Balbúrdia é destruir a universidade: diante de um ataque brutal, a educação tem que se levantar
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Balbúrdia é destruir a universidade: diante de um ataque brutal, a educação tem que se levantar

O movimento em defesa da educação pode abrir o caminho para uma luta unificada contra todos os ataques de Bolsonaro.

Israel Dutra e Thiago Aguiar 3 Maio 2019, 19:44

Nessa semana, o Ministério da Educação anunciou o corte de 30% dos recursos das instituições federais de ensino. A princípio, declarações de Abraham Weintraub, preposto de Bolsonaro no MEC, ao jornal O Estado de S. Paulo, davam conta de que a UFBA, UnB e UFF teriam um corte de quase um terço de suas verbas por “promoverem balbúrdia” nos campi e não apresentarem bom desempenho de produção científica. Weintraub chegou ao absurdo de justificar tal medida pela presença de militantes sem-terra nas universidades e realização de festas com estudantes “nus”.

Após as reações contrárias ao anúncio – que mostraram a falsidade da crítica à produção científica das universidades e a inconstitucionalidade da medida direcionada a determinadas instituições por critérios arbitrários –, o MEC divulgou um “esclarecimento”: o corte de 30% seria realizado em todas as universidades federais e IFs, com uma eventual devolução de recursos em caso de aprovação da reforma da previdência. Posteriormente, Weintraub mudou a versão e declarou que seu plano é deslocar as verbas de universidades para as creches, como forma de comover a opinião pública para liquidar os investimentos em ensino, pesquisa e extensão.

Na verdade, a estratégia que o governo não esconde de ninguém é debilitar o espaço da universidade pública, considerado pelo bolsonarismo um “antro do marxismo cultural”, e chantagear o país, contingenciando verbas de áreas fundamentais e condicionado a recomposição de recursos somente caso a reforma da previdência, pilar do projeto de Bolsonaro e Guedes, seja aprovada.

Uma estratégia de guerra total contra a universidade

Após os 100 primeiros dias de governo, em que o MEC viveu a paralisia do período Vélez Rodríguez – marcado pela incompetência do ministro e de uma equipe em disputa entre militares, limitados ex-alunos de Vélez e seguidores de Olavo de Carvalho –, a posse de Abraham Weintraub foi seguida por uma ofensiva contra as universidades. Oriundo do grupo de economistas ultraliberais que participou da equipe de transição e com indicação chancelada por Olavo de Carvalho, Weintraub parece sintetizar dois dos principais núcleos de poder do governo Bolsonaro. Com o anúncio dos cortes e a perseguição à suposta “balbúrdia” na universidade, o novo ministro mostra que pretende desmontar as universidades públicas, asfixiando seu funcionamento, ao mesmo tempo em que conduz uma agenda ideológica anticientífica e anti-intelectualista, como ficou claro em suas provocações aos reitores na sequência do anúncio dos cortes. Por trás do circo ideológico reacionário, está o interesse do governo entreguista e pró-patronal de Bolsonaro e Guedes de privatizar totalmente a educação.

Weintraub segue as orientações de Bolsonaro, um militar que pretende utilizar expedientes como corte de suprimentos e desmoralização do “inimigo” numa guerra de aniquilação. Várias instituições – como a UFPR, a UFMG e diversos IFs – anunciaram que, mantido o corte, terão que fechar as portas em meados deste ano. Em cerca de um mês no ministério, Weintraub já anunciou em pronunciamento com Bolsonaro (pisoteando, aliás, a legislação e a autonomia universitária) que irá retirar recursos de áreas como Sociologia e Filosofia, além de ameaçar cursos, universidades e IFs de regiões pobres do país.

O objetivo do bolsonarismo, apoiado por movimentos de extrema-direita entusiastas do “Escola sem Partido” e seguidores de Olavo de Carvalho, é, na realidade, calar as vozes críticas e atacar a juventude, que esteve na vanguarda das principais lutas do país nos últimos anos, como em junho de 2013 e na onda de ocupações de escolas em 2015-2016. A intensidade dos ataques à educação revela o medo e o ódio da extrema-direita das lutas democráticas que têm na juventude e na educação seus pontos mais avançados. Por tudo isso, é preciso enfrentar os ataques reacionários e obscurantistas de Bolsonaro e Weintraub contra o futuro do país e as novas gerações.

Construir um forte dia de lutas em 15 de maio com ampla unidade

É preciso parar os ataques do governo, defender a ciência, a razão, as escolas e as universidades públicas. A juventude tem o direito de estudar, de socializar e de se organizar! O Brasil não pode prescindir de suas universidades públicas, onde se realiza a maior parte da pesquisa científica, fundamental para o desenvolvimento do país, para a defesa da soberania nacional, para a criação de riquezas e para a geração de empregos. Em defesa de nosso futuro, é preciso lutar pela educação. 

Desde já, deve-se debater nas escolas e universidades a gravidade dos ataques em curso e chamar à mobilização nacional contra Bolsonaro e Weintraub, articulando docentes, servidores e também reitores e setores descontentes, além da opinião pública crítica à orientação reacionária, obscurantista e anticientífica do governo. 

Devemos seguir o exemplo da Colômbia, onde a mobilização da juventude conseguiu parar ataques semelhantes do direitista Iván Duque. No dia 15 de maioestá sendo convocada uma greve nacional pelas entidades de luta da educação. Este é o momento de construir uma ampla mobilização, em unidade com todos os que queiram enfrentar a política reacionária de Bolsonaro. Uma forte paralisação da educação em todo o país será a melhor resposta que o governo pode receber. O movimento em defesa da educação pode abrir o caminho para uma luta unificada contra todos os ataques do governo e a reforma da previdência, preparando a greve geral de 14 de junho. É hora de ir à luta!


Parlamentares do Movimento Esquerda Socialista (PSOL)

Capa da última edição da Revista Movimento
O MES completa 20 anos. A edição n. 14-15 da Revista Movimento é dedicada por completo ao importante evento que marca duas décadas de nossa história. Apesar de jovens, podemos dizer que poucas organizações na história política da esquerda brasileira alcançaram essa marca com tamanho vigor. Longe de autoproclamação, desejamos transformar nossos êxitos em força social e militante para novos e amplos impulsos. Ainda não cumprimos uma maratona, mas nossa história sem dúvida deixou para trás a visão de curto prazo, que alguns adversários nos chegaram a prognosticar. Diante das muitas provas, vitórias e algumas derrotas, podemos celebrar e somar forças para enfrentar as tarefas imediatas: derrotar a tentação autoritária de Bolsonaro e avançar na construção de uma alternativa socialista.