“Estamos precisando de alternativas radicais no mundo e o PSOL pode cumprir esse papel aqui no Brasil”
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“Estamos precisando de alternativas radicais no mundo e o PSOL pode cumprir esse papel aqui no Brasil”

Entrevista com Mariana Conti, vereadora do PSOL em Campinas.

Giovanna Marcelino e Mariana Conti 19 jul 2019, 13:22

No dia 13 de junho, tivemos a oportunidade de entrevistar Mariana Conti, atualmente vereadora na cidade de Campinas/SP e dirigente do coletivo 1 de maio, corrente interna do PSOL.

Mariana nos contou um pouco sobre sua trajetória de militância, o protagonismo das mulheres nos processos de resistência e sua opinião sobre os primeiros meses do governo Bolsonaro. Além disso, expressou suas avaliações sobre os caminhos que o PSOL deve seguir para se consolidar como uma alternativa de esquerda no Brasil e de que forma devemos continuar lutando pela Revolução Brasileira como o programa capaz de resolver concretamente a vida das pessoas. Confira a seguir a entrevista.

Movimento – Você atualmente é vereadora em Campinas (SP). Conte-nos um pouco sua trajetória de militância nos movimentos sociais e no PSOL até chegar aqui.

Mariana Conti – Pelo que eu me lembre, a política sempre fez parte da minha vida. Eu sou de uma família de pessoas que sempre tiveram algum tipo de envolvimento político. Meu avó foi fundador do Partido dos Trabalhadores (PT) em Americana, minha mãe também foi militante. Então, a gente sempre discutiu muito as questões políticas dentro de casa.

Uma primeira referência de movimento para mim foi a Pastoral da Juventude (PJ), da qual participei quando estava na escola (que era ligada a Igreja). Mas minha participação em uma militância mais organizada aconteceu mesmo quando eu comecei a fazer Ciências Sociais na Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) e passei a participar do movimento estudantil. Isso foi em 2003, durante o primeiro mandato do governo Lula. Eu fazia parte daqueles entusiastas que tinham votado no Lula em 2002. Mas, com a Reforma da Previdência em 2003, a animação acabou. Tivemos uma greve grande na UNICAMP nesse momento. Além disso, houve também a repercussão da expulsão dos chamados “radicais do PT”. E foi nesse processo que eu tomei contato com o surgimento do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL). No final daquele ano, eu entrei no Diretório Central dos Estudantes (DCE) e, desde então, meu envolvimento com a política se tornou cada vez mais intenso. Naquele momento, tive contato com uma militância muito próxima ao MST. Nós tínhamos um núcleo pela Reforma Agrária na UNICAMP. Além disso, participei do Plebiscito da Vale, da luta contra a ALCA, da manifestações pelo Passe Livre, de uma série de greves estudantis, enfim, de um conjunto de movimentos que aconteceram naquele período.

Em 2006, depois do Mensalão, o Plínio de Arruda Sampaio rompeu com o PT e anunciou sua entrada no PSOL. Foi nesse momento que eu, junto com outras pessoas da UNICAMP, entramos no partido. Me lembro que o Plínio veio fazer uma palestra em Campinas, para dizer porque deveríamos construir o PSOL e nos engajar na construção de uma nova alternativa de esquerda. Foi aí que tomei a decisão de entrar no partido. Em 2008, eu sai como candidata a vereadora pela primeira vez, e foi quando eu iniciei minha militância mais partidária, até 2016, quando fui eleita.

M – O PSOL, nas últimas eleições municipais e nacionais, fortaleceu sua bancada. Você foi eleita na esteira do ascenso do movimento de mulheres. As mulheres podem liderar a luta contra Bolsonaro?

MC – Ah, com certeza! Na verdade, já estamos liderando. O primeiro grande movimento que anunciou a resistência que haveria ao governo Bolsonaro foi o #EleNão. E isso é muito interessante, pois os governos geralmente começam a enfrentar processos de resistência e de oposição depois de serem eleitos; no caso do Bolsonaro, isso se deu antes. As mulheres, portanto, anteciparam o processo de resistência. E isso não se deu em resposta apenas à política e à ideologia misógina que o Bolsonaro defende – uma visão de mundo retrógrada que condena a mulher num papel de submissão e se traduz numa fixação pelo “macho”, pela arma, uma questão que só a psicanálise pode explicar, e que vem na esteira de outros governos autoritários que foram eleitos pelo mundo no mesmo período, que defendem esse mesmo conteúdo misógino, como parte até da sua estética – mas também em resposta ao ataque objetivo que o Bolsonaro representava do ponto de vista dos direitos sociais, dos direitos reprodutivos, etc. No movimento #EleNão, nós já discutíamos como a Reforma da Previdência, por exemplo, seria um ataque às mulheres.

É notório, que num país de desigualdades como o Brasil, que são marcadas pelas relações de gênero e raça, que as mulheres sejam protagonistas dos processos de resistência. Em 2016, nós já tínhamos tido a eleição da bancada feminista do PSOL, que se fortaleceu também ao chegar no ano passado ao Congresso Nacional, algo que simboliza como as mulheres estão coletivamente criando seus escudos. Então, o movimento de mulheres tanto antecipou o processo de resistência, como continua criando formas de luta e liderando as discussões específicas que dizem respeito às questões de gênero, mas também à política geral. As mulheres tem mostrado, portanto, a capacidade de ser protagonistas de suas lutas e da oposição ao governo Bolsonaro em sua totalidade e o que representa o seu projeto para o conjunto da população.

M – Que avaliação você faz desses primeiros meses de governo de Bolsonaro?

MC – Na verdade, quem colocou o Bolsonaro no poder foi o capital, na esteira da ascensão de governos ultraliberais, através do que já virou até um jargão: “Sou liberal da economia e conservador nos costumes” – algo que não é nenhuma novidade no Brasil, porque a nossa burguesia e elite política sempre teve esse viés de ser liberal e conservador ao mesmo tempo. Mas na esteira da eleição de governos ultraliberais no mundo, uma parte da elite econômica brasileira viu no Bolsonaro uma chave para realizar o desmonte dos direitos trabalhistas, da legislação ambiental e de todas aquelas legislações que são consideradas entraves por colocar barreiras para o avanço do capital no Brasil, inclusive se aproveitando do capital político que o Bolsonaro construiu de forma bastante oportunista nesse último período, tentando se colocar como um “outsider”, como algo novo, contra o sistema político – ele que tem mais de trinta anos de carreira política e, portanto, faz parte, junto com seus filhos, da velha política. Então, na minha opinião, uma parte da elite econômica brasileira se aproveitou e apostou no Bolsonaro para realizar esses processos, como a proposta de Reforma da Previdência do Paulo Guedes, o desmonte ambiental através da nomeação do Ricardo Salles para o Ministério do Meio Ambiente, a liberação do porte de armas, etc. Tudo isso tem um viés muito claro, que é um avanço sem precedentes do ponto de vista da liberdade do capitalismo de operar, desmontando todos os aspectos do Estado Nacional que colocavam algum tipo de entrave para essa livre movimentação destrutiva das relações capitalistas no Brasil.

Ao mesmo tempo, o governo Bolsonaro tem uma série de contradições. Seja do ponto de vista da dificuldade que o PSL tem para administrar seus conflitos internos – pois é muito cacique disputando espaço (devido muitas vezes a um grande personalismo de suas figuras) – seja do ponto de vista da própria administração do Estado. Pois um coisa é você construir e apresentar uma ideologia contra a ordem durante a campanha, outra é você colocá-la em prática quando está no governo – a coisa muda completamente, porque não existe improvisação no Estado. Então, isso cria uma série de contradições e fica aparente que eles não tem o menor domínio sobre as mínimas questões. Por isso, existe espaço para que a resistência aconteça, pois muito embora o Bolsonaro se coloque como o paladino da defesa contra a “ideologização”, não existe nada mais ideológico que seu próprio governo, e isso também tem gerado tensões e muitas contradições.

Os processos de luta contra os cortes na educação mostraram isso: apesar de toda a tentativa de desmoralização dos estudantes e dos professores, ainda tem muita gente disposta a defender a educação pública. Além disso, a proposta da Reforma da Previdência decepcionou muita gente que votou no próprio Bolsonaro, algo que mostra como devemos sair um pouco da lógica de taxá-las de “burras” ou “fascistas”. Isso é uma posição de uma certa soberba da esquerda. Pra gente fazer o processo de resistência, nós devemos dialogar com aquelas pessoas que votaram no Bolsonaro, porque acreditaram que ele representava a mudança – elas foram iludidas e enganadas, mas porque acreditavam que ele de alguma forma representava uma mudança.

Então, na minha avaliação, o Bolsonaro ainda tem uma força ideológica (algo que foi demonstrado pelos atos do dia 26 de maio), mas seu governo tem cada vez mais se apresentado como um desastre. E a resistência tem se demonstrado viável. Espero que a greve geral do dia 14 de junho sirva para enterrarmos a proposta de Reforma da Previdência do Paulo Guedes. Na minha opinião, a greve geral vai ser um divisor de águas do que será o futuro do governo Bolsonaro.

M – Como você avalia o lugar do PSOL na oposição? Como participar de processos unitários sem diluir o perfil do partido?

MC – Eu acho que o PSOL tem cada vez mais se apresentado – e isso se confirmou nas últimas eleições – como uma forma viável de oposição, algo que foi resultado de um processo de construção de anos. Uma demonstração disso é a de que as principais polêmicas hoje no Congresso Nacional contra o governo Bolsonaro, por exemplo, são lideradas e capitaneadas pelo PSOL.

Porque tem um aspecto na política do PSOL que permite isso: a defesa da independência política. Nós temos muitas diferenças de análises dentro do partido, mas o fato é que, de um modo geral, nós temos clareza do nosso papel de oposição e de fazer um embate contra qualquer tipo de acomodação à ordem. Nós temos nos apresentado como oposição, porque, para nós, não existe nenhum tipo de conciliação com o governo Bolsonaro. Não existe nenhum tipo de negociação com aqueles que sempre comandaram o país – seja com a velha direita ou a nova direita. Por isso que a nossa posição de não entrar em conciliação e conchavo com essas posições é central, porque é a condição que temos para resistir.

E como participar de processos unitários sem se diluir? Eu acho que mantendo essa linha tênue que é, na verdade, a razão de ser do PSOL. Nós surgimos enquanto uma resistência aos conchavos que aconteceram durante os governos petistas, que, decepcionando todas as expectativas, chegaram ao poder e entraram no mesmo sistema de governabilidade, fazendo acordos para a manutenção da ordem. Nós precisamos manter essa posição, que é a razão de ser do PSOL, pois essa é a melhor forma de criarmos uma identidade e perfil próprios. Nesse sentido, eu acho que é sim necessário que a gente tenha unidade nos processos de luta contra a Reforma da Previdência e tudo mais, mas nós sabemos que uma parte da esquerda, especificamente o PT, não vai levar isso até o fim, basta ver a posição de seus governadores nos últimos dias, que defenderam a Reforma da Previdência, porque isso resolveria os problemas dos seus estados. Esse tipo de postura enfraquece a esquerda, porque dificulta que a gente reconquiste a confiança da população brasileira e dos trabalhadores, mostrando que a política pode ser feita a partir de princípios e de ideias que não estão à venda, que não estão sujeitas à negociatas. Essa é a melhor forma que a gente tem para construir uma referência e uma identidade para o partido.

Eu vejo que o PSOL pode criar um espaço nesse sentido e se apresentar como uma alternativa. Pois, o fato é que o Brasil e o mundo estão precisando de alternativas. Afinal, mesmo os partidos da socialdemocracia que estiveram no poder (não apenas no Brasil, mas no mundo inteiro) são parte do problema. O crescimento desse populismo de direita aconteceu na esteira da crise da socialdemocracia liberal. Então eles são parte do problema. Estamos precisando de alternativas radicais no mundo e eu acho que o PSOL pode cumprir esse papel aqui no Brasil.

M – O PSOL foi fundado há 15 anos como uma ferramenta anticapitalista a serviço da emancipação do povo e do socialismo. Ainda devemos lutar pela Revolução Brasileira? Por quais caminhos?

MC – Eu acho que a Revolução Brasileira é essencial. Mas o que é a Revolução Brasileira, afinal? Na minha opinião, ela é o programa que resolverá concretamente a vida das pessoas. Se a gente pensar todas as experiências de revoluções que nós tivemos ao longo da história, como a Revolução Russa, por exemplo, antes de ser socialista ela era russa, porque ela respondia objetivamente as necessidades concretas da Rússia naquele período. Qual foi a única forma de responder a uma situação de fome, miséria e de conflito bélico que o czarismo colocou o povo russo? A revolução socialista. Da mesma forma, a Revolução Cubana, antes de ser socialista, foi cubana, que dizia respeito a uma resposta do povo cubano às relações coloniais que existiam entre os Estados Unidos e Cuba.

A questão da Revolução Brasileira passa pela mesma lógica. Ela deverá responder concretamente os problemas do povo brasileiro. A questão é que, no capitalismo dependente, como é o nosso caso no Brasil – baseado num sistema de dominação extremamente subserviente em relação aos dinamismos internacionais, de um sistema de desigualdade, de uma democracia restrita – essa mudança social só pode se colocar contra os interesses capitalistas. O Brasil tem um papel muito específico dentro do capitalismo internacional, que é o de fornecer produtos agrícolas, commodities para exportação, tendo suas relações de trabalho determinadas a partir disso.

Eu acho que a Revolução Brasileira tem ganhado uma atualidade importante. Mas como fazê-la? Não dá pra gente pensar uma mudança, nem mesmo em termos de avanços da democracia e de uma política de combate às desigualdades no Brasil, sem pensar a questão da terra, por exemplo. A propriedade agrária ainda é um elemento fundamental. O poder que tem os proprietários agrários é impressionante, como vemos em Campinas. Nós estamos aqui conversando no distrito de Barão Geraldo, que foi um grande barão do café, escravocrata, temido pelos escravos por ser um dos barões mais violentos. E a propriedade agrária e a grande concentração da terra ainda hoje determina boa parte das relações econômicas em Campinas. Para mim, isso ficou muito claro na aprovação do Plano Diretor da cidade, por exemplo. Toda lógica da organização e do orçamento da cidade é feita a partir da valorização da propriedade da terra. Por isso a reforma agrária é uma questão fundamental.

Além disso, temos a questão da dívida pública. Se não rompermos com o sistema da dívida pública, muito dificilmente teremos orçamento para resolver os problemas da saúde, educação, de investimento nas áreas sociais. Muita gente fala que se nós pararmos de pagar a dívida pública e fizermos uma auditoria, não virão mais investimentos externos. Ora, mas quais benefícios os investidores externos estão trazendo para o Brasil? A remessa de lucro brasileira que é mandada para fora ultrapassa em muito o que entra em termos de investimento. O mesmo acontece em termos da estrutura produtiva. O Brasil tem se especializado, mesmo no período anterior de crescimento econômico, na exportação de commodities. O “boom” da mineração foi isso e a gente viu as consequências acarretadas, com a construção de muitas barragens, que levaram ao crime de Brumadinho em Minas Gerais, por exemplo, com a flexibilização da legislação ambiental, com a privatização da Vale, que diz respeito a uma estrutura produtiva relacionada ao papel que o Brasil cumpre no cenário internacional.

Para mim, a Revolução Brasileira passa por esses elementos: resolvermos o problema da dívida pública, da questão agrária, da estrutura produtiva (que deveria ser voltada para as necessidades do povo), da democracia (para que a política de fato se torne o meio coletivo para a população decidir sobre os rumos do país), da educação (com política de valorização dos professores), da juventude, do desemprego, etc..

Então, a Revolução Brasileira, na verdade, é muito concreta. Às vezes, as pessoas acham que é uma utopia. Para mim, utopia é achar que a gente pode reformar esse capitalismo destrutivo! Então, eu acho que a possibilidade da gente resolver concretamente os problemas da vida do povo passa por colocarmos em marcha esse processo de romper com o poder que está estabelecido.

Esta entrevista faz parte da edição n. 13 da Revista Movimento. Compre a revista aqui!


Parlamentares do Movimento Esquerda Socialista (PSOL)

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Na 16ª edição, estão disponíveis dois dossiês. No primeiro, sobre o ecossocialismo, podem-se se encontrar as recentes teses de Michael Löwy, além de uma entrevista com o sociólogo e dirigente da IV Internacional. Também publicamos uma entrevista com Zé Rainha, dirigente da FNL, sobre sua trajetória de luta e os desafios dos socialistas no Brasil; uma entrevista com Antônia Cariongo, dirigente quilombola e do PSOL-MA; e artigos de Luiz Fernando Santos, sobre a lógica marxista e a Amazônia, e de Marcela Durante, do Setorial Ecossocialista do PSOL. O segundo dossiê traz algumas análises iniciais sobre a pandemia de coronavírus. Há artigos de Mike Davis e Daniel Tanuro; documentos do MES e do Bureau da IV Internacional; além de uma densa análise de nossas companheiras Evelin Minowa, Joyce Martins, Luana Alves, Natália Peccin Gonçalves, Natalia Pennachioni e Vanessa Couto e de um artigo do camarada Bruno Magalhães. A seção de depoimentos traz um instigante artigo de Pedro Fuentes sobre a história de seu irmão Luis Pujals, o primeiro desaparecido político da história da Argentina. Já a seção internacional traz uma análise do sociólogo William I. Robinson sobre a situação latino-americana.