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68 francês: a explosão de maio

Capítulo do livro 'Maio de 68: um ensaio geral" sobre os acontecimentos que despontaram em Paris e sacudiram a França em 1968.

Manifestação em Paris no 14 de maio de 1968 - Reg Lancaster/Express/Getty Images
Manifestação em Paris no 14 de maio de 1968 - Reg Lancaster/Express/Getty Images

A manifestação do 3 de maio e a espontaneidade das massas

Nada indicava que a sexta-feira, 3 de maio, fosse passar à história. No ensolarado pátio da Sorbonne há um ambiente aprazível e familiar: algumas dezenas de militantes da JCR estão alinhados em colunas ao longo dos degraus da capela e escutam, brincalhões, a leitura comentada de um requerimento de Georges Marchais publicado em L’Humanité dessa semana: “Desmascarar os falsos revolucionários”. Sessenta metros mais adiante, os estudantes da FER vendem Révoltes; uns miliatnes do MAU colam cartazes; não se vê nem um UJCml. A intervalos regulares, um militante convoca os estudantes para a plenária das 12h e para a mobilização antifascista: um dia como tantos outros na Soborna.

Por volta do meio-dia, chegam os militantes do 22 de Março, calorosamente aclamados. Já célebres, levam atrás de si uma matilha de jornalistas. Tomam a palavra Henri Weber, pela JCR, Christian de Bresson, pela FER, Jacques Sauvageot, pela UNEF, Daniel Cohn-Bendit, pelo 22 de Março. Amavelmente, este oferece o microfone a um representante da UEC para que exponha a posição do Partido Comunista, e o militante cumpre animosamente essa pesada tarefa. Decide-se uma manifestação para a segunda-feira, 6 de maio, às 9 da manhã, diante da reitoria, onde se reúne o Conselho da Universidade. Às 13h, os militantes se dispersam em grupos de propaganda, em direção aos principais restaurantes universitários.

À tarde, esperam os fascistas. Os serviços de segurança, com seus efetivos completos, tomaram posição nas diferentes saídas e estão prontos para intervir. O dispositivo de defesa tem quase 400 militantes perfeitamente equipados. Às 15h, mensageiros anunciam que se aproxima um grupo armado de uma centena de “nacionalistas”. Desafortunadamente, não há nenhuma possibilidade de que cheguem até nós, porque a polícia vigia… Bloqueados pelas forças de segurança, os fascistas se afastam. Na Sorbonne, a tensão cede. Organiza-se no pátio uma ocupação improvisada. Uma delegação conduzida pelo vice-presidente da UNEF vai à reitoria para pedir que se abram algumas salas. A negativa vai acompanhada de ameaças: se os “pretorianos” não desaparecerem, fecharão também a Soborna. Um clamor de indignação sobe até as janelas do reitor quando os estudantes ficam sabendo da chantagem. Os militantes do 22 de Março ensinam aos sorbonnards as técnicas dos grupos de discussão. Pelos quatro cantos do pátio se iniciam os debates.

Os dirigentes das organizações estudantis sinalizaram para as 17h30min a hora da dispersão. Mas às 16h30min a polícia fecha as saídas. Às 17h, as forças de segurança solicitadas pelo reitor entram na Soborna, cassetetes nas mãos. Entre as 17h15min e as 19h30min, vão-se levando os militantes em grupos de 25 e vão dividindo-os nas delegacias de polícia parisienses.

Às 17h30min estoura a manifestação: as centenas de militantes encurralados na Sorbonne não acreditam nos seus ouvidos: a uns dez metros, um cortejo, ao parecer substancial, se choca violentamente contra as forças de segurança. Alguns veículos voltam vazios e sem vidros. Pela primeira vez no Bairro Latino se ouve continuamente o explosão das bombas de gás lacrimogêneo. Imediatamente a multidão dos estudantes decide se perguntar: quem? Que grupo lançou essa vigorosa e imediata resposta? Os principais quadros da JCR, do 22 de Março, da FER, do MAU estão presos na Soborna. A UJCml está aborrecida e, prevendo uma ação fascista fulminante, deu ordem aos seus miliantes para que não aparecessem no Bairro Latino na sexta-feira, 3 de maio…

Os comitês de ação dos secundaristas? Talvez. Eram esperados para depois dos cursos. Mas de onde os dirigentes dos secundaristas poderiam tirar experiência e audácia?

A verdade é que a manifestação do 2 de maio foi puramente espontânea. A polícia não esperava encontrar cerca de mil estudantes na Sorbonne. Desconcertada pelo número, decidiu levar apenas os homens… As militantes permaneceram livres para fazerem o que quisessem e não deixaram de ir avisar no Bairro Latino.

A partir das 17h, se formam grupos espontâneos na praça da Sorbonne, na rua des Ecoles, no boulevard Saint-Michel. São lançadas palavras de ordem que a massa repete e amplifica rapidamente. Quem tomou a iniciativa dos primeiros lançamentos de garrafas, de vidros de mostarda, de cinzeiros e de diversos outros projéteis mais? Quem decidiu obstruir a circulação, bloqueando a rua? Os militantes de base dos pequenos coletivos? Os “não organizados”? Não importa. O movimento estudantil aprendeu esses gestos dos estudantes alemães e italianos. Já os havia imitado no 13 de abril, na manifestação de solidariedade com a SDS e Rudi Dutschke. Politicamente, estava já disposto à resistência. Os poucos militantes da FER que estavam ali aprenderam às próprias custas. Um dos dirigentes se pôs a dispersar os manifestantes, porque, separados de suas organizações, os estudantes não podiam se opor eficazmente às forças da polícia. Fazer frente aos agentes sem bons chefes era se colocar em grave risco. Era necessário voltar para casa e exigir que as direções dos sindicatos organizassem uma resposta democrática. O mínimo que se pode dizer é que aquelas declarações não convenceram ninguém, e os estudantes deixaram o líder FER gesticulando e se lançaram contra os carros da polícia. Por sucessivos cálculos aproximativos, foram criando no ardor do combate uma tática de assédio incessante, baseada em breves ataques e rápidas retiradas, que não dava às forças de segurança tempo para respirar nem para reagir. Não estavam acostumadas a tal resistência. Surpreendidas, pouco móveis, se cansavam com as munições ineficazes e se salvavam batendo com cassetete em qualquer um que tivessem à mão.

A manifestação espontânea do 3 de maio suscitou no movimento estudantil uma dessas falsas polêmicas a que está acostumado. As divergências se situavam na curiosa problemática, fundada na oposição unilateral entre espontaneidade e organização. “Já veem que não servem para nada”, afrontavam os “espontaneístas” dos membros dos pequenos coletivos. “Foi uma resposta magnífica, lançada pela base estudantil enquanto vocês estavam todos presos na Sorbonne. Além disso poderia apostar que, se vocês estivessem fora, não haveria acontecido nada, porque chegariam falando muito bem, com a sua disciplina e equipes de organização e mais uma vez teriam paralisado a iniciativa das massas”. Ao que respondiam os místicos da organização estilo FER: “Todo militante responsável deve agir como nós agimos, porque só os aventureiros enviam os estudantes não organizados ao matadouro.”

Na verdade, esse debate se insere em uma problemática absurda. Não existe no marxismo oposição mecânica entre organização e espontaneidade. Ao contrário, o marxismo nos ensina que a espontaneidade de um meio social não é de modo nenhum independente do seu grau de organização. As atitudes “espontâneas” de todo meio social estão condicionadas pela natureza e pelo poder das estruturas que o organizam. Se a classe trabalhadora é “espontaneamente sindicalista”, como diz Lenin, é que “espontaneamente” está organizada pela classe dominante e pelo Estado burguês. E a função de uma organização revolucionária consiste precisamente em educar o proletariado de modo que ele se libere da sua espontaneidade burguesa e se insira em uma “espontaneidade revolucionária”, constituída em décadas de lutas e greves. O que os marxistas chamam de “espontaneidade das massas” não é outra coisa senão a manifestação espontânea do grau de consciência e de experiência a que se chegou. Anos de propaganda revolucionária, anos de mobilização e de lutas assumidas pelos pequenos coletivos levaram a uma espontaneidade do movimento estudantil e a um nível de maturidade política perfeitamente apreciável. Essa maturidade política é a que se manifestou “espontaneamente” no dia 3 de maio à noite e nas semanas seguintes.

Nos camburões que os levavam às delegacias, os militantes revolucionários traçavam planos para os dias seguintes. Todos entendiam que o poder acabava de cometer um erro de marca maior: a tomada da Sorbonne pela polícia, o encarceramento arbitrário de 600 militantes, o uso de gases lacrimogêneos e dos cassetetes no Bairro Latino, atitudes mais que suficientes para causar um trauma duradouro em toda a Universidade.

Ao ferir indistintamente um meio já muito sensibilizado, a repressão ia servir de catalisador. Ia precipitar as partículas e as moléculas estudantis para formar um corpo social compacto e reivindicativo. Todas as decepções, todos os rancores, todas as rebeldias acumuladas durante meses iam ressurgir e cristalizar-se na negativa, esperando a agressão do poder. Pelo seu mesmo excesso, a repressão tinha valor de símbolo: constituía a expressão concentrada de todo um conjunto de relações sociais, feitas de violência, de injustiça, de arbitrariedade, que cada um suportava cotidianamente no estado diluído. Os discentes iam rebelar-se contra tudo quanto aquela repressão levava como significado latente.

A julgar pela sua reação espontânea, a resposta do movimento estudantil sem dúvida ia ser enérgica. O corpo docente se veria obrigado a tomar partido, e naquelas circunstâncias não teria mais remédio que se colocar ao lado dos estudantes. Faltando algumas semanas para os exames, a paralisia da Universidaade sacudiria a opinião pública. O poder havia iniciado um enfrentamento do qual poderia muito bem sair vencido. Amontoados nas nossas celas, especulávamos acerca da categoria e das próximas vítimas das nossas manifestações de rua: seria o reitor Roche? Seria o ministro Peyrefitte? Ou o prefeito da polícia Grimaud? O calabouço da polícia na Prefeitura se dividia em “utopistas” e “temerosos”. Mas todos estávamos de acordo com que o poder acabava de dar ao movimento estudantil francês uma ocasião inesperada de repor seu atraso com relação aos seus equivalentes italianos, espanhóis ou alemães. Havia chegado o momento de dar consistência ao título do editorial do número 1244 do Avant-Garde Jeunesse: “Criar dois, três, vários Berlins, essa é a diretriz”

Este artigo faz parte do livro 50 anos das revoluções de 1968: O início de uma luta prolongada. Para ler este e demais textos, compre a edição especial de n. 9 da Revista Movimento aqui!

Movimento - Crítica, teoria e ação

Apresentação

Apresentamos uma revista especial sobre os 50 anos do Maio de 1968 com o orgulho de herdar uma tradição. Assim como a Comuna de 1871, a Revolução Russa de 1917 e as lutas contra as ditaduras na América Latina, consideramo-nos parte deste excepcional movimento mundial de luta política, protagonizado por jovens e trabalhadores de várias partes do mundo, como nas famosas barricadas de Paris. Consideramos suas lições e sua potência como atuais. Boa parte dos leitores da Revista Movimento participaram ativamente das Jornadas de Junho de 2013 em nosso país. Aos cinco anos deste acontecimento, queremos contribuir para o encontro e a síntese de tão distantes e ao mesmo tempo tão próximas gerações.

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