“Nossos protestos são criminalizados e nossas comunidades foram militarizadas”
Carolina Hernandez, ao centro, ao lado dos demais membros da caravana de solidariedade à Nicarágua, no Brasil - Reprodução

“Nossos protestos são criminalizados e nossas comunidades foram militarizadas”

Em discurso proferido no Rio de Janeiro, membra da caravana pela de solidariedade à Nicarágua expõe a delicada situação política em seu país.

Carolina Hernandez 20 set 2018, 12:51

“Boa noite, meu nome é Carolina Hernandez, represento o Movimento Nacional contra a Mega-Mineração Industrial. Este é um movimento social que nasce para a luta e a defesa de nossos territórios, uma vez que o governo entregou a soberania do nosso país para as transnacionais de origem canadense. Isso nos afetou muito, pois nossos lares e nosso sustento dependem da mineração artesanal. E afetou também o meio ambiente: essas grandes mineradoras consomem em uma hora a mesma quantidade de água que consumiríamos em 20 anos. Sem contar que durante a construção de suas obras, elas contaminam tanto que por onde passam não nascem mais árvores. Não existe megamineração verde. Os rejeitos químicos que utilizam duram mais de um século no ar, causando inúmeras enfermidades.

É contra isso que nos opusemos. Denunciamos a cumplicidade do governo com as transnacionais. Nossos protestos são criminalizados e nossas comunidades foram militarizadas. Alguns de nossos líderes foram processados e outros foram até mesmo encarcerados por 50 dias, a fim de desintegrar nosso movimento. Esta repressão já dura cinco anos.

Ainda agora, apesar do momento sociopolítico que o país atravessa, o governo já entregou três concessões mineradoras a estas transnacionais, interessadas no ouro ali existente. Os policiais e os paramilitares têm luz verde para assassinar. Em 19 de abril, começaram a assassinar os jovens universitários. A verdade é que não estamos de acordo com isso. Ao final, trataram de implementar o medo, pois sabem que seguiremos nos manifestando.

Decidi fazer parte desta caravana. Sou mulher, mãe de três filhos, e não estou de acordo com a maneira pela qual o governo cada vez mais reprime com crueldade. Nós não podemos ficar calados. Graças a esta situação, decidimos nos organizarmos, pondo a nossa vida e a vida de nossas famílias em perigo. Precisamos denunciar este governo, pois existe uma campanha de desinformação por parte dele. Dizem que somos uma “direita golpista”. Nós somos parte do povo da Nicarágua e queremos viver em paz e com justiça.

Queremos democracia! Ao final o governo acabou por criar muitas leis que nos deixou vulneráveis. Estas transnacionais não fazem uma consulta prévia, não há estudos de impactos ambientais na Nicarágua. No ano passado, aprovou-se uma lei que isentava as transnacionais de fazerem estudos de impactos ambientais. E o dano ao meio ambiente é irreversível. Uma vez que essas empresas se instalam em nossos territórios, gastam a nossa água, além de contaminá-la, o que nos afeta bastante.

Estamos pedindo a solidariedade internacional e o pronunciamento de todos. As três transnacionais são de origem canadense e muitos países travam relações comerciais com ela, acreditando que elas “cumprem” suas responsabilidades sócio ambientais. Mas elas descumprem tudo! Na Nicarágua, ninguém respeito nossos direitos. Por isso, vamos para as ruas expressar nossa voz, pois é a única maneira que temos de protestar. E o governo reprime com crueldade. É uma situação difícil para todos os nicaraguenses que a repressão seja cada vez maior e que os assassinatos sejam cada vez mais frequentes.

É preciso que cresça essa rede de solidariedade. Vocês precisam estar informados para denunciar esta situação. Precisamos encontrar uma estratégia para a saída pacífica de nossos problemas. Vivemos muitas guerras, tivemos muitas mortes, perdemos muito sangue, e já não queremos mais seguir nisso.

Obrigada!”

Discurso proferido no Rio de Janeiro, em setembro de 2018. Transcrição de Charles Rosa para o Portal da Esquerda em Movimento


Parlamentares do Movimento Esquerda Socialista (PSOL)

Capa da última edição da Revista Movimento
“Enquanto os efeitos sanitários e econômicos da Covid-19 seguem fazendo-se sentir, escancarando a crise global do capitalismo, as lutas na América Latina começam a apresentar importantes conquistas no enfrentamento da extrema-direita continental. Na Bolívia, após meses de enfrentamentos e mobilização popular, a contundente vitória da chapa do MAS pôs fim ao governo ilegítimo e reacionário de Jeanine Áñez. No Chile, após as multitudinárias manifestações de 2019, o plebiscito levou a uma vitória esmagadora em favor de uma nova constituição elaborada por assembleia exclusiva. Na campanha eleitoral estadunidense em curso, está em jogo a possibilidade de derrotar o trumpismo, que anima movimentos neofascistas e racistas naquele país e em todo o mundo. Ao mesmo tempo, as eleições municipais brasileiras abrem a possibilidade de construir uma alternativa nas cidades que contribua para isolar e derrotar o bolsonarismo. A décima oitava edição da Revista Movimento debruça-se sobre esses processos de mobilização nas ruas e de enfrentamento eleitoral em curso”.