Revista Movimento Movimento Movimento: crítica, teoria e ação

A bolsonarização da esquerda amazonense

Em função do tempo de TV e recursos financeiros, partidos ditos de esquerda vêm manifestando apoio ao direitista.

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Último dia das convenções partidárias para as eleições de 2018 no Brasil. O resultado é sombrio. No Amazonas, em função do tempo de TV e recursos financeiros, a escalada da bolsonorização dos ditos partidos de esquerda é uma tônica.

David Almeida, candidato ao governo pelo PSB, tenta consolidar uma chapa que reúne para a disputa ao Senado o bolsonarista Chico Preto e o petista Praciano. Neste caso, as disputas em âmbito nacional têm rebatimento na paróquia: para sufocar, isolar, a candidatura de Ciro Gomes (PDT), a cúpula do PT e do PSB negociaram a neutralidade deste último na corrida presidencial e garantiram, ainda para o PSB, apoio às candidaturas de governador em quatro estados: Pernambuo, Paraíba, Amazonas e Amapá. No Amazonas, então, teremos uma chapa em que um dos candidatos ao Senado, Chcio Preto, disse o seguinte dias atrás: “eu, convictamente, vou votar no Jair Bolsonaro, é o candidato que me passa a convicção de ter o compromisso de verdade de enfrentar os problemas que o Brasil está enfrentando…”. O PT sabe melhor do que ninguém até onde podem chegar decisões baseadas em convicções, mas mesmo assim, opta por levar construir uma aliança que levará Praciano a caminhar lado a lado com Chico Preto e David Almeida, que há tempos flerta com Bolsonaro.

Mas, a bolsonorização da esquerda amazonense não se dá exclusivamente em função dos movimentos táticos do PT. Em movimentos preparatórios ao voo para a disputa ao governo do Amazonas, David Almeida mirou ou esteve na mira de Bolsonaro. Foi assim em viagem à Brasília em dezembro de 2017; também foi assim quando o candidato ao governo buscava por uma sigla partidária que o abrigasse e teve as portas do PSL, partido de Bolsonaro, abertas para si. Em 2015, quando do debate na ALE-AM sobre a concessão da Comenda do Mérito Legislativo, proposta por por Platiny Soares, à Bolsonaro, David Almeida fez uma defesa instransigente da homenagem ao deputado federal. Os afagos com Bolsonaro não foram elementos suficientes para que o PcdoB e setores do PSOL não se iclinassem a apoiá-lo. Na primeira Conferência política do PSOL, passando por cima das instâncias de decisão, a Presidência Estadual do partido convidou David Almeida. No bairro Morro da Liberdade, em 7 de junho, quando, em sua residência David Almeida anunciou sua pré-candidatura, estava ele ladeado pelo PCdoB e pelo PSOL. Da Presidente do PSOL foi possível ouvir o seguinte naquela noite: “Não temos outro caminho a não ser caminhar ao seu lado”. Felizmente, no caso de PCdoB e PSOL, após as convenções, não se confirmou a marcha ao lado de figuras políticas que explicitamente se inclinam a apoiar Bolsonaro.

Aqueles que fazem, à esquerda, o exercício de bolsonirização vão objetar observando que em política é assim mesmo, que na defesa de causas maiores e mais nobres, no caminho é possível construir acordos menores, pois acordos são passageiros. Todavia, tal argumento é frágil ao extremo. Quem o defende não é capaz de perceber que a precarização na era do neoliberalismo é tão profunda que levou a argumentação da tática politica a uma rebaixada ética de empreendedor.

E com esta ética rebaixada, que, conforme Judith Butler, em “Corpos em Alianças e a Política as Ruas”, caminha de mãos dadas com a crueldade, não há um horizonte de alternativa emancipatória para os amazonenses. Os conchavos cínicos, que flertam perigosamente com Bolsonaro, reafirmam a cruedade das ruas de Manaus: chacinas, narcotráfico, corpos decapitados, indigência, abandono.

A contraposição entre as esquerdas do Amazonas à bolsonorização é a reafirmação de uma existência além do deserto do real que estes tempos temerosos nos impõem. É preciso lutar, resistir, emancipar. Atrás de Bolsonaro só vai quem já enterrou suas utopias pós-capitalistas. Ou sequer soube da existência delas.

É necessário ir além de um cálculo político que aposta numa separação entre os bastidores da política e a materialidade da vida na rua. Nesta separação, os bastidores da política são marcados por negociações, conchavos, arranjos, que que rebatem eaprofundam a existência precarizada. Desse modo, supor apoior a Bolsonaro, ou caminhar em alianças políticas com quem o apoia, é negar as ruas e suas lutas; é negar a tercerização, o trabalho sem direitos, os salários de miséria, a morte da juventude negra na periferia, o feminicídio etc; é reafirmar a destrutibulidade do Programa Escola Sem Partido, o horror da Base nacional Comum Curricular proposta por Temer e que suprime o debate sobre gênero e orientação sexual, a política de corte de gastos públicos e a privatização de bens e serviços nacionais, entre tantas outras medidas destrutivas

No espectro político-partidário só a esquerda pode reconectar as ruas e a política. Também, a esquerda pode acelarar e aprofundar esta separação. Urge pois uma posição crítica, radical, dos setores à esquerda dos ditos partidos de esquerda que refutem os exercícios de bolsonirização.

Movimento - Crítica, teoria e ação

Apresentação

Publicamos a décima edição de nossa Revista Movimento. Dessa vez, celebramos os 80 anos de fundação da IV Internacional, comemorados em setembro de 2018, com uma seção especial. Há, também, artigos na seção internacional e de teoria. Fechamos esta edição quando a eleição brasileira se encerrava. Como não poderia deixar de ser, nesta décima edição de Movimento, apresentamos nossas primeiras análises sobre os resultados eleitorais. Sabemos que a vitória de Jair Bolsonaro trará graves ataques à classe trabalhadora e ao povo brasileiro. Estaremos com nosso povo, lutando em defesa das liberdades democráticas e de nossos direitos. Mais uma vez, esperamos que a revista seja uma ferramenta útil de construção e formação para nossos camaradas. Boa leitura!

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