Revista Movimento Movimento Movimento: crítica, teoria e ação

A geopolítica da China: continuidades, inflexões e incertezas

Uma reconstrução das últimas movimentações da China no tabuleiro da politica internacional.

Vista sobre a ponte de Hong Kong-Macau-Zhuhai - AP
Vista sobre a ponte de Hong Kong-Macau-Zhuhai - AP

Para Pequim, a época durante a qual as potências europeias dominaram o mundo não passou de um parêntese antes que a história recuperasse seu curso normal, sinocêntrico. A China se tornou a segunda potência mundial. A geopolítica chinesa, no entanto, entrou numa fase de adaptação a um mundo incerto. O conflito entre os Estados Unidos, um poder estabelecido, e a China, um poder ascendente, estrutura hoje, em grande medida, a geopolítica do mundo. A implantação do poder chinês ocorre em três espaços históricos e geoestratégicos diferentes e interdependentes:

– Extremo Oriente / Pacífico Norte. Uma área privilegiada para as ambições imperialistas dos Estados Unidos no século XIX, contra o Japão. O atual conflito coreano se encaixa neste espaço histórico, em particular com duas importantes diferenças: o desaparecimento das potências europeias e o papel da própria China.

– A marcha para o Oeste. Iniciada por Xi Jinping e materializada nas novas Rotas da Seda, seu horizonte está situado em toda a Euroásia, Oriente Médio e Norte e Nordeste da África. Simbolicamente, o novo imperialismo chinês vai contra os caminhos da expansão inicial, desde o Velho Mundo, dos imperialismos europeus tradicionais.

– O espaço do mundo. Nos últimos anos, a China capitalista tornou-se um ator importante em todos os continentes e em (quase) todos os campos, diplomáticos ou econômicos. A ambição é global, incluindo a influência do modelo político e cultural do qual a China é, aos olhos de Xi Jinping, portadora.

Do ponto de vista da China, o tempo durante o qual as potências europeias dominaram o mundo foi apenas um breve parêntese antes que a história recuperasse seu curso normal, a saber, a centralidade chinesa. Esta visão sinocêntrica que prevalece na China constitui uma base cultural sólida para o expansionismo do novo imperialismo chinês, à imagem e semelhança da visão eurocêntrica para os imperialismos conquistadores de dois séculos atrás. Trata-se de projetar a civilização chinesa como a civilização européia já fez. Para Xi Jingping, o século XXI será o século chinês.

I. A geopolítica da Ásia Oriental

Desde que chegou ao poder, Xi Jinping estabeleceu como objetivo fundamental afirmar a hegemonia da China na Ásia Oriental em todos os campos: econômico, financeiro, diplomático, político e militar. A expansão internacional deve se basear na consolidação de seu poder regional. A influência chinesa pode ser afirmada em sua fronteira setentrional (Mongólia), embora seja limitada pelo poder russo (Sibéria), enquanto a Oeste, a concorrência é da Índia, que é bastante dura em todo o subcontinente (especialmente no Sri Lanka).

Xi Jinping abandonou as concepções estratégicas defensivas que prevaleceram durante a era maoísta: qualquer invasor enfrentaria uma guerra popular na vastidão do território chinês; então a chave estava no exército terrestre e na capacidade de mobilização popular. Agora eles se tornaram ofensivos: para garantir a expansão do novo imperialismo, a chave está na força naval, na marinha, tanto por razões gerais (toda grande potência precisa garantir sua presença marítima no mundo) quanto específica: a China tem uma imensa faixa marítima e precisa garantir acesso seguro aos Oceanos Pacífico e Índico, e este não é o caso atualmente. Da península da coreana à península malaia, uma série de arquipélagos (japoneses, filipinos, indonésios) constituem outros obstáculos. Os estreitos de saída para o oceano estão sob a estrita vigilância dos Estados Unidos.

O espaço marítimo chamado Mar da China (um termo rejeitado por outros países costeiros) é, desse ponto de vista, vital para Pequim. Uma das primeiras decisões estratégicas de Xi Jinping foi assumir o controle de sua parte meridional, declarando que se trata de um mar interior sob autoridade chinesa. Três fases podem ser distinguidas na batalha pelo controle do mar da China.

Em primeiro lugar, a fase da conquista, na qual Pequim se aproveitou da paralisia temporária de Washington. Barack Obama queria reorientar o poder americano transformando o espaço da Ásia-Pacífico em seu pilar, mas não conseguiu se livrar do atoleiro no Oriente Médio. Logo após a eleição de Donald Trump, Washington se retirou da associação transpacífica (TPP), um acordo multilateral em processo de constituição, deixando o campo ainda mais livre para as ambições chinesas. Nesta situação, Pequim conseguiu usar todos os recursos disponíveis para atrair e/ou neutralizar países que fazem fronteira com o mar do Sul da China: poder militar esmagador, dependência econômica objetiva, incentivos financeiros, influência política (o modelo de desenvolvimento capitalista dirigista e autoritário convém a vários regimes da região).

Pequim construiu, peça por peça, sete ilhas artificiais que atualmente abrigam instalações importantes (pistas de pouso, baterias de mísseis terra-ar e antinavio, hangares fortificados, radares, sistema de distorção de comunicações…). Juntos, constituem um complexo coerente que controla todas as abordagens de todos os pontos cardeais. Ali já aterrisaram bombardeiros estratégicos H-6K (com capacidade nuclear), um gesto político em resposta aos B-52 dos EUA. A militarização do mar do Sul da China é uma realidade e se dá para o benefício da China. Sem dúvida, Pequim não pode proibir a passagem da Sétima Frota norte-americana e bloquear o trânsito internacional, mas Washington tampouco pode reverter a presença chinesa sem lançar um conflito de alta voltagem.

Pequim foi mais longe. O regime reivindicou posses históricas mais ao norte, contestando de maneira muito ativa o controle exercido pelo Japão sobre o pequeno arquipélago de Senkaku/Diaoyu (com o transporte para a área de navios e aviões, a criação de zonas de exclusão aérea …), a fim de pôr à prova ao mesmo tempo os meios de resistência de Tóquio e a determinação dos EUA.

Trump finalmente elevou as apostas no terreno das forças armadas, usando a questão norte-coreana para este propósito: ameaça de intervenção (incluindo nuclear), implantação de baterias anti-míssil THAAD na Coréia do Sul (que neutralizam a parte principal do dispositivo nuclear implantado na China continental), reforço da Sétima Frota e uso da base de Jeju no sul da península… A China teve que efetivamente recuar no terreno militar dessa parte do Pacífico Norte. A China tem sido marginalizada por muito tempo, política e diplomaticamente, em relação à crise coreana, que foi administrada entre Washington, Pyongyang e Seul.

Este artigo faz parte da 10ª edição da Revista Movimento. Para ler o texto completo compre a revista aqui!

Movimento - Crítica, teoria e ação

Apresentação

Publicamos a décima edição de nossa Revista Movimento. Dessa vez, celebramos os 80 anos de fundação da IV Internacional, comemorados em setembro de 2018, com uma seção especial. Há, também, artigos na seção internacional e de teoria. Fechamos esta edição quando a eleição brasileira se encerrava. Como não poderia deixar de ser, nesta décima edição de Movimento, apresentamos nossas primeiras análises sobre os resultados eleitorais. Sabemos que a vitória de Jair Bolsonaro trará graves ataques à classe trabalhadora e ao povo brasileiro. Estaremos com nosso povo, lutando em defesa das liberdades democráticas e de nossos direitos. Mais uma vez, esperamos que a revista seja uma ferramenta útil de construção e formação para nossos camaradas. Boa leitura!

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