Revista Movimento Movimento Movimento: crítica, teoria e ação

No Amapá, um PSOL a serviço dos 50 tons de Temer combatidos por Boulos e nosso projeto anticapitalista

Por trás das cortinas, o PSOL do Amapá manobra e costura aliança com partidos do regime.

Uma grave manobra política está sendo escondida no Amapá nessas eleições. Sem fazer alarde, o PSOL Amapá hoje compõe uma coligação “laranja” com o PMN enquanto na realidade mantém um bloco político com o DEM e a Rede, partido do senador Randolfe Rodrigues e do prefeito de Macapá Clécio Luís, figuras que já tiveram grande destaque no PSOL e romperam com o partido em favor de Marina Silva. Apesar da aliança eleitoral formal com o PMN, realizada para esconder a manobra e evitar críticas, o PSOL Amapá fará uma composição velada com oportunistas e com a direita tradicional para permitir a manutenção de aparatos burocráticos.

Os fatos são inegáveis. No Amapá, o PSOL é o partido com o maior número de filiados do estado, sendo o único estado do Brasil onde nosso partido conquista essa posição, e isso se reflete nos congressos nacionais do PSOL com o Amapá reunindo em suas plenárias mais de 4 mil filiados, que elegem aproximadamente um terço dos delegados e definem a composição da direção partidária. As plenárias do PSOL Amapá, realizadas muitas vezes com o apoio de prefeituras (como em Macapá), reúnem centenas de filiados em processos marcados por manobras que dificultam a fiscalização, e já ocorreram diversas denúncias de fraudes sobre essas plenárias. Votações sem listas de filiados, registros de pessoas votando mais de uma vez e a abertura de uma quantidade de urnas maior do que a capacidade de fiscalização são exemplos das manobras que garantem essa disputa pela direção nacional do partido.

Nos congressos do PSOL, o Amapá é apresentado pela direção majoritária como exemplo de construção partidária e sua enorme quantidade de filiados seria a prova desse enraizamento político. Qualquer crítica ao processo do Amapá é imediatamente taxada de elitista, ou até mesmo racista, contra uma organização partidária real e popular que disputaria os rumos do estado em prol dos trabalhadores. Nessa versão da história, as alianças contrárias ao programa do PSOL seriam apenas um reflexo das particularidades e dificuldades locais que impediriam o partido de afirmar plenamente sua política, mas sempre tendo como objetivo o avanço das lutas no estado.

Quando Randolfe e Clécio ainda estavam no partido eram declarados pela direção majoritária do PSOL como líderes estaduais dessas lutas, e a “flexibilidade” política na época era defendida como temporária e necessária para a construção de um campo socialista no estado. Com a desistência de Randolfe na candidatura à presidência em 2014 e a posterior ida dos dois à Rede, a defesa da aliança com o DEM e outros partidos foi desmoralizada e evidenciou a verdadeira política operada pela direção do PSOL Amapá, cujos principais objetivos são manter posições no aparato do governo e atuar no controle do PSOL nacional através da distorção gerada pela manipulação do número de filiados no estado.

É um problema moral, e também um problema político. Se o PSOL Amapá representa aquilo que é propagandeado, deveria naturalmente priorizar uma candidatura ao governo como acontece em todos os outros estados, apesar de nossas grandes dificuldades. Mas no alegado estado-bastião do PSOL acontece o contrário: de maneira formal, e até mesmo cínica, o PSOL Amapá terá uma candidatura “laranja” ao governo nessas eleições. Mesmo sendo declaradamente a maior força de esquerda no estado e tendo reunido milhares na base, o PSOL não aposta em sua própria política e realiza uma evidente composição informal com o DEM.

Essa posição evidencia tanto a forma distorcida das filiações feitas no Amapá quanto o caráter dessa coligação, abrindo espaço para uma aliança de fato com o DEM, Rede, PSDB, PP, PSC, Solidariedade, PRP, Avante, PPL e Podemos. O deputado estadual Paulo Lemos, do PSOL/AP, declarou em junho que fará a campanha de Davi Alcolumbre (DEM) ao governo do estado mesmo contra as deliberações do partido, e até o momento houveram poucas movimentações contra esta postura absurda. Essa prática não é nova, e a aliança entre o PSOL e o DEM em Macapá já foi tema de debate intenso nas últimas eleições federais, quando o companheiro Maykon Magalhães, membro do Diretório Nacional do PSOL, soliticou o apoio dos servidores comissionados da prefeitura de Macapá ao então candidato ao Senado Davi Alcolumbre.

A flexibilidade tática é característica muito importante da luta social e cada momento novo apresenta riquezas que exigem análises específicas de situações concretas. A construção de um partido socialista não é linear e as contradições são parte inerente desse processo, devendo ser aprofundadas e analisadas sem dogmatismos. Entretanto, a direção do PSOL Amapá já deu diversas provas do caráter oportunista de seu projeto, bem mais próximo das burocracias parlamentares do que da construção das lutas, infelizmente tornando o PSOL amapaense mais um partido adaptado ao regime político. E ainda que no Amapá o PSOL dispute também contra o PT, tem impregnado dentro de si cada vez mais a lógica petista de fazer política, com discursos progressistas escondendo burocracias estagnadas.

Prova dessa adaptação se deu durante a greve dos trabalhadores municipais de Macapá ocorrida este ano, quando os servidores se manifestaram em favor de suas categorias e contra a retirada de direitos proposta por reforma do prefeito Clécio, contando inclusive com o apoio da direção nacional do PSOL em defesa dos trabalhadores. Enquanto nosso partido é referência nas lutas do funcionalismo público contra prefeituras de todo país, em Macapá o PSOL compõe a prefeitura que defende a retirada de direitos, e a repressão da polícia militar contra os servidores em greve foi a prova final da absurda posição. Outro exemplo da política de Clécio foi a indicação anos atrás de um apoiador de Bolsonaro à secretaria de educação de Macapá, um candidato do PEN nas eleições municipais chamado Promotor Moisés e que estava preso até recentemente por denúncias de extração ilegal de ouro.

Essa situação é insustentável. O PSOL é o partido da nova política e da defesa intransigente dos trabalhadores, e de forma alguma pode estar associado a projetos de direita. O PSOL Amapá comete hoje dois erros graves, construindo uma coligação “laranja” e se aliando a figuras do DEM para manter aparatos políticos que permitam a manutenção da atual “maioria” na direção nacional do partido. Companheiros como os deputados federais Ivan Valente e Edmilson Rodrigues, além do próprio presidente do partido, tem defendido a situação absurda do Amapá, que infla o partido localmente e garante na marra o controle nacional do PSOL.

O mecanismo imoral de reprodução da “maioria” partidária é evidenciado de maneira explicita. É necessário denunciar e combater essa situação, o PSOL foi criado para atuar de forma diferente na política e o pragmatismo cego coloca em risco esse perfil, distorcendo os processos deliberativos do partido e mantendo na direção uma posição muitas vezes adesista e adaptada ao regime. É essencial que a militância combativa do PSOL enfrente essa lógica e lute contra o processo de burocratização do partido.

Movimento - Crítica, teoria e ação

Apresentação

Publicamos a décima edição de nossa Revista Movimento. Dessa vez, celebramos os 80 anos de fundação da IV Internacional, comemorados em setembro de 2018, com uma seção especial. Há, também, artigos na seção internacional e de teoria. Fechamos esta edição quando a eleição brasileira se encerrava. Como não poderia deixar de ser, nesta décima edição de Movimento, apresentamos nossas primeiras análises sobre os resultados eleitorais. Sabemos que a vitória de Jair Bolsonaro trará graves ataques à classe trabalhadora e ao povo brasileiro. Estaremos com nosso povo, lutando em defesa das liberdades democráticas e de nossos direitos. Mais uma vez, esperamos que a revista seja uma ferramenta útil de construção e formação para nossos camaradas. Boa leitura!

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