Primeiras reflexões sobre as eleições espanholas de 28-A

Primeiras reflexões sobre as eleições espanholas de 28-A

Esquerda espanhola analisa os resultados eleitorais do último domingo.

Raul Camargo 29 abr 2019, 14:35

As eleições gerais de 28 de abril trouxeram uma primeira boa notícia: a mobilização combinada do “povo de esquerdas” e do nacionalismo, em suas distintas versões, com o independentismo catalão como protagonista e a espetacular subida de EH Bildu, derrotaram de forma clamorosa o “trifachito” [NdT: denominação popular de um possível pacto entre as formações políticas do Partido Popular, Ciudadanos e Vox]. A Espanha é um país de países e a solução democrática à questão nacional é inadiável. Além desta primeira consideração, faço algumas reflexões de urgência:

1. As direitas tiveram uma derrota histórica. O PP sofre uma débacle enorme, seu pior resultado de sempre com 66 cadeiras. Vox lhe tira votos em todas as partes, mas por efeito de circunscrição provincial lhe provoca uma sangria de deputados. Casado, e seu mentor Aznar, foram muito atingidos e seguramente começarão os movimentos para deslocá-los. A corrupção sistemática cobrou um alto preço ao PP. Vox não chega onde acreditava que ia chegar e fica com 24 deputados. Não é pouca coisa que a ultradireita entre assim fortemente no Congresso mas ficam muito longe do que se previa. Sua presença serviu para tensionar toda a esquerda e provocar uma participação recorde de 75%. Hoje não passaram. Ciudadanos cresce baste mas sua estratégia errática o deixará fora dos pactos de governo e m minha opinião. Rivera apostou tudo no trifachito e isso não soma. Pactuar agora com Sanchez depois de todos os impropérios destes meses e do falado em campanha é demasiado até para um tipo sem escrúpulos como Rivera. A direita fica muito abaixo de suas expectativas.

2. O PSOE ganha folgadamente com 123 assentos e obtém uma corrente grande de votos provenientes de Unidas Podemos e da abstenção. Sánchez adiantou as eleições com audácia aproveitando a nefasta foto de Colón. Mas sabemos que o PSOE não é um partido a se confiar e não vai fazer nada para confrontar as grandes empresas, com Bruxelas ou com os bancos. Nenhuma confiança nos quais demonstraram quase sempre que suas lealdades estão com os que mandam e não com os e as de baixo.

3. Os independentistas catalães obtêm uma grande vitória. O acosso ultra do espanholismo lhes reforça enormemente. E não há maioria de esquerdas que possa sobreviver sem lhe dar uma saída democrática ao conflito catalão, começando por libertar os presos políticos. Em Euskadi o PNV e o EH Bildu também sobem muito. A Espanha é plurinacional e quem for contra isso se estatelará muitas vezes.

4. Unidas Podemos consegue um resultado melhor que o prognosticado pelas pesquisas mas sofre um retrocesso importante e perde todos os deputados na Espanha interior. A boa participação de Iglesias nos debates e a impressionante mobilização da esquerda social salvaram a situação. Mas agora uma tarefa deveria centrar-se em exigir mudanças reais para a maioria social trabalhadora: a revogação das reformas trabalhistas, uma mudança, do modelo produtivo que lute contra a mudança climático, agenda feminista forte, revogação da LOMCE e da Lei de Estrangeiros. A prioridade deve ser as políticas e nem tanto as cadeiras. Amanhã seguiremos analisando. Hoje, ao menos, sinto um pouco de alívio.

Reprodução da tradução realizada pelo Portal da Esquerda em Movimento.

Parlamentares do Movimento Esquerda Socialista (PSOL)

Capa da última edição da Revista Movimento
Na 16ª edição, estão disponíveis dois dossiês. No primeiro, sobre o ecossocialismo, podem-se se encontrar as recentes teses de Michael Löwy, além de uma entrevista com o sociólogo e dirigente da IV Internacional. Também publicamos uma entrevista com Zé Rainha, dirigente da FNL, sobre sua trajetória de luta e os desafios dos socialistas no Brasil; uma entrevista com Antônia Cariongo, dirigente quilombola e do PSOL-MA; e artigos de Luiz Fernando Santos, sobre a lógica marxista e a Amazônia, e de Marcela Durante, do Setorial Ecossocialista do PSOL. O segundo dossiê traz algumas análises iniciais sobre a pandemia de coronavírus. Há artigos de Mike Davis e Daniel Tanuro; documentos do MES e do Bureau da IV Internacional; além de uma densa análise de nossas companheiras Evelin Minowa, Joyce Martins, Luana Alves, Natália Peccin Gonçalves, Natalia Pennachioni e Vanessa Couto e de um artigo do camarada Bruno Magalhães. A seção de depoimentos traz um instigante artigo de Pedro Fuentes sobre a história de seu irmão Luis Pujals, o primeiro desaparecido político da história da Argentina. Já a seção internacional traz uma análise do sociólogo William I. Robinson sobre a situação latino-americana.