Revista Movimento Movimento Movimento: crítica, teoria e ação

“Os assassinatos acontecem rotineiramente na favela. Marielle foi o ápice da expressão da violência”

Em entrevista publicada pelo esquerda.net, viúva de Marielle trata de sua luta politica travada desde a morte da vereadora.

Joana Mortágua entrevista Mônica Benício em Lisboa
Joana Mortágua entrevista Mônica Benício em Lisboa

A deputada bloquista Joana Mortágua entrevistou Mônica Benício, ativista de direitos humanos e viúva de Marielle Franco, que veio a Portugal no âmbito da campanha internacional “Justiça por Marielle”, sobre a situação política no Brasil e o estado da investigação do assassinato de Marielle. A entrevista pode ser lida aqui e o vídeo está em baixo.

Em que estado é que está a investigação no Brasil pelo assassinato de Marielle?

É difícil sabermos em que estado está a investigação hoje, porque está em sigilo e, dada a natureza do assassinato da Marielle, é importante que seja sobre sigilo. Eu consigo entender isso, a família consegue entender isso, o problema é que o Estado e os órgãos competentes pela investigação, não se posicionam de forma nenhuma. Temos que deixar claro a diferença entre o sigilo e o silêncio que o Estado brasileiro hoje aplica sobre essas investigações. Não conseguimos saber em que ponto está, tudo o que é público sobre as investigações chega através da mídia como uma fuga de informação. Nenhum tipo de autoridade competente se chega a pronunciar sequer para dizer se é verdade ou mentira o que anda a ser revelado.

Eu acabo a acompanhar o caso nos bastidores, com reuniões com as autoridades competentes e os delegados, mas sempre num movimento em que eu vou procurar, ninguém chega para dar algum tipo de satisfação. Esse silêncio é muito constrangedor. E por isso essa campanha internacional, é uma forma de encontrar força para pressionar o Estado brasileiro, não só pelo resultado em si, que é muito importante, mas para que a gente tenha algum tipo de acompanhamento das investigações, para ter a sensação de que o caso está realmente a ser investigado, de que realmente é um processo sério. Com muita vergonha, eu tenho que dizer que eu não sei em que ponto está a investigação hoje.

E o maior medo é que dessa investigação não encontrem os culpados?

Na verdade, o meu maior medo não é necessariamente que não encontrem os culpados, porque o Brasil hoje deve essa satisfação ao mundo, o caso da Marielle transbordou as fronteiras do Brasil. O Brasil hoje passa uma vergonha mundial, estando há mais de seis meses sem resposta para esse crime que foi uma barbárie. Eu acredito que o Estado brasileiro vá dar essa satisfação, porque deve essa satisfação não só a mim, mas ao mundo, sobre o que aconteceu a 14 de março. Mas o meu maior medo é que isso seja feito de forma leviana e que a gente não consiga chegar ao culpado especificamente, ao real culpado disso, mas que nos seja entregue uma resposta, qualquer resposta, a fim de nos silenciar e dar o caso por encerrado.

Que poderes dominam o Brasil hoje e que politicamente, simbolicamente, estão por detrás dessa violência? Como é que isso está ligado à intervenção federal nas favelas, qual é o clima de violência que hoje se vive no Brasil e que está relacionado com o assassinato da Marielle?

Hoje o Brasil tem uma conjuntura e um contexto político muito delicado e complicado. Marielle é executada logo depois de ter começado no Rio uma intervenção federal de caráter militar. Temos hoje a segurança pública do Estado do Rio de Janeiro entregue aos militares e os assassinatos acontecem rotineiramente dentro da favela. Uma parlamentar executada no centro da cidade, no centro da capital, às 9h da noite, voltando do trabalho, isso tem uma outra conjuntura, e temos de entender o que a Marielle representava, por ser mulher negra, favelada, lésbica, e o que era ter essa mulher a ocupar um cargo de poder, com a força e a projeção política que ela tinha. O assassinato de Marielle é uma resposta dessa política que temos hoje, dizendo que não aceita pessoas com o perfil da Marielle disputado o espaço de poder, um espaço composto e dominado por homens brancos, heterossexuais, fundamentalistas, racistas, LGBTfóbicos. É uma agressão à democracia muito clara, com uma mensagem muito clara, de uma tentativa de silenciamento, uma tentativa de reforço dessa segregação histórica que sempre tivemos.

Não tenho dúvidas que o crime de Marielle foi um assassinato político, foi um crime político, é que crime que envolve, segundo o que conseguimos ver pelos apontamentos da investigação, a participação de agentes do Estado, a participação de uma figura política e o mais preocupante é que quem articulou isso é uma pessoa muito poderosa que se julga acima do bem e do mal. Ao ponto de assassinar não só tudo o que Marielle representava. O Estado está acostumado a assassinar, mas assassinar uma mulher parlamentar, não é comum. É o ápice da expressão da violência. E, olhando para o cenário político que temos hoje no Brasil, com a democracia frágil que temos, que diariamente está a ser retirada, essa conjuntura política dentro desse momento em que estamos a participar numas eleições presidenciais e com uma onda de fascismo e conservadorismo muito grande crescendo, tudo isso, de certa forma, se reflete no que aconteceu a 14 de março.

Há, na resistência a essa onda de fascismo, uma emergência do movimento de mulheres, muito inspirada no exemplo de luta da Marielle, com o movimento de mulheres contra Bolsonaro, o “Ele Não!”. Como é que essa campanha surgiu?

O movimento feminista na América Latina como um todo e no Brasil também, tem vindo a crescer nos últimos anos de forma considerável, e o movimento feminista é hoje o nosso principal movimento. Há outros movimentos tradicionais no Brasil, que ainda são fortes, mas o mais ativo hoje, o que tem ocupado as ruas com mais força é, sem dúvida, o movimento feminista. Na campanha eleitoral de Marielle, o movimento já se colocou na construção desse cenário. A expressividade de votos que Marielle teve na sua primeira campanha, já foi uma resposta do que a sociedade carioca estava a querer, e já não estava mais a aceitar esse modelo da velha política. Ver a projeção que Marielle teve depois da morte é surpreendente e, se conseguirmos ver alguma coisa que não seja só dor neste contexto, vemos, sem dúvida, essa rede de solidariedade, de empatia e a força e resistência que a mulheres têm tido, e que é mundial.

Quanto à Marielle ser mais um dos símbolos dessa luta, ela por si só não é o símbolo, era uma luta da qual ela já fazia parte. Mas ver a imagem de Marielle ter algum tipo de projeção nisso é muito bonito. Esse movimento contra esse senhor que eu me recuso a dizer o nome, o do “Ele Não!”, é maravilhoso. Conseguimos alcançar em menos de uma semana dois milhões e meio de mulheres, articuladas em grupos de redes sociais, fazendo essa onda “Ele Não!” para dizer que não aceitaremos um homem fascista, machista a tomar a presidência da República. É maravilhoso estar assistindo a isso, porque isso dá esperança de que possamos estar a assistir a um novo modelo de sociedade.

E essa derrota do fascismo também é a esperança da justiça no caso da Marielle. Sem um Brasil democrático, sem um Brasil capaz de olhar para as suas feridas e capaz de as encarar com uma resposta democrática, nunca haverá justiça para a Marielle, e isso é um dos objetivos que te traz à Europa. Para terminar, queria perguntar-te pela importância desse apelo internacional, dessa solidariedade, dessa intervenção que pode ser feita a partir de Portugal para o Brasil. O que é que nós temos de exigir às autoridades brasileiras?

Eu acho que, sem dúvida, é o “Justiça por Marielle”, a resposta sobre o que aconteceu. Não só quem matou, quem executa a operação toda, mas sobretudo quem mandou matar. Qual foi a articulação, qual foi a motivação desse crime. Essa campanha internacional é muito importante porque na construção social da própria história do Brasil, olhando para crimes semelhantes ao da Marielle, quando há a participação de agentes do Estado, quando há figuras políticas envolvidas, não se costuma investigar, ou não se chega ao resultado correto. Fazer essa pressão mundial sobre o Estado brasileiro é uma forma de dizer que não aceitaremos mais a barbárie. Que o caso de Marielle, não só por ser Marielle, mas por toda a violência e por tudo o que ela representava nas próprias lutas, ainda em vida, que não vamos mais aceitar esse tipo de violência, e que 14 de março foi um dia divisor de águas, e dizemos: “não aceitaremos mais a barbárie”. Essa solidariedade mundial é importante para fazer pressão sobre o Estado brasileiro, para dizer “párem de nos matar”, “respondam ao que aconteceu com Marielle”, porque isso é um dever democrático da sociedade brasileira hoje.

E é um dever de todas as mulheres também, e é por isso que a Mônica, eu e mulheres de todo o mundo vão estar no dia 29 de setembro nas concentrações do #EleNão.

Ocupando as ruas, todas juntas, porque somos muitas e ele não será eleito, não o podemos admitir. No Brasil fizemos um movimento maravilhoso, conseguimos derrubar o Eduardo Cunha, e tenho a profunda certeza que faremos isso de novo. É um movimento mundial, estamos todos preocupados não só pelo Brasil, mas pela vida de todas as mulheres, isso é fundamental, vamos caminhar juntas para dar essa resposta nas ruas.

Entrevista realizada para o esquerda.net

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Apresentação

Publicamos a décima edição de nossa Revista Movimento. Dessa vez, celebramos os 80 anos de fundação da IV Internacional, comemorados em setembro de 2018, com uma seção especial. Há, também, artigos na seção internacional e de teoria. Fechamos esta edição quando a eleição brasileira se encerrava. Como não poderia deixar de ser, nesta décima edição de Movimento, apresentamos nossas primeiras análises sobre os resultados eleitorais. Sabemos que a vitória de Jair Bolsonaro trará graves ataques à classe trabalhadora e ao povo brasileiro. Estaremos com nosso povo, lutando em defesa das liberdades democráticas e de nossos direitos. Mais uma vez, esperamos que a revista seja uma ferramenta útil de construção e formação para nossos camaradas. Boa leitura!

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