As provocações de Bolsonaro são inaceitáveis! #DitaduraNuncaMais

As provocações de Bolsonaro são inaceitáveis! #DitaduraNuncaMais

É preciso repudiar Bolsonaro e sua comemoração do golpe de 1964.

Israel Dutra e Thiago Aguiar 31 mar 2019, 02:31

Na última segunda-feira 25 de março, o general Rêgo Barros, porta-voz da presidência, anunciou a ordem de Jair Bolsonaro de que se comemorasse a data do golpe militar de 1964, 31 de março, por meio da leitura de uma ordem do dia nos quarteis e instalações militares de todo o país. Num período de turbulência – em que a popularidade de Bolsonaro derrete, aumenta o descontentamento com a incompetência generalizada do governo e com a proposta de reforma da previdência, crescem os conflitos com Rodrigo Maia e líderes do “centrão”, causam indignação as polêmicas absurdas de Bolsonaro e se revelam vínculos de milicianos com a família presidencial e seus assessores –, o anúncio das “comemorações” do golpe é uma forma de Bolsonaro retomar a ofensiva e coesionar sua base social.

A ordem do dia, assinada pelo ministro da Defesa, Fernando Azevedo e Silva, e pelos comandantes das Forças Armadas, apresenta a deposição golpista de João Goulart como resultado de clamor popular e das pressões da Guerra Fria – assumindo, tacitamente, aliás, que os militares à época seguiram as determinações do imperialismo estadunidense. Essa posição demonstra que a cúpula militar continua reivindicando o golpe e, portanto, está pronta, se for o caso, para fazer de novo. Quando reivindicam que parte da sociedade e a mídia pediram, mostram que a burguesia fez a opção pelo golpe. E foi a ela que serviram.

Hoje, temos um governo cujo presidente tem 64 como modelo, o que indica que sua politica, caso possa escolher, é a repressão contra a oposição e contra o povo, caso esse se mobilize. Entretanto, a repressão não é vista como a política prioritária da maior parte da burguesia, que não pensa ser necessário para manter sua dominação uma linha cujo centro seja a repressão a qualquer manifestação de oposição. Prefere uma opção de hegemonia ideológica e política que atualmente é capazes de manter. Há, nesse sentido, uma divisão entre a vontade prioritária do presidente e de parte de seu governo (há outra parte, por sinal ligada mais à cúpula militar, que prefere governar com as corporações hegemônicas da burguesia, que não tem as mesmas inclinações de Bolsonaro) e a burguesia que majoritariamente quer um governo mais funcional, centrado na aplicação do neoliberalismo.

Apologia à tortura e às mortes


As posições reacionárias de Bolsonaro e de seus ministros causam constrangimento internacional. Em visita ao Chile, protestos repudiaram sua presença no país e denunciaram suas declarações elogiosas de Pinochet e da sanguinária ditadura chilena. Até mesmo o direitista Sebastián Piñera, presidente chileno, manifestou suas discordâncias com as posições de Bolsonaro diante da comoção causada naquele país. Em toda sua carreira política, Bolsonaro exaltou o regime militar e seus crimes, ou seja, ocupa a cadeira presidencial alguém que faz apologia da tortura e da morte. Seu ídolo, Brilhante Ustra, é um notório torturador e assassino, cujos crimes foram revelados pela Comissão Nacional da Verdade (CNV) e reconhecidos pela Justiça. A CNV também revelou detalhes do funcionamento dos centros de tortura, dos casos de execução e ocultação de corpos, dos estupros e violência sexual, da violência contra crianças e mães. Foram reportados 434 casos de mortes e desaparecimentos por agentes do Estado brasileiro no período, além dos milhares de casos de detenções arbitrárias, perseguição política, cassação de direitos fundamentais, censura e exílio.


Por memória, verdade e justiça


A proposta de “comemoração” de Bolsonaro foi recebida com indignação, mostrando que não prosperará a tentativa da extrema-direita de reescrever a história do Brasil e do mundo (chegando ao delírio de Ernesto Araújo com seu nazismo “de esquerda”) para mobilizar sua base reacionária. A resposta às provocações mostra que a resistência existe em amplas parcelas da sociedade. Há bons exemplos na posição de Paulo Coelho, denunciando que foi preso e torturado, e nas mobilizações que foram convocadas pelos estudantes do Mackenzie, na tradicional Rua Maria Antônia, que constrageram Bolsonaro a ponto do presidente cancelar sua visita para evitar os protestos. O mais expressivo foi o despacho corajoso da juíza Ivani Silva da Luz em liminar – posteriormente cassada – que proibiu comemorações do golpe pelo governo. Uma ampla unidade de ação organizou-se, com a convocação de protestos em todo o país, manifestações na imprensa e questionamentos judiciais de organizações sociais e políticas, num amplo espectro que envolveu a OAB, artistas e parte da igreja. Esta luta precisa seguir, com a necessária defesa de memória, verdade e justiça no Brasil, onde não houve uma justiça de transição que punisse os torturadores e assassinos, como ocorreu em países vizinhos como a Argentina e o Uruguai.

Nós nos somaremos aos atos de 31 de março e 1º de abril em todo o país, rechaçando Bolsonaro, a extrema-direita e somando nossa voz ao grito: ditadura nunca mais! Pelos nossos que caíram e pelos que virão depois de nós!


Parlamentares do Movimento Esquerda Socialista (PSOL)

Capa da última edição da Revista Movimento
O MES completa 20 anos. A edição n. 14-15 da Revista Movimento é dedicada por completo ao importante evento que marca duas décadas de nossa história. Apesar de jovens, podemos dizer que poucas organizações na história política da esquerda brasileira alcançaram essa marca com tamanho vigor. Longe de autoproclamação, desejamos transformar nossos êxitos em força social e militante para novos e amplos impulsos. Ainda não cumprimos uma maratona, mas nossa história sem dúvida deixou para trás a visão de curto prazo, que alguns adversários nos chegaram a prognosticar. Diante das muitas provas, vitórias e algumas derrotas, podemos celebrar e somar forças para enfrentar as tarefas imediatas: derrotar a tentação autoritária de Bolsonaro e avançar na construção de uma alternativa socialista.