A Amazônia é a maior prova de que esse governo é profundamente antipovo
Amazônia. Reprodução

A Amazônia é a maior prova de que esse governo é profundamente antipovo

A destruição da Amazônia é a maior prova que Bolsonaro é profundamente anti-Brasil e antipovo.

Mônica Seixas 5 set 2019, 16:23

O obscurantismo – que no dicionário significa “ignorância” ou “falta de instrução” – está ganhando um quê de “gosto pelo erro” ou “negação propositada da ciência” e tem sido a melhor definição para o governo Bolsonaro. O desmonte das políticas ambientais não foram o primeiro sinal do desprezo com a importância das florestas brasileiras, sobretudo a Amazônia, para o contingenciamento das alterações climáticas e equilíbrio global.

Eu lembro que ouvi embasbacada, ainda na campanha, o candidato Bolsonaro dizer: “a exploração da Amazônia pode ser o centro econômico do país”. Entre tantas enormes atrocidades que ele soltava diariamente eu ficava me perguntando: “vocês não estão ouvindo o que ele diz?”. No último dia do segundo turno, um dia antes da votação, choveu forte em São Paulo e eu estava nas ruas pensando no dia seguinte. Eu pensei: como podem os paulistas abrirem mão da chuva? O minério embaixo da floresta, os grãos e a madeira para exportação não farão chover aqui como a floresta faz. E hoje é o dia dela. Dia 5 de setembro é o Dia da Amazônia.

Ecocida, não. A proposta do governo é suicida.

Quando assumiu, Bolsonaro tratou de colocar seu plano em prática. Anunciou a extinção do Ministério do Meio Ambiente e quis submeter suas atribuições ao Ministério da Agricultura. Depois de pressão popular voltou atrás, mas nem tanto. Ricardo Salles, ex-secretário de meio ambiente de São Paulo, é conhecido por ser um antiambientalista. Foi condenado em São Paulo por fraude no plano de manejo de área de preservação ambiental. Juntos, Bolsonaro e Salles praticaram um verdadeiro desmonte das políticas e institutos de preservação.

No início de agosto, as queimadas da Amazônia podiam ser vistas por satélites. No Acre não se podia respirar direito. Em Rondônia pessoas foram internadas. Estima-se que 200 mil quilômetros quadrados de florestas queimaram. O incêndio chegou à Bolívia e ao Paraguai.

O ativismo avisou: a floresta é 20% do oxigênio global, água doce, rios flutuantes que levam chuvas para outras regiões, diminuição da temperatura do globo. Mas só quando o céu ficou preto na metrópole acreditamos que está tudo interligado.

Nas últimas semanas, assistimos o governo Bolsonaro utilizar um discurso de suposta defesa da soberania nacional, ante a reação do mundo às queimadas na floresta amazônica. E insinuando que interesses econômicos estrangeiros estariam por trás de toda a repercussão. O presidente tenta mais uma vez confundir e enganar a população.

A destruição da Amazônia em si é a maior prova que esse governo é profundamente anti-Brasil e antipovo. As queimadas foram uma demonstração de força e de apoio ao governo por parte dos ruralistas, que bem representados no congresso são o suporte para o atrapalhado governo Bolsonaro.

Os grandes latifundiários brasileiros produzem apenas para exportação e geram poucos empregos no campo ou empregos precários. E a terra explorada para plantios regados por agrotóxicos ou pela mineração tem vida útil curta. Sendo sempre necessária mais terra para sustentar a produção. “Os fazendeiros querem mostrar ao presidente que querem trabalhar” foi o que contou matéria da Folha de São Paulo sobre as queimadas. Bolsonaro apoia os interesses dos ruralistas, os ruralistas sustentam o governo no congresso e os brasileiros podem ficar sem ar, sem água e sem a floresta amazônica.

As queimadas são também um golpe profundo nos povos indígenas, ribeirinhos, e quilombolas. O mapa das queimadas mostra que áreas de preservação e territórios indígenas foram os principais focos de incêndios. Não há nada mais imperialista que atacar os povos originários.

Salles é a expressão máxima dos interesses do mercado nacional e internacional em detrimento da preservação ambiental. Um aliado do agronegócio e das mineradoras. É um antiministro à frente do Ministério do Meio Ambiente.

A gestão Bolsonaro está radicalmente executando uma política ecocida disfarçada de desenvolvimento.

Isso fica ainda mais explícito quando no dia 23 de agosto, com a desculpa de controlar as queimadas, Bolsonaro decretou Garantia da Lei e da Ordem (GLO) na região amazônica. A GLO consiste na verdade em uma intervenção militar, assim como a que ocorreu no Rio de Janeiro e que ampliou a violência social. Durante a vigência da GLO, o Exército tem licença para agir com toda a urgência que exige a “desordem”, ou seja, tem caminho livre para fazer o que achar necessário, com o privilégio de no futuro ser julgado por um tribunal militar especial.

Longe de ser uma solução, a GLO pode significar a deflagração de uma guerra contra as comunidades que ali residem. A violência jamais será ordem.

A verdadeira solução para a Amazônia passa por demitir Ricardo Salles e expulsar do ministério do Meio Ambiente sua política antiambiental, trabalhar para recompor o orçamento da pasta trazendo de volta as doações ao Fundo Amazônia, os R$80 milhões retirados do IBAMA, retirar os militares que hoje estão na direção do ICMBio (Instituto Chico Mendes de Biodiversidade), desistir da terrível ideia de contratar uma empresa americana privada para realizar as funções que hoje já são realizadas com excelência pelo INPE, encerrar todo tipo de perseguição aos que atuam na pauta e pensam diferente da política hoje implementada. Afinal, é parte da democracia saber lidar com críticas e questionamentos, habilidade que o clã Bolsonaro definitivamente está longe desenvolver.

Em resposta a todas as arbitrariedades cometidas por esse governo, multiplicam-se e ganham ainda mais força ao redor do mundo os atos pela Greve Mundial por justiça Climática, convocados para o dia 20 de setembro. Cenário em que a juventude sem perspectiva de futuro está tomando as ruas e assumindo para si a necessidade de enfrentar a lógica de exploração capitalista que desmata nossa natureza, polui nossos rios e mares, e condena à miséria e à fome grande parte da população mundial. Contra a política entreguista de Bolsonaro e o imperialismo internacional. A Amazônia é do povo.


Parlamentares do Movimento Esquerda Socialista (PSOL)

Capa da última edição da Revista Movimento
A décima terceira edição da Revista Movimento dedica-se ao debate sobre os desafios da esquerda socialista no Brasil diante da crise nacional que se desenrola há anos e do governo Bolsonaro. Para tanto, foram convidados dirigentes do PSOL, do MES e de outras organizações revolucionárias que atuam no partido. O dossiê sobre a estratégia da esquerda e o PSOL reflete os desafios da organização de um polo socialista no interior do partido. Há também, na seção nacional, reflexões sobre a crise econômica brasileira, as revelações de The Intercept e as lutas da juventude e da negritude. As efemérides do centenário da escola Bauhaus e do cinquentenário do levante de Stonewall também aparecem no volume, além da tese das mulheres do MES para o Encontro de Mulheres do PSOL.