Nossa mais importante reivindicação hoje é “Justiça por Marielle”
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Nossa mais importante reivindicação hoje é “Justiça por Marielle”

O artigo trata da importância da luta por justiça para Marielle Franco e Anderson Gomes e estabelece uma polêmica com a associação desta luta à defesa da liberdade de Lula.

Evelin Minowa, Paula Kaufmann e Zeneide Lima 18 abr 2018, 15:58

No dia 14 de março o mundo inteiro paralisou diante de um dos mais cruéis e inacreditáveis acontecimentos recentes. A execução de Marielle Franco, vereadora do PSOL, foi um ensurdecedor recado. Um mês após sua execução seguimos sem respostas. No decorrer destes dias, a política nacional teve outros fortes abalos sendo o principal deles a prisão do ex-presidente Lula, acontecimento muito significativo que mais uma vez revelou o caráter político e seletivo da justiça brasileira. No entanto, alguns setores da esquerda cometem um equívoco político ao associar as palavras de ordem “Marielle vive” e “Lula livre”. Os dois relevantes fatos da conjuntura podem até ter algumas relações, mas não podem ser tratados como acontecimentos equivalentes.

Acreditamos ser uma tarefa importante neste momento a defesa da liberdade de Lula já que esta manobra jurídica aconteceu principalmente para inviabilizar a candidatura mais competitiva às eleições presidenciais e desnudou a relação de aparelhamento e instrumentalização que a burguesia tem com a justiça brasileira. Enquanto condenam Lula sem fundamentação consistente, outros corruptos seguem em liberdade e na disputa do pleito eleitoral. Porém é necessário sempre relembrarmos que Lula é parte da casta política e governou o país, direta ou indiretamente, por 13 anos mantendo as mesmas relações escusas entre poder, justiça e capital.

Marielle Franco era o absoluto oposto disso. Era uma mulher preta, periférica, LBT que, diferente da maioria das mulheres com mesmo perfil, conseguiu chegar a Câmara Municipal do Rio de Janeiro sendo a mulher mais votada daquela casa. Símbolo da renovação política, da primavera feminista, da necessidade de democratização do poder, eco das vozes de 2013, força da revolta da juventude negra. Isso é o símbolo que Marielle carrega. Levava para os palácios do poder o grito contra as chacinas e injustiças sociais que inundam de sangue as vidas de diversas famílias brasileiras. Ainda que as investigações sobre seu brutal assassinato estejam em andamento, tudo indica que foi assassinada pelas milícias do Rio de Janeiro, que se fortaleceram durante os muitos anos de governo do PMDB carioca, aliados do PT nas últimas décadas.

A luta por Direitos Humanos, tão fundamental no Brasil de hoje, estava em seu DNA.
Marielle era moradora da Maré, uma das maiores comunidades da cidade do Rio que durante o governo Dilma sofreu uma intervenção militar que trouxe consigo diversos ataques aos Direitos Humanos daquela população. Além disso, por 10 anos foi assessora de Direitos Humanos na ALERJ pelo mandato de Marcelo Freixo onde pode lutar pela vida de muito dos seus iguais. Sua expressiva votação em 2016 e seu recente mandato de vereadora mostraram a potência que sua luta tinha e o tamanho do desafio que encarava.

Por todos esses motivos, a execução de Marielle foi muito sentida. Nas ruas, nas redes, nos locais de trabalho, nas comunidades, nas periferias, nas mídias. Em todos os lugares a comoção era imensurável. Os sentimentos de indignação e dor tomaram conta de todo o país e transbordaram nas ruas de diversas capitais onde milhares pediam justiça por Marielle e buscavam respostas: Quem matou Marielle? Quem mandou matar?

É desta maneira que deve seguir a luta por justiça para Marielle: ampla, focada e determinada. Restringi-la ou anexá-la à luta pela liberdade de Lula faz com que a força social que reside na revolta contra a bárbara execução se restrinja a um setor minoritário da sociedade. A luta, o símbolo e as bandeiras de Marielle são maiores que isso, mais amplas e estruturais.

Estabelecer um elo entre as palavras de ordem “Marielle vive” e “Lula livre” obedece a uma lógica que diz ser indispensável para ambas as lutas a construção de uma política de Frente Única contra o fascismo. É verdade que em ambos os casos é necessário um enfrentamento com diferentes frações da direita e da burguesia. No entanto, é necessário evitar uma narrativa que pouco combate de maneira efetiva a extrema direita e acaba por aderir às direções petistas e fortalecer sua política de salvação no cenário desesperador em que se encontram.

Não podemos diluir a luta “Justiça por Marielle”, a mais importante pauta da esquerda e dos movimentos sociais hoje no Brasil. Seu assassinato foi contra o povo, contra as mulheres negras, contra os ativistas de Direitos Humanos, contra os que se levantam nas favelas e periferias. Ainda que honrar sua memória e afirmar que ela vive em cada um de nós é essencial, nossa maior homenagem a ela é seguir levando suas pautas adiante e, acima de tudo, exigir justiça pelo seu assassinato.


Parlamentares do Movimento Esquerda Socialista (PSOL)

Capa da última edição da Revista Movimento
A décima terceira edição da Revista Movimento dedica-se ao debate sobre os desafios da esquerda socialista no Brasil diante da crise nacional que se desenrola há anos e do governo Bolsonaro. Para tanto, foram convidados dirigentes do PSOL, do MES e de outras organizações revolucionárias que atuam no partido. O dossiê sobre a estratégia da esquerda e o PSOL reflete os desafios da organização de um polo socialista no interior do partido. Há também, na seção nacional, reflexões sobre a crise econômica brasileira, as revelações de The Intercept e as lutas da juventude e da negritude. As efemérides do centenário da escola Bauhaus e do cinquentenário do levante de Stonewall também aparecem no volume, além da tese das mulheres do MES para o Encontro de Mulheres do PSOL.