Revista Movimento Movimento Movimento: crítica, teoria e ação

Sujeito político e estratégia no movimento de mulheres

Como as mulheres se constituem como um setor estratégico na luta contra o capitalismo.

Por Sandra Eleta
Por Sandra Eleta

Durante os últimos dias, nós que participamos do movimento feminista e seguimos os debates teóricos disso que vem a se chamar “esquerda” nos vimos assediadas por toda uma série de artigos e publicações que procuram refletir qual seria o sujeito político do feminismo. Ainda que com diferenças óbvias, nós não podemos nada menos que destacar a irônica e irritante similaridade que este conflito tem com aquele com o que nos ocupávamos há algumas semanas, a saber: a busca, no mais puro estilo Indiana Jones – épica, viril e heroica -, do sujeito político da luta de classes. Um apontamento geral deveria ser válido para ambas as polêmicas: os sujeitos precisam da práxis e são constituídos na luta conjunta a partir das experiências compartilhadas. Não existe nenhuma identidade essencial a ser reclamada sem a materialidade das práticas. 

Vários dos argumentos utilizados no debate sobre sujeito político são, em minha opinião, reducionistas e problemáticos, além de deixarem em segundo plano muitos dos debates necessários e, inclusive, já presentes no movimento (como a descolonização do nosso feminismo ou a articulação de alianças com setores laborais feminizados em luta) para limitá-lo a uma ou duas problemáticas. Colocam talvez ideias elementares que podem se encaixar com pressupostos ideológicos de muitas mulheres, mas ao custo de reduzir abordagens teóricas ricas e complexas num par de frases tuitáveis esvaziadas de todo potencial de compreensão e mobilização. Pelo contrário, creio que devemos entender este debate como indissoluvelmente ligado ao momento crucial de crise global e mudança sistêmica e ao modo como funciona e se reproduz a opressão patriarcal realmente existente. Somente assim conseguiremos compreender o papel que cumpre o movimento feminista internacional e adotar táticas e estratégias coerentes que nos incluam a todas. 

Algumas linhas para a análise

Ao longo deste artigo tratarei de justificar que, no atual período de acumulação por despossessão, nós mulheres constituímos um setor estratégico da classe. Ou, dito de outro modo, que nos encontramos em disposição de ser um sujeito político estratégico na luta contra o Capitalismo[1]. Isso não é assim por causa de uma mal compreendida acumulação de opressões nem por nenhuma identidade original dada pelo Capitalismo nem, muito menos, pela biologia, mas sim uma resposta a uma combinação de fatores diversos que nos colocam numa posição estratégica a ser desenvolvida na atual fase de expansão capitalista neoliberal. Tratarei de explicar isso e de ver quais implicações isso tem para as práticas e discursos do movimento feminista.

A contradição Capital/vida, acentuada nos últimos anos com o renovado recurso à acumulação por despossessão depois da crise de 2007/2008, põe as mulheres numa situação especialmente complicada. As políticas de ajuste estrutural que destroçam os precários Estados de Bem-Estar da periferia europeia e que já antes assolaram os países do Sul Global nos põem em condições de falar de uma crise da reprodução social, que afeta a todos os aspectos de nossas vidas e ataca a todos aqueles redutos que não foram incorporados à lógica do lucro. As principais afetadas por esta dinâmica somos aquelas cujo papel é precisamente o reprodutivo num sentido econômico amplo: as mulheres. Neste contexto, as resistências femininas (não necessariamente articuladas como feministas no plano consciente) se revelam como fortes alavancas de transição. Para explicar isso me apoiarei num conceito que considero útil: o de consciência feminina

Este artigo faz parte da edição da Revista Movimento n.11-12. Para ler o texto completo compre a revista aqui!


[1]Laia FACET: “Mujeres: sujeto estratégico”, Viento Sur, 11/08/2017, <https://vientosur.info/spip.php?article12902>.

Movimento - Crítica, teoria e ação

Apresentação

Neste mês de março, preparamos uma nova edição da Revista Movimento, dedicada especialmente para a reflexão e elaboração política sobre a luta das mulheres. Selecionamos um conjunto de materiais - artigos teóricos, textos políticos, documentos e uma especial entrevista - com o intuito de aprofundar o esforço consciente demonstrado por nossa organização nos últimos anos em avançar na compreensão sobre o tipo de feminismo que defendemos, bem como sobre o papel essencial e a importância estratégica que a luta feminista tem para a construção de um projeto anticapitalista. Um desafio exigido pela atual conjuntura, marcada pela ascensão de governos de extrema-direita no mundo, na qual o movimento feminista tem se apresentado como contraponto e trincheira de resistência fundamental. Por isso, esta edição pretende, antes de mais nada, auxiliar e fortalecer nossas intervenções feministas nesse momento, a começar por duas datas muito significativas que inauguram este mês: o 8 e o 14 de março, dia em que se completará um ano do brutal assassinato de nossa companheira Marielle Franco. Esperamos que seja proveitoso e sirva como instrumento para as nossas batalhas. Boa leitura!

Solzinho

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