O problema não é o risco, é querer agravá-lo

O problema não é o risco, é querer agravá-lo

As autoridades econômicas se comportam como se quisessem uma surpresa.

Francisco Louçã 14 fev 2019, 14:16

Riscos há sempre e recessões também, tão certo como os impostos. Teremos uma nos próximos anos e a Europa é particularmente vulnerável. A Itália já está em recessão técnica desde o segundo semestre de 2018 e a Alemanha escapou por pouco, mas reduz a sua expectativa de crescimento para cerca de 1% em 2019 e andará por perto — se não houver nenhuma surpresa. A finança está com medo: o índice das principais cotações do S&P caiu 14% no último trimestre de 2018. Ora, a surpresa é que as autoridades económicas se comportam como se quisessem uma surpresa.

Um Trump à solta

Com o protecionismo, Trump começou a quebrar algumas das promessas da globalização, particularmente as que exploravam debilidades do sistema produtivo do seu país, mesmo que não seja certo que tenha alternativas. Mas o mais importante é que começou a usar como arma política o seu controlo do sistema de pagamentos internacionais, o Swift. Desse modo, obrigou empresas europeias a desistirem de contratos no Irão, ameaçando-as de proibir o seu acesso à rede de pagamentos e, agora, está a estrangular a Venezuela e a atacar a China. Esse controlo é a mais poderosa arma de destruição económica do mundo. Para ficar com o petróleo e a água basta controlar as transferências internacionais, como descobriu um deleitado Trump. O botão é dele.

A proibição de a ZTE chinesa conduzir negócios com empresas dos EUA ou a perseguição à Huawei, que é um braço do Governo chinês (e não são todas?), pela concorrência no mercado do 5G, indicam por onde vai esta guerra. A China pode retaliar (por exemplo, bloqueou a compra de uma empresa holandesa, a NXP, pela gigante Qualcomm) e já tem recursos para substituir tecnologia importada, mas o efeito colateral é que o investimento direto estrangeiro mundial caiu 20% em 2018 e pode continuar a ser um fator de contração.

Alguns economistas argumentam que, mesmo assim, o sector em maior expansão, o do digital, salvará a economia mundial da recessão. Estão enganados. As vendas externas totais das mil maiores empresas digitais norte-americanas andam pelo 1% das exportações mundiais. O brilhante Facebook tem vendas externas iguais à da Mondelez, uma empresa média fabricante de biscoitos nos EUA. O valor nas bolsas pode enganar, a Alibaba vale mais do que as 700 maiores empresas industriais chinesas, mas é por aí que começará o susto.

Ficar sentado

Com o ‘Brexit’ em reta final, com eleições europeias para fazer da próxima Comissão outro susto, com o fim do mandato de Draghi no BCE, os riscos políticos acentuam-se na Europa. Mas os económicos não são menores. O sustentado superavit da Alemanha significa que, no abrandamento ou na recessão, as autoridades desse país nunca abdicarão nem dos salários baixos que sustentam estas exportações nem do uso do euro como subordinação dos países deficitários. Por construção, isto é a receita do desastre. Além disso, com juros tão baixos, a margem para a política monetária é minúscula.

A contradição é esta: os salários baixos (caíram 0,2% nos EUA em 2018 e estão estagnados há duas décadas na Alemanha), limitam a procura interna. Mas a disciplina social é mais importante para os decisores. Eles querem uma recessão. Farão tudo por isso e são eficazes.

Artigo publicado no jornal “Expresso” de 2 de fevereiro de 2019. Reprodução da versão publicada pelo Esquerda.net.

Parlamentares do Movimento Esquerda Socialista (PSOL)

Capa da última edição da Revista Movimento
Na 16ª edição, estão disponíveis dois dossiês. No primeiro, sobre o ecossocialismo, podem-se se encontrar as recentes teses de Michael Löwy, além de uma entrevista com o sociólogo e dirigente da IV Internacional. Também publicamos uma entrevista com Zé Rainha, dirigente da FNL, sobre sua trajetória de luta e os desafios dos socialistas no Brasil; uma entrevista com Antônia Cariongo, dirigente quilombola e do PSOL-MA; e artigos de Luiz Fernando Santos, sobre a lógica marxista e a Amazônia, e de Marcela Durante, do Setorial Ecossocialista do PSOL. O segundo dossiê traz algumas análises iniciais sobre a pandemia de coronavírus. Há artigos de Mike Davis e Daniel Tanuro; documentos do MES e do Bureau da IV Internacional; além de uma densa análise de nossas companheiras Evelin Minowa, Joyce Martins, Luana Alves, Natália Peccin Gonçalves, Natalia Pennachioni e Vanessa Couto e de um artigo do camarada Bruno Magalhães. A seção de depoimentos traz um instigante artigo de Pedro Fuentes sobre a história de seu irmão Luis Pujals, o primeiro desaparecido político da história da Argentina. Já a seção internacional traz uma análise do sociólogo William I. Robinson sobre a situação latino-americana.