Revista Movimento Movimento Movimento: crítica, teoria e ação

“Nossos protestos são criminalizados e nossas comunidades foram militarizadas”

Em discurso proferido no Rio de Janeiro, membra da caravana pela de solidariedade à Nicarágua expõe a delicada situação política em seu país.

Carolina Hernandez, ao centro, ao lado dos demais membros da caravana de solidariedade à Nicarágua, no Brasil - Reprodução
Carolina Hernandez, ao centro, ao lado dos demais membros da caravana de solidariedade à Nicarágua, no Brasil - Reprodução

“Boa noite, meu nome é Carolina Hernandez, represento o Movimento Nacional contra a Mega-Mineração Industrial. Este é um movimento social que nasce para a luta e a defesa de nossos territórios, uma vez que o governo entregou a soberania do nosso país para as transnacionais de origem canadense. Isso nos afetou muito, pois nossos lares e nosso sustento dependem da mineração artesanal. E afetou também o meio ambiente: essas grandes mineradoras consomem em uma hora a mesma quantidade de água que consumiríamos em 20 anos. Sem contar que durante a construção de suas obras, elas contaminam tanto que por onde passam não nascem mais árvores. Não existe megamineração verde. Os rejeitos químicos que utilizam duram mais de um século no ar, causando inúmeras enfermidades.

É contra isso que nos opusemos. Denunciamos a cumplicidade do governo com as transnacionais. Nossos protestos são criminalizados e nossas comunidades foram militarizadas. Alguns de nossos líderes foram processados e outros foram até mesmo encarcerados por 50 dias, a fim de desintegrar nosso movimento. Esta repressão já dura cinco anos.

Ainda agora, apesar do momento sociopolítico que o país atravessa, o governo já entregou três concessões mineradoras a estas transnacionais, interessadas no ouro ali existente. Os policiais e os paramilitares têm luz verde para assassinar. Em 19 de abril, começaram a assassinar os jovens universitários. A verdade é que não estamos de acordo com isso. Ao final, trataram de implementar o medo, pois sabem que seguiremos nos manifestando.

Decidi fazer parte desta caravana. Sou mulher, mãe de três filhos, e não estou de acordo com a maneira pela qual o governo cada vez mais reprime com crueldade. Nós não podemos ficar calados. Graças a esta situação, decidimos nos organizarmos, pondo a nossa vida e a vida de nossas famílias em perigo. Precisamos denunciar este governo, pois existe uma campanha de desinformação por parte dele. Dizem que somos uma “direita golpista”. Nós somos parte do povo da Nicarágua e queremos viver em paz e com justiça.

Queremos democracia! Ao final o governo acabou por criar muitas leis que nos deixou vulneráveis. Estas transnacionais não fazem uma consulta prévia, não há estudos de impactos ambientais na Nicarágua. No ano passado, aprovou-se uma lei que isentava as transnacionais de fazerem estudos de impactos ambientais. E o dano ao meio ambiente é irreversível. Uma vez que essas empresas se instalam em nossos territórios, gastam a nossa água, além de contaminá-la, o que nos afeta bastante.

Estamos pedindo a solidariedade internacional e o pronunciamento de todos. As três transnacionais são de origem canadense e muitos países travam relações comerciais com ela, acreditando que elas “cumprem” suas responsabilidades sócio ambientais. Mas elas descumprem tudo! Na Nicarágua, ninguém respeito nossos direitos. Por isso, vamos para as ruas expressar nossa voz, pois é a única maneira que temos de protestar. E o governo reprime com crueldade. É uma situação difícil para todos os nicaraguenses que a repressão seja cada vez maior e que os assassinatos sejam cada vez mais frequentes.

É preciso que cresça essa rede de solidariedade. Vocês precisam estar informados para denunciar esta situação. Precisamos encontrar uma estratégia para a saída pacífica de nossos problemas. Vivemos muitas guerras, tivemos muitas mortes, perdemos muito sangue, e já não queremos mais seguir nisso.

Obrigada!”

Discurso proferido no Rio de Janeiro, em setembro de 2018. Transcrição de Charles Rosa para o Portal da Esquerda em Movimento

Movimento - Crítica, teoria e ação

Apresentação

Neste mês de março, preparamos uma nova edição da Revista Movimento, dedicada especialmente para a reflexão e elaboração política sobre a luta das mulheres. Selecionamos um conjunto de materiais - artigos teóricos, textos políticos, documentos e uma especial entrevista - com o intuito de aprofundar o esforço consciente demonstrado por nossa organização nos últimos anos em avançar na compreensão sobre o tipo de feminismo que defendemos, bem como sobre o papel essencial e a importância estratégica que a luta feminista tem para a construção de um projeto anticapitalista. Um desafio exigido pela atual conjuntura, marcada pela ascensão de governos de extrema-direita no mundo, na qual o movimento feminista tem se apresentado como contraponto e trincheira de resistência fundamental. Por isso, esta edição pretende, antes de mais nada, auxiliar e fortalecer nossas intervenções feministas nesse momento, a começar por duas datas muito significativas que inauguram este mês: o 8 e o 14 de março, dia em que se completará um ano do brutal assassinato de nossa companheira Marielle Franco. Esperamos que seja proveitoso e sirva como instrumento para as nossas batalhas. Boa leitura!

Solzinho

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