante estão assegurados por meios distintos a uma repressão brutal). A “democracia dirigida” tolera as liberdades políticas, mas somente na medida em que não representem uma ameaça grave para a continuidade no poder da elite política.

Democracia dirigida

Dito isso, o apoio popular a Putin na Rússia não pode explicar-se completamente pelas medidas repressivas do estado ou por seu abuso dos chamados “recursos administrativos”. Estes últimos incluem, entre outros, o controle das principais cadeias de televisão, severas restrições às manifestações públicas, diversas pressões ilícitas exercidas sobre os empregados do setor público, e, quando é necessário, a manipulação dos resultados eleitorais.

A popularidade de Putin está claramente cultivada pelo regime. Mas também encontra uma base real na população, inclusive se essa base é difícil de separar dos esforços do regime por alimentá-la.

O primeiro elemento dessa popularidade é o contraste profundo, especialmente econômico, entre os períodos de Putin e Yeltsin. Mesmo se a geração mais jovem não tem memória pessoal direta da era Yeltsin, ainda ocupa um lugar preponderante na consciência popular. A década de 1990 foi um período de muito profunda e prolongada depressão econômica, hiperinflação, empobrecimento dramático das pessoas, desemprego massivo, pagamento atrasado de salários e pensões (às vezes durante muitos meses – sem indexação), saque massivo da riqueza nacional, e controle da máfia de setores inteiros da economia.

Inclusive se não foi principalmente graças aos esforços de Putin, mas ao rápido aumento do preço do petróleo a partir de finais da década de 1990, estes processos terminaram e se inverteram em grande parte sob Putin. Embora os níveis de vida populares se estancaram, inclusive se reduziram ligeiramente nos últimos anos, experimentaram um rápido aumento na década de 2000, e o forte contraste com a década de 1990 está ainda muito presente na memória popular. Para citar um índice demográfico do bem-estar popular, a esperança de vida em 2000 era de 65 anos (frente a 79 no Canadá). Hoje é de 72.

A máfia, os oligarcas e o Estado

Quanto à supressão da democracia, que em geral se atribui erroneamente no Ocidente a Putin, de fato já se havia produzido sob Yeltsin. Putin, ao menos, eliminou o controle da máfia sobre a economia e restaurou o monopólio estatal da violência. E domesticou os oligarcas, sem tocar suas fortunas ilícitas, exceto nos poucos casos nos quais persistiam em interferir nos assuntos políticos. Putin também freou e reverteu as tendências centrífugas que ameaçavam a integridade do Estado, inclusive se utilizou métodos terroristas para consegui-lo no caso do irredentismo checheno.

O segundo fator da popularidade de Putin é sua reafirmação da soberania da Rússia frente às ações do Ocidente, que os russos percebem em grande medida como agressivas e antagônicas. Esta percepção popular tem, em minha opinião, uma base real significativa.

Não é exagerado dizer que a Rússia dos anos 1990 estava sob a administração colonial do G-7, em particular dos EUA. A terapia de choque, desenhada pelo FMI e o Banco Mundial a pedido do G-7, transformou no transcurso de uns poucos anos a um gigante industrial num país dependente da exportação de recursos naturais. A adoção desta política era a condição do apoio do G-7, que Yeltsin necessitava desesperadamente. O G-7 também incentivou e depois aprovou a supressão violenta da democracia por parte de Yeltsin no outono de 1993 e validou seu roubo das eleições presidenciais de 1996.

A isso é preciso acrescentar o bombardeio ilegal da Sérvia pela OTAN em 1999, um aliado tradicional da Rússia, a denúncia do tratado ABM pelos EUA em 2002, a contínua expansão da OTAN, e, por último, o papel desempenhado por Ocidente na derrubada armada do regime pró-russo na Ucrânia e a guerra civil que seguiu.

É certo que o regime de Putin fez um grande acerto na hora de cultivar os sentimentos patrióticos. Inclusive postergou a data das eleições para que coincidissem com o aniversário da anexação da Crimeia, uma decisão muito popular. Mas o regime encontra um terreno ideológico fértil para estes esforços na população – de todas as cores políticas, exceto a mais neoliberal. Para entender isso, somente é preciso ter um conhecimento superficial da história russa e reconhecer a natureza agressiva da política da OTAN, em particular dos EUA, em defesa de sua dominação num mundo unipolar.

O terceiro fator da popularidade de Putin é resultado da chamada “revolução da dignidade” de fevereiro de 2014 na Ucrânia- a derrubada de um governo corrupto, mas legalmente eleito por um movimento que foi popular em suas origens, mas ao qual logo se uniram forças neofascistas armadas e emissários da OTAN. Embora seja certo que os meios de comunicação russos, controlados pelo governo, propagaram uma imagem de caos e desastre na Ucrânia, em realidade não tiveram que exagerar muito o que estava passando sobre o terreno.

Analisado desde qualquer ponto de vista – exceto desde o dos ultranacionalistas e os oligarcas – a situação das classes populares na Ucrânia se deteriorou radicalmente. E isso faz com que a situação na Rússia pareça melhor. Este contraste tem um grande peso nas opções políticas do povo, inclusive de pessoas que odeiam o regime de Putin. Ainda que seja certo que conta com os esforços do regime para evitar a aparição de uma alternativa crível a Putin, a situação na Ucrânia é de grande ajuda.

Umas poucas palavras sobre os jovens da Rússia. Recentes informes mostram que o apoio da juventude a Putin é inclusive maior que no resto da população. Este é talvez o caso, porque a maioria dos jovens são ainda mais apolíticos que seus pais. Mas em 2017 houve algumas grandes manifestações de protesto, sobretudo de pessoas entre 16 e 24 anos de idade. Estas manifestações foram convocadas – mas não organizadas – por Alexei Navalny, um conhecido ativista contra a corrupção. Estes jovens saíram apesar da ameaça muito real de ser detidos, como ocorreu a centenas deles. Tendo sido testemunha de uma destas manifestações, posso dizer que aquilo que mobilizou a estes jovens foi não tanto sua indignação frente à corrupção nos níveis altos como sua oposição aos cortes arbitrários de sua liberdade. Este começo de um despertar entre os jovens quiçá augura mudanças na cena política, até agora bem estancada, da Rússia.

Movimento - Crítica, teoria e ação

Apresentação

Apresentamos uma revista especial sobre os 50 anos do Maio de 1968 com o orgulho de herdar uma tradição. Assim como a Comuna de 1871, a Revolução Russa de 1917 e as lutas contra as ditaduras na América Latina, consideramo-nos parte deste excepcional movimento mundial de luta política, protagonizado por jovens e trabalhadores de várias partes do mundo, como nas famosas barricadas de Paris. Consideramos suas lições e sua potência como atuais. Boa parte dos leitores da Revista Movimento participaram ativamente das Jornadas de Junho de 2013 em nosso país. Aos cinco anos deste acontecimento, queremos contribuir para o encontro e a síntese de tão distantes e ao mesmo tempo tão próximas gerações.

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