Revista Movimento Movimento Movimento: crítica, teoria e ação

“O feminismo é no momento a vanguarda da mobilização social a nível internacional”

Em entrevista inédita à Revista Movimento, a teórica traça um panorama do movimento feminista a nível mundial.

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No dia 18 de julho, em ocasião do IX Colóquio Internacional Marx e Engels (Campinas/SP), tive a oportunidade de entrevistar a feminista italiana Cinzia Arruzza, autora do livro “Feminismo e marxismo – entre casamentos e divórcios”, atualmente professora de filosofia na New School for Social Research em Nova Iorque e signatária, ao lado de proeminentes figuras como Angela Davis e Nancy Fraser, das duas últimas convocatórias internacionais para uma greve de mulheres no 8 de março, que teve a adesão de diversos países no mundo.

Conversamos sobre o significado do que esse grupo de ativistas e intelectuais feministas têm chamado de “feminismo dos 99%”, bem como as contribuições do feminismo marxista, em especial do feminismo ligado à IV Internacional, organização da qual Arruzza foi membra formal durante anos. Além disso, pude perguntar sua opinião sobre os principais desafios que estão postos no horizonte da luta das mulheres nessa nova onda de atividade feminista internacional, que é sem dúvida valiosa para pensarmos os desdobramentos da Primavera Feminista aqui no Brasil. Confira a seguir a entrevista.

Giovanna Marcelino – Nos últimos dois anos, o 8 de março tornou-se um poderoso dia de mobilização feminista, coordenado internacionalmente, com a participação de dezenas de países ao redor do mundo, como há anos não se via. Além de colocar em outro patamar a luta feminista, pode-se dizer que tais mobilizações representaram uma continuidade, ou mesmo um salto, no processo das lutas sociais que irromperam ao redor do mundo a partir da crise de 2008, do ponto de vista do fortalecimento de alternativas políticas de esquerda e da luta contra os governos neoliberais, machistas, racistas e xenófobos que retiram os direitos do povo. Você foi, ao lado de outras intelectuais e ativistas feministas, como Angela Davis e Nancy Fraser, uma das organizadoras do “International Women’s Strike”. Como foi criada essa articulação? Como vocês chegaram a ideia de organizar uma greve de mulheres?

Cinzia Arruzza – Antes de mais nada, deixe-me fazer um esclarecimento, pois esta é uma questão que surgiu diversas vezes nos jornais, mídia, etc. Quando publicamos o chamado para a greve de mulheres, isso significava para nós uma convocação para os Estados Unidos, que estava aderindo ao chamado que já existia para a Greve Internacional de Mulheres. É claro que tudo o que acontece nos Estados Unidos, por conta de seu poder imperialista, imediatamente adquire relevância e proeminência internacional, então todos os meios de comunicação começaram a apresentar esse chamado como “o chamado” para a Greve Internacional de Mulheres. Mas acho que é absolutamente importante reconhecer que, na verdade, a ideia de uma greve de mulheres coordenada internacionalmente não foi criada por um grupo de intelectuais feministas, mas foi lançada com base em uma série de greves e lutas, em particular a primeira greve que havia acontecido em setembro na Polônia contra a proibição do aborto, mas também as greves que aconteceram em outubro na Argentina. E eu diria que, sem as enormes mobilizações na Argentina e na Polônia, não teríamos tido nenhuma greve internacional de mulheres. Em outras palavras, não é suficiente apenas ter um chamado em um jornal famoso, assinado por grandes nomes, senão faríamos isso todos os dias!

Então, eu acho importante reconhecer que o poder da greve de mulheres nesses dois últimos anos se baseia – como na Argentina, por exemplo – no resultado de décadas de trabalho e organização feminista, e na construção de relações comuns entre o movimento feminista e o movimento de trabalhadores. Também na Polônia, deve-se notar que havia uma tradição de organização, bem como a capacidade de realmente “aproveitar o momento”, e entender que era possível lançar uma greve de mulheres contra a proibição do aborto.

Assim, quando fizemos o chamado para uma greve de mulheres nos Estados Unidos, na verdade, nós estávamos atrasadas em relação a outros países que já estavam se mobilizando para a greve. Mas achamos que era relevante ter esse tipo de chamado, em primeiro lugar, porque era importante também organizar as mulheres nos Estados Unidos, devido ao papel que os EUA desempenham no mundo. Então, mesmo que soubéssemos que poderia ser menor do que na Argentina ou na Polônia, avaliamos que, politicamente, teríamos um certo tipo de relevância, precisamente porque iria acontecer nos Estados Unidos. Dessa forma, nós estaríamos contribuindo significativamente para o movimento internacionalmente. E essa é a razão pela qual também estabelecemos o chamado, porque queríamos realmente dar uma contribuição ao movimento, dando visibilidade e reconhecimento público.

Este artigo faz parte da 10ª edição da Revista Movimento. Para ler o texto completo compre a revista aqui!

Movimento - Crítica, teoria e ação

Apresentação

Publicamos a décima edição de nossa Revista Movimento. Dessa vez, celebramos os 80 anos de fundação da IV Internacional, comemorados em setembro de 2018, com uma seção especial. Há, também, artigos na seção internacional e de teoria. Fechamos esta edição quando a eleição brasileira se encerrava. Como não poderia deixar de ser, nesta décima edição de Movimento, apresentamos nossas primeiras análises sobre os resultados eleitorais. Sabemos que a vitória de Jair Bolsonaro trará graves ataques à classe trabalhadora e ao povo brasileiro. Estaremos com nosso povo, lutando em defesa das liberdades democráticas e de nossos direitos. Mais uma vez, esperamos que a revista seja uma ferramenta útil de construção e formação para nossos camaradas. Boa leitura!

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