O golpe mortal que se avizinha para a democracia síria
Imagem da cidade de Aleppo, em 2013 - Jérôme Sessini

O golpe mortal que se avizinha para a democracia síria

O regime sírio está decidido a reconquistar todo o território que perdeu.

Leila Al-Shami 18 set 2018, 18:52

O regime sírio está decidido a reconquistar todo o território que perdeu. Auxiliado por bombardeiros russos e pelas tropas iranianas, o governo do presidente Bashar al-Assad prepara-se agora para atacar Idlib, a última província fora do seu controlo. Artigo de Leila Al-Shami.

O regime sírio está decidido a reconquistar todo o território que perdeu. Auxiliado por bombardeiros russos e pelas tropas iranianas, e encorajado pelo êxito que teve ao aterrorizar até à submissão as populações de Guta e Daraa, o governo do presidente Bashar al-Assad prepara-se agora para atacar Idlib, a última província fora do seu controlo. Idlib é lar de cerca de três milhões de pessoas, metade delas deslocadas, ou evacuadas à força, para a província, vindas de outros lugares. Muitas estão amontoadas em acampamentos insalubres ou dormem ao ar livre.

Nos últimos dias, as tropas do regime concentraram-se na fronteira de Idlib e panfletos foram jogados em áreas residenciais pedindo à população síria que aceite a “reconciliação” ou assuma as consequências. Entretanto, a Rússia envia reforços para a sua base naval em Tartus.

A troika síria, Rússia, Irão e Turquia, designou no ano passado Idlib como uma “zona de desescalada”. Mas o que ali venha a acontecer brevemente poderá minar o acordo até agora mutuamente benéfico entre os três países.

A desescalada em Idlib serve os interesses da Turquia: mantém tanto a população curda síria quanto o regime de Assad longe da fronteira, preserva a relevância da Turquia para um acordo a longo prazo e abriga os sírios que, de outra forma, tentariam juntar-se aos 3,5 milhões de refugiados que já estão na Turquia. A Turquia demonstrou o seu compromisso ao estabelecer postos de observação em toda a província e ao estabelecer a Frente de Libertação Nacional, um amálgama do Exército Livre e das milícias islâmicas que seguem as ordens turcas. Por outro lado, a Rússia e o Irão consideraram sempre as zonas de desescalada como sendo táticas e temporárias. Da mesma forma que Daraa e Guta foram abandonadas, (esperam que) Idlib regresse ao controlo de Assad.

O regime sírio e seus aliados justificam o ataque iminente ao Idlib dizendo que querem erradicar os jihadistas. O Hay’at Tahrir Al Sham, liderado pela Frente Nusra, ligada à Al Qaeda, domina cerca de 60% da província e estima-se que tenha cerca de 10 mil combatentes, segundo Staffan de Mistura, enviado especial da ONU na Síria. As repetidas descrições de Idlib como um “foco terrorista” dão força à narrativa do regime de que toda a oposição ao seu governo é composta por grupos terroristas; e também isenta a comunidade internacional de qualquer responsabilidade de proteger os civis.

Mas esta caracterização da província é imprecisa. O povo de Idlib tem estado na vanguarda da luta contra o Hay’at Tahrir Al Sham (HTS) desde a libertação do regime do Idlib, em parte em 2012 e depois totalmente em 2015, e muitos dos cidadãos trabalharam para construir uma sociedade livre que refletisse os valores da revolução. Segundo investigadores, foram criados mais de 150 conselhos locais para gerir serviços básicos na província e muitos organizaram as primeiras eleições livres em décadas. A sociedade civil, reprimida por muito tempo, testemunhou um renascimento. Foram criados meios de comunicação independentes, como a popular Radio Fresh, para desafiar o monopólio do regime sobre a informação. Os centros de mulheres foram aumentados, permitindo-lhes participar na política e na economia.

O HTS ameaçou estas conquistas duramente alcançadas. O grupo tentou integrar-se junto da população local. Desde a queda de Aleppo, em 2016, que o HTS intensificou as suas tentativas de impor a sua ideologia ao tomar conta das instituições locais e estabelecer os tribunais da Sharia. Foram implacáveis com aqueles que considerava seus opositores. Em dezembro, prenderam quatro proeminentes ativistas refugiados de Madaya para Idlib, acusados aparentemente de “trabalho mediático contra a HTS”. Raed Fares, um dos fundadores da Rádio Fresh, sobreviveu a uma tentativa de assassinato, tal como Ghalya Rahal, que estabeleceu a Organização Mazaya, que gere oito centros de mulheres. A luta entre o HTS e outros grupos rebeldes matou muitos civis e criou uma avalanche de assassinatos e sequestros com pedido de resgate deixaram a população local com medo e raiva.

Os sírios não arriscaram as suas vidas e se revoltaram contra a ditadura de Assad para a substituir por outra. Muitos conselhos locais emitiram declarações rejeitando a autoridade do HTS no governo local ou declarando a sua neutralidade na luta entre grupos rebeldes. Centenas de ativistas locais coordenaram a oposição ao controlo do HTS e pediram a desmilitarização das suas comunidades através de campanhas mediáticas e manifestações públicas. De forma corajosa, substituíram a bandeira negra jihadista pela bandeira da revolução. Em abril, o pessoal médico manifestou-se contra as lutas internas e o sequestro. As mulheres organizaram-se contra os editais discriminatórios do HTS, como a imposição dos rígidos códigos de vestuário e a necessidade de as viúvas residirem com um parente próximo do sexo masculino.

A reconquista pelo regime de Guta, Daraa e de outras áreas foi acompanhada por graves violações dos direitos humanos. Houve ondas de prisões daqueles que foram considerados dissidentes Homens foram recrutados à força para o exército do regime. Muitos foram forçados a assinar documentos onde declaravam não participar em protestos ou atividades contrárias ao regime e foram pressionados a apresentar informações sobre grupos rebeldes. Jornalistas, trabalhadores humanitários e ativistas da oposição vivem com medo de serem atacados.

A reconquista do Idlib levaria indubitavelmente às mesmas consequências. O ativismo civil, que opera em plena luz do dia, seria esmagado e as promissoras experiências democráticas seriam erradicadas, permitindo que os extremistas prosperassem no escuro.

Enquanto uma sociedade civil forte é um dos melhores defensores contra a disseminação do extremismo, as campanhas de bombardeamento e o terrorismo de estado podem aumentar o apelo popular dos grupos jihadistas. No entanto, hoje, os principais financiadores da sociedade civil síria, como os Estados Unidos da América e a Grã-Bretanha, estão a retirar fundos às organizações sírias em Idlib por receio de este vir a cair nas mãos de terroristas. Dada a enormidade da crise humanitária que provavelmente ocorrerá, é provável que a retirada da assistência tão necessária agrave ainda mais o sofrimento da população.

O pior de tudo é que há um crescente consenso internacional de que o regime é a melhor solução para a devastação que causou. A comunidade internacional está agora a mudar o seu foco para a reconstrução, reabilitando o regime ao recompensar os responsáveis pela devastação do país e ao pressionar a população refugiada a regressar a um país onde a sua segurança está longe de estar garantida.

O povo de Idlib sabe que provavelmente será abandonado a um destino semelhante ao dos seus compatriotas de Daraa e Guta. E a raiva cresce face à traição das supostas forças democráticas, já profundamente enraizada. Os moradores entendem que aqueles que preferem a “estabilidade” a qualquer preço vêem a sua resistência contínua como um inconveniente. Mas o regresso ao controlo do regime em Idlib não levará à paz, muito menos à estabilidade. Irá erradicar a alternativa democrática à tirania, deixando os jihadistas, que prosperam na violência, opressão e ocupação estrangeira, como os últimos a ficar de pé, para constituir uma ameaça a longo prazo à região e ao mundo.

Reprodução da tradução do esquerda.net de artigo publicado no New York Times


Parlamentares do Movimento Esquerda Socialista (PSOL)

Capa da última edição da Revista Movimento
Na 16ª edição, estão disponíveis dois dossiês. No primeiro, sobre o ecossocialismo, podem-se se encontrar as recentes teses de Michael Löwy, além de uma entrevista com o sociólogo e dirigente da IV Internacional. Também publicamos uma entrevista com Zé Rainha, dirigente da FNL, sobre sua trajetória de luta e os desafios dos socialistas no Brasil; uma entrevista com Antônia Cariongo, dirigente quilombola e do PSOL-MA; e artigos de Luiz Fernando Santos, sobre a lógica marxista e a Amazônia, e de Marcela Durante, do Setorial Ecossocialista do PSOL. O segundo dossiê traz algumas análises iniciais sobre a pandemia de coronavírus. Há artigos de Mike Davis e Daniel Tanuro; documentos do MES e do Bureau da IV Internacional; além de uma densa análise de nossas companheiras Evelin Minowa, Joyce Martins, Luana Alves, Natália Peccin Gonçalves, Natalia Pennachioni e Vanessa Couto e de um artigo do camarada Bruno Magalhães. A seção de depoimentos traz um instigante artigo de Pedro Fuentes sobre a história de seu irmão Luis Pujals, o primeiro desaparecido político da história da Argentina. Já a seção internacional traz uma análise do sociólogo William I. Robinson sobre a situação latino-americana.