Revista Movimento Movimento Movimento: crítica, teoria e ação

Por que a raiva das mulheres é percebida como uma ameaça?

Em entrevista, ensaísta feminista estadunidense discute as desigualdades sociais de gênero no tratamento da raiva.

"Medusa Murtola",  Michelângelo Caravaggio, 1597.
"Medusa Murtola", Michelângelo Caravaggio, 1597.

A senhora é autora de “Rage Becomes Her: The Power of Women’s Anger” (Atria Books, 400 páginas, sem tradução ao português). Muitos outros livros sobre o poder da raiva das mulheres são publicados ao mesmo tempo que o seu. Estamos mudando nossa visão sobre essa questão?

Na cultura ocidental, a raiva das mulheres foi sempre associada à irracionalidade, à loucura, à inaptidão em raciocinar. Para os homens, é diferente: ela é vista como uma virtude. Durante a eleição presidencial estadunidense, Donald Trump e Bernie Sanders puderam, assim, mostrar em cena e bater sobre o púlpito com o ar raivoso. Hillary Clinton, por outro lado, precisava permanecer calma, sob controle, e ela pagou o preço disso – ela foi julgada como “inautêntica”. As mulheres sabem que se elas quiserem aparecer ao mesmo tempo criveis e autoritárias, o caminho é estreito. Vimos isso durante as audições, no Senado, a respeito da nominação para a Suprema Corte do juiz Brett Kavanaugh: se sua acusadora, Christine Blasey Ford, tivesse mostrado a mesma raiva que ele, ela teria sido tida como totalmente indigna de confiança.

As mulheres só podem estar com raiva quando elas estão no “seu lugar”: a raiva da mulher que defende seus filhos ou de uma professora que se zanga é respeitável, mas a de uma mulher que se exprime nos domínios historicamente reservados aos homens, como a política ou o trabalho, é penalizante. Diz-se normalmente às feministas, como eu, que é preciso “voltar para a cozinha”: isso me faz rir, porque o campo lexical da raiva é o da cozinha! A “raiva bunda” (colère bout), a “panela de pressão explode”, essas palavras vêm todas da experiência das mulheres. Em períodos de problemas econômicos, sociais e políticos, as mulheres, contudo, tiveram sempre mais espaço para exprimir sua raiva e agir enquanto cidadãs políticas. Porém, nós vivemos uma fase de autoritarismo que se constrói ao redor de uma contestação de sentimentos negativos, de medo, de desprezo, que são muito ligados à raiva, e que gera uma raiva desesperada, um ressentimento furioso.

Como o fator racial atua na percepção da raiva?

Nos Estados Unidos, a raiva dos homens negros é imediatamente associada à criminalidade. Porque eles são muito mais expostos às violências policiais que os brancos eles sabem que a raiva é arriscada: ela é percebida como uma ameaça. Imagine se Barack Obama se mostrasse com raiva! Ele permaneceu todo o tempo calmo, postado, mesmo se estivesse furioso. Para as mulheres negras, é a mesma cosia: se elas afirmam suas opiniões com certeza demais, elas são reprimidas como sendo as “angry black women” – é o estereótipo que serve para fazê-las calarem-se. Desde a infância, a raiva de um pequeno menino branco será considerada como natural – se deduzirá que ele tem as aptidões de liderança – enquanto que as pequenas meninas negras rebeldes serão punidas e expulsas da escola mais comumente, proporcionalmente, que eles. Essa separação entre a raiva e a feminilidade desarma as mulheres. É uma pena já que a raiva é um sinal: ela mostra que um limite foi ultrapassado, que uma justiça foi cometida. Dizer “eu estou com raiva” é um primeiro passo. Diz-se, em seguida: “é preciso mudar as coisas”.

A raiva das mulheres é necessariamente progressista?

Historicamente, não: a raiva das mulheres brancas foi um fermento à opressão racial, e hoje ela faz parte integrante da “supremacia branca”. Desse modo, antes das eleições de 2016, os estudos mostravam que as mulheres brancas, em particular as conservadoras, mostravam o mais alto nível de ressentimento e de agressividade do país. Donald Trump foi eleito, as coisas então mudaram: a raiva passou do lado das mulheres progressistas. A eleição de Trump galvanizou mulheres que, até aquele momento não reclamavam de sua situação já que elas tomaram consciência que elas estavam ameaçadas. O Partido Republicano defende um sistema politico que foi construído por uma elite masculina branca. Se pegarmos como referência a participação das mulheres nos governos dos republicanos, os Estados Unidos se situam ao redor da 130ª posição no raking mundial em termos de paridade! Contudo, a raiva das mulheres não pôde impedir a nominação do juiz Kavanaugh à Corte Suprema. Sua confirmação é um golpe que as afetará ao longo de gerações.

Entrevista realizada por Valentine Faure e publicada edição de 15 de outubro do jornal Le Monde.

Movimento - Crítica, teoria e ação

Apresentação

Publicamos a décima edição de nossa Revista Movimento. Dessa vez, celebramos os 80 anos de fundação da IV Internacional, comemorados em setembro de 2018, com uma seção especial. Há, também, artigos na seção internacional e de teoria. Fechamos esta edição quando a eleição brasileira se encerrava. Como não poderia deixar de ser, nesta décima edição de Movimento, apresentamos nossas primeiras análises sobre os resultados eleitorais. Sabemos que a vitória de Jair Bolsonaro trará graves ataques à classe trabalhadora e ao povo brasileiro. Estaremos com nosso povo, lutando em defesa das liberdades democráticas e de nossos direitos. Mais uma vez, esperamos que a revista seja uma ferramenta útil de construção e formação para nossos camaradas. Boa leitura!

Solzinho

Uma biografia inédita de Stalin escrita por Leon Trotsky Uma biografia inédita de Stalin escrita por Leon Trotsky

Leon Trotsky Joseph Stalin

MES: Movimento Esquerda Socialista MES: Movimento Esquerda Socialista