Revista Movimento Movimento Movimento: crítica, teoria e ação

Um ano depois, “chegou a vez de ouvir as Marias, Mahins, Marielles, Malês”

Sobre a história do feminismo negro e o legado de Marielle.

Twitter/Marielle Franco
Twitter/Marielle Franco

No dia 14 de março de 2018, o Brasil viu atordoado a execução de uma vereadora do Rio de Janeiro. Negra, favelada, cria de cursinho popular, LGBT. Socialista. Uma vereadora do PSOL que sabia qual era o lado certo para se estar, que não se vendeu, que não deu um passo para trás daquilo que acreditava. Uma lutadora que sabia que era preciso virar a história do avesso. Seu nome era Marielle Franco. Após um ano de seu assassinato, floresce pelo Brasil a força de sua história e a continuidade de sua luta.

Marielle Franco não é produto isolado da história.  Para compreender melhor o significado de sua morte é preciso levar em consideração a história do movimento negro no Brasil, e em especial, a luta das mulheres negras. Mesmo depois de passados 130 anos da abolição da escravatura, as mulheres negras no Brasil ainda são vistas como corpo objeto, estão no topo dos índices de vítimas por violência, são maioria das trabalhadoras informais e mais precarizadas, carecem de direitos trabalhistas e recebem baixos salários (como costureiras, operadoras de telemarketing, trabalhadoras da limpeza e empregadas domésticas, por exemplo), sendo naturalizada sua condição social de pobre e prestadora de serviços. Ademais, seus filhos e maridos sofrem com o alto índice de desemprego, violência policial e encarceramento em massa.

As histórias de mulheres – como Laudelina de Campos na década de 1930 e sua insistente luta para organizar o sindicato das trabalhadoras domésticas – devem ser recordadas como nossa história de luta por uma sociedade democrática, pois a regulamentação da profissão de trabalhadora doméstica só foi conquistada em 2015. Lei muito criticada pela classe média que não queria gastar com 13º, férias remuneradas e hora extra contabilizada, mas desejava os serviços aos domingos e feriados, o dia inteiro, quando não faziam a exigência da trabalhadora dormir nos “aposentos adequados”. Resquícios da escravidão a serem superados com luta, pois todo quarto de empregada tem um quê de senzala.

Após a abolição, as estruturas da sociedade continuaram a espoliar a população negra, que, por sua vez, constituiu espaços de resistência diante do avanço de uma política de urbanização excludente e segregadora. As favelas, territórios de Marielles em potencial, são produtos de uma massa de trabalhadores excluídos das condições sociais de moradia, educação, saúde e transporte. Territórios onde os direitos sociais não chegaram e, por conseguinte, os direitos políticos demoram mais para serem alcançados. O centenário da abolição foi marcado pela denúncia radical do mito da democracia racial no Brasil e pela reivindicação de uma segunda abolição que efetivasse as reparações históricas necessárias para promover acesso a direitos sociais básicos como moradia, trabalho, saúde, e educação à negritude do Brasil. Uma reparação histórica pelos 400 anos de escravidão de seus ancestrais. Nesse marco histórico, a condição do negro na sociedade brasileira segue sendo a de produtor de cultura e riqueza patrimonial, mas destituído de direitos.

Trinta anos após a abertura democrática e o fim da Ditadura Militar, Marielle era uma vereadora que questionava a criminalização da pobreza e cobrava do poder público a distribuição de renda e direitos para a população. Questionamentos e reivindicações sobre serviços básicos que não chegam em sua maioria nas favelas, lugar da população que sustenta a cidade com sua força de trabalho.

Em 2016, elegemos uma vereadora negra que enfrentou a máfia miliciana que se  instaurou no Rio de Janeiro em função da corrupção do Estado, assistida e legitimada pela maioria dos políticos que gozam dos privilégios herdados da escravidão. A expressão de uma democracia que não foi feita para todos.

Um dos importantes temas que Marielle se especializou política e academicamente foi a questão da segurança pública. Em sua dissertação, intitulada “UPP. A redução da Favela a três letras”, Marielle expõe tanto seu ponto de vista quanto sua atuação política, haja visto que, ao mesmo tempo em que escrevia seu trabalho, atuava na Comissão de Direitos Humanos da ALERJ. Segundo ela, na disputa de projetos, existe

“De um lado, a ‘cidade – mercadoria’, sustentada no lucro, nos grandes empreendimentos, e em uma espécie de limpeza da população que não pode ser absorvida, empurrando uma grande quantidade  de pessoas para o sistema penal ou para a periferia. De outro lado, um projeto de cidade de direitos, que busca superar os problema de segurança pública, fundamentais para o Rio de Janeiro há décadas, construindo uma administração e políticas públicas que alterem o caminho hegemônico até então” (FRANCO, 2018, p. 26).


Este artigo faz parte da edição da Revista Movimento n.11-12. Para ler o texto completo compre a revista aqui!

Movimento - Crítica, teoria e ação

Apresentação

Neste mês de março, preparamos uma nova edição da Revista Movimento, dedicada especialmente para a reflexão e elaboração política sobre a luta das mulheres. Selecionamos um conjunto de materiais - artigos teóricos, textos políticos, documentos e uma especial entrevista - com o intuito de aprofundar o esforço consciente demonstrado por nossa organização nos últimos anos em avançar na compreensão sobre o tipo de feminismo que defendemos, bem como sobre o papel essencial e a importância estratégica que a luta feminista tem para a construção de um projeto anticapitalista. Um desafio exigido pela atual conjuntura, marcada pela ascensão de governos de extrema-direita no mundo, na qual o movimento feminista tem se apresentado como contraponto e trincheira de resistência fundamental. Por isso, esta edição pretende, antes de mais nada, auxiliar e fortalecer nossas intervenções feministas nesse momento, a começar por duas datas muito significativas que inauguram este mês: o 8 e o 14 de março, dia em que se completará um ano do brutal assassinato de nossa companheira Marielle Franco. Esperamos que seja proveitoso e sirva como instrumento para as nossas batalhas. Boa leitura!

Solzinho

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