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Ópio do povo? Marxismo crítico e religião

Para além da noção corrente, a abordagem marxista dá conta do caráter contraditório da religião: seu aspecto opressivo e seu potencial de revolta.

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Partidários e adversários do marxismo parecem concordar em um ponto: a célebre frase “A religião é o ópio do povo” representa a quintessência da concepção marxista do fenômeno religioso. Contudo, essa fórmula não tem nada de especificamente marxista. Podemos encontrá-la, antes de Marx, com algumas nuances, em Kant, Herder, Feurbach, Bruno Bauer e muitos outros. Peguemos dois exemplos de autores próximos a Marx.

Em seu livro sobre Ludwig Börne, de 1940, Heine se refere ao papel narcótico da religião de maneira positiva – com uma pitada de ironia

“Bendita seja uma religião, que goteja sobre o amargo cálice da humanidade sofredora algumas doces e soporíferas gotas de ópio espiritual, algumas gotas de amor, fé e esperança”.

Moeses Hess, em seus ensaios publicados na Suíça em 1843, adota uma posição mais crítica – mas não livre de ambiguidade:

“A religião pode render suportável… a consciência infeliz da servidão… da mesma forma que o ópio é uma grande ajuda nas doenças dolorosas” 1.

A expressão aparece pouco depois no artigo de Marx “Contribuição à Crítica da Filosofia do Direito de Hegel” (1844). Uma leitura atenta do parágrafo inteiro mostra que seu pensamento é mais complexo do que poderíamos pensar habitualmente. Na realidade, rejeitado a religião, Marx não toma menos em conta o seu duplo caráter:

“A angústia religiosa é ao mesmo tempo a expressão da verdadeira angústia e a protestação contra essa angústia verdadeira. A religião é o suspiro da criatura oprimida, o coração de um mundo sem coração, assim como ela é o espírito de uma situação sem espiritualidade. Ela é o ópio do povo”. 2

Uma leitura do ensaio em seu conjunto mostra claramente que o ponto de vista de Marx em 1844 revela mais do neo-hegelianismo de esquerda, que vê na religião a alienação da essência humana, do que da filosofia das Luzes, que a denúncia simplesmente como uma conspiração clerical (o “modelo egípcio”). De fato, no momento em Marx escreve a passagem acima ele era ainda um discípulo de Feuerbach, um neo-hegeliano. Sua análise da religião era então “pré-marxista”, sem referência às classes sociais e um tanto a-histórica. Mas ela não era menos dialética já que ela apreendia o caráter contraditório da “angústia” religiosa: às vezes a legitimação da sociedade existente, às vezes protesto contra ela.

É apenas mais tarde – em particular em “A Ideologia alemã” (1846) – que o estudo propriamente marxista da religião como realidade social e histórica começou.

O elemento central desse novo método de análise dos fatos religiosos é considerá-los – junto com o direito, a moral, a metafísica, as ideias políticas etc. – como uma das múltiplas formas da ideologia, quer dizer, da produção espiritual (gestige Produktion) de um povo, a produção das ideias, representações e formas de consciência, necessariamente condicionada pela produção material e as relações sociais correspondentes.

Poderíamos resumir esse progresso por uma passagem “pragmática” que aparece em um artigo redigido alguns anos mais tarde:

“É claro que toda mudança histórica das condições sociais engendra ao mesmo tempo a mudança das concepções e das representações dos homens e, portanto, de suas representações religiosas”. 3

Esse método de análise macrossocial terá uma influência durável na sociologia das religiões, mesmo para além do movimento marxista.

A partir de 1846, Marx prestara apenas uma pequena atenção à religião enquanto tal, como universo cultural/ideológico específico. Não se encontra em sua obra praticamente nenhum estudo mais desenvolvido de qualquer fenômeno religioso. Convencido de que, como ele afirma a partir do artigo de 1844, a crítica da religião deve se transformar em crítica desse vale de lágrimas e a crítica da teologia em crítica da política, ele parece desviar sua atenção do domínio religioso.

É talvez por causa de sua educação pietista que Friedrich Engels mostrou um interesse bem maior que Marx para os fenômenos religiosos e seu papel histórico – compartilhando, é claro, as opções decididamente materialistas e ateias de seu amigo. Sua principal contribuição à sociologia marxista das religiões é sem dúvida sua análise da relação entre as representações religiosas e as classes sociais. O cristianismo, por exemplo, não aparece mais em seus escritos (como em Feuerbach) como essência a-histórica, mas como uma forma cultural (“ideológica”) que se transforma ao longo da história e como um espaço simbólico, jogo de forças sociais antagônicas.

Graças ao seu método fundado na luta de classes, Engels compreendeu – contrariamente aos filósofos das Luzes – que o conflito entre materialismo e religião não se identifica sempre com aquele entre revolução e reação. Na Inglaterra, por exemplo, no século XVII, o materialismo personificado em Hobbes defendia a monarquia enquanto que as seitas protestantes fizeram da religião sua bandeira na luta revolucionária contra os Stuarts. Da mesma maneira, longe de conceber a Igreja como uma entidade social homogênea, ele esboça uma notável análise demonstrando que em certas conjunturas históricas ela se divide segundo seus componentes de classe. É assim que, à época da Reforma, havia de uma parte o alto clero, cúpula feudal da hierarquia, e de outro o baixo clero, que fornece os ideólogos da Reforma e do movimento camponês revolucionário. 4.

Permanecendo materialista, ateu e adversário irreconciliável da religião, Engels compreendia, como o jovem Marx, a dualidade da natureza deste fenômeno: seu papel na legitimação da ordem estabelecida, assim como, em circunstâncias sociais adequadas, seu papel crítico, contestatório e até mesmo revolucionário. Mais ainda, é este segundo aspecto que se encontra no centro da maior parte de seus estudos concretos. Com efeito, ele se debruçou inicialmente sobre o cristianismo primitivo, religião dos pobres, excluídos, condenados, perseguidos e oprimidos. Os primeiros cristãos eram originários das últimas fileiras da sociedade: escravos, libertos privados de seus direitos e pequenos camponeses submersos em dívidas. Engels foi até o ponto de estabelecer um paralelo surpreendente entre o cristianismo primitivo e o socialismo moderno. A diferença essencial entre os dois movimentos residia no fato de que os cristãos primitivos depositavam a libertação no além enquanto que o socialismo a colocava neste mundo. 5

Mas essa diferença é tão bem definida como aparece à primeira vista? Em seu estudo de um segundo grande movimento cristão – a guerra dos camponeses na Alemanha – ela parece perder sua clareza: Thomas Münzer, o teólogo e dirigente dos camponeses revolucionários e dos plebeus heréticos do século XVI queria o estabelecimento imediato do Reino de Deus, o reino milenar dos profetas sobre a terra. Segundo Engels, o Reino de Deus era para Münzer uma sociedade sem diferenças de classe, sem propriedade privada e sem autoridade do Estado independente ou estrangeiro aos membros dessa sociedade. 6 Pela sua análise dos fenômenos religiosos à luz da luta de classes, Engels revelou o potencial contestatório da religião e abriu caminho para uma nova abordagem das relações entre religião e sociedade – distinta, por sua vez, daquela da filosofia das Luzes e daquela do neo-hegelianismo alemão.

A maioria dos estudos marxistas da religião escritos no século XX se limitara a comentar ou desenvolver as ideias esboçadas por Marx e Engels, ou aplica-las a uma realidade particular. É assim, por exemplo, com estudos históricos de Karl Kautsky sobre o cristianismo primitivos, os hereges medievais, Thomas More e Thomas Münzer.

No movimento operário europeu, havia muitos marxistas que eram radicalmente hostis em relação à religião, mas pensavam, ao mesmo tempo, que o combate do ateísmo contra a ideologia religiosa devia estar subordinado às necessidades concretas da luta de classes, que exige a unidade dos trabalhadores que creem em Deus com aqueles que não creem. Mesmo Lênin – que denunciava o tempo todo a religião como um “nevoeiro místico” – insiste em seu artigo de 1905 “O socialismo e a religião” no fato de que o ateísmo não deveria fazer parte do programa do partido porque “a unidade na luta realmente revolucionária da classe oprimida pela criação de um paraíso na terra é mais importante para nós que a unidade da opinião proletária a respeito do paraíso no céu”. 7 Rosa Luxemburgo tinha a mesma opinião, mas ela elaborou uma abordagem diferente e mais flexível. Ainda que ateia, ela atacou menos, em seus escritos, a religião enquanto tal do que a política reacionária da Igreja em nome de sua própria tradição. Em um panfleto de 1905, “A Igreja e o socialismo”, ela afirmou que os socialistas modernos eram mais fieis aos preceitos originais do cristianismo que o clero conservador de hoje. Porque os socialistas disputam por uma ordem social de igualdade, de liberdade e de fraternidade, os padres deveriam acolher favoravelmente o seu movimento caso eles quisessem honestamente aplicar à vida humana o princípio cristão “ame o próximo como a si mesmo”.

Enquanto o clero apoie os ricos, que exploram e oprimem os pobres, eles estarão em contradição explícita com os ensinamentos cristãos: eles não servirão Cristo, mas o bezerro de ouro. Os primeiros Apóstolos do cristianismo eram comunistas apaixonados e os Pais e primeiros Doutores da Igreja (como Basílio, o Grande e João Crisóstomo) denunciavam a injustiça social. Hoje essa causa foi tomada pelo movimento socialista que traz aos pobres o evangelho da fraternidade e da igualdade, e chama o povo a estabelecer sobre a terra o Reino da liberdade e do amor ao próximo. Mais do que engajar uma batalha filosófica em nome do materialismo, Rosa Luxemburgo procura salvar a dimensão social da tradição cristã para transmiti-la ao movimento operário. 8

Na Internacional comunista, quase não se prestava atenção à religião. Um número significativo de cristãos se juntava ao movimento, e um antigo pastor protestante suíço, Jules Humbert-Droz, até se torna nos anos 1920 um dos principais dirigentes do Komintern. À época, a ideia mais difundida entre os marxistas era de que um cristão que se tornava socialista ou comunista abandonaria necessariamente suas crenças religiosas anteriores “anticientíficas” e “idealistas”.

A maravilhosa peça teatral de Bertold Brecht, “A Santa Joana dos Matadouros” (1932), é um bom exemplo desse tipo de abordagem simplista em relação à conversão dos cristãos à luta para a emancipação proletária. Brecht descreve com grande talento o processo que leva Joana, dirigente do Exército de Salvação, a descobrir a verdade sobre a exploração e a injustiça social e a denunciar suas antigas crenças, antes de morrer. Contudo, para ele, é preciso haver uma ruptura absoluta e total entre sua antiga fé cristã e seu novo credo de luta revolucionário. Logo antes de morrer, Joana diz aos seus amigos: “Se um dia alguém vier dizer a vocês que existe um Deus, invisível, é verdade, de quem vocês poderão então esperar a ajuda, bata o crânio dele contra uma pedra até que ele estoure”.

A intuição de Rosa Luxemburgo segundo a qual poder-se-ia lutar pelo socialismo em nome dos verdadeiros valores do cristianismo original se perdeu nesse tipo de perspectiva “materialista” grosseira – e intolerante. De fato, alguns anos depois de Brecht ter escrito tal peça, aparece na França, entre 1936 e 1938, um movimento de cristãos revolucionários que reúne milhares de militantes que apoiam ativamente o movimento operário, em particular sua ala mais radical (os socialistas de esquerda de Marceau Pivert). Sua principal palavra de ordem era: “Somos socialistas porque somos cristãos”…

Entre os dirigentes e pensadores do movimento comunista, Gramsci é provavelmente quem manifestou o maior interesse pelas questões religiosas. É também um dos primeiros marxistas a procurar compreender o papel contemporâneo da Igreja católica e o peso da cultura religiosa nas massas populares. As observações sobre a religião em seus “Cadernos do Cárcere” são fragmentadas, não sistemáticas e alusivas, mas muito perspicazes. Sua crítica afiada e irônica das formas conservadoras da religião – notavelmente a versão jesuíta do catolicismo, que ele detestava alegremente – não o impede de perceber também a dimensão utópica das ideias religiosas.

Os estudos de Gramsci são ricos e estimulantes, mas em última análise, eles não inovam em seu método de aprendizado da religião. Ernst Bloch é o primeiro autor marxista a mudar este quadro teórico – sem abandonar a perspectiva marxista e revolucionária. Em uma abordagem similar a de Engels, ele distingue duas correntes sociais opostas: de um lado, a religião teocrática das igrejas oficiais, ópio do povo, aparelho de mistificação ao serviço dos poderosos; do outro a religião clandestina, subversiva e herética dos Cátaros, dos Hussitas, de Joaquim de Fiore, Thomas Münzer, Franz von Baader, Wilhelm Witling e Liev Tolstói. Em suas forças protestatórias e rebeldes, a religião é um das formas mais significativas da consciência utópica, uma das mais ricas expressões do Princípio da esperança e uma das mais poderosas representações imaginárias do ainda-não-existente. 10

Bloch, como o jovem Marx da famosa citação de 1844, reconhece evidentemente o caráter dúbio do fenômeno religioso, seu aspecto opressivo e seu potencial de revolta. É necessário, para apreender o primeiro, o que ele chama de “a corrente fria do marxismo”: a análise materialista implacável das ideologias, dos ídolos e dos idolatras. Para o segundo, ao contrário, é “a corrente quente do marxismo” que é exigida, para procurar salvaguardar o excedente cultural utópico da religião, sua força crítica e antecipatória.

Marx e Engels pensavam que o papel subversivo da religião era um fenômeno do passado, sem significação para a época da luta de classes moderna. Essa previsão se comprovou justa durante um século – com algumas importantes exceções, notavelmente na França que conheceu os socialistas cristãos dos anos 930, os padres operários dos anos 1940, a esquerda dos sindicatos cristãos (CFTC) nos anos 1950 etc. Mas para compreender o que se passa nos últimos trinta anos na América Latina – a teologia da libertação, os cristãos pelo socialismo – é preciso ter em conta as intuições de Bloch sobre o potencial utópico de certas tradições religiosas.

Artigo orginalmente publicado em Contretemps, nº 12, fevereiro de 2005. Tradução de Pedro Micussi para a Revista Movimento.


Notas

1 Essas referências e outras similares são citadas por Helmut Gollwitzer em seu artigo « Marxistische Religionskritik und christicher Glaube », Marxismusstudien, Vierte Folge, J. C. Mohr, Tübingen, 1962, pp. 15-16.

2 In Karl Marx, Friedrich Engles, Sur la religion (SR), Paris, Editions soicales, 1960, pp. 42-77. Ver o originak Die Deutsche Ideologie, Berlin, Dietz Verlag, pp. 22-35. A tradução francesa designa Geistige Produktion por “produção intelectual”, mas isto é inexato.

3 K. Marx, F. Engels, « Compte rendu du livre de G. F. Daumer, La religion de l’ère nouvelle…, 1850, SR, p. 94.

4 F. Engels, Introduction à l’édition anglaise de Socialisme utopique ou scientifique, SR, p. 297-298 et La guerre des paysans, SR, p. 105.

5 F. Engles, Contribution à l’histoire du christianisme primitif in SR, pp. 311-312.

6 F. Engels, La guerre des paysans, in SR, p. 114.

7 V. I. Lénine, Socialism and Religion, 1905, in Collected Works, Moscou, Porgress, 1972, vol. 10, p. 86.

8 R. Luxemburg, Kirche und Sozialismus, 1905, in Internationalismus und Klassenkampf, Neuwied, Luchterhand, 1971, pp. 44-47, 67-75.

9 B. Brecht, Sainte Jeanne des abatoires, Théâtre complet, L’Arche, Paris, 1972, p. 144.

10 Cf. E. Bloch, ‘Le principe espérance ’ (3 vol.), Gallimard, Pars, 1977, e L’Athéisme dans le christianisme, Gallimard, Paris, 1978. A obra de Lucian Goldman representa uma outra tentativa de limpar uma via à renovação do estudo marxista da religião, de inspiração muito diferente de Bloch. Em seu livro Le Dieu caché (1955), ele tenta comparar – sem com isso assimilar uma a outra – a aposta pascaliana na existência de Deus e a aposta marxista na libertação da humanidade… Todas as duas estão fundadas numa fé, numa crença aos valores transindividuais, que não é demonstrável a nível dos julgamentos factuais: Deus no que se refere à religião, a comunidade humana do futuro ao socialismo. O que os separa é certamente o caráter supernatural e supra histórico da transcendência religiosa.

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Apresentação

Publicamos a décima edição de nossa Revista Movimento. Dessa vez, celebramos os 80 anos de fundação da IV Internacional, comemorados em setembro de 2018, com uma seção especial. Há, também, artigos na seção internacional e de teoria. Fechamos esta edição quando a eleição brasileira se encerrava. Como não poderia deixar de ser, nesta décima edição de Movimento, apresentamos nossas primeiras análises sobre os resultados eleitorais. Sabemos que a vitória de Jair Bolsonaro trará graves ataques à classe trabalhadora e ao povo brasileiro. Estaremos com nosso povo, lutando em defesa das liberdades democráticas e de nossos direitos. Mais uma vez, esperamos que a revista seja uma ferramenta útil de construção e formação para nossos camaradas. Boa leitura!

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