Derrotar a extrema-direita no Brasil e no mundo
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Derrotar a extrema-direita no Brasil e no mundo

É preciso enfrentar o autoritarismo de Bolsonaro e da extrema-direita.

Israel Dutra e Thiago Aguiar 25 set 2019, 17:19

Depois do discurso de Bolsonaro na ONU, milhões de brasileiras e brasileiros têm refletido sobre como derrotar este governo e seus aliados, responsáveis diretos pelos maiores retrocessos que estamos vivendo em muitos anos. Sua intervenção reacionária e mentirosa foi bastante clara ao nomear quem são seus inimigos e qual tratamento seu governo reserva aos povos da Amazônia, aos indígenas, à esquerda e à imprensa democrática.

Apesar de ter perdido apoio político, como demonstram as pesquisas de opinião, Bolsonaro segue destilando ódio e organizando seus aliados para impor uma guerra social contra o povo brasileiro. Não há outra saída senão ampliar e coordenar as mobilizações com vistas a isolar e derrotar Bolsonaro e seus planos.

As manifestações em defesa do meio ambiente no mundo foram um exemplo vivo dessa necessidade. Mais de 5000 cidades realizaram atos sincronizados, convocados por coalizões e plataformas em defesa do clima. Foi um recado mundial contra a extrema-direita troglodita e negacionista, que a juventude do mundo liderada por Greta Thumberg fez ecoar pelos cinco continentes. O Brasil também foi parte do mapa mundial de protestos, com a temática da Amazônia e a luta contra Bolsonaro. 

Diante da pressão internacional, no pronunciamento da ONU, Bolsonaro negou responsabilidades pelo aumento das queimadas, insinuou que povos indígenas são os responsáveis pelos focos de incêndio e ainda reafirmou sua disposição de permitir a exploração das riquezas minerais contidas no subsolo da floresta.

No entanto, se Bolsonaro pretendeu usar seu discurso na ONU como uma demonstração de força e alinhamento à extrema-direita internacional, seus aliados prioritários no mundo enfrentam dificuldades. Na América Latina, Macri está à beira de uma derrota eleitoral humilhante para a oposição peronista. Em Israel, Benjamin Netanyahu também sofreu uma derrota eleitoral, que pode retirar-lhe o cargo de primeiro-ministro após mais de 10 anos no poder. Há quem especule, neste cenário, que Netanyahu tenha que enfrentar julgamento pelos crimes de corrupção dos quais é acusado. Já Donald Trump viu ser aberto processo de impeachment pela Câmara dos Deputados dos EUA após ser divulgada chantagem contra o presidente ucraniano para que este produzisse provas contra Joe Biden, um dos pré-candidatos democratas, e seu filho, envolvido em negócios no país do Leste Europeu. Revezes como estes mostram as dificuldades para a extrema-direita global e as possibilidades para que ela seja enfrentada e derrotada.

Ágatha, a covardia de um estado que mata

Nos últimos dias, a política de segurança assassina de Wilson Witzel gerou grande indignação no Rio de Janeiro e em todo o Brasil. O assassinato covarde da menina Ághata Félix, baleada dentro de uma lotação, foi mais um exemplo do genocídio contra as populações pobres e negras que vivem nos morros e favelas do Rio de Janeiro. Sob justificativa do combate ao crime, Witzel e Bolsonaro promovem uma verdadeira guerra contra os pobres, na qual os jovens são as principais vítimas.

Ághata Félix sonhava ser bailarina. Seus familiares, colegas e professoras na escola de sua alegria e de sua dedicação. Sua trajetória foi interrompida pelas balas da polícia do Rio de Janeiro, numa verdadeira execução que chocou o país. Milhões de brasileiros e brasileiras se colocaram na pele da mãe e dos familiares de Ágatha, impotentes diante da barbárie promovida pela política de segurança de Witzel. 

Como afirmou o avô da menina: “Sabe qual era a arma que tinha dentro da mochila da minha neta? Lápis, caderno, apontador, livro. Tinha um simulado que ela fez nessa semana e tirou 7! Essas eram as armas que a Ágatha gostava de usar. Ela tinha um futuro, ia crescer e entrar na faculdade. Mas o Estado não quer isso. E se continuar dessa forma, o que vai acontecer?”

Dessa vez, Wilson Witzel não desceu de helicóptero, celebrando com uma coreografia escandalosa mais um “abatimento” por snipers. O governador sanguinário reafirmou sua política de genocídio, relativizando a dor da família e reiterando a lógica da “morte em conflito”. A posição da OAB/RJ, por sua vez, foi corajosa: “A Ordem dos Advogados do Brasil, Seção do Estado do Rio de Janeiro, lamenta profundamente a morte da menina Ágatha Vitória, de oito anos, no Complexo do Alemão, na noite de sexta-feira. A morte de Ágatha vem se somar à estatística de 1.249 pessoas mortas pela polícia nos oito primeiros meses do ano. Um recorde macabro que este governo do Estado aparenta ostentar com orgulho”.

Na segunda-feira, dia 23/9, centenas de pessoas participaram de manifestações no Complexo do Alemão e em outros pontos do Rio, como no Aterro do Flamengo e na Assembleia Legislativa, em memória de Ágatha e denunciando a política de extermínio de Witzel.

É preciso se levantar contra o autoritarismo e derrotar a extrema-direita

Diante do recrudescimento do autoritarismo, é preciso unir as lutas. As manifestações em defesa da educação, da cultura, da Amazônia e do meio ambiente, de povos indígenas e de quilombolas são parte de um mesmo enfrentamento contra o programa da extrema-direita de Bolsonaro e seus aliados. A luta das periferias, por sua vez, é estratégica e deve estar no centro deste enfrentamento. O assassinato da menina Ágatha Félix relembra todo o país sobre quem são os alvos prioritários do autoritarismo dos governos, da truculência das polícias e da ação de milícias e do crime organizado. O assassinato de Marielle e Anderson, cujas investigações seguem sem conclusão e punição de seus mandantes, mostrou a falência do Estado e a simbiose entre política, polícias e máfias. 

Por tudo isso, é preciso ampliar a luta para isolar os protofacistas. Fora Bolsonaro: é hora de canalizar a indignação generalizada com este governo. Nossos direitos mais básicos estão sendo ameaçados e o futuro da nação está em jogo.


Parlamentares do Movimento Esquerda Socialista (PSOL)

Capa da última edição da Revista Movimento
“Enquanto os efeitos sanitários e econômicos da Covid-19 seguem fazendo-se sentir, escancarando a crise global do capitalismo, as lutas na América Latina começam a apresentar importantes conquistas no enfrentamento da extrema-direita continental. Na Bolívia, após meses de enfrentamentos e mobilização popular, a contundente vitória da chapa do MAS pôs fim ao governo ilegítimo e reacionário de Jeanine Áñez. No Chile, após as multitudinárias manifestações de 2019, o plebiscito levou a uma vitória esmagadora em favor de uma nova constituição elaborada por assembleia exclusiva. Na campanha eleitoral estadunidense em curso, está em jogo a possibilidade de derrotar o trumpismo, que anima movimentos neofascistas e racistas naquele país e em todo o mundo. Ao mesmo tempo, as eleições municipais brasileiras abrem a possibilidade de construir uma alternativa nas cidades que contribua para isolar e derrotar o bolsonarismo. A décima oitava edição da Revista Movimento debruça-se sobre esses processos de mobilização nas ruas e de enfrentamento eleitoral em curso”.