Greve dos professores de Los Angeles: nossa luta é internacional
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Greve dos professores de Los Angeles: nossa luta é internacional

Hoje se inicia uma grande greve nas escolas públicas de Los Angeles.

Bruno Magalhães 14 jan 2019, 11:47

Hoje se inicia uma grande greve nas escolas públicas de Los Angeles. Assim como na cidade de São Paulo, onde uma greve de professores começará no primeiro dia do ano letivo, nos Estados Unidos os trabalhadores da educação também se mobilizam em defesa das escolas públicas. Lutando por melhores salários, condições de trabalho e contra a privatização do sistema público de ensino, este movimento de educadores construiu um grande apoio popular em prol do ensino público, envolvendo estudantes e familiares em sua luta.

Por que lutam os professores de Los Angeles?

As pautas da greve de Los Angeles são o aumento do financiamento, a diminuição do número de alunos por sala de aula, o fortalecimento da educação infantil, da educação de jovens e adultos, da educação especial e da educação bilíngue, além de mais funcionários para os quadros escolares como enfermeiras e bibliotecários. Além disso defendem o fortalecimento dos pais e educadores nos Conselhos de Escola, a redução da quantidade de testes externos sobre os estudantes e denunciam também a privatização da educação pública através das empresas mantenedoras das “escolas charter”, que naquela cidade recebem mais de US$ 600 mil anuais do poder público.

Em novembro passado o jornal Los Angeles Times revelou que Austin Beutner, o superintendente do Distrito Escolar Unificado de Los Angeles (LAUSD – Los Angeles Unified School District), planeja desmontar o próprio órgão e privatizar todas as escolas públicas da cidade em poucos anos, cortando financiamentos e subsídios, além de atacar diretamente a organização sindical. As escolas do LAUSD possuem mais de 85% de estudantes de baixa renda e mais de 90% de estudantes não-brancos, evidenciando o caráter elitista e racista das medidas de Beutner.

Apesar dos ataques, os sinais da greve são animadores. No último 15 de dezembro, mais de 50 mil pessoas tomaram o centro de Los Angeles em defesa desta luta. A categoria de professores conta com 35 mil membros, e este expressivo número demonstra que o conjunto das comunidades escolares tomaram para si a mobilização dos professores. Isso faz uma enorme diferença no enfrentamento entre o sindicato dos trabalhadores (UTLA – United Teachers Los Angeles) e o LAUSD. O presidente da UTLA, professor Alex Caputo-Pearl, definiu o movimento como “uma greve para defender nossas escolas, uma greve de esperança”:

“Se somos forçados a fazer greve, será uma greve por nossos estudantes. Uma greve com os pais. Uma greve por nossas escolas, por justiça racial, e para defender o futuro da educação pública e o direito dos educadores de serem bem tratados pelo trabalho vital que fazemos”.1

Em um exemplo incrível deste espírito comunitário, os professores de Los Angeles iniciaram uma campanha de arrecadação para garantir a alimentação dos estudantes e trabalhadores que estarão na luta. Refletindo este espírito, os educadores ao mesmo tempo demonstraram seu compromisso com a participação de todos nas ações da greve e silenciaram os críticos que denunciavam a interrupção do fornecimento de refeições nas escolas durante a greve.

A classe trabalhadora norte-americana se levanta

A mobilização em Los Angeles não é uma exceção. Em 2018, a vitoriosa greve dos professores da Virgínia Ocidental demonstrou a força do movimento de educadores por todo país, atingindo estados como Arizona, Colorado, Oklahoma, entre outros. Em Oakland, cidade de origem do Partido dos Panteras Negras também localizada na Califórnia, uma nova greve da educação está sendo preparada para os próximos meses. Todas estas lutas estão no contexto da campanha nacional “Vista Vermelho pela Educação” (“Wear Red for Education”, ou simplesmente “Red for Ed”), na qual multidões de professores, estudantes e familiares vão às ruas de vermelho em sinal de apoio às escolas públicas.

A classe trabalhadora norte-americana tem uma grande trajetória de combatividade e já construiu greves e mobilizações históricas, e a atual onda de mobilização dos professores representa um fio de continuidade direta com a luta de categorias combativas no passado, como os caminhoneiros de Minneapolis em 1934 ou os controladores de voo em 1981. Sobre essa relação, o companheiro Jeremy Gong, dirigente dos Socialistas Democráticos da América (DSA – Democratic Socialists of America), escreveu:

“Estes levantes incríveis (…) provaram para milhões que se eles se organizarem juntos e lutarem contra o controle capitalista sobre suas vidas, podem conquistar não somente melhores salários e condições, mas dignidade e um novo senso de autonomia e solidariedade. Nos próximos anos, milhões de trabalhadores irão às greves, organizaram sindicatos, e conquistaram grandes vitórias de seus patrões e do governo.”2

Estas palavras de esperança vindas do país governado por Donald Trump demonstram a nós brasileiros que é possível lutar e vencer o governo Bolsonaro e seus partidários de extrema-direita. A proximidade das pautas dos professores norte-americanos e brasileiros é enorme, ambas inseridas em um contexto de aplicação de políticas de austeridade que sucateiam e precarizam o ensino público, e isso torna a unidade entre os trabalhadores dos dois países ainda mais importante.

Nossas luta é a mesma

Tal como no Brasil, nos Estados Unidos a baixa remuneração e a falta de condições de trabalho são problemas graves. Salas lotadas, falta de materiais pedagógicos e de funcionários de apoio, além da desvalorização da educação infantil e do Ensino de Jovens e Adultos (EJA) também são marcas do sistema de ensino público daquele país, principalmente em áreas pobres habitadas pela população negra e latina. Com a redução de investimento público e o sucateamento das escolas, tanto no Brasil como nos EUA surge a falácia da privatização como solução para os problema da educação.

Nesse tema, a situação norte-americana é ainda mais complexa porque o sistema das charter schools está profundamente implantado. Neste modelo, que já recebeu apoio de Bolsonaro e do ministro da educação Ricardo Vélez, o governo destina verbas para entidades privadas gerirem as escolas, seja através de transferências diretas ou indiretas. Nesse processo, se perde o controle público dos serviços e recursos estatais são drenados em prol das empresas da educação, acabando com a autonomia e a participação da comunidade escolar. Os espaços democráticos de gestão são então enfraquecidos e todo o processo de aprendizagem é mercantilizado.

No Brasil, vemos esse modelo de privatização utilizado largamente tanto na educação infantil como no sistema de saúde através das “organizações sociais”, onde entidades privadas recebem recursos públicos para realizar a gestão do equipamento social ou para receber usuários dos serviços públicos nas próprias entidades. Esse desmonte do serviço público direto afeta profundamente a qualidade da prestação do serviço, reduz os salários de seus trabalhadores e piora suas condições de trabalho, precarizando a lógica do atendimento e transformando um direito social em um serviço de mercado.

Outra grande similaridade entre as lutas dos educadores do Brasil e dos Estados Unidos está importância de sensibilização e mobilização das comunidades escolares, buscando envolver estudantes, familiares, vizinhos e a população em geral na luta em defesa das escolas públicas. As grandes marchas de professores ocorridas nos EUA em 2018 os países eram compostas não somente por servidores, mas por membros das comunidades escolares ativamente engajados nas lutas.

Os professores norte-americanos dão um grande exemplo nesse sentido. A união com toda população trabalhadora em prol do bem comum, que rompe com o sindicalismo corporativista e com a tradicional divisão dos setores em luta, demonstra que a solidariedade da classe trabalhadora pode derrotar governos e patrões. E no Brasil é preciso ampliar essa disposição de unidade, rompendo com modelos burocratizados de organização e estabelecendo alianças que permitam que as mobilizações das categorias transbordem seus espaços e tornem-se movimentos de massa.

O perigo do “Escola Sem Partido”

Esta unidade popular representa grandes perigos aos poderes estabelecidos nos EUA, e seus fundamentos são combatidos pelo governo através não só de ataques econômicos, como os corte de salários e ameaças de demissões, mas também através de uma ofensiva ideológica contra a organização dos trabalhadores. Nessa ofensiva, a mídia e os governos denunciam a aliança entre educadores e estudantes como “doutrinação” dos jovens, como se os estudantes não fossem capazes de pensar sobre sua realidade e tomar iniciativas de luta. As ações políticas dos jovens, inclusive durante o horário de aulas, são exemplos de um processo de formação político-pedagógico muito mais amplo e consciente sobre suas próprias realidades.

No Brasil, a extrema direita também ataca este processo de conscientização e ação através do projeto “Escola Sem Partido”. Bandeira de Bolsonaro e seus partidários, o projeto defende a censura nas escolas, proibindo debates sobre questões políticas e sociais, inclusive o debate sobre a própria escola pública, e através disso os reacionários procuram interromper o diálogo entre educadores e educandos. Ao contrário, estes defendem a mecanização da educação e o esvaziamento de sentido da aprendizagem, promovendo uma educação acrítica e repetitiva que facilite os planos de mercantilização da educação pública. Utilizando o termo do professor Paulo Freire, esse modelo de “educação bancária” é essencial para os empresários da educação que buscam transformar todos os níveis da educação em negócios voltados ao lucro.

Os estudantes nas ruas, juntos aos seus familiares, seus professores e professoras, são exemplos de conscientização política e de sentido comunitário. Se a escola tem problemas, questionar os motivos desses problemas e pensar soluções para eles é parte essencial da tarefa pedagógica de desenvolvimento do senso crítico. Tanto no Brasil como nos Estados Unidos a extrema direita postula o contrário, e sob o pretexto de acabar com a “doutrinação” defende a retirada de voz dos estudantes e dos educadores.

Nós estamos com os professores e professoras de Los Angeles!

O atual processo internacional de acirramento dos ataques à educação pública é parte das políticas de austeridade difundidas por governos de todo planeta, fruto da crise econômica mundial gerada pelo sistema financeiro. Em diversos países, as necessidades do mercado forçam governantes a avançar na mercantilização sobre os serviços públicos e retirar cada vez mais direitos de seus trabalhadores e usuários.

Nós, professores do Movimento Esquerda Socialista (MES-PSOL), estamos com os professores de Los Angeles. A luta que estes companheiros e companheiras iniciam hoje é causada pelos mesmos motivos que também atacam a educação no Brasil, pelas políticas de austeridade fiscal que buscam privatizar a educação pública e perseguir ao pensamento crítico.

Assim como nas cidades brasileiras, em Los Angeles os educadores e as comunidades escolares tomarão as ruas contra essas medidas de austeridade, em defesa de escolas públicas que valorizem seus profissionais e cumpram seu dever social, promovendo uma educação de qualidade para todos, principalmente nos territórios e comunidades mais socialmente vulneráveis.

Divulgar e apoiar a greve dos EUA também é preparar as lutas pela educação no Brasil! Toda solidariedade às lutas pela educação em todo mundo!

We stand with LA teachers!

Artigo originalmente publicado no Portal da Esquerda em Movimento.

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1 https://www.utla.net/sites/default/files/utla_pub_dec18-low-rez.pdf

2 https://socialistcall.com/2019/01/01/mayflies-and-mass-strikes/


Parlamentares do Movimento Esquerda Socialista (PSOL)

Capa da última edição da Revista Movimento
O MES completa 20 anos. A edição n. 14-15 da Revista Movimento é dedicada por completo ao importante evento que marca duas décadas de nossa história. Apesar de jovens, podemos dizer que poucas organizações na história política da esquerda brasileira alcançaram essa marca com tamanho vigor. Longe de autoproclamação, desejamos transformar nossos êxitos em força social e militante para novos e amplos impulsos. Ainda não cumprimos uma maratona, mas nossa história sem dúvida deixou para trás a visão de curto prazo, que alguns adversários nos chegaram a prognosticar. Diante das muitas provas, vitórias e algumas derrotas, podemos celebrar e somar forças para enfrentar as tarefas imediatas: derrotar a tentação autoritária de Bolsonaro e avançar na construção de uma alternativa socialista.