“As publicações do Intercept mostram um aspecto corrupto dentro da própria Lava Jato”
Folhapress

“As publicações do Intercept mostram um aspecto corrupto dentro da própria Lava Jato”

Entrevista com o deputado federal David Miranda (PSOL-RJ).

David Miranda e Thiago Aguiar 23 jul 2019, 16:18

Um terremoto chacoalhou a política brasileira nas últimas semanas. A equipe do jornalista Glenn Greenwald, do site The Intercept Brasil, recebeu arquivos de uma fonte anônima com registros de conversas de Sérgio Moro com procuradores da força-tarefa da Operação Lava Jato. As conversas, até aqui, mostram procedimentos para direcionar investigações, sugerir testemunhas e preservar figuras vistas como possíveis aliadas da operação. Ao mesmo tempo, as conversas mostram que Sérgio Moro buscou uma posição no governo de Jair Bolsonaro e contribuiu com sua eleição ao retirar Lula da disputa. Os desvios da equipe de Curitiba, agora revelados, podem colocar em xeque seu importante trabalho investigativo, que revelou um esquema de corrupção gigantesco envolvendo grandes empresas capitalistas e o sistema político.

Nosso camarada David Miranda, marido do jornalista Glenn Greenwald, acompanha há anos o trabalho do jornalista, vencedor do prêmio Pulitzer pelas reportagens com as revelações do ex-agente Edward Snowden sobre a espionagem da NSA. Nessa época, David aproximou-se do Juntos e do MES em iniciativas comuns em solidariedade a Snowden. De lá para cá, David tornou-se vereador e é atualmente deputado federal do Rio de Janeiro pelo PSOL. Acompanhe nossa entrevista sobre as revelações de The Intercept, o governo Bolsonaro e sua atuação como único deputado assumidamente LGBT na Câmara.

Movimento – David, como você avalia os primeiros seis meses como deputado federal? Quais os desafios você tem enfrentado na Câmara?

David Miranda – Olha, esses seis primeiros meses foram muito intensos. A Câmara dos Deputados é completamente diferente da Câmara de Vereadores, as regras, os poderes do Presidente da Câmara, que são praticamente infinitos para comandar a pauta… Isso me deixa incomodado: não é um sistema muito democrático. Fora isso, o governo está perdido e não tem estabilidade alguma, o que não é, necessariamente, algo bom ou ruim para a gente que faz oposição. O problema é que não tem estabilidade para o país para ter crescimento, trabalho, educação… Além dos escândalos de corrupção envolvendo a família do presidente, o partido e as figuras que chegaram ali, que não fazem política e não entendem que a política é para as pessoas. Chegaram numa onda, surfando o bolsonarismo e isso é muito complicado porque essas pessoas têm uma agenda que é muito individual, nada coletiva. Nesses seis meses, os principais enfrentamentos que a gente vem fazendo é contra o conservadorismo, as piadas LGBTfóbicas e os quadros corruptos que existem ainda ali dentro.

M – Nas últimas semanas, as reportagens de The Intercept chacoalharam a política nacional. Como você avalia o que veio a público até agora sobre a força-tarefa da Lava Jato? Na sua opinião, o que se pode esperar das próximas revelações?

DM – Eu acho muito interessante. As publicações que foram feitas mostram um aspecto corrupto dentro da própria Lava Jato: um juiz que dá instruções e indica testemunhas para conseguir aprisionar. As publicações, até agora, mostraram que ele escolheu preservar algumas figuras e não outras, que ele foi bem incisivo com alguns partidos e não com outros, mostrando que ele foi muito partidário. Também foi revelado que ele já almejava um cargo no governo. Então, é muito ruim ver que a Lava Jato, que cumpriu um papel muito interessante, muito bom para a sociedade, porque a gente viu a Lava Jato prendendo Cunha e Cabral, mostrando o que fez a Odebrecht, recuperando uma quantidade significativa de dinheiro… Mas também, mesmo dentro da Lava Jato, quando se dá muito poder a figuras, transformadas em heróis e salvadores, você vê que são seres humanos, que isso sobe à cabeça e se vê que os fins justificam os meios. A meu ver, ainda vão ser reveladas muitas coisas, o Glenn tem dito que o arquivo é muito grande e que isto é só um por cento das conversas. 

M – Numa entrevista recente, você afirmou que é preciso investigar as revelações sobre Sérgio Moro e Deltan Dallagnol sem colocar em risco o combate à corrupção no Brasil. Que iniciativas você pretende tomar na Câmara e com a bancada do PSOL?

DM – Olha, a gente tem proposto com o PSOL e os partidos de oposição uma CPI. Eu, pessoalmente, vi a redação do pedido de CPI e ela está focada nas pessoas mencionadas nas matérias para que não ocorra que investigados na Lava Jato que possuem foro privilegiado possam se utilizar da CPI para abafar as revelações anteriores da Lava Jato. De novo: a Lava Jato cumpriu um papel importante e a gente precisa reafirmar que, até que todas as publicações sejam feitas e a gente saiba, o foco seja mantido nas pessoas que foram apresentadas nas publicações. Então, a bancada do PSOL está entrando com um pedido de CPI com os partidos de oposição, mas focando nas pessoas mencionadas nas reportagens. Fora isso, a gente apoia toda a iniciativa popular, de juristas e órgãos como a OAB, além de outras instituições, que queiram entrar com um pedido de afastamento ou qualquer outra iniciativa para que o Moro e os procuradores da Lava Jato sejam afastados. O partido e a oposição vão apoiar essas iniciativas.

M – Você e seu marido, o jornalista Glenn Greenwald, têm sofrido ameaças desde que as primeiras reportagens foram divulgadas. Como vocês reagiram a essa pressão?

DM – Sim, a gente tem sofrido ameaças desde a primeira reportagem. A pressão é muito grande, para mim, para o Glenn e para os jornalistas do Intercept. É uma batalha: a gente sabe que o presidente chegou a ser eleito com fake news, com todo um aparato e com pessoas fanáticas por ele, sem ter debate. E a gente sabe da ignorância desse governo, um possível envolvimento com a milícia, com o Flávio Bolsonaro, em seu gabinete aqui no Rio de Janeiro quando era deputado estadual, pessoas do escritório do crime, entre outras coisas… Isso é uma situação muito ruim para mim como parlamentar e para o Glenn como jornalista. A gente não devia passar por esse tipo de situação. Ao mesmo tempo, a gente não vai se paralisar. A gente tomou as medidas de segurança necessárias para mim e para a minha família para que a gente pudesse ter a certeza e o conforto de que a gente esteja seguro. E a gente está num exercício democrático, eu como parlamentar e ele como jornalista. Então, as pessoas deviam se focar no que são as publicações ao invés de atacar a nossa sexualidade, o nosso casamento, fazer toda uma cortina de fumaça espalhando fake news, mas isso não vai dar certo porque cada vez mais jornais entram nessa disputa, vão trabalhando junto e descontruindo essas fake news. As ameaças de morte, que eu e minha família sofremos, a gente lidou com a segurança para que a gente não ficasse paralisado. O pessoal do Intercept vai continuar fazendo as publicações porque isso é importante para a democracia e eu vou continuar meu trabalho como parlamentar, que é continuar lutando contra esse governo e apresentando propostas concretas para a recuperação econômica, de empregos, para a educação e a saúde no nosso país.

M – Você tem ocupado um importante papel como representante de LGBTs na Câmara num contexto de ataques do governo Bolsonaro aos direitos democráticos. Como você avalia a gigantesca Parada LGBT recentemente ocorrida em São Paulo?

DM – Sim, hoje eu sou o único parlamentar eleito que levanta a bandeira LGBT e que é assumidamente LGBT no Congresso. Lembrando que o Jean Wyllys teve que sair do país por conta do terrorismo que ele sofreu durante anos, uma coisa muito ruim de que não se fala no Brasil. O presidente é abertamente LGBTfóbico, com suas frases de que se tivesse um filho gay bateria, preferia bandido, preferia morto, que não venham turistas gays, me chamando e ao Jean de “menina”, falando um monte de coisas e espalhando fake news. É muito importante frisar que são dois homens LGBT lutando abertamente contra um governo LGBTfóbico. Então, nesse momento, é muito importante ver a Parada LGBT de São Paulo, que reuniu, se eu não me engano, quase quatro milhões de pessoas. Isso faz com que se veja que o maior movimento do mundo tem uma bandeira colorida e a gente só tem um representante entre 513 que consegue levantar essa bandeira e estar ali. Eu continuo resistindo naquele espaço e a Parada mandou um recado para o Bolsonaro e para os conservadores de que a organização popular e política das LGBTs vai se fortalecer. A gente está no país que mais mata LGBTs no mundo, então a gente vai se organizar, vai se reunir e vai festejar porque estar vivo, nesse país, sendo LGBT é uma vitória, uma grande vitória. A gente vai seguir tocando em frente para fazer política concreta. Vai ter muito perrengue: por exemplo, na última semana, o Rodrigo Maia nos atendeu na residência oficial e fez um acordo comigo e com membros da aliança LGBTI+ do Brasil de que iria trocar a iluminação da Câmara em homenagem ao mês do orgulho LGBT e ele simplesmente não o fez porque a bancada evangélica não quis. Então, o Congresso não se iluminou com as cores do arco-íris, uma coisa tão simples, para dizer que tem orgulho. Mas, tudo bem, a gente continua resistindo e trabalhando bastante. O importante é que o movimento está acordado e não vai voltar a dormir nunca porque são nossos corpos, nossas vidas e a gente está lutando só por nosso direito de amar e nosso direito de viver e toda a forma de amor é justa para continuar resistindo.

Esta entrevista faz parte da edição n. 13 da Revista Movimento. Compre a revista aqui!


Parlamentares do Movimento Esquerda Socialista (PSOL)

Capa da última edição da Revista Movimento
Na 16ª edição, estão disponíveis dois dossiês. No primeiro, sobre o ecossocialismo, podem-se se encontrar as recentes teses de Michael Löwy, além de uma entrevista com o sociólogo e dirigente da IV Internacional. Também publicamos uma entrevista com Zé Rainha, dirigente da FNL, sobre sua trajetória de luta e os desafios dos socialistas no Brasil; uma entrevista com Antônia Cariongo, dirigente quilombola e do PSOL-MA; e artigos de Luiz Fernando Santos, sobre a lógica marxista e a Amazônia, e de Marcela Durante, do Setorial Ecossocialista do PSOL. O segundo dossiê traz algumas análises iniciais sobre a pandemia de coronavírus. Há artigos de Mike Davis e Daniel Tanuro; documentos do MES e do Bureau da IV Internacional; além de uma densa análise de nossas companheiras Evelin Minowa, Joyce Martins, Luana Alves, Natália Peccin Gonçalves, Natalia Pennachioni e Vanessa Couto e de um artigo do camarada Bruno Magalhães. A seção de depoimentos traz um instigante artigo de Pedro Fuentes sobre a história de seu irmão Luis Pujals, o primeiro desaparecido político da história da Argentina. Já a seção internacional traz uma análise do sociólogo William I. Robinson sobre a situação latino-americana.