A revolução desfigurada – A falsificação stalinista da história
Nadezhda Udaltsova Três Figuras, 1914

A revolução desfigurada – A falsificação stalinista da história

Prefácio do livro que completa 90 anos.

Leon Trotsky 23 maio 2019, 19:35

Prefácio

O presente volume descreve as etapas da luta que há seis anos a fração dirigente prossegue na URSS contra a oposição de esquerda (bolchevique-leninista) em geral e contra o autor deste livro em particular.

Tem por objeto grande parte desta obra rebater as incriminações e as grosseiras imputações mentirosas dirigidas pessoalmente contra mim. Qual a razão, pois, que me faculta a importunar a atenção do leitor com estes documentos? Não pode fundamentar por si só a publicação deste livro, o fato de ter estado a minha vida aderida aos acontecimentos da Revolução. Nada haveria de instrutivo na narração desta luta se a pugna da fração de Stalin contra mim fosse apenas um combate pessoal pelo poder, pois na história parlamentar abundam as disputas entre grupos e indivíduos em nome do poder. Bem outra é a razão: é que a peleja pelo poder dos grupos e dos indivíduos na URSS faz parte indissolúvel das diversas fases da Revolução de Outubro.

Em época alguma o determinismo histórico se patenteia com tanta veemência como nos períodos revolucionários; de fato, este põe em evidência e eleva os problemas e as contradições das relações de classes ao mais alto grau de acuidade. A disputa ideológica torna-se, nesses períodos, a mais direta arma das classes inimigas ou das frações de uma só classe. Precisamente foi este o caráter que revestiu a luta contra o «trotskismo» na Revolução russa. É, neste caso, tão inequívoco o elo que ata argumentos, por vezes essencialmente escolásticos, à procura de proveito material de certas classes ou camadas sociais, que há chegar o dia em que esta experiência histórica terá de ser objeto de um capítulo exclusivo nos manuais escolares de materialismo histórico.

Devido à doença e morte de Lenin, a Revolução de Outubro divide-se em dois ciclos que vão se diferenciando um do outro quanto mais nos arredamos dela. Foi o primeiro o da tomada do poder, da instituição e fortalecimento da ditadura do proletariado, da sua defesa militar, nas medidas indispensáveis a que se teve que recorrer para assentar a sua via econômica. Nesse momento todo o partido tem a consciência de ser o pilar da ditadura do proletariado; desse conhecimento íntimo é que tira a sua segurança interna.

Caracteriza-se o segundo, pela persistência no país de um crescente número de princípios de dualidade de poder. O proletariado, que conquistou o poder em Outubro, por efeito duma série de causas tanto materiais quanto morais de ordem externa como interna, foi relegado e arredado para segundo plano. Ao lado dele, detrás dele, mesmo por vezes à sua frente, levantam-se outros elementos, outras camadas sociais e frações de outras classes, que açambarcam uma boa parte, se não do poder, pelo menos duma influência sobre este. São essas outras camadas: funcionários do Estado, dos sindicatos profissionais e cooperativas, profissões liberais e intermediários, que compõem um sistema de vasos comunicantes. Estas camadas, ao mesmo tempo, estão desligadas do proletariado ou afastam-se cada vez mais dele, pelas suas condições de existência, pelos hábitos e modos de pensar. Nessa camada, em definitivo, têm de serem incluídos os funcionários do partido, conforme formam uma casta solidamente constituída que, não tanto polos meios internos do partido, como pelos do aparelho do Estado, asseguram a sua própria imobilidade.

O poder soviético, pela sua origem e tradições, pela procedência da sua atual força, continua a apoiar-se no proletariado, embora cada vez menos diretamente. Mas, através das camadas sociais acima enumeradas, cai cada vez mais na órbita de influência dos interesses burgueses. Esta pressão torna-se tanto mais sensível quanto uma grande porção, não só do aparelho do partido, vem a ser o agente, senão consciente polo menos eficaz, das concepções e das esperanças burguesas. Qualquer que seja a sua falta de vigor interior, a nossa burguesia tem, e com razão, o conhecimento íntimo de ser uma fração da burguesia mundial e de constituir o mecanismo de transmissão do imperialismo mundial. Mas também a camada inferior burguesa está longe de ser desprezível. Conforme a economia agrícola se desenvolve sobre as bases individuais do mercado, inevitavelmente desponta do seu seio uma copiosa pequena burguesia rural. O mujique [camponês] enriquecido, ou o que só pensa enriquecer, e que bate com as barreiras da legislação soviética, é o agente natural dos impulsos latentes bonapartistas. Este fato, provado por toda a evolução da história moderna, foi mais uma vez corroborado pela experiência da República Soviética. Estas são as primeiras causas determinantes dos elementos de dualidade de poder que caracterizam o segundo capítulo da Revolução de Outubro, posterior à morte de Lenin.

Dispensado será manifestar que, mesmo o primeiro período —1917-1923— não é totalmente homogêneo. Teve não só movimentos de avanço, mas também recuos. A Revolução fez importantes concessões nesse período também: por um lado à classe camponesa, por outro à burguesia mundial. Brest-Litovsk foi o primeiro retrocesso da Revolução vitoriosa. Depois disso a Revolução caminhou para a frente. Uma séria manobra retrógrada, por mais parcos que até agora tenham sido os seus resultados práticos foi, no princípio, a política de concessões comerciais e industriais. O maior recuou foi, no entanto, de uma maneira geral, a nova política económica, a NEP. Ao restabelecer o mercado, a NEP, recriou as condições que podem fazer ressuscitar a pequena burguesia. Compendiando, a NEP encerrava as possibilidades de dualidade de poder, contudo inexistentes fora do potencial econômico. Desenvolveram só um ímpeto real no segundo capítulo da história de Outubro cujo ponto de partida é geralmente o da doença e morte de Lenin, e o princípio da luta contra o «trotskismo».

Escusado será dizer que as concessões, em si mesmas, às classes burguesas não são ainda uma violação da ditadura do proletariado. Em geral, não se deu na história uma dominação quimicamente pura. A burguesia exerce o domínio apoiando-se nas outras classes, submetendo-as, corrompendo-as ou arremedando-as. As reformas sociais em favor dos operários, e mais sim, não conformam de maneira alguma uma transgressão à incondicional soberania da burguesia num país. Pode cada capitalista individualmente, decerto, ter a impressão de não ser já o senhor da sua casa — isto é, na sua fábrica — constrangido como é a ter em conta os limites legislativos da sua ditadura econômica. Mas estes limites não têm outra razão que não seja o de segurar e sustentar o domínio de classe no seu conjunto. Os interesses do capitalista isolado a todo o momento entram em contradição com os do Estado capitalista, não só pelas questões de legislação social, mas também, no que tem relação com os impostos, a dívida pública, a guerra, a paz, etc. A vantagem continua a ser do conjunto dos interesses da classe. Esta é a única a decidir quais as emendas que pode outorgar sem abalar as bases da sua dominação.

De jeito semelhante põe-se o problema para a ditadura do proletariado. Só poderia existir em meio imaterial uma ditadura de pureza química. O proletariado dirigente é obrigado a contar com as outras classes e, segundo a relação de forças no interior do país ou na areia internacional, a fazer concessões às outras classes para manter a sua dominação. Todo o assunto está em saber quais os limites dados às concessões e qual o grau de conhecimento íntimo com que são feitas.

A nova política econômica revestia-se de dois aspectos. Em primeiro lugar, derivava da obrigação para o próprio proletariado de fazer uso, com vista à direção da indústria e, em geral, de toda a economia, dos métodos elaborados pelo capitalismo. Em segundo lugar, conforme lhe dava oportunidade para conduzir a economia pelas formas de compra e venda que à burguesia lhe são essencialmente próprias, manifestava uma concessão à burguesia e, sobretudo, à pequena burguesia. Devido a uma população rural predominante na Rússia, este segundo aspecto da NEP teve uma importância decisiva. Ante a paralisação do desenvolvimento revolucionário nos outros países, a NEP, significando um profundo e duradouro recuo, era inevitável. Sob a direção de Lenine aplicámo-la com plena unanimidade. Esta volta para trás foi reconhecida como tal, com pleno conhecimento de todos. O partido, e a classe operária através dele, compreenderam perfeitamente o seu sentido de forma geral. Até certo ponto, a pequena burguesia obteve a possibilidade de acumular. Mas o poder e, por consequência, as prerrogativas de precisar as demarcações dessa acumulação continuaram, como antes, nas mãos do proletariado.

Há uma analogia, como já dissemos, entre as reformas sociais que a burguesia dirigente se vê obrigada a fazer no interesse do proletariado e as mercês que faz às classes burguesas o proletariado dirigente. Mas é forçoso assentar esta analogia em quadros históricos bem definidos se queremos evitar erros. Existe desde há séculos o poder burguês, tem um carácter mundial, baseia-se numa imensa acumulação de riquezas, arruma um vigoroso conjunto orgânico de instituições, de ligações e de ideias. Séculos de dominação criaram uma qualidade de instinto de dominação que muitas vezes foi, em situações difíceis, um guia seguro para a burguesia. Para o proletariado foram séculos de opressão, os séculos de domínio burguês. A classe dos proletários não tem nem tradições históricas de dominação, nem com maior razão, o instinto de poder. Chegou ao poder num dos países mais pobres e atrasados da Europa. Isso quer dizer que a ditadura do proletariado, na atual etapa e nas condições históricas do tempo presente, está infinitamente menos resguardada do que o poder burguês. Uma política justa, uma consideração útil dos seus atos e, em particular, das irremediáveis outorgas às classes burguesas são, para o poder soviético, uma questão de vida ou de morte.

Caracteriza-se o capítulo da Revolução de Outubro posterior à morte de Lenin, tanto pelo desenvolvimento das forças socialistas como pelo ímpeto das forças capitalistas no interior da economia soviética. A solução depende da sua proporção dinâmica. Assenta mais na evolução cotidiana da vida econômica do que na estatística, o controle desta proporção. A profunda crise atual, que paradoxalmente adotou a forma da penúria de produtos agrícolas num país agrário, é a prova objetiva e certa da fratura das proporções econômicas essenciais. Desde o Outono de 1923, no XII Congresso do partido, o autor deste livro tinha avisado para as consequências que poderiam advir duma enganosa direção económica; o atraso da indústria provoca a “tesoura”, isto é, a desproporção entre os preços dos produtos industriais e agrários, fato que, por sua vez, incita a paralisação do desenvolvimento da agricultura. De maneira nenhuma é sinal da irremediabilidade ou, ainda menos, da iminência da queda do regime soviético, o fato de estas consequências se terem verificado. Apenas denota –mas de maneira mais imperiosa- a necessidade de uma mudança de política económica.

Então a dúvida que se põe é a de saber se a dita direção é competente para compreender a necessidade de uma modificação de política e se, na prática, está em situação de a efetuar. Voltemos, assim, à questão de saber em que grau o poder do Estado se encontra ainda nas mãos do proletariado e do seu partido, isto é, até onde continua a ser o poder da Revolução de Outubro. Dar resposta a priori a esta questão é impossível. Não se rege por princípios mecânicos a política. As forças das classes e dos partidos revelam-se na luta. E ainda está para vir toda a luta. Não pode durar muito a dualidade de poder, quer dizer, a existência paralela do poder ou semi-poder de duas classes antagônicas, como por exemplo, no período de Kerensky. Tal conjuntura tem de achar solução num sentido ou noutro. A asseveração dos anarquistas ou anarquizantes, segundo a qual a URSS já é um país burguês, é rebatida da melhor maneira pelo modo de proceder que a própria burguesia interna e estrangeira seguiu a esse respeito. Ir mais além do que o reconhecimento de elementos de dualidade de poder seria teoricamente falso, perigoso politicamente, mesmo um fato suicida. A questão da dualidade de poder funda-se, portanto, neste momento, em saber quanto se enraizaram as classes burguesas no aparelho do Estado soviético e em que medida enraizaram as ideias e as tendências burguesas no aparelho do partido e do proletariado. Deste grau deriva a liberdade de manobra do partido e a capacidade para a classe operária de adotar as medidas precisas de defesa e de ataque.

Não se distingue apenas o segundo capítulo da Revolução de Outubro pelo progresso das posições econômicas da pequena burguesia das cidades e dos campos, mas por um encadeamento mais perigoso e agudo de desarmamento teórico e político do proletariado, paralelo a um acréscimo de segurança na consciência das camadas sociais burguesas. O interesse político das classes pequeno-burguesas em crescimento consistiu e ainda consiste, segundo o estágio por que passam estes processos, em dissimular o máximo possível os seus avanços, em disfarçar os seus progressos sob uma aparência soviética protetora, em apresentar as suas conquistas como partes integrantes da edificação socialista. Ao certo alguns progressos, aliás importantes da burguesia, fundamentados na NEP, eram indeclináveis e, por outro lado, necessários para o próprio progresso do socialismo. Mas, exatamente iguais ganhos econômicos da burguesia podem atingir toda outra importância e representar um perigo bastante diferente, conforme a classe operária, e, sobretudo o seu partido, tenham uma ideia mais ou menos clara dos decursos e dos deslocamentos que se operam no país e mantenham, mais ou menos com consistência, a direção nas mãos. A política é uma economia concentrada. A questão econômica resolve-se na República soviética, na atual etapa, mais do que nunca, do ponto de vista político.

Não se reduz tanto o vício da política posterior a Lenin em ter feito novas e relevantes concessões às diferentes camadas da burguesia no interior do país, no Ocidente e na Ásia. Foram necessárias ou forçosas algumas destas concessões, pelo menos devido a erros prévios. Tais foram as novas permissões, feitas aos kulaks em Abril de 1925: o direito de arrendamento da terra e de empregar mão de obra. Foram outras, em si mesmas, erradas, prejudiciais, mesmo funestas. Neste caso está a capitulação perante os agentes burgueses do movimento operário britânico e, ainda pior, a rendição perante a burguesia chinesa. Mas o mais notável crime da política posterior a Lenin, a anti-leninista, foi o de expor graves concessões como êxitos do proletariado, os recuos como progressos, o de interpretar a ampliação das dificuldades internas como um avanço vitorioso para uma sociedade socialista nacional.

Esta tarefa, traidora no fundo, de desarmar teoricamente o Partido e de impedir que o proletariado vigie a conservação das conquistas da Revolução, foi levada a cabo no transcurso destes últimos seis anos sob o pretexto de uma luta contra o “trotskismo”. As pedras angulares do marxismo, os métodos essenciais da Revolução, as principais lições da estratégia leninista foram submetidos a uma rude e violenta revisão, na qual encontrou sua expressão a impaciente aspiração de ordem e de tranquilidade do funcionário pequeno-burguês.

Alegam-me, com grande autoridade, os meus críticos das facções social-democrata e democrata, que a Rússia não está «madura» para o socialismo e que Stalin tem toda a razão em reconduzi-la, aos ziguezagues, no rumo do capitalismo. É coosa certa que aquilo a que os social-democratas designam, com real satisfação, o restabelecimento do capitalismo, chama-o Stalin construção do socialismo nacional. Mas como tem em vista o mesmo processo, a variedade terminológica não nos deve encobrir a identidade de fundo. Mesmo aceitando que Stalin leve a cabo a sua tarefa com conhecimento de causa, o que de momento não é o caso, ver-se-ia obrigado apesar de tudo, para adoçar fricções, a dar o nome de socialismo ao capitalismo. Ora, quanto menor ele compreende os problemas históricos essenciais, mais o seu modo de proceder avança seguro neste caminho. A sua cegueira aforra-lhe no caso a necessidade de mentir.

A controvérsia não é, no entanto, de saber se a Rússia é capaz de edificar o socialismo pelos seus próprios meios. Para o Marxismo em geral, esta questão não existe. Tudo o que foi dito pela escola stalinista a este respeito é, no plano teórico, do domínio da alquimia e da astrologia. Serve o stalinismo, no melhor das hipóteses, enquanto doutrina, para fazer parte de um museu teórico da história natural. O essencial é se o capitalismo proporciona possibilidades de tirar a Europa do impasse histórico; se é capaz a Índia de libertar-se da escravatura e da miséria sem sair dos quadros de um progresso capitalista pacífico; se a China tem capacidade de atingir, sem revolução e sem guerras, o nível de cultura de América e da Europa; se os Estados Unidos poderão conter as suas próprias forças produtivas sem abalar a Europa e sem encarreirar para uma terrível catástrofe toda a humanidade. Eis como se põe o argumento do curso posterior da Revolução de Outubro. Se se aceitar que o capitalismo prossegue a ser uma força histórica que progride, com possibilidades para achar as soluções pelos seus próprios métodos e meios as propostas essenciais que estão na ordem do dia da história e de fazer prosperar a humanidade mais alguns lances, não se poria, então, a questão de converter a República soviética em país socialista. Deste jeito estaria fatalmente sentenciada à sua destruição a estrutura socialista da Revolução de Outubro, para legar unicamente as conquistas agrárias democráticas. Este recuo da revolução proletária à revolução burguesa seria levado a efeito pela fracção de Stalin, por uma fração desta fração, ou seriam necessárias uma ou mais substituições políticas gerais? Estes são problemas que estão em segundo lugar. Manifestei muitas vezes já que a forma política deste movimento regressivo seria, muito possivelmente, o bonapartismo e de maneira nenhuma a democracia. Ora, o indispensável é saber se, enquanto sistema mundial é o capitalismo ainda uma força progressiva. Precisamente nisso é que os nossos opositores social-democratas dão testemunho de um utopismo aflitivo, arcaico, incapaz; de um utopismo reacionário e não progressista.

A política de Stalin é um «centrismo», isto é, uma tendência que oscila entre a social-democracia e o comunismo. As mais notáveis tentativas «teóricas» da escola de Stalin, que emergiu apenas depois da morte de Lenin, apresentam a propensão a separar a sorte da República soviética do desenvolvimento revolucionário em geral. Isto equivale a separar a revolução dela própria. O problema teórico dos epígonos, consequentemente, revestiu a forma de uma oposição do «trotskismo» ao leninismo.

Seria indispensável para fazer desaparecer o carácter internacional do Marxismo, permanecendo-lhe fiel em palavras até nova ordem, voltar as armas, em primeiro lugar, contra os que foram pilares das ideias da Revolução de Outubro e do internacionalismo proletário. Neste caso, o primeiro posto correspondeu a Lenin. Mas Lenin morreu no limiar dos dois estágios da Revolução. Por consequência não pôde defender a obra da sua vida. Os epígonos retalharam os seus livros em citações e é com esta arma que combatem o Lenin vivo e ao mesmo tempo erigem-lhe mausoléus, não apenas na Praça Vermelha, mas ainda na própria consciência do partido. Lenin abriu o seu livro O Estado e a Revolução, como se antevisse a fortuna que seria dada em breve às suas ideias, com as seguintes palavras aplicadas ao destino dos grandes revolucionários:

«Procuram convertê-los depois de mortos em ícones inofensivos, canonizá-los por assim dizer, envolvendo o seu nome de uma auréola de glória para “consolar” as classes oprimidas e para enganá-las, ao mesmo tempo em que se torna infecundo o mais essencial e importante dos seus ensinamentos revolucionários estragando-lhe o gume e degradando-a» (Edição russa, Tomo XIV, Capítulo II, pág. 299)

Resta apenas acrescentar a estas proféticas palavras que N. K. Krupskaia teve um dia a coragem de lançá-las à cara da fração de Stalin.

A segunda parte desta tarefa dos epígonos consistiu em voltar o que era a defesa e o desenvolvimento das ideias de Lenin como sendo um conjunto de princípios hostis a Lenin. O mito do «trotskismo» forneceu essa histórica serventia. Fará falta repetir que nunca tive a intenção nem pretendo criar uma doutrina particular? Em teoria sou um aluno de Marx. A respeito dos métodos da revolução, passei pela escola de Lenin. O «trotskismo», como bem queiram, é para mim um nome sob o qual os epígonos nomeiam as ideias de Marx e de Lenine, com o objetivo de se libertarem a todo o custo desses pensamentos, mas não ousando fazê-lo a peito aberto.

Mostra o presente livro uma parte do processo ideológico através do qual alterou a atual direção da República soviética a sua cobertura teórica, compassada com a mudança da sua natureza social. Mostrarei como as mesmas pessoas manifestaram pareceres diametralmente opostos com respeito aos acontecimentos, às ideias e aos mesmos militantes, enquanto Lenin era vivo e após morrer. Diga-se de passagem, que vai contra o meu estilo literário habitual fazer um grande número de citações, mas sou obrigado neste livro. Porém, não se pode deixar de valer de textos e opiniões porque, na emergência, trazem à memória evidentes e irrefutáveis provas de denúncia, na luta contra homens políticos que, astuciosamente e com atabalhoamento renegam o seu passado mais recente ao passo que lhe juram fidelidade. Se deplorar o leitor impaciente ser obrigado a percorrer uma parte do caminho em pequenos trajetos, que tenha por conta que se tivesse que juntar estas citações, destacar as mais significativas e ordenar o vínculo político necessário entre elas, ter-lhe-ia requerido isso infinitamente mais trabalho do que o de ler com atenção estes documentos fundamentais do combate entre dois campos tão contíguos e, ao mesmo tempo, tão irredutivelmente opostos.

A primeira parte deste livro é uma carta que escrevi na altura do X aniversário da Revolução de Outubro ao Instituto Histórico do Partido e da Revolução. Protestando, o Instituto devolveu o meu manuscrito que, na realidade, era um corpo estranho nos trabalhos de assombrosa falsificação histórica a que se submete esta instituição na sua luta contra o «trotskismo».

Já a segunda parte é constituída de quatro discursos que pronunciei perante as mais altas instâncias do partido, de Junho a Outubro de 1927, isto é, no tempo do período de luta ideológica mais árdua entre a oposição e a fração de Stalin. Se dentre os copiosos documentos destes últimos anos escolhi os textos taquigráficos destes quatro discursos é porque proporcionam, sob uma forma sintética, uma exposição bastante acabada das concepções em contenda e porque, em minha opinião, na sua continuidade cronológica dá ocasião ao leitor para apreender o dramático dinamismo do próprio conflito. Quero acrescentar ainda que as reiteradas analogias com a Revolução francesa se empregam para facilitar a orientação histórica do leitor latino.

Porções consideráveis no texto dos discursos foram suprimidas para evitar repetições que são, apesar de tudo, mais ou menos inevitáveis. Dou todos os esclarecimentos necessários sob a maneira de notas de introdução aos próprios discursos, pela vez primeira publicados na edição à vista. Na URSS continuam a ser documentos ilegais.

Apresento, para acabar, um pequeno panfleto escrito no exílio em Alma-Ata, em 1928, em resposta a uma carta de repreensão que um adversário bem-intencionado me enviou. Julgo que este documento, cujo manuscrito propagou-se largamente, dá, a todo o livro, o ajuste preciso, iniciando o leitor na noção da última fase da luta que antecedeu diretamente a minha expulsão.

Engloba esta obra um passado muito fresco, com o exclusivo objetivo de prendê-lo ao presente. Mais de um debate a que se faz referência ainda não concluiu, mais de uma questão ainda não foi resolvida. Mas cada novo dia trará uma demonstração suplementar das concepções em luta. Este livro é dedicado à história atual, isto é, à política. Medita o passado apenas como um preâmbulo direto ao futuro.

Constantinopla, 1 de Maio de 1929.


Parlamentares do Movimento Esquerda Socialista (PSOL)

Capa da última edição da Revista Movimento
A décima terceira edição da Revista Movimento dedica-se ao debate sobre os desafios da esquerda socialista no Brasil diante da crise nacional que se desenrola há anos e do governo Bolsonaro. Para tanto, foram convidados dirigentes do PSOL, do MES e de outras organizações revolucionárias que atuam no partido. O dossiê sobre a estratégia da esquerda e o PSOL reflete os desafios da organização de um polo socialista no interior do partido. Há também, na seção nacional, reflexões sobre a crise econômica brasileira, as revelações de The Intercept e as lutas da juventude e da negritude. As efemérides do centenário da escola Bauhaus e do cinquentenário do levante de Stonewall também aparecem no volume, além da tese das mulheres do MES para o Encontro de Mulheres do PSOL.