Revista Movimento Movimento Movimento: crítica, teoria e ação

O Partido Bolchevique

No aniversário de Lênin, resgatamos um clássico do marxismo.

II – O Bolchevismo Antes da Revolução


As referências que, anteriormente à revolução de 1917, se fazem ao “Partido Bolchevique” são, por sua obscuridade, responsáveis de que se incorra na confusão das três organizações distintas das que a história tinha unido intimamente: o Partido Operário Social-Democrata Russo cuja direção disputam várias frações entre 1903 e 1911; a fração bolchevique deste partido e o partido operário social-democrata russo (bolchevique) que se fundou em 1912. Na realidade, o bolchevismo não foi originalmente senão uma determinada concepção, formulada por Lênin, acerca da forma de se construir na Rússia o partido operário social-democrata (poderíamos dizer revolucionário) que, para todos os socialistas daquela época constituía o instrumento necessário para a derrubada do capitalismo pela classe operária e para a instauração de uma ordem socialista.

Os Começos do Partido Social-Democrata Russo

O movimento operário russo, que surgia de um desenvolvimento tardio do capitalismo, não presenciou a coroação dos esforços tendentes à criação de um partido operário senão muitos anos depois que o da Europa Ocidental, se bem que suas circunstâncias eram completamente diferentes.

As cidades proletárias são ilhas em meio do oceano camponês. A repressão faz quase que impossível que qualquer organização supere o restrito âmbito local. Os pequenos círculos socialistas que surgem durante os últimos anos do século 19 nos centros operários, são esmagados quando tentam ir mais além das meras discussões acadêmicas. A liga de Moscou, em 1896, e a de Kiev, em 1897, consideram diversas medidas para reunir as organizações dispersas em um partido organizado em escala nacional, mas fracassam em sua tentativa. Os primeiros que conseguem constituir uma organização estendida a todo o país são os trabalhadores judeus, mais cultos em geral, mas coerentes também, dada sua situação minoritária, e que estão empregados em empresas de pequenas dimensões; sua organização é o Bund, que conta com vários milhares de membros. Em 1898 se reúnem em Minsk nove de seus delegados, entre os quais se contam um operário das organizações social-democratas do Império, e os representantes das ligas de Moscou, São Petersburgo, Kiev e Ekaterinoslav. Esta assembléia se autodenomina “primeiro congresso do Partido Operário Social-Democrata Russo”, redige seus estatutos e um manifesto, e elege um comitê central de três membros. Mas o fato do partido ter sido fundado não indica que tenha tido existência real: tanto o comitê central como os congressistas são detidos quase imediatamente. A apelação de “partido” subsiste como etiqueta comum a um conjunto de círculos e organizações de limites mais ou menos claros que praticamente permanecem independentes uns dos outros.

Um grupo de intelectuais emigrados renuncia então a construir o partido operário de baixo, a partir dos círculos locais, tentando constitui-lo de cima, a partir de um centro situado no estrangeiro, isto é, a salvo da polícia e publicando para toda a Rússia um jornal político que, mediante uma rede clandestina, iria constituir o centro e o instrumento da unificação de um partido das distintas organizações.

A “Iskra” e “Que fazer?”

O primeiros marxistas russos do “Grupo para a Libertação do Trabalho”, fundado no exílio em 1983, Jorge PlekhanovVera Zasulich e Pavel Axelrodconstituem o núcleo de tal empresa junto com os pertencentes à segunda geração marxista, que compõem o grupo “Liga da Emancipação da Classe Operária”, e são mais jovens que aqueles; estes últimos, Vladimir Illich Ulianov, que logo se chamará Lênin, e Yuri Martov, saíram da Sibéria em 1889. Em 24 de dezembro de 1901 aparece em Stuttgart o primeiro exemplar de seu jornal Iskra (A Centelha), cujo ambicioso lema rezava: “da centelha surgirá a chama”, anunciando assim suas intenções. O objetivo que se coloca é “construir o desenvolvimento e organização da classe operária”. Oferece às organizações clandestinas da Rússia um programa e um plano de ação, consignas políticas e diretrizes práticas para a constituição de uma organização clandestina que, no inicio e sob o controle da companheira de LêninNadezhda Krupskaya, irá se limitar à difusão do jornal. Os operários russos parecem estar despertando então para a luta reivindicativa: as greves e os diferentes movimentos se multiplicam, e os emissários da Iskra – que originariamente não são mais de 10 e em 1903 não passam de trinta – percorrem o país, tomam contato com os grupos locais, recolhem informação, fornecem publicações e selecionam também aqueles militantes de envergadura, que hão de passar para a clandestinidade. Os iskristas, “membros de uma ordem errante que se elevava por cima das organizações locais, que consideravam como seu campo de ação”[1], tentam construir um aparato central, um estado maior das lutas operárias em escala nacional, rompendo com os particularismos locais e com o isolamento tradicional e formando quadros que sirvam a um enfoque global da luta.

Tal atividade se justificará, no plano teórico, com a primeira obra de Lênin sobre o problema do partido, intitulada “Que Fazer”, e publicada em Sttutgart em 1902. Toda a paixão do jovem polemista se dirige contra os socialistas os quais chama de “economistas” que, invocando “um marxismo adaptado às particularidades russas”, negam a necessidade de construir um partido operário social-democrata num país em que o capitalismo não se tinha assentado ainda. Lênin refuta a tese “economista” de que “para o marxista russo não há mais que uma solução: sustentar a luta econômica do proletariado e participar na atividade da oposição liberal”, afirmando que a mera ação espontânea dos operários, limitada unicamente às reivindicações econômicas, não pode leva-los automaticamente à consciência socialista, e que as teorias “economistas” só servem para por o nascente movimento operário na dependência da burguesia. Segundo ele, é preciso – e essa é precisamente a tarefa que propõe a Iskra – introduzir na classe operária as idéias socialistas mediante a construção de um partido operário que se converterá no campeão de seus interesses, e no seu educador e na sua direção. Dada as condições em que se acha a Rússia no alvorecer do século 20, o partido operário deve estar integrado por revolucionários profissionais: frente à polícia do estado czarista, a arma principal do proletariado há de ser a organização rigorosamente centralizada, sólida, disciplinada e o mais secreta possível, de uma série de militantes clandestinos; o partido se concebe assim com “a ponta de lança da revolução”, como o estado maior e a vanguarda da classe operária.

Nascimento da Fração Bolchevique

O segundo congresso do partido se celebra durante os meses de julho e agosto de 1903, primeiro em Bruxelas e depois em Londres. Entre cerca de cinqüenta delegados, só há quatro operários. Os iskristas contam com a maioria e o partido adota sem maiores dificuldades um programa que foi redigido por Plekhanov e Lênin, em que pela primeira vez na história dos partidos social-democratas figura a consigna de “ditadura do proletariado”, que se define como “a conquista do poder político pelo proletariado, condição indispensável da revolução social”.

Sem dúvida, os membros da equipe da Iskra se dividem na questão do voto dos estatutos, onde se enfrentam dois textos. Lênin, em nome dos “duros” propõe outorgar à condição de membro do partido só aqueles que “participem pessoalmente numa das organizações”. Já Martov, porta-voz dos “moles”, se inclina por uma fórmula que a confere à todos aqueles que “colaboram regular e pessoalmente sob a direção de alguma das organizações”. Começa assim a esboçar-se uma profunda divergência entre os defensores de um partido aberto amplamente e vinculado com a intelligentsia, que apóiam Martov, e os partidários de Lênin, defensores de um partido restrito, vanguarda disciplinada integrada por revolucionários profissionais. O texto de Lênin obtém 22 votos enquanto que o de Martov, apoiado pelos delegados do Bund e pelos dois “economistas” que assistem ao congresso, consegue 28 e é aprovado.

Sem dúvida, tanto os “duros” como os “moles” de Martov coincidem em negar ao Bund a autonomia que exige dentro do partido russo e em condenar as teses dos “economistas”. Os delegados do Bund e os “economistas” então abandonam o congresso: os “duros” que, de repente, conseguiram a maioria, têm as mãos livres para nomear um comitê de redação e um comitê central, ambos compostos em sua maioria por partidários de Lênin. Estes últimos serão chamados daí por diante os bolcheviques ou majoritários, e os “moles” se convertem nos mencheviques ou minoritários.

Tal é o inicio da grande disputa. Deste enfrentamento, que todos parecem estar de acordo em não dar nenhuma importância, vai surgir a primeira cisão do partido. Lênin, que controla os organismos dirigentes, apela à disciplina e à lei da maioria. Os mencheviques, que consideram tal maioria puramente acidental, o acusam de querer infligir ao partido o que eles chamam de “estado de sitio”. Martov reagrupa atrás de si a maioria dos social-democratas da imigração e sua consigna é o restabelecimento do antigo comitê de redação do Iskra, em que Lênin se encontrava em minoria. Plekhanov, que no congresso havia expressado sua conformidade com os pontos de vista de Lênin, inclina-se pela conciliação com os mencheviques, terminando por aceitar a designação direta de alguns deles para formar parte do comitê de redação, podendo assim recobrar o controle do jornal. O Comitê Central que, no congresso, havia ficado constituído por uma maioria de bolcheviques, parece ser igualmente partidário da conciliação.

Mas esta tentativa fracassa. Depois do congresso, Lênin foi intensamente afetado pela crise e por uma oposição que não esperava. A surpresa e a decepção revestiram tal caráter que sofreu uma depressão nervosa. Em poucas semanas, se encontra praticamente isolado e excluído da equipe do Iskrasem o ter previsto nem desejado. Sem dúvida, se refaz rapidamente, sobretudo a partir do momento em que seus antigos companheiros parecem abandonar suas posturas comuns, empreendendo o contra-ataque. Graças à Krupskaya, segue controlando a organização clandestina na Rússia, então se lança à reconquista dos comitês e, em agosto de 1904, consegue organizar uma autêntica direção dos grupos bolcheviques, o primeiro esboço do que será a fração bolchevique, o “burô dos comitês de maioria”, que, desde janeiro de 1905, publica seu órgão próprio, Vpériod (Adiante!). Tais êxitos o permitem conseguir que o indeciso comitê central convoque um congresso do partido que será celebrado em Londres no começo de 1905.

Primeira Cisão de Fato

A garantia do comitê central permitirá que tal assembléia se denomine “terceiro congresso do partido”, apesar de estar exclusivamente composta por bolcheviques. A maioria dos 38 delegados assistentes são militantes profissionais enviados pelos comitês russos e que, ante a iminência de um estouro de acontecimentos revolucionários na Rússia, apóiam as posturas de Lênin em sua polêmica contra os bolcheviques, assim como sua concepção de partido centralizado, que seus antigos aliados da Iskra acabam de abandonar, e de sua organização. Sem dúvida, a fração bolchevique está longe, naquela data, de constituir um bloco monolítico: Lênin já terá que lutar para convencer o engenheiro Krasin, a mais destacada figura do comitê central. Em pleno congresso surge um conflito que provoca um grupo de militantes da Rússia, os que em diante chamará os komitetchiki (“homens do comitê”). Lênin é derrotado em duas ocasiões, primeiro ao se negar o comitê incluir nos estatutos a obrigação de que os comitês do partido compreendam uma maioria de operários e depois, ao exigir que o controle do jornal seja exercido pelo comitê central clandestino que reside na Rússia. O jovem Aléxis Rikov, porta-voz dos Komitetchiki, é eleito membro do comitê central, em que formam parte também Lênin e seus dois lugar-tenentes Krasin e o médico Bogdanov.

A cisão parece se consolidar: o congresso joga toda a responsabilidade sobre os mencheviques da emigração que, em sua opinião, se negaram a se submeterem à disciplina dos organismos eleitos no II Congresso e faz um chamado aos mencheviques das organizações clandestinas para que aceitem a disciplina da maioria. De fato, existe uma resolução secreta que encarrega o comitê central da tarefa de conseguir a reunificação. Os mencheviques, ao mesmo tempo, reuniram numa assembléia os delegados dos grupos de exílio: sem dúvida, embora se neguem a reconhecer o congresso de Londres, estes tomam o título de conferência. Apesar das aparências, a porta parece seguir aberta.

Como era de esperar, a polêmica repercutiu nas fileiras da Internacional: alguns social‑democratas alemães, sobretudo os da ala esquerda capitaneada por Rosa Luxemburgo, atacam violentamente a concepção centralista de Lênin, denunciando o «absolutismo russo» e o “perigo burocrático que supõe o ultra‑centralismo”[2]. Mas na própria Rússia, Lênin marcou pontos  preciosos. Indubitavelmente, a forma de organização clandestina e centralizada é a mais eficaz; permite a proteção dos militantes, ao pode-los deslocar quando estão em perigo, assim como a criação de novos centros mediante o envio de emissários; de outro lado, oferece aos operários amplas garantias de seriedade pela rigidez das condições de enquadramento em suas fileiras. Mas o fator mais importante radica em que a organização revolucionaria aproveita desta forma todo o auge do movimento operário: a ela acodem os jovens que despertam à inquietude política e a quem não assustam as perspectivas de repressão nem o trabalho e a educação revolucionários, etapas necessárias de uma luta que a classe em sua totalidade considera com crescente confiança.

Em 1905, há uns 8.000, inseridos na maioria dos centros industriais, que militam em organizações clandestinas. Lênin espera da revolução que se está gestando que confirme suas teses, aportando a seu movimento a pujante força das novas gerações e da iniciativa das massas operárias em ação.

A Revolução de 1905 e a Reunificação

Efetivamente, a revolução estoura em 1905 e precipita à ação política aberta centenas de milhares de operários. A manifestação pacífica, cheia de ícones e estandartes dos operários de São Petersburgo, é acolhida em 5 de janeiro com descargas de fuzil: resulta em centenas de mortos e milhares de feridos. Sem dúvida, o “domingo sangrento” se converte numa data decisiva: o proletariado a seguir se revela ante todos, inclusive para si mesmo, como uma força com que terá que se levar em conta. Durante os meses seguintes, primeiro a agitação econômica e, mais adiante, a política, vão arrastar centenas de milhares de operários que, até aquele momento, estavam resignados ou se mantinham em completa passividade, a todo tipo de greves. Após os motins do exército e da marinha – entre os qual se destaca a célebre odisséia do Potemkin – a agitação culmina, no mês de outubro, com uma greve geral. Ante tal ameaça, o czar tenta romper a frente única das forças sociais que o enfrentam; publica então um Manifesto que satisfaz as reivindicações políticas essenciais da burguesia, que passa imediatamente pro seu lado e abandona seus inquietantes aliados do momento. Os operários de Moscou lutam sozinhos de 7 a 17 de dezembro, mas nada podem contra um exército de que já se eliminou todo broto revolucionário; o camponês que veste uniforme realiza sem pesar a missão repressiva que lhe designa a autocracia. O movimento revolucionário será liquidado setor após setor, sendo objeto de severa repressão as organizações operárias. Sem dúvida, a derrota transborda de ensinamentos, já que o desenvolvimento dos acontecimentos serviu para revitalizar todos aqueles problemas que os socialistas devem resolver e, em papel de destaque, o do partido.

Na realidade, os bolcheviques se adaptaram com bastante lentidão às novas condições revolucionárias: os conspiradores não sabem de um dia para o outro se converterem em oradores e guias da multidão. Acima de tudo os surpreende a aparição dos primeiros conselhos operários ou sovieteseleitos primeiro nas fábricas e depois nos bairros, que se estendem durante o verão a todas as grandes cidades dirigindo daí o movimento revolucionário no conjunto. Compreendem demasiado tarde o papel que podem desempenhar nele e o interesse que têm na hora de aumentar sua influência e lutar neles para conseguir a direção das massas. Por sua parte, os mencheviques se deixam arrastar mais facilmente por uma corrente com quem se fundem. O único social democrata destacado que desempenha um papel na primeira revolução soviética é o jovem Bronstein, chamado Trotsky, que anteriormente foi designado, graças à insistência de Lênin, para fazer parte do comitê de redação da Iskramas que, no II Congresso, ficou ao lado dos mencheviques, criticando duramente as concepções “jacobinas” de Lênin sobre o que ele chama “a ditadura sobre o proletariado”[3]. Em desacordo com os mencheviques  emigrados e graças à sua influência sobre o grupo menchevique de São Petersburgo e às suas excepcionais qualidades pessoais, se converte no vice-presidente e mais adiante no presidente do soviete da cidade com o nome de Yanovsky: seu comportamento durante a revolução e sua atitude ante os juizes que o condenam lhe conferem um incalculável prestígio. Ao seu lado, os bolcheviques de São Petersburgo, dirigidos por Krasin, ficam eclipsados.

Durante este período, a organização bolchevique inicia uma rápida transformação; o aparato clandestino permanece, mas a propaganda se intensifica e as adesões vão sendo cada vez mais numerosas. A estrutura se modifica, se inicia a eleição de responsáveis. De outro lado, os novos membros não entendem a importância dos desacordos anteriores. Numerosos comitês bolcheviques e mencheviques se unificam sem esperar a decisão do centro que todo mundo exige. Até o final de dezembro de 1905, se celebra uma conferência bolchevique na Finlândia. Os delegados – entre os quais encontra-se o futuro Stalin com o nome de Ivanovitch – decidem, em oposição a Lênin, boicotar as eleições que o governo czarista prometeu. As greves e levantes estão na ordem do dia e seguindo esta linha, os delegados adotam a principio uma reunificação cujas bases serão discutidas mais tardes por Lênin e MartovMartov aceita incluir nos estatutos a formula proposta por Lênin no II Congresso e que constituiu a origem da cisão. As organizações locais de ambas as fraçoes elegem seus delegados no congresso de unificação, sobre a base de duas plataformas e com representação proporcional ao número de votos obtidos por cada uma delas.

A Fração Bolchevique no Partido Unificado

Quando se reúne em Estocolmo o congresso de unificação durante o mês de abril de 1906, se iniciava já o refluxo em toda a Rússia. Os dirigentes do soviete de São Petersburgo estão na prisão e se acaba de reprimir a insurreição dos operários de Moscou. Surgem novas divergências sobre a análise do passado e das tarefas presentes. Os bolcheviques querem boicotar as eleições à III Duma. Muitos mencheviques estão de acordo com Plekhanov, que opina que “não se deveria ter pego em armas”, e desejam orientar o partido para uma ação parlamentar. Sem dúvida, nem uns nem outros pensam voltar atrás e perpetuar a cisão. Segundo o testemunho de KrúpskayaLênin opina, naquele tempo, que os mencheviques vão admitir seus erros em seguida; segundo ela, dava por certo que “um novo impulso da revolução terminaria por arrasta-los, reconciliando-os com a política menchevique”[4]. Por fim a reunificação de decide formalmente: 62 delegados mencheviques que representam 34.000 militantes e 46 bolcheviques representando outros 14.000, decidem reconstruir o partido em cujo seio admitem o Bund e os partidos social-democratas letão e polaco. O comitê central eleito compreendo dois polacos, um letão, sete mencheviques e três bolcheviques: KrasinRikov e Desnitsky. Vinte e seis “delegados da antiga fração bolchevique”, entre os quais Lênin, declaram que, a pesar de suas divergências com a maioria do congresso, se opõem a qualquer cisão e que continuarão defendendo seus pontos de vista com o fim de impo-los dentro do partido. Posteriormente, a geração bolchevique será dirigida por um “centro” clandestino em relação ao partido. Possuirá além disso um meio de expressão próprio, Proletari (O Proletário), órgão do comitê de São Petersburgo, dirigido por um militante de vinte e cinco anos, Radomylsky, chamado Zinoviev.

Durante os meses seguintes a fração faz rápidos progressos no seio do partido. A repulsa de certos mencheviques à insurreição de 1905, a decadência dos sovietes, que permite a numerosos quadros operários dedicarem-se a um trabalho de partido e, por último, a tenacidade dos bolcheviques e a coesão da organização de sua fração, conseguem inverter a relação de forças. O congresso de Londres, que se reúne em maio de 1907, é eleito por 77.000 militantes do partido do partido russo; além de 44 delegados do Bund, compreende 26 letões, 45 polacos e 175 delegados russos que se dividem em 90 bolcheviques e 85 mencheviques. Com o apoio dos social-democratas letões e polacos, os bolcheviques asseguram o controle da maioria frente à coalizão de mencheviques e bundistas. Entre os bolcheviques eleitos como membros do comitê central figuram: LêninNoguinKrasin, Bogdanov, Rikov e Zinoviev. O congresso introduz em seus estatutos o principio do “centralismo democrático”: as decisões tomadas após ampla discussão terão de aplicar-se estritamente, devendo a minoria submeter-se às decisões da maioria. Se decide igualmente, como garantia da liberdade das decisões e do controle democrático do centro, a celebração de um congresso anual e de conferências trimestrais as quais terão que acudir os delegados especificamente designados em cada ocasião. A pesar de sua vitória, Lênin, que pressente a iminência de “tempos difíceis”, o que se necessitará “a força de vontade, a resistência e a firmeza de um partido revolucionário temperado que possa enfrentar a dúvida, a debilidade e a indiferença e o desejo de abandonar a luta” [5], mantêm a fração e a reforça; depois do congresso, os delegados bolcheviques elegem um centro de 15 membros; este último tem como objetivo a direção da fração que, de outro lado, não constitui para Lênin o embrião de um novo partido mas “um bloco cuja finalidade é a de forçar a aplicação de uma tática determinada dentro do partido operário”[6].

 A Reação

O curso dos acontecimentos vai justificar a seguir o pessimismo de Lênin. O movimento operário se debilita; em 1905 há mais de 2.750.000 grevistas, em 1906, 1.750.000, em 1907, apenas 750.000, em 1908, 174.000, em 1909, 64.000 e em 1910, 50.000. Em pleno 1907, o governo de Stolypin toma a decisão de acabar com o movimento socialista. A conjuntura é favorável: as repercussões da crise mundial na Rússia, o desemprego e a miséria permitem ao czarismo utilizar o retrocesso para tentar liquidar os elementos de organização. A repressão se põe em marcha, as detenções desmantelam os diferentes comitês. A moral dos operários abaixa, muitos militantes abandonam sua atividade. Em Moscou, em 1907, são vários milhares, até o final de 1908 só ficam 500 e 150 ao final de 1909: em 1910 a organização já não existe. No conjunto do país os efetivos passam de quase 100.000 a menos de 10.000. De outro lado, intensificam-se os desacordos entre as frações que, por sua vez, se encontram em plena desintegração. Só o grau que alcança a decomposição do partido pode impedir o surgimento de novas cisões de fato: o fervente desejo de reunificação a qualquer preço surge da impotência geral e parece prevalecer por cima da decrepitude de todas as frações.

Entre os mencheviques começa a desenrolar uma tendência que Lênin denominará “liquidadora”: a ação clandestina parece carecer de perspectivas, é preciso limita-la ou mesmo abandona-la, buscar, antes de tudo, a aliança com a burguesia liberal, ganhar posições parlamentares com ela, reduzir as perdas ao mínimo. Segundo o ponto de vista dos liquidadores, a ação revolucionária de 1905 não tem sido nada realista. Axelrod escreve: “O impulso da história leva os operários e os revolucionários até o revolucionarismo burguês com muito mais força”[7].  Martinov opina que o partido “deve impulsionar a democracia burguesa”[8].  Potresov afirma que o partido não existe e que tudo está por fazer. Martov, por sua parte, considera a idéia de um “partido seita” como uma “utopia reacionária”. De fato, os mencheviques, nesta nova situação, recolocam a própria finalidade de sua ação, partido operário ou não, ação clandestina ou não.

Apesar da desilusão de muitos deles e das não menos numerosas deserções, os bolcheviques voltam a empreender as tarefas que haviam iniciado clandestinos antes de 1905. Sem dúvida tão pouco eles se vêem livres de divergências internas. A maioria queria voltar a boicotar as eleições, desta vez porque a lei eleitoral de Stolypin torna impossível que a classe operária esteja representada eqüitativamente. Sobre esta questão, Lênin opina que tal consigna, lançada num momento de apatia e indiferença operárias, corre o risco de isolar os revolucionários que, no lugar disso, deveriam se aferrar a todas as ocasiões que lhes ofereçam de desenvolver publicamente seu programa. Tanto as eleições como a III Duma devem ser utilizadas como tribuna dos socialistas que, apesar de não fazerem nenhuma ilusão sobre sua verdadeira natureza, não podem desprezar esta forma de publicidade. Apesar do isolamento em que se encontra dentro de sua própria fração, Lênin não vacila em votar só, junto com os mencheviques, contra o boicote das eleições na conferência de Kotka do mês de julho de 1907. Sem dúvida, os partidários do boicote voltam a tomar a iniciativa depois das eleições, pedindo a demissão dos socialistas que foram eleitos. Estes partidários da “retirada”, conhecidos pelo nome de “otzovistas”, encabeçados por Krasin e Bogdanov, vêem aumentar seus efetivos pelo apoio do grupo dos “ultimatistas” do comitê de São Petersburgo, que se manifestam contra toda participação nas atividades legais, inclusive nos sindicatos, intensamente vigiados pela polícia. Por último, Lênin se une à maioria dos bolcheviques, sem poder impedir a separação dos membros da oposição que, por sua vez, se constituem em fração e publicam seu próprio jornal, Vpériod, o segundo deste nome.

De fato, o partido inteiro parece se descompor entre violentos espasmos. Estoura a polêmica em torno da atividade dos boiéviki, grupos armados que se dedicam ao terrorismo e assaltam bancos e casas de fundos públicos, com o fim de conseguir, mediante tais “expropriações” os fundos que o partido precisa para financiar sua atividade. Bolcheviques e Mencheviques violentamente disputam o dinheiro dos simpatizantes que sustentam o partido, disputam a propósito de uma herança exigindo ambos os bandos a arbitragem dos dirigentes alemãs em cada ocasião. Até o final de 1908 Plekhanov repudia a linha dos liquidadores, rompe com a maior parte dos mencheviques e funda sua própria fração conhecida como dos “mencheviques do partido”, que funciona em frente única com os bolcheviques. O desejo de unidade aumenta com estas cisões sucessivas. Os mencheviques propõem que se celebre uma conferência que agrupe os delegados de todas as organizações legais ou ilegais e de todas as frações, o que talvez serviria para reconstruir a unidade quebrada. Lênin vê em tal atitude uma operação inspirada pelos “liquidadores”, mas outros bolcheviques, conhecidos por “conciliadores”, Dubrovinsky, RikovSokólnikov e Noguín, se unem a esta política de unidade. Trotsky, que havia sido condenado para a deportação, se evadiu. A partir de 1908, começa a publicar em Viena o Pravda (Verdade), organizando ao mesmo tempo sua difusão em toda Rússia; seu propósito é converte-la na nova IskraDe suas páginas, mantêm a tese de que se deve construir um partido aberto a todos os socialistas, que compreenda desde os liquidadores até os bolcheviques. Afirma igualmente sua independência em relação a todas as frações, mas sem dúvida se encontra de fato unido aos conciliadores que, com o nome de “bolcheviques do partido” integram a maioria da fração bolchevique. 
Em janeiro de 1910, uma sessão plenária do comitê central que se prolonga durante três semanas, parece confirmar o êxito da reunificação reclamada por Trotsky e seus aliados. A aliança de todos os conciliadores termina por se impor aos recalcitrantes de todas as frações: os jornais bolchevique e menchevique, respectivamente Proletário A Voz Social-democrata, desaparecem para deixar seu posto ao Social-Democrata, órgão conjunto que dirigirão Lênin e Zinoviev junto com Dan e Martov. O bolchevique Kamenev é eleito para fazer parte do comitê de redação da Pravda de Trotsky. Lênin, no ínterim, aceitou todas estas decisões. Em sua correspondência com Gorki afirma que agiu assim por poderosos motivos, sobretudo pela “difícil situação do partido”, e pelo “amadurecimento de um novo tipo de operários social-democratas no campo prático”. Sem dúvida, tal aceitação de sua parte não está desprovida de inquietação: no comitê central se põem em relevo perigosas tendências, “um estado de ânimo geral de conciliação, sem idéias claras, sem saber com quem, porque, de que forma”, e por acréscimo, o “ódio que inspira o centro bolchevique pela implacável luta ideológica que leva a cabo”, o “desejo dos mencheviques de organizar escândalos”.[9]

O acordo será efêmero. A partir de 11 de abril, Lênin escreve a Gorki: «Temos uma criança coberta de abscessos. Ou os revertemos, curamos a criança e a educamos, ou se a situação piore, a criança morrerá”. Constante em seu propósito acrescenta: “Neste último caso, viveremos algum tempo sem a criança (isto é: reconstituiremos a fração) e, mais adiante, daremos a luz a um bebê mais são”[10]. A conferência social-democrata de Copenhague revela, em agosto, um novo agrupamento de forças: os bolcheviques e os “mencheviques do partido” acabam de decidir, na Rússia, a publicação de dois jornais, a Rabotchaia Gazeta (Gazeta Operária), ilegal e a Zvezda (A Estrela), legal, cujo primeiro número aparece em 16 de dezembro de 1910: o apoio de Plekhanov é de um enorme valor para Lênin que, desta forma, combate os liquidadores em estreita aliança com aquele que, para muitos, segue sendo o pai da social-democracia russa.

A Nova Cisão: 1912

A partir de 1910, toda a Rússia dá sinais de um despertar do movimento operário. Os estudantes foram os primeiros a voltar às manifestações. Os operários, cujas condições de vida se fizeram mais suportáveis com o fim da crise e a absorção do desemprego, recobram seu valor e o gosto pela luta. Em 1911, 100.000 operários provocam greves parciais e seu número aumenta até 400.000 no primeiro de maio. As descargas de fusil do Lena, no mês de abril de 1912, que fizeram um saldo de 150 mortos e 250 feridos, marcam um novo estágio na luta operária.

Até este momento, Lênin aceitou, embora às vezes o haja feito contra sua vontade, a unidade e a conciliação. Sem dúvida, o novo ascenso operário torna inelutável, em sua opinião, um giro radical. De fato, no partido ninguém respeita as resoluções do comitê central de 1910 que não voltou a reunir-se, o Pravda, Vpériod e Voz social-democrata continuam aparecendo. Ao mesmo tempo, e graças ao apoio do polaco TychkoLênin e Zinovievconseguem converter o Social-Democrata num órgão bolchevique. Lênin pensa que se avizinham acontecimentos revolucionários a que só um partido fortemente estruturado poderá fazer frente. Os bolcheviques, sob a direção de Zinoviev, organizam em Longjumeau uma escola de quadros: os militantes formados ali passam logo ilegalmente para a Rússia para intensificar os contatos e preparar uma conferência nacional. Sem dúvida, a policia espreita: primeiro detêm Rikov, logo Noguin; por último “Sergo”, o georgiano Ordzhonikidze, consegue por para funcionar na Rússia um comitê de organização com a ajuda do clandestino SerebriakovDan e Martov protestam contra tais preparativos e abandonam o comitê de redação do Social-democrata.

Em 18 de janeiro de 1912, se reúne em Praga a conferência prevista. Dentre os exilados só participam os bolcheviques e alguns “mencheviques do partido”; sem dúvida, acodem mais de vinte representantes de organizações russas clandestinas. A conferência de Praga declara que atua em nome do partido inteiro, expulsa os liquidadores e recomenda a criação de “núcleos social-democratas ilegais rodeados de uma rede tão extensa quanto possível de associações operárias legais”. Elege-se então um comitê central em que figuram fundamentalmente LêninZinovievOrdzhonikidzeSverdlov e o operário metalúrgico Malinovsky. Cancela-se o acordo com a Pravda de Trotsky e a Rabotchaia Gazeta se converte no órgão do comitê central. Imediatamente depois será designado para sua direção o militante georgiano Iossif Dzhugashvili, que depois de ter sido “Ivanovitch” se chama “Koba”, antes de se converter em “Stalin”. Os militantes da Rússia, ao aplicar a resolução da conferência, se voltam para as atividades legais. O partido aceita a proposta formulada por Voronsky de publicar um diário legal.

Após vários meses de campanha e uma coleta levada a cabo nas principais fábricas das grandes cidades, em 22 de abril-5 de maio de 1912, aparece o primeiro número do Pravda: se trata de uma publicação bolchevique, embora durante mais de um ano siga contando entre seus colaboradores Jorge Plekhanov. Ao cabo de quarenta dias é proibida pela primeira vez, voltando a aparecer então com o título de Rabotchaia Pravda que só terá 17 números, de novo é proibida e volta a aparecer sucessivamente Severnaia Pravda, durante 31 números, Pravda Truda por 20, Za Pravku durante 51, Proletarskaia Pravda outros 16, Put Pravdy em 91 aparições; chegando a este ponto se converte em revista, se chamando Rabotchii e mais adiante Trudovskaia Pravda, ficando definitivamente proibida em 8 de julho de 1914.

A pesar da delicadeza da apreciação em tais circunstâncias, tudo indica que os bolcheviques que conservaram o nome do partido foram, na Rússia, os grandes beneficiários da cisão. Esta é, ao menos, a opinião do chefe da policia czarista que, em 1913, declara: “Na atualidade existem círculos, células e organizações bolcheviques em todas as cidades. Se tem criado contato e  correspondência permanentes com quase todos os centros industriais (…). Não pode portanto estranhar que a reagrupação de todo o partido clandestino se leve a cabo em torno das organizações bolcheviques e que estas tenham de fato terminado por representar o partido social-democrata como um todo.[11]

A Situação Imediatamente Anterior à Guerra

Os mencheviques foram surpreendidos. Até o mês de setembro de 1912 não lançam, por sua vez, um diário na Rússia, Luch (A Tocha), que nunca igualará a audiência que Pravda tem no mundo operário. No mês de agosto, Trotsky reuniu em Viena uma conferência que pretendia conseguir a reunificação: fracassa por completo na sua tentativa, pois os bolcheviques como os “mencheviques do partido” se negaram a participar dela. Os partidários do chamado “bloco de agosto” criam um comitê de organização cujo único vínculo é um sentimento de comum hostilidade para com Lênin e os bolcheviques. De novo se intensifica a polêmica. Lênin organiza a cisão da fração social-democrata dos deputados da Duma, energeticamente tomando a defesa do porta-voz da fração bolchevique, Malinovsky, que os mencheviques acusam de ser um provocador. Plekhanov rompe com os bolcheviques em agosto de 1913, deixa de colaborar no Pravda, tenta organizar sua própria fração mediante o periódico Edinstvo (Unidade) e termina por somar-se ao bloco de agosto. Ao mesmo tempo, Trotsky abandona este reagrupamento parcial que não responde aos seus desejos de reunificação geral; toma então contato com um grupo de operários de São Petersburgo, igualmente partidários da unidade de todas as frações. Lênin, que se instalara na Cracóvia, dirige daí a atividade dos bolcheviques, apoiando Svérdlov para que este assuma a direção do Pravda em lugar de Stalin. Mas tanto Svérdlov quanto Stalin são detidos, denunciados por Malinovsky que em definitivo resulta ser um agente da polícia. Os bolcheviques tentam organizar um congresso quando seus adversários, em sua campanha contra os “cisionistas”, apelam à internacional.

O secretariado da Internacional Socialista oferece seus serviços com vistas a uma mediação e, em 16 e 17 de julho de 1914, reúne em Bruxelas uma conferência que pleiteia a reunificação do partido russo. Nesta conferência estão representados todos os grupos e frações. Inês Armand, porta-voz dos bolcheviques, defende a posição expressada por Lênin em um memorando; a unidade é possível num partido social-democrata que compreenda uma ala revolucionária e uma ala reformista, como prova o exemplo dos partidos ocidentais. Sem dúvida, na Rússia, os que estragaram a unidade foram os liquidadores, com sua negativa a submeter-se à maioria: a reunificação só é possível se aceitem a disciplina. Depois de um debate muito agitado, em que se destaca Plekhanov pela violência de suas diatribes contra Lênin, a conferência aprova uma resolução que afirma que as divergências táticas postas em relevo não justificam uma cisão. Pleiteia igualmente cinco condições prévias ao restabelecimento da unidade: que todos aceitem o programa do partido; que a minoria respeite as decisões da maioria; uma organização que, dadas as circunstâncias, deve ser clandestina; a proibição de todo pacto com os partidos burgueses; a participação geral num congresso de unificação. Inês Armand e o delegado letão são os únicos em não outorgar seu voto a este texto que logo se converte numa arma contra os bolcheviques e sobretudo contra Lênin, que se espera isolar daqueles companheiros seus de conhecidas tendências “conciliadoras”. A guerra abortará por completo esta manobra, em primeiro lugar pela proibição do congresso internacional previsto para o mês de agosto de 1914 em Viena.

Por esta data, a situação na Rússia é enormemente confusa. Em geral, os bolcheviques ocupam as melhores posições; sem dúvida, segue existindo um fervente desejo de unidade. Em determinadas cidades, coexistem grupos bolcheviques e mencheviques que desenvolvem, tanto uns como outros, atividades legais e ilegais, em direta dependência do comitê central ou unidos com vínculos menos fortes ao comitê de organização. Não obstante, na prática tudo se encontra em plena evolução. Em alguns lugares se avizinha a cisão e em outros a unificação. A guerra porá fim a este quadro de conjunto. Muitos grupos locais subsistirão como social-democratas, sem unir-se a nenhuma das grandes frações e contando, entre seus membros, partidários de ambas. E, apesar da cisão de 1913, os deputados bolcheviques e mencheviques da Duma se uniram, com o nome de fração social-democrata, para votar contra os créditos de guerra.

Os bolcheviques ficam dezesseis meses sem direção efetiva. Centenas de militantes são detidos, encarcerados ou deportados, outros se encontram no exército (este é o caso dos operários que são mobilizados em suas próprias fábricas). Inicia-se um novo período de reação em que o militante fica reduzido à qualidade de individuo isolado. Quando, a partir de 1916, os operários de novo começam a se integrarem na luta, a fração bolchevique conta no máximo, com 5 mil membros dentro de uma organização que pouco a pouco se reconstrói. Só possui um punhado de quadros; esses poucos homens que durante os anos do pré-guerra aprenderam a organizar e agrupar operários, a dirigir suas lutas e iludir as forças repressivas constituem, de fato, os elementos da vanguarda revolucionária que Lênin tratou de formar ao longo de toda a complicada história do partido operário social-democrata russo e sua fração bolchevique.

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Fonte: https://www.marxists.org/portugues/broue/1960/partido/cap02.htm

Notas: 

[1] Trotsky, Stalin, pág 56.

[2] R. Luxemburgo, «Cuestiones organizativas de la social‑democracia rusa» (Die Neue Zeit, 1904, n.º 22).

[3] Trotsky, Nashi Politícheskie Zaduchi, (1904) (Nuestras tareas políticas), panfleto traducido y citado por Deutscher en El profeta armado,  Ed. Era, págs. 94‑96.

[4] Krúpskaya, Ma vie avec Lénine.

[5] Citado por Trotsky, Stalin, pág. 123.

[6] Lenin, «Lettres á Gorki» (25 de febrero de 1908), Clarté, n.º 71, pág. 10.

[7] Citado por, E.H. Carr, La Revolución bolchevique, Alianza Universidad, t. I, pág. 69.

[8] Citado porCarr, ibídem, pág. 69.

[9] Lenin, «Lettres á Gorki», ibídem, pág. 13.

[10] Ibídem.

[11] Citado por Trotsky, Stalin, pág, 218.

Movimento - Crítica, teoria e ação

Apresentação

A décima terceira edição da Revista Movimento dedica-se ao debate sobre os desafios da esquerda socialista no Brasil diante da crise nacional que se desenrola há anos e do governo Bolsonaro. Para tanto, foram convidados dirigentes do PSOL, do MES e de outras organizações revolucionárias que atuam no partido. O dossiê sobre a estratégia da esquerda e o PSOL reflete os desafios da organização de um polo socialista no interior do partido. Há também, na seção nacional, reflexões sobre a crise econômica brasileira, as revelações de The Intercept e as lutas da juventude e da negritude. As efemérides do centenário da escola Bauhaus e do cinquentenário do levante de Stonewall também aparecem no volume, além da tese das mulheres do MES para o Encontro de Mulheres do PSOL.

Ilustração da capa da Revista Movimento

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