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O golpe mortal que se avizinha para a democracia síria

O regime sírio está decidido a reconquistar todo o território que perdeu.

Imagem da cidade de Aleppo, em 2013 - Jérôme Sessini
Imagem da cidade de Aleppo, em 2013 - Jérôme Sessini

O regime sírio está decidido a reconquistar todo o território que perdeu. Auxiliado por bombardeiros russos e pelas tropas iranianas, o governo do presidente Bashar al-Assad prepara-se agora para atacar Idlib, a última província fora do seu controlo. Artigo de Leila Al-Shami.

O regime sírio está decidido a reconquistar todo o território que perdeu. Auxiliado por bombardeiros russos e pelas tropas iranianas, e encorajado pelo êxito que teve ao aterrorizar até à submissão as populações de Guta e Daraa, o governo do presidente Bashar al-Assad prepara-se agora para atacar Idlib, a última província fora do seu controlo. Idlib é lar de cerca de três milhões de pessoas, metade delas deslocadas, ou evacuadas à força, para a província, vindas de outros lugares. Muitas estão amontoadas em acampamentos insalubres ou dormem ao ar livre.

Nos últimos dias, as tropas do regime concentraram-se na fronteira de Idlib e panfletos foram jogados em áreas residenciais pedindo à população síria que aceite a “reconciliação” ou assuma as consequências. Entretanto, a Rússia envia reforços para a sua base naval em Tartus.

A troika síria, Rússia, Irão e Turquia, designou no ano passado Idlib como uma “zona de desescalada”. Mas o que ali venha a acontecer brevemente poderá minar o acordo até agora mutuamente benéfico entre os três países.

A desescalada em Idlib serve os interesses da Turquia: mantém tanto a população curda síria quanto o regime de Assad longe da fronteira, preserva a relevância da Turquia para um acordo a longo prazo e abriga os sírios que, de outra forma, tentariam juntar-se aos 3,5 milhões de refugiados que já estão na Turquia. A Turquia demonstrou o seu compromisso ao estabelecer postos de observação em toda a província e ao estabelecer a Frente de Libertação Nacional, um amálgama do Exército Livre e das milícias islâmicas que seguem as ordens turcas. Por outro lado, a Rússia e o Irão consideraram sempre as zonas de desescalada como sendo táticas e temporárias. Da mesma forma que Daraa e Guta foram abandonadas, (esperam que) Idlib regresse ao controlo de Assad.

O regime sírio e seus aliados justificam o ataque iminente ao Idlib dizendo que querem erradicar os jihadistas. O Hay’at Tahrir Al Sham, liderado pela Frente Nusra, ligada à Al Qaeda, domina cerca de 60% da província e estima-se que tenha cerca de 10 mil combatentes, segundo Staffan de Mistura, enviado especial da ONU na Síria. As repetidas descrições de Idlib como um “foco terrorista” dão força à narrativa do regime de que toda a oposição ao seu governo é composta por grupos terroristas; e também isenta a comunidade internacional de qualquer responsabilidade de proteger os civis.

Mas esta caracterização da província é imprecisa. O povo de Idlib tem estado na vanguarda da luta contra o Hay’at Tahrir Al Sham (HTS) desde a libertação do regime do Idlib, em parte em 2012 e depois totalmente em 2015, e muitos dos cidadãos trabalharam para construir uma sociedade livre que refletisse os valores da revolução. Segundo investigadores, foram criados mais de 150 conselhos locais para gerir serviços básicos na província e muitos organizaram as primeiras eleições livres em décadas. A sociedade civil, reprimida por muito tempo, testemunhou um renascimento. Foram criados meios de comunicação independentes, como a popular Radio Fresh, para desafiar o monopólio do regime sobre a informação. Os centros de mulheres foram aumentados, permitindo-lhes participar na política e na economia.

O HTS ameaçou estas conquistas duramente alcançadas. O grupo tentou integrar-se junto da população local. Desde a queda de Aleppo, em 2016, que o HTS intensificou as suas tentativas de impor a sua ideologia ao tomar conta das instituições locais e estabelecer os tribunais da Sharia. Foram implacáveis com aqueles que considerava seus opositores. Em dezembro, prenderam quatro proeminentes ativistas refugiados de Madaya para Idlib, acusados aparentemente de “trabalho mediático contra a HTS”. Raed Fares, um dos fundadores da Rádio Fresh, sobreviveu a uma tentativa de assassinato, tal como Ghalya Rahal, que estabeleceu a Organização Mazaya, que gere oito centros de mulheres. A luta entre o HTS e outros grupos rebeldes matou muitos civis e criou uma avalanche de assassinatos e sequestros com pedido de resgate deixaram a população local com medo e raiva.

Os sírios não arriscaram as suas vidas e se revoltaram contra a ditadura de Assad para a substituir por outra. Muitos conselhos locais emitiram declarações rejeitando a autoridade do HTS no governo local ou declarando a sua neutralidade na luta entre grupos rebeldes. Centenas de ativistas locais coordenaram a oposição ao controlo do HTS e pediram a desmilitarização das suas comunidades através de campanhas mediáticas e manifestações públicas. De forma corajosa, substituíram a bandeira negra jihadista pela bandeira da revolução. Em abril, o pessoal médico manifestou-se contra as lutas internas e o sequestro. As mulheres organizaram-se contra os editais discriminatórios do HTS, como a imposição dos rígidos códigos de vestuário e a necessidade de as viúvas residirem com um parente próximo do sexo masculino.

A reconquista pelo regime de Guta, Daraa e de outras áreas foi acompanhada por graves violações dos direitos humanos. Houve ondas de prisões daqueles que foram considerados dissidentes Homens foram recrutados à força para o exército do regime. Muitos foram forçados a assinar documentos onde declaravam não participar em protestos ou atividades contrárias ao regime e foram pressionados a apresentar informações sobre grupos rebeldes. Jornalistas, trabalhadores humanitários e ativistas da oposição vivem com medo de serem atacados.

A reconquista do Idlib levaria indubitavelmente às mesmas consequências. O ativismo civil, que opera em plena luz do dia, seria esmagado e as promissoras experiências democráticas seriam erradicadas, permitindo que os extremistas prosperassem no escuro.

Enquanto uma sociedade civil forte é um dos melhores defensores contra a disseminação do extremismo, as campanhas de bombardeamento e o terrorismo de estado podem aumentar o apelo popular dos grupos jihadistas. No entanto, hoje, os principais financiadores da sociedade civil síria, como os Estados Unidos da América e a Grã-Bretanha, estão a retirar fundos às organizações sírias em Idlib por receio de este vir a cair nas mãos de terroristas. Dada a enormidade da crise humanitária que provavelmente ocorrerá, é provável que a retirada da assistência tão necessária agrave ainda mais o sofrimento da população.

O pior de tudo é que há um crescente consenso internacional de que o regime é a melhor solução para a devastação que causou. A comunidade internacional está agora a mudar o seu foco para a reconstrução, reabilitando o regime ao recompensar os responsáveis pela devastação do país e ao pressionar a população refugiada a regressar a um país onde a sua segurança está longe de estar garantida.

O povo de Idlib sabe que provavelmente será abandonado a um destino semelhante ao dos seus compatriotas de Daraa e Guta. E a raiva cresce face à traição das supostas forças democráticas, já profundamente enraizada. Os moradores entendem que aqueles que preferem a “estabilidade” a qualquer preço vêem a sua resistência contínua como um inconveniente. Mas o regresso ao controlo do regime em Idlib não levará à paz, muito menos à estabilidade. Irá erradicar a alternativa democrática à tirania, deixando os jihadistas, que prosperam na violência, opressão e ocupação estrangeira, como os últimos a ficar de pé, para constituir uma ameaça a longo prazo à região e ao mundo.

Reprodução da tradução do esquerda.net de artigo publicado no New York Times

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Apresentação

Apresentamos uma revista especial sobre os 50 anos do Maio de 1968 com o orgulho de herdar uma tradição. Assim como a Comuna de 1871, a Revolução Russa de 1917 e as lutas contra as ditaduras na América Latina, consideramo-nos parte deste excepcional movimento mundial de luta política, protagonizado por jovens e trabalhadores de várias partes do mundo, como nas famosas barricadas de Paris. Consideramos suas lições e sua potência como atuais. Boa parte dos leitores da Revista Movimento participaram ativamente das Jornadas de Junho de 2013 em nosso país. Aos cinco anos deste acontecimento, queremos contribuir para o encontro e a síntese de tão distantes e ao mesmo tempo tão próximas gerações.

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