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A vida como fio de continuidade da revolução – Entrevista com Esteban Volkov

Em entrevista inédita à Revista Movimento, neto de Trotsky resgata suas memórias para relembrar a fundação da IV Internacional.

Esteban Volvok durante gravação de vídeo em agosto de 2017
Esteban Volvok durante gravação de vídeo em agosto de 2017

Com uma postura impecável, olhos grandes e claros, “Don Esteban Volkov” é a única testemunha viva dos últimos dias do fundador da IV Internacional. Pude encontrar o neto de Trotsky, com seus atuais 92 anos de vida, no Museu Casa de Leon Trotsky na Cidade do México.

Para além da minha própria emoção, incontida, pude dialogar sobre o acontecimento que condicionaria o final de uma das vidas mais importantes do século XX. Na entrevista, Sieva como era carinhosamente chamado por seus avós, contou como se sentiu naquela tarde, quando chegava da escola, sendo um adolescente de 14 anos em plena adaptação ao México.

Descreveu as cenas que ainda vivem em sua combalida memória, da fortaleza e carinho que era Natalia, organizando o legado de Leon Trotsky e cuidando do próprio Sieva, dando vida e força à frágil organização que era a IV de então. Do preparo que tinham homens como o posteriormente famoso matemático Jean Van Heijenoort, o dirigente Joseph Hansen, o pintor e guarda pessoal Harold Robbins. Da vida na casa às margens do rio Churubusco.

A força e o caráter de Esteban são arrebatadores. Sua vida, também membro de uma família que tinha um planeta sem passaporte para cruzar, saindo do grande inverno da Rússia para o calor picante do México, é um exemplo. Antes mesmo do assassinato do avô, o suicídio de sua mãe, Zina, filha mais querida de Trotsky, trouxe à sombra da morte para perto de seu convívio.

Um jovem casal de trabalhadores costarriquenhos, também simpatizantes da nossa “causa”, param ao lado de “Dom” Esteban e escutam o final de sua entrevista. Se algo Sieva guardou de seus avós foi a certeza de que, mesmo nas condições mais adversas, a vida merece ser bela. As gerações futuras saberão o que fazer.

Agradecemos a Ubaldo Uropeza e a equipe de direção da Casa Museu Leon Trotsky a oportunidade de realizar a entrevista a seguir para nossa Revista Movimento.

Israel Dutra – Estamos aqui no México para entrevistar Esteban Volkov, neto de Leon Trotsky, para a Revista Movimento. Muito obrigado, sr. Esteban. Queria começar perguntando de suas recordações de seu avô.

Trotsky foi um dos maiores e mais completos revolucionários que já existiram, visto que ele teve a oportunidade de intervir em todas as etapas de um processo revolucionário, desde discutir formulação de bases ideológicas, participar da vitória de uma revolução, defendê-la do assédio dos inimigos estrangeiros e, posteriormente, quando surge o regime burocrático terrorista de Stalin, defender esses princípios e fundamentos que foram traídos e desviados por esse regime burocrático. E precisamente por seguir nesta luta, caiu assassinado.

Quais as recordações pessoais que tu guardas dele?

Ao contrário da imagem de um sujeito rígido e bravo, ele era um indivíduo muito humano, caloroso, cordial e generoso com os camaradas, sempre interessado em saber sobre como estavam as pessoas. Um grande admirador do trabalhador, evidentemente, um grande admirador da classe trabalhadora, sobretudo, que produz todas as riquezas do planeta. Ele não admitia distinções, nem privilégios, no trabalho. Ele mesmo intervinha nos trabalhos mais pesados quando era preciso fazê-los, por mais desagradáveis que fossem. Se quebrasse uma válvula de drenagem no banheiro, por exemplo, ele mesmo consertava. Bem, era um sujeito de uma inteligência extrema, sem dúvida alguma. Era um indivíduo de uma inteligência extraordinária, de uma agudeza mental sempre esperto e muito atento a tudo que acontecia. Importava-se também com a educação e formação dos jovens camaradas. Nesta casa, nas tardes, durante as reuniões de trabalho, ficavam discutindo temas de toda índole, assuntos daqui e questões internacionais.

Segundo sua memória, como eram as relações de Trotsky com os colaboradores mais diretos? Uma equipe muito valorosa, não?

Sim! Eram camaradas totalmente voluntários. Operários norte-americanos [enviados pelo Socialist Workers Party] que vinham fazer a vigilância e tiveram que aprender a manejar armas, pois antes não sabiam. Entre seus guarda-costas, Harold Robbins era um pintor comercial e Charlie Cornell era professor. Joe Hansen, secretário de Trotsky, era ex-jornalista e também motorista. Jack Cooper era motorista de caminhões pesados. Nunca em sua vida haviam utilizado uma pistola e tiveram que aprender isto aqui.

O último trabalho de meu avô foi, precisamente, a biografia de Stalin. Digamos que não era a obra que mais lhe interessava escrever. Ele só aceitou esta encomenda da Harper & Brothers, editora importante dos EUA, por motivos econômicos, para se afastar da situação de penúria e escassez de recursos que havia nesta casa. Após assinar o contrato, Trotsky passou a se dedicar a este trabalho, mas antes de acabá-lo, teve sua vida interrompida. Stalin queria impedir a todo preço que ele concluísse esta biografia. Tanto era assim que houve dois atentados. No primeiro, em 24 de maio [de 1940], o pintor Alfaro Siqueros com um grupo de stalinistas invadiu esta casa e metralhou o quarto dos meus avós. Milagrosamente, meus avós se salvaram. Depois dos primeiros disparos, Natália [Sedova, companheira de Trotksy] o acordou e rapidamente o colocou numa parte escura do quarto, salvando sua vida. Meu avô contaria depois que ouviu os primeiros barulhos e pensou se tratar de alguma festividade religiosa com foguetes. Meu avô, em sua vida, teve muita sorte… Numa ocasião, Trotsky deveria ter pegado um trem militar que [soube-se depois] estava cheio de dinamites, mas casualmente Trotsky precisou refazer seu trajeto, salvando-se.

Bem, acrescentando mais um dado, alguns meses antes desse 24 de maio, entrou nesta casa um jovem guarda-costas de 25, 26 anos, Sheldon Harte, que na verdade era um agente stalinista infiltrado. Foi precisamente ele quem abriu a porta para os assaltantes na madrugada de 24 de maio. O dado interessante é que ele frequentemente perguntava para a datilógrafa do meu avô “como ia a biografia, como ia a biografia”, certamente para depois informar ao Kremlin.

Fale-nos um pouco do secretário pessoal de Trotsky, Jan Van Heijenoort.

Era um jovem muito capaz e muito inteligente. Muito devotado a meu avô, disposto a tudo, atento a tudo. E, possivelmente, se ele estivesse aqui no dia do assassinato, talvez ele tivesse impedido a tempo Ramon Mercader, mas ele já havia partido para os EUA.

Apaixonado por números, dedicou-se desde muito jovem à causa revolucionária. Deixou todo seu conforto e adotou a vida de um “militante profissional” quando tinha pouco mais de vinte anos. Atento, informado, tinha verdadeira confiança em meu avô e no futuro comunista da humanidade. Heijenoort esteve com Trotsky em Prinkipo, França, México… Foi um de seus secretários mais leais. Posteriormente, dedicou-se à matemática nos EUA e foi um brilhante lógico matemático.

E como foi o trágico dia da morte de seu avô para você?

Foi um acontecimento totalmente inesperado. Soube quando voltava da escola. Normalmente, as tardes eram muito tranquilas aqui. Todas as atividades aconteciam pela manhã e as tardes eram um remanso de paz. Neste dia, não. De longe, percebi que algo estranho estava se passando na rua Viena. Havia alguns policiais em frente, um carro mal estacionado, muita movimentação, a porta estava aberta. Conforme me aproximava, fui sentindo uma enorme angústia, pois algo de grave estava ocorrendo. Um mau pressentimento de que seria impossível termos a mesma sorte das outras vezes que sobrevivemos. Fiquei com um sentimento de temor. O primeiro camarada que encontrei aqui dentro foi Harold Robbins, muito exaltado, com a pistola na mão. Perguntei-lhe: “O que está acontecendo?”. Ele só vociferou “Jacson, Jacson”. Prossegui para dentro da casa e vi, detido por dois policiais um rapaz ensanguentado que fazia ruídos e olhava como se não fosse um ser humano. Entrando na biblioteca pela porta entreaberta, vi o piso todo ensanguentado e meu avô deitado em cima da mesa com a cabeça machucada, rodeado por Natalia e outras pessoas. Segundo me disseram, moribundo entre espasmos, Trotsky pediu a seus camaradas: “mantenham o menino afastado, ele não deve ver esta cena”. Este detalhe retrata com precisão a qualidade humana deste personagem, preocupado nos momentos finais de sua vida em não causar um trauma maior a seu neto pequeno. Outra coisa que me contaram ter falado Trotsky neste momento foi: “Não matem o assassino. É preciso que ele revele quem o mandou”.

Até o trágico dia 21 de agosto, os fatos desta história são bastante conhecidos. Conte-nos um pouco agora sobre como sua avó e você lutaram posteriormente para manter este legado vivo.

Aqui continuamos a viver. Dificilmente, a partir de então, pôde ter existido uma pessoa com maior dor e sofrimento na alma que minha avó. Recordo dela passeando por este jardim, cambaleando-se, com o olhar perdido, a expressão maior de dor e sofrimento dentro de uma pessoa. Para mim também foi doloroso, apesar de não se comparar com a situação de minha avó. Meu avô era minha figura paterna. E aqui seguimos… Natália viveu depois da morte de Trotsky mais uns vinte anos. Ocupava-se de cuidar do jardim, recolher as roupas secas do varal, cortar as roseiras.

E o senhor, quando jovem, passou seus anos aqui também? Como foi sua vida depois disso?

Vivi com minha avó aqui por muitos anos. Casei-me com uma madrilenha, tive quatro filhas e continuei vivendo aqui por muitos anos.

E como foi seu trabalho e de sua avó para reorganizar os documentos e arquivos? Como foi a sua relação com a IV Internacional nos anos pós-II Guerra? Imagino que, além do sofrimento pessoal, tiveram que fazer um imenso trabalho.

Um pouco antes de morrer, meu avô decidiu enviar os arquivos para a Universidade de Harvard, por uma questão de segurança. Quando houve o atentado de 24 de maio, na sala ao lado de seu quarto, havia dois armários, onde lançaram uma grande bomba incendiária, pois pensaram que ali estavam os artigos de Trotsky. Foi quase como um cartão de visitas de Stalin, pois era o maior interessado em que se queimassem seus arquivos. Um detalhe curioso, por exemplo, é que nos arquivos de Harvard existem folhas em branco assinadas por Lenin, o que é uma mostra absoluta da imensa confiança que um tinha em relação ao outro. Num momento em que Trotsky precisasse baixar uma ordem urgente, contava com todo o apoio de Lenin, mesmo se este não se encontrasse presente.

Depois do assassinato, sua avó Natália e você ficaram aqui. Quando começa a organização do Museu?

O Museu sempre existiu, mesmo quando não oficialmente, já que a família sempre deixou as portas da Casa abertas. Foi convertido em museu público em 21 de agosto de 1990 pelo governo, durante a gestão do regente Manuel Camacho Solís. Houve depois a ampliação com o Instituto del Derecho de Asilo, restitui-se também o ambiente de museu, conseguiram coisas antigas para reconstituir os cômodos da época.

No Brasil e nos países de língua espanhola, foi feito recentemente o lançamento de uma nova versão do livro Stalin. Aqui esteve com vocês, creio, o escritor cubano Leonardo Padura. Gostaria que você falasse disso, afinal, é muito importante a luta pela memória de seu avô, não só como uma personalidade histórica, mas também pelas suas ideias.

Bem, é preciso reconhecer e felicitar a unidade e o trabalho de Alan Woods e sua equipe, que conseguiram resgatar boa parte dos artigos e manuscritos que não seriam publicados, pois a versão original foi uma versão mutilada, cheia de anotações indevidas e muitas omissões que comprometiam 30, 40% do texto. Agora, graças ao trabalho dos companheiros, conseguiu-se reconstruir e dar vida a essa obra, uma das mais importantes dele, escrita já em sua etapa de maior amadurecimento político. É um estudo profundo de um indivíduo que participou ativamente deste momento histórico.

E o livro de Padura, O homem que amava os cachorros, você chegou a ler?

Sim, li. Uma obra que teve extraordinário êxito, não conheço uma só opinião desfavorável. Uma obra admirável porque demonstra que, conhecendo-se a fundo um tema histórico, há possibilidade de reconstruir páginas históricas do passado com bastante certeza, como ele conseguiu. É um trabalho interessante.

Os aportes de Trotsky ao marxismo são de grande valia. Por exemplo, o estudo do processo de degeneração burocrática de uma revolução proletária, como foi o stalinismo. Sua análise se mostrou a mais completa neste quesito. É inegável o seu aporte para a teoria marxista, seus estudos são de grande valia.

Como você, agora, quase um século depois de toda essa história, de idas e vindas, tem a mesma fé no futuro?

Bem, não sei… uma questão difícil, pois é difícil predizer algo dessa natureza. A espécie humana pode desaparecer, como outras espécies animais. Também há esse perigo, não? Pois esperemos que a humanidade consiga alcançar estruturas sociais de justiça e equidade, uma sociedade onde o homem possa se realizar adequadamente em toda sua capacidade. Quanto ao marxismo, creio que não há outro método de análise mais competente para entender a dinâmica histórica e de tudo o que diga respeito ao sistema capitalista. Uma teoria à qual é necessário agregar mais capítulos, como a mudança climática e outros problemas mais contemporâneos.

Muito obrigado pela entrevista, sr. Estevan. É um prazer enorme conhecê-lo pessoalmente e tenho certeza de que nossos leitores brasileiros gostarão de nossa conversa. No Brasil, saiba que você é muito querido pelas pessoas. Você tem alguma mensagem final para a esquerda brasileira?

Que sigam lutando por um mundo melhor. Nós levamos uma partícula do maior desejo da humanidade. E se seguirmos com essa luta, nossas vidas não serão passadas em vão.

Este artigo faz parte da edição da 10ª Revista Movimento. Compre a revista aqui!

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Apresentação

A décima terceira edição da Revista Movimento dedica-se ao debate sobre os desafios da esquerda socialista no Brasil diante da crise nacional que se desenrola há anos e do governo Bolsonaro. Para tanto, foram convidados dirigentes do PSOL, do MES e de outras organizações revolucionárias que atuam no partido. O dossiê sobre a estratégia da esquerda e o PSOL reflete os desafios da organização de um polo socialista no interior do partido. Há também, na seção nacional, reflexões sobre a crise econômica brasileira, as revelações de The Intercept e as lutas da juventude e da negritude. As efemérides do centenário da escola Bauhaus e do cinquentenário do levante de Stonewall também aparecem no volume, além da tese das mulheres do MES para o Encontro de Mulheres do PSOL.

Ilustração da capa da Revista Movimento

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