Sujeito político e estratégia no movimento de mulheres
Por Sandra Eleta

Sujeito político e estratégia no movimento de mulheres

Como as mulheres se constituem como um setor estratégico na luta contra o capitalismo.

Julia Cámara 22 mar 2019, 11:55

Durante os últimos dias, nós que participamos do movimento feminista e seguimos os debates teóricos disso que vem a se chamar “esquerda” nos vimos assediadas por toda uma série de artigos e publicações que procuram refletir qual seria o sujeito político do feminismo. Ainda que com diferenças óbvias, nós não podemos nada menos que destacar a irônica e irritante similaridade que este conflito tem com aquele com o que nos ocupávamos há algumas semanas, a saber: a busca, no mais puro estilo Indiana Jones – épica, viril e heroica -, do sujeito político da luta de classes. Um apontamento geral deveria ser válido para ambas as polêmicas: os sujeitos precisam da práxis e são constituídos na luta conjunta a partir das experiências compartilhadas. Não existe nenhuma identidade essencial a ser reclamada sem a materialidade das práticas. 

Vários dos argumentos utilizados no debate sobre sujeito político são, em minha opinião, reducionistas e problemáticos, além de deixarem em segundo plano muitos dos debates necessários e, inclusive, já presentes no movimento (como a descolonização do nosso feminismo ou a articulação de alianças com setores laborais feminizados em luta) para limitá-lo a uma ou duas problemáticas. Colocam talvez ideias elementares que podem se encaixar com pressupostos ideológicos de muitas mulheres, mas ao custo de reduzir abordagens teóricas ricas e complexas num par de frases tuitáveis esvaziadas de todo potencial de compreensão e mobilização. Pelo contrário, creio que devemos entender este debate como indissoluvelmente ligado ao momento crucial de crise global e mudança sistêmica e ao modo como funciona e se reproduz a opressão patriarcal realmente existente. Somente assim conseguiremos compreender o papel que cumpre o movimento feminista internacional e adotar táticas e estratégias coerentes que nos incluam a todas. 

Algumas linhas para a análise

Ao longo deste artigo tratarei de justificar que, no atual período de acumulação por despossessão, nós mulheres constituímos um setor estratégico da classe. Ou, dito de outro modo, que nos encontramos em disposição de ser um sujeito político estratégico na luta contra o Capitalismo[1]. Isso não é assim por causa de uma mal compreendida acumulação de opressões nem por nenhuma identidade original dada pelo Capitalismo nem, muito menos, pela biologia, mas sim uma resposta a uma combinação de fatores diversos que nos colocam numa posição estratégica a ser desenvolvida na atual fase de expansão capitalista neoliberal. Tratarei de explicar isso e de ver quais implicações isso tem para as práticas e discursos do movimento feminista.

A contradição Capital/vida, acentuada nos últimos anos com o renovado recurso à acumulação por despossessão depois da crise de 2007/2008, põe as mulheres numa situação especialmente complicada. As políticas de ajuste estrutural que destroçam os precários Estados de Bem-Estar da periferia europeia e que já antes assolaram os países do Sul Global nos põem em condições de falar de uma crise da reprodução social, que afeta a todos os aspectos de nossas vidas e ataca a todos aqueles redutos que não foram incorporados à lógica do lucro. As principais afetadas por esta dinâmica somos aquelas cujo papel é precisamente o reprodutivo num sentido econômico amplo: as mulheres. Neste contexto, as resistências femininas (não necessariamente articuladas como feministas no plano consciente) se revelam como fortes alavancas de transição. Para explicar isso me apoiarei num conceito que considero útil: o de consciência feminina

No final dos anos 80, durante o período de auge da historiografia feminista e da História das Mulheres, a hispanista Temma Kaplan concluiu que as explicações marxistas e feministas clássicas não eram úteis para compreender os repertórios de ação coletiva adotados por mulheres em determinados contextos de conflito social. É então quando desenvolve o conceito de consciência feminina, que faz referência à assunção por parte das mulheres do dever de cumprir com nosso papel social [2]. A consciência feminina cria um sentimento coletivo de direitos e obrigações, fruto da interiorização do papel das mulheres na divisão sexual do trabalho. O resultado é a identificação generalizada das próprias mulheres com o trabalho reprodutivo que lhes foi atribuído e a assunção coletiva do dever de preservar a vida.  

A consciência feminina é originalmente, portanto, uma consciência conservadora, posto que não busca a transformação da sociedade nem das relações de gênero senão a execução das tarefas que derivadas destas. Ao aceitar tais tarefas, no entanto, as mulheres com consciência feminina reclamam os direitos que suas obrigações carregam consigo, e o impulso coletivo necessário para assegurar estes direitos pode chegar a desenvolver uma força que acabe politizando as redes de relações da vida cotidiana. Quando parece estar em jogo a sobrevivência da comunidade, as mulheres ativam suas redes de relações para combater aqueles ou aquilo que acreditam interferir em seu dever de conservar a vida como sabem. Ao colocar a necessidade humana por cima da propriedade, os lucros privados e inclusive os direitos individuais, a consciência feminina cria a visão de uma sociedade que ainda não fez sua aparição. É, portanto, uma consciência de transição, com implicações políticas radicais e capaz de fazer dar saltos de consciência a amplas camadas de mulheres.  

No curso da luta por levar a cabo o papel que a sociedade lhes reservou, algumas mulheres se chocam frontalmente com p sistema capitalista, que é radicalmente contrário à vida. Isso não é algo transversal nem inerente à identidade individual de mulher, posto que nem todas as mulheres se veem atravessadas na mesma medida pela experiência da despossessão: são as mulheres das classes subalternas as que mais encontram dificuldades para reproduzir a vida e, portanto, as que mais frequente se veem direcionadas para repertórios de ação radicais. O recurso por parte das classes altas a enfermeiras, babás, amas de leite e outras figuras similares desresponsabilizou historicamente dos cuidados e do trabalho reprodutivo às mulheres abastadas, articulando mecanismos distintos para sua construção social como mulheres. O mercado privado atual de compra e venda de serviços, junto com a feminização das redes migratórias e as denominadas cadeias globais dos cuidados, responsabilizam não às mulheres como classe ou grupo social homogêneo, mas a determinados setores de mulheres, da manutenção global da vida.  

A colisão da consciência feminina das mulheres de determinada extração de classe com a sociedade realmente existente faz com que sua luta por desempenhar o trabalho reprodutivo e dos cuidados, geralmente circunscrito ao âmbito doméstico e das relações privadas, irrompa no espaço público, dotando de um sentido político às redes de reprodução. 

Quais implicações isso tem para o movimento feminista? 

Em seu recente livro Dos siglos de feminismo, Cinzia Arruzza e Lidia Cirilo apresentam uma ideia interessante: nós, mulheres, não existimos como sujeito político permanente; este sujeito se constitui pontualmente naqueles momentos em que a condição social de mulher é percebida por quem a exerce como causa principal de opressão e discriminação[3]. Nos encontramos num desses momentos.

Tomando as palavras de Nancy Fraser, “na atual onda de fermento feminista, muitas, que antes havíamos sido mulheres de um modo estabelecido, nos convertemos agora em mulheres no sentido muito distinto de coletividade política discursivamente autoconstruída”[4]. É em certo modo um processo de autoenunciação coletiva, no qual as mulheres nos encontramos, nos juntamos e nos reconhecemos umas nas outras a partir da pretendida transversalidade da opressão compartilhada.  

De maneira sintomática, as reivindicações que articulam este fenômeno são duas: o direito ao próprio corpo (protestos pelo direito ao aborto no Estado Espanhol, na Polônia, na Irlanda ou na Argentina) e contra a violência sexual e os feminicídios. Ou seja, violências que nos afetam, ainda com materializações diversas a todas as mulheres. Talvez o exemplo mais óbvio seja o da campanha internacional #MeToo que, embora na França tenha permitido revitalizar pontualmente o feminismo de base e a nível geral supôs uma ferramenta para dar voz a milhares de mulheres, surge inicialmente da iniciativa de grandes estrelas do mundo de Hollywood.

Há aqui dois riscos profundamente ligados entre si, que tentarei explicar:

1. Existe um certo redescobrimento de alguns dos postulados do feminismo radical dos anos 70, no que diz respeito à violência sexual e sob o slogan “é uma guerra” (dos homens contra as mulheres, à qual nós mulheres devemos responder). Isso, além da simplificação que implica, tem o perigo de levar a respostas punitivistas e de corte repressivo-autoritário, numa espécie de feminismo legalista que busque castigar o delito ao invés de transformar as bases estruturais das violências. A forma como se articulou a resposta social aos casos mais midiáticos de violência sexual parece nos advertir nesse sentido. Talvez o caso mais evidente seja o das mobilizações espontâneas e massivas contra a liberdade provisória dos cinco autores do estupro coletivo de San Fermin, onde a crítica ao Judiciário e as considerações machistas dos autos confluía com setores mobilizados contra a própria figura da liberdade provisória e por um endurecimento legal das condenações.

2. A articulação de um discurso que privilegie e totalize a vivência individual da condição de ser mulher acima de outras realidades sociais diversas, negando a complexidade  das experiências de opressão e impondo o mito da fraternidade universal de mulheres (da sororidade como sentimento primário[5]) em favor daquelas que já ganharam o acesso ao espaço e aos círculos de poder. Ou seja: uma elitização do feminismo, autocentrado na identidade e nas lutas pela representação, que não dê resposta aos problemas das mulheres migrantes, racializadas, trabalhadoras, ou procedentes do Sul Global, todas aquelas que não temos acesso à autopromoção individual nem à ascensão social, cujas condições de vida somente podem melhorar mediante políticas que defendam a reprodução social, garantam a justiça reprodutiva e melhorem as condições laborais.

Isso não significa que tais movimentos não sejam importantes, mas temos que ser capazes de nos movermos num equilíbrio entre criação e promoção de novos modelos de representação, com a entrada em cena de mulheres fortes e capazes de se constituir como referências culturais (porque a representação certamente importa), além de um programa que nos inclua a todas. Neste sentido, a decisão tomada pela Comisión 8M , no encontro estatal celebrado em Gijón, a fim de dedicar uma parte importante do próximo encontro ao debate programático – ou de reivindicações e conteúdos – parece apontar um bom caminho. Porque esta colocação das mulheres no centro do debate, este Now the women e The future is female, tem necessariamente que passar por um empoderamento coletivo que confronte e seja radicalmente distinto à ideia de empoderamento individual através do êxito pessoal que nos é vendido pelo o neoliberalismo e que somente é possível às custas da subordinação de outras mulheres.

Qual é, então, a chave?

O feminismo global desempenhou outras vezes um papel compensatório ou de distração para o neoliberalismo, que lança mão de estratégias de purple washing ou de reconhecimento formal de direitos que escondem um aumento da desigualdade econômica no mundo. Reconhecer que os antagonismos de gênero, em vez de constituir uma divisão primária, estão inseridos nas dinâmicas da reprodução social e que fazem parte de um sistema global onde se articulam e combinam com outros fatores, pode ajudar a lançar luz sobre as relações opressivas entre mulheres e as diferenças entre nós, algo para o qual o feminismo não proporciona uma explicação adequada.

Nos encontramos não só em um momento de irrupção do movimento feminista mundial, mas também do que poderíamos chamar de feminização do protesto. Desde o movimento Stop Desahucios e as PAHs [Plataformas de Afetados pela Hipoteca] no Estado Espanhol, as mobilizações contra Trump nos Estados Unidos e contra Bolsonaro no Brasil, as ocupações ecologistas na França ou na Alemanha, ou as lutas pela soberania alimentar e a defesa do território na América Latina e no Sudeste Asiático, os ataques sistemáticos contra a manutenção da vida estão levando as mulheres a se enfrentar coletivamente as autoridades políticas, econômicas ou mesmo físicas (como a polícia e o Exército), impulsionadas pela origem legítima de suas demandas e avançando a partir da experiência rumo a níveis de consciência política mais desenvolvida.

O uso da consciência feminina como ferramenta analítica nos permite compreender o papel das mulheres como vanguarda estratégica em lutas de um enorme potencial transformador ao longo de todo o mundo. E isso passa enquanto, paralelamente, o movimento se consolida como vetor mobilizador fundamental em vários países, capaz de irromper em momentos de forte refluxo e de dissolução dos vínculos sociais portando intuições profundamente anticapitalistas.

Eis, aqui, portanto, a chave: construir um feminismo que não fale só de feminismo, que ponha a reprodução da vida no centro e que leve o lema “nossas vidas valem mais do que seus lucros” até suas últimas consequências. A campanha internacional de greve feminista para o 8 de Março fez nós, mulheres, descobrirmos o enorme valor (no sentido mais estritamente econômico) que somente a nossa existência gera. Durante os últimos meses, o movimento internacional de mulheres ganhou o mérito de não ser mais um cúmulo de reivindicações setoriais, dotando-se de uma dimensão estratégica e de um certo horizonte de ruptura. Há, evidentemente, muitas outras coisas. As lutas pela redefinição das identidades e pelo acesso aos espaços simbólicos de poder são importantes, uma vez que garantidoras de visibilidade e potencializadoras de um tratamento justo, mas reduzir o feminismo a isso seria negar o potencial transformador deste movimento.

Esta é a potencialidade que encerra atualmente o movimento feminista: a de enfrentar tudo. Que estas potências cheguem ou não a se desenvolver, constituindo-se como elementos de uma ruptura do normal funcionamento das coisas, dependerá entre outros fatores de nossa capacidade para impulsionar nesse sentido.


[1]Laia FACET: “Mujeres: sujeto estratégico”, Viento Sur, 11/08/2017, <https://vientosur.info/spip.php?article12902>.

[2] Temma KAPLAN: “Conciencia femenina y acción colectiva: el caso de Barcelona, 1910-1918”, en James S. AMELANG y Mary NASH (eds.): Historia y género: las mujeres en la Europa moderna y contemporánea, 1990.

[3] Cinzia ARRUZZA y Lidia CIRILO: Dos siglos de feminismo, Sylone, 2018.

[4] Nancy FRASER: Fortunas del feminismo, Traficantes de Sueños, 2015.

[5] Julia CÁMARA: “Sororidad y conciencia femenina: qué hermandad de mujeres para qué propuesta política”, Viento Sur, 09/08/2017, <https://vientosur.info/spip.php?article12891>.

Este artigo faz parte da edição da Revista Movimento n.11-12. Compre a revista completa aqui!


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