Revista Movimento Movimento Movimento: crítica, teoria e ação

80 anos da IV Internacional: uma herança para ser defendida com punhos cerrados e cabeça erguida

Uma reconstrução da história da fundação da IV Internacional e do movimento trotskista.

“Que os filisteus continuem buscando sua própria individualidade no vazio; para um revolucionário, doar-se inteiramente ao partido significa encontrar a si mesmo. Sim, nosso partido nos toma por inteiro. Mas, em compensação, nos dá a maior das felicidades, a consciência de participar da construção de um futuro melhor, de levar sobre nossas costas uma partícula do destino da humanidade e de não viver em vão.” – Discurso de Leon Trotsky gravado para a Conferência fundacional da IV Internacional

Nos arredores de Paris, um punhado de quadros comunistas, forjados em largas lutas internas durante a intensa década de 30, davam um passo superior na organização política da vanguarda da classe trabalhadora. Era setembro de 1938. Após a experiência da Oposição de Esquerda Internacional, no calor dos embates contra o stalinismo e o fascismo, às vésperas da II Guerra Mundial, nascia a IV Internacional. Seu dirigente e impulsionador Leon Trotsky teria participação epistolar devido ao exílio e à perseguição a ele impostas. Estava do outro lado do planeta, no calor da Cidade do México, escrevendo intensamente e lutando pela vida, sob o acosso dos homens de Stalin.

Nessas precárias condições, após a morte dos seus principais organizadores, a Conferência Internacional de fundação proclamou sua vitória diante dos que queriam evitá-la: a IV Internacional vivia e lutava. Com a vontade inquebrantável de homens e mulheres, o fio de continuidade com as melhores experiências do movimento operário seria preservado. Mesmo diante de inimigos tão poderosos, o bastão do programa estava a salvo.

Os anos que se passaram – com prognósticos e ânimo de combate distintos entre seus fundadores – foram de desencontros, lutas heroicas e divisões. A defesa da “bandeira sem manchas” só pode ser feita, nos dias de hoje, ao lado da necessidade de um reagrupamento de forças e da atualização do programa. A combinação dialética de ambas tarefas é a mais urgente necessidade subjetiva dos revolucionários nos dias de hoje.

Nesse breve artigo, parte da edição alusiva aos 80 anos da IV Internacional da Revista Movimento, queremos destacar os principais pontos de uma experiência que se confunde com o próprio século XX, para aprendermos com a história e prepararmos as novas gerações para os combates decisivos que virão.

A falência da Internacional Comunista: de fábrica da revolução a aparato policial

A I Grande Guerra Mundial abriu uma nova situação. Por um lado, uma nova época de crises, guerras e revoluções; por outro, a traição final da II Internacional, simbolizada por seu partido mais importante, o SPD alemão, ao votar ao lado da burguesia nacional os créditos de guerra. O levante solitário de Karl Liebknecht no Parlamento alemão não apenas demarcava uma posição de princípios e internacionalista. Era o anúncio da “falência da social-democracia”, processo analisado por Lenin em brochura de mesmo nome.

A principal conquista do proletariado mundial, no impulso da grande Revolução Russa de 1917, foi a constituição de uma forte direção revolucionária. Nos escombros do que havia sido a II Internacional, traidora e reformista, que caiu nos braços do chauvinismo, a força organizada da classe ergueu uma grande ferramenta, comandada por Lenin e a direção bolchevique. Pilar do internacionalismo, a III internacional organizou o que se poderia chamar de “fábrica da revolução”.  

Após a vitória da Revolução, os bolcheviques entendiam que a única forma de conservar e expandir a conquista do poder soviético seria apoiar o desenvolvimento da revolução proletária na Alemanha e nos países centrais da Europa, espalhando pelo planeta a bandeira da tomada do poder pela classe trabalhadora.  Em meio à cruenta guerra civil, Lenin discursava no Congresso fundacional da Internacional Comunista, em março de 1919, homenageando Liebknecht e Rosa Luxemburgo.

Os primeiros anos da Internacional Comunista foram de dedicação plena por parte da direção russa, mesmo diante do já citado esforço de guerra. Na luta contra o oportunismo e o esquerdismo, as seções foram sendo forjadas e discutidas, com a elaboração de teses e programas para a “ação dos comunistas”.  O arsenal teórico e político desenvolvido nos quatro primeiros congressos, de 1919 a 1922, formaram os alicerces da luta revolucionária no século XX. Questões de princípios, como a atuação nos parlamentos, questões das lutas das mulheres e da negritude, o problema da palavra-de-ordem de governo de trabalhadores e a frente única operária.

O retrocesso da onda revolucionária do início dos anos vinte representou uma virada na situação mundial. Com alto custo humano, a guerra civil na Rússia deixou um legado contraditório. A vitória heroica sobre os exércitos brancos consolidou o poder nas mãos do PC e dos sovietes, mas, com o esmagamento da parte mais ativa do proletariado, resultou num retrocesso social. A combinação de esgotamento das forças proletárias no âmbito russo com a derrota da Revolução Alemã trouxe graves consequências para a III Internacional. A morte da figura maior do movimento operário, Vladimir Lenin, foi mais um componente decisivo na desorganização que levaria a distorções.

A partir do ano de 1924, tanto o PC como a III Internacional seriam palcos de embates políticos e teóricos entre a visão que propunha a expansão do processo revolucionário, com base nos organismos da classe, rumo a uma democracia socialista e a visão que apregoava o “socialismo num só país”. O fenômeno da burocratização da URSS encabeçada por Stalin contaminaria de morte a IC, como se verificariam as provas históricas de acontecimentos decisivos na China, Alemanha, França e Espanha.

Na China, a direção da IC – já dominada por Stalin – defendeu a diluição do Partido Comunista num movimento nacionalista burguês, o Kuomitang, pagando com a vida de milhares de ativistas e atrasando a revolução em mais de duas décadas.  Em 1927, depois da derrota da plataforma da Oposição Unificada, Trotsky é expulso do partido.  O caso alemão, contudo, foi o divisor de águas. Até 1933, a luta de Trotsky e da Oposição de Esquerda estava voltada para a retomada dentro dos partidos comunistas das suas posições fundacionais. A linha do PC alemão, definida como “esquerdismo do terceiro período”, era contrária à frente única com a social-democracia. Trotsky responsabilizou essa linha pela ascensão definitiva de Hitler, abrindo o caminho para duros golpes contra a classe trabalhadora alemã. A luta para reformar o partido alemão estava esgotada. Novamente, o país de Marx selava o destino da organização internacional dos trabalhadores.

A deriva da derrota alemã levou a uma escalada de traições e degeneração por parte da III Internacional. Aos poucos, os interesses da construção de uma direção internacionalista, que fosse um suporte para a organização da luta revolucionária em cada país, foram substituídos pelos interesses da casta burocrática da URSS e suas “razões de Estado”.

A política de apoio à Frente Popular na França desarmou por completo o movimento operário, no auge dos embates dos anos trinta. Trotsky e a Oposição de Esquerda se levantaram contra tal traição. No caso da Espanha, a linha do PC foi ainda mais criminosa, como está retratado no lindo filme Terra e Liberdade, de Ken Loach, baseado na brochura de Orwell, Homenagem à Catalunha. O stalinismo atuou para liquidar a resistência republicana, desarmando as brigadas internacionalistas articuladas com a Oposição de Esquerda, como as milícias republicanas do POUM e da CNT/FAI (anarquista).  

O cume do processo de degeneração política e moral da IC acontece dentro do próprio PC soviético. Após anos de luta interna, Stalin e seu aparelho buscam liquidar fisicamente seus opositores. Os “Processos de Moscou” de 1936 condenam à morte e aos campos de concentração opositores, dissidentes e boa parte da velha guarda bolchevique. Tal matança ordenada de opositores articulou-se com diferentes esferas da GPU, da polícia secreta soviética e de seus tentáculos internacionais. A operação para assassinar Andreu Nin foi a antessala dos processos internacionais que culminaram na execução, no México, do maior crime de Stalin, a morte do próprio Leon Trotsky.

A IC concluiria assim, nas palavras de Pierre Broué, sua triste trajetória nas mãos de Stalin: da “atividade política à atividade policial”.

Trotsky e a fundação da IV

A IV internacional foi, sem dúvida, a maior obra da vida de Leon Trotsky. Seus aportes ao movimento operário foram diversos e profundos: primeiro presidente do Soviete de Petrogrado, dirigente da comissão militar responsável pela insurreição de outubro, chefe do Exército Vermelho, escritor, jornalista e historiador. Walter Benjamim considerava o livro Minha vida uma das mais belas obras que tinha lido. Mesmo diante desses prodígios, a fundação da IV foi algo superior.

Ao final dos anos 20, seu destino foi o desterro. Mandado ao exílio em Alma-Ata, no Cazaquistão, em janeiro de 1928, segue para Turquia, onde fica até 1933, passando por França, Noruega e finalmente chegando ao México.

Durante o exílio, Leon Trotsky vai formular sobre a degeneração da URSS, a partir da leitura histórica do processo revolucionário. Sua análise do caráter social da burocracia, da relação entre as grandes potências e da condição subjetiva do proletariado é a mais completa sobre o processo de falência do “socialismo num só país”. Em 1936, publica A Revolução Traída como obra-prima na descrição da abrupta transformação do Estado Operário da URSS.

O desenvolvimento das críticas de Trotsky gerou inúmeros escritos. E quanto à organização propriamente dita, nunca abandonou a necessidade de dar corpo a suas ideias, persistindo, mesmo em condições adversas, na organização da Oposição de Esquerda como forma de lançar as bases para uma nova Internacional. O assassinato de Trotsky, em agosto de 1940, representou um duríssimo golpe para o surgimento de uma direção revolucionária. Trotsky estava concluindo a biografia de Stalin, revelando crimes e deixando nítido seu papel nefasto. Anos mais tarde, a  própria cúpula do PC teve que dar razão aos trotskistas quando foi publicado o relatório Kruschev em 1956. A morte de Trotsky, precoce diante da longevidade do gênio, foi tardia, porém, pensando no objetivo de seus algozes. Trotsky levara adiante e vencera sua mais importante batalha: deu vida à IV Internacional.

A fundação da nova organização foi fruto de amplo debate, tentativas de acordos e fusões. A busca de um acordo inicial uniu diferentes e importantes atores do movimento operário, com a tentativa do bloco dos “4”, como um agrupamento da esquerda comunista por fora dos PCs tradicionais. Tal bloco incluía o RSP holandês, a LCI francesa, o SAP alemão e a ruptura da social-democracia holandesa, o OSP. Outra movimentação foi a que buscou uma localização junto aos quadros norte-americanos. Trotsky chegou a propor uma aproximação com o pastor Abraham Muste, vendo que parte da classe operária e dos negros americanos se organizavam nas igrejas evangélicas. Ao contrário dos críticos que tomam a formação da nova Internacional como um passo sectário, Trotsky e os principais quadros da Oposição de Esquerda Internacional tinham uma linha ampla para a conformação de processos vivos.

Com o avanço da contrarrevolução, quando as derrotas na Alemanha e na França pesavam de forma decisiva, e a perseguição na URSS chegava a níveis insuportáveis, a direção da Oposição de Esquerda Internacional sofreu baixas que desorganizaram a convocação da conferência fundacional. O retrocesso programático com outras formações políticas, como os blocos propostos anteriormente, também foi um revés. O peso do aparato stalinista exercia um fator de atração, atuando sobre grupos centristas. Não restava outra saída que não construir uma conferência que delimitasse teórica e programaticamente para disputar os rumos do movimento operário.

A organização da conferência fundacional, marcada em princípio para 1937, teve de ser adiada em função da repressão que se abateu sobre o centro político europeu da nascente internacional. A infiltração de um membro da GPU (Etienne-Zborowski) levou à morte de dois dos principais dirigentes encarregados das tarefas da Conferência, Erwin Wolf e Leon Sedov, este último o filho e colaborador mais próximo de Trotsky.

A fundação foi um êxito, diante da complexa situação. Trotsky apoiou-se no centro europeu, especialmente na França, e no peso do SWP norte-americano para os primeiros passos da IV. O SWP era o maior partido da Oposição de Esquerda, tendo implantação em setores da classe trabalhadora, como demonstrado na grande greve dos caminhoneiros nos Estados Unidos. A Conferência durou apenas um dia, 3 de setembro de 1938, na casa do casal Romer na periferia parisiense. Vinte e seis delegados presentes representaram 11 das 29 seções, com a participação de Estados Unidos, Bélgica, França, Polônia, Alemanha, Inglaterra, Checoslováquia, Grécia, Cuba, Brasil, Chile, África do Sul, Holanda, Austrália, México e Espanha.  Contabilizaram-se cerca de 6 mil militantes ao redor do planeta, nas atas das delegações. A conferência foi presidida por Pierre Naville, que seria reconhecido anos depois como um grande intelectual e fundador da Sociologia do Trabalho.

Trotsky saudou a Conferência por meio de um discurso gravado, deixando claro os objetivos da nova Internacional: “não queremos mais dinheiro, filiados, deputados”, dizia o velho. “Nosso objetivo é a total libertação, material e espiritual, dos trabalhadores e explorados…”

O Brasil teve a participação por meio de Mário Pedrosa, representante do Partido Operário Leninista. Pedrosa foi parte dos fundadores da antiga Liga Comunista Internacionalista, pioneira do trotskismo no Brasil, implantada entre as células de trabalhadores gráficos de São Paulo. Desde os seus primeiros passos, o trotskismo brasileiro lutou pela frente única, cumprindo papel determinante na batalha da Praça da Sé, quando os integralistas foram derrotados e expulsos da praça, no episódio conhecido como “revoada dos galinhas verdes”. A presença de Mário Pedrosa na fundação da IV, que indicava o peso que as ideias trotskistas teriam na camada mais avançada de trabalhadores brasileiros, jornalistas e intelectuais, orgulha a nossa história. Apesar do afastamento posterior, quando Mário adere às posições antidefensistas da minoria do SWP americano, a história do trotskismo brasileiro é rica. O reconhecimento por tal história transborda as fileiras dos que reivindicam a IV internacional, como se revela na fundação do PT, quando Mário Pedrosa é homenageado com a ficha de filiação número 1.

As três grandes conquistas teóricas e políticas

A fundação da IV representou um passo à frente. O cenário internacional estava ingressando num período de trevas. Era a “meia-noite no século”, como afirmou Victor Serge. A derrota do campo republicano na Espanha e a ascensão do nazi-fascismo desembocariam na maior tragédia da história da humanidade até aqui: a II Guerra Mundial. Tal acontecimento selou o destino da própria IV Internacional, acossada pelo ascenso do nazi-fascismo e pelos métodos contrarrevolucionários que o stalinismo utilizava para liquidar e desmoralizar seus militantes, dos quais o assassinato de Trotsky foi a máxima expressão. Apesar do peso stalinista, de quem era o principal alvo, Trotsky nunca perdeu de vista o caráter do Estado Operário e a necessidade de defender a URSS diante o perigo fascista. Esta foi sua última batalha política com a fração minoritária do SWP, resumida na brochura Em defesa do marxismo.

A IV Internacional, contudo, deixou um legado enorme, apesar de sua orfandade precoce. Podemos falar em três conquistas sólidas que se institucionalizaram com a fundação da IV: o método do Programa de Transição, a teoria da revolução permanente e a defesa do internacionalismo como princípio fundante.

O Programa de Transição como método e referência é uma conquista programática dos revolucionários, sendo o fio de continuidade do programa do Manifesto Comunista, das polêmicas entre os bolcheviques e mencheviques, de Rosa Luxemburgo contra o revisionismo dos reformistas alemães e dos quatro primeiros congressos da IC. Trotsky tomou como base para a discussão o artigo que fez para os “90 anos do Manifesto Comunista”, e toda a atualização fruto da experiência dos combates dos anos 30. O Programa de Transição afirma a necessidade da construção de um forte partido revolucionário mundial, superando a separação entre o programa mínino (as reinvindicações imediatas) e o programa máximo (luta por outro poder, outro Estado).  Assim explica o Programa:

“A social-democracia clássica, que desenvolveu sua ação numa época em que o capitalismo era progressista, dividia seu programa em duas partes independentes uma da outra: o programa mínimo, que se limitava a reformas no quadro da sociedade burguesa, e o programa máximo, que prometia para um futuro indeterminado a substituição do capitalismo pelo socialismo. Entre o “programa mínimo” e o “programa máximo” não havia qualquer mediação. A social-democracia não tem necessidade desta ponte porque de socialismo ela só fala nos dias de festa”.

Ter rompido essa lógica como metodologia ajudou a classe trabalhadora a ganhar confiança em suas próprias forças para evitar cair numa visão reformista ou maximalista, quando se discute o problema do programa. No debate mais geral sobre a estratégia dos comunistas, o aporte da teoria da revolução permanente foi distintivo para a conformação da IV. Trostky foi, ao longo de sua vida, enriquecendo sua visão sobre a revolução, desde seus escritos sobre o ensaio geral de 1905 até a luta pela expansão da onda revolucionária na Europa. Em oposição à visão stalinista de socialismo num só país, adotou a estratégia da revolução permanente, levando em conta os aspectos materiais, da dinâmica entre as classes, das tarefas colocadas para o desenvolvimento histórico de cada país e numa visão mais abrangente da relação de forças entre os países.

A terceira conquista expressa na fundação da IV foi a preservação do internacionalismo como princípio de ação dos revolucionários. Assim como a II internacional sucumbiu ao chuavinismo da I Grande Guerra, a III internacional acabou por substituir as necessidades da classe trabalhadora internacional pelos interesses nacionais da burocracia soviética. O internacionalismo de Lenin e Rosa foi decisivo na luta contra os dirigentes da social-democracia alemã. A tradição revolucionária de Trotsky fez do internacionalismo sua principal bandeira contra a degeneração stalinista. Esse legado a IV recebeu como herança. E o fez transmitindo como fios de continuidade revolucionária ao longo do século XX.

A atualidade de uma bandeira sem manchas

A fundação da IV foi um triunfo numa situação defensiva. Pode-se falar numa vitória dentro da derrota. A situação do movimento operário era desesperadora. E foi se agravando de forma dramática, durante a II Guerra. A morte de Trotsky foi um duríssimo golpe na jovem e incipiente organização. Isso por si só já seria um real motivo de desmonte. O segundo elemento de retrocesso foi que não se confirmou o prognóstico de Trotsky segundo o qual, depois do período contrarrevolucionário, a IV ganharia peso e influência de massas. Após a derrota do nazismo, quem se fortaleceu foram as democracias burguesas e o stalinismo. A IV reduziu-se a alguns núcleos de propaganda dispersos. A geração dos anos 40 teve a responsabilidade de sobreviver, contra a repressão nos campos de concentração, nazistas ou stalinistas, como os que sobreviveram em Vorkuta.

Como a principal demanda era a própria sobrevivência das nossas ideias, o que também prova que a IV foi mais forte do que a liquidação física de seus líderes, o trotskismo tornou-se uma organização defensiva no que diz respeito ao seu programa e sua ação. Isso levou a pequenas disputas entre os diferentes núcleos, falta de uma direção com autoridade e marginalidade no seio do movimento operário internacional. Salvo algumas honrosas exceções, como Bolívia e Ceilão, a maior parte dos partidos ligados à IV não tinha capacidade de disputar a direção do movimento operário em seus países. Isso não quer dizer que não tenham feito esforços heroicos para construir-se ligar-se ao movimento de massas. A direção de Michel Pablo, no começo dos anos 50, cometeu erros de leitura – acreditava, por exemplo, na inevitabilidade da III Guerra Mundial – e de orientação. A maior capitulação foi na Revolução Boliviana de 1952, quando o POR – que era a vanguarda da luta dos mineiros – emprestou apoio crítico ao governo do MNR. Pablo também atuou de forma burocrática, reconhecendo apenas direções alinhadas com suas ideias. Isso levou-o a choques com Ted Grant na Inglaterra e a reconhecer um dirigente aventureiro como Posadas como responsável da IV na Argentina. Apesar dos erros, Pablo dedicou-se à luta anti-imperialista e voltou aos quadros da antiga LCR ao final da vida, em 1995.

Os erros da direção pablista atrasaram a recomposição da IV. Tomada por lutas internas, sem superar seu caráter marginal, podemos falar de uma “grande diáspora” do movimento trotskista. Os diferentes trotskismos se implantaram em quatros grandes centros: Estados Unidos, Argentina, França e Inglaterra. A raiz de nossa corrente histórica remete ao trotskismo operário e socialista encabeçado por Nahuel Moreno, que, a partir da Argentina, expandiu-se pela América Latina. Os ingleses constituíram-se como força ativa no seio do trabalhismo, dirigindo importantes greves e mesmo cidades importantes, como Liverpool. Nos Estados Unidos, o SWP foi o partido mais forte e de tradição da IV. O partido tinha quadros como Cannon, Dobbs, Hansen, Camejo e Novack. A geração mais jovem do partido capitulou ao castrismo, rompendo a tradição independente do movimento operário. Na França, a JCR, orientada por Mandel e Frank, cumpriu um destacado papel nas jornadas do Maio de 1968. A geração do Maio francês vinculou-se diretamente a jovens trotskistas como Alan Krivine e Daniel Bensaïd.

A polêmica sobre a guerrilha dividiu águas nos anos 70. Enquanto a corrente ligada a Mandel defendeu a estratégia de guerrilhas em todo o continente, nossa corrente combateu essa linha, sem perder de vista a solidariedade e a defesa de todos os presos políticos e mortos. Com Moreno na direção, o PST argentino teve um papel firme na resistência à ditadura argentina, ajudou a consolidar núcleos socialistas na Colômbia, Peru, Brasil e Venezuela, dando bases para uma pesada intervenção no ascenso operário e popular que colocaria um ponto final nas ditaduras no Cone Sul.

De qualquer modo, é inegável a presença dos militantes referenciados na bandeira da IV nas grandes lutas da classe trabalhadora. A bandeira “sem manchas” dos trotskistas esteve viva no levante de Varsóvia, na resistência francesa, entre os partisans italianos e os brigadistas espanhóis, na heroica guerrilha de massas antifascista na Grécia, nos muros do Maio francês, na luta camponesa peruana e nas greves mineiras da Bolívia, na Revolução na Indochina, no Cordobazo e na resistência operária Argentina, entre os mortos do Estádio Nacional do Chile, na fundação do PT e da CUT no Brasil, na primavera de Praga, no despertar da classe operária polaca, na defesa da revolução política nos Estados Operários, nas lutas negras da África…

O complexo processo de queda do Muro de Berlim, no final dos anos oitenta, gerou intenso debate na esquerda, levando a cisões e retrocessos importantes nas organizações trotskistas. Correntes que agrupavam milhares de militantes, como “Militante” na Inglaterra, se dividem; o MAS argentino, considerado um dos maiores partidos trotskistas do mundo, retrocede, num processo de luta interna que o leva à explosão. Importantes partidos, como PRT mexicano, também retrocedem, assim como houve dificuldades nas organizações trotskistas no Paquistão. O que marca os anos noventa é um retorno à fragmentação e ao isolamento. Também dentro da corrente mandelista, há o duro golpe da capitulação da DS brasileira – que participou do governo social-liberal – à direção petista, que expulsa a ala esquerda do partido em 2003.

Como resposta às novas condições de luta no século XXI, nossa organização atualizou sua leitura programática: era possível e necessária a tarefa do reagrupamento. Tal tarefa envolvia a retomada de diálogo entre forças trotskistas, forças anticapitalistas mais amplas e setores da esquerda não tradicional. Colocamos nossa energia a serviço da construção de uma nova esquerda, tendo sua expressão mais viva no Brasil com o PSOL – um partido com tendências com programa de corte anticapitalista. Na esteira do reagrupamento, o MES participa como observador dos fóruns da IV Internacional (Comitê Internacional) desde 2010.

Em março de 2018, participamos na Bélgica do XVII Congresso da IV Internacional, levando uma contribuição própria para a discussão entre os presentes. O Congresso indica a nossa presença orgânica na IV, com o status de seção simpatizante. Do Brasil, participaram sete agrupamentos políticos (todos participantes do PSOL), o que aponta a necessidade de uma maior convergência entre revolucionários no país, diante da situação adversa inaugurada com a recente eleição de Bolsonaro. A atual IV ainda está longe de ser um espaço definitivo: há toda uma gama de partidos, organizações e correntes que atuam no mundo, com a bandeira do trotskismo ou de outras tradições, que não estão ainda sob o mesmo marco comum organizativo. E, para avançar nessa direção, é preciso superar a atual formatação em prol de um reagrupamento maior.

Para enfrentar o recrudescimento político que vive o Brasil, a militância e as novas camadas de ativistas devem conhecer nossa história. Somos parte daqueles que lutaram contra a eliminação física nos campos de concentração, no inverno da Sibéria ou na Alemanha nazista.  Eram nossos muitos que tombaram na ditadura argentina, lutando com o PST. Como na intervenção de Pedro Fuentes na Conferência Nacional do MES, recordamos seu irmão Luis Pujals, assassinado na Argentina defendendo a bandeira da IV, e também Luiz Merlino, jovem brasileiro torturado até a morte em 1971 por Brilhante Ustra. Temos orgulho de nossa tradição. Viemos de longe. Essa herança e essa responsabilidade defendemos com o punho cerrado e a cabeça erguida.

Este artigo faz parte da 10ª edição da Revista Movimento. Compre a revista aqui!

Movimento - Crítica, teoria e ação

Apresentação

Neste mês de março, preparamos uma nova edição da Revista Movimento, dedicada especialmente para a reflexão e elaboração política sobre a luta das mulheres. Selecionamos um conjunto de materiais - artigos teóricos, textos políticos, documentos e uma especial entrevista - com o intuito de aprofundar o esforço consciente demonstrado por nossa organização nos últimos anos em avançar na compreensão sobre o tipo de feminismo que defendemos, bem como sobre o papel essencial e a importância estratégica que a luta feminista tem para a construção de um projeto anticapitalista. Um desafio exigido pela atual conjuntura, marcada pela ascensão de governos de extrema-direita no mundo, na qual o movimento feminista tem se apresentado como contraponto e trincheira de resistência fundamental. Por isso, esta edição pretende, antes de mais nada, auxiliar e fortalecer nossas intervenções feministas nesse momento, a começar por duas datas muito significativas que inauguram este mês: o 8 e o 14 de março, dia em que se completará um ano do brutal assassinato de nossa companheira Marielle Franco. Esperamos que seja proveitoso e sirva como instrumento para as nossas batalhas. Boa leitura!

Solzinho

MES: Movimento Esquerda Socialista MES: Movimento Esquerda Socialista