Revista Movimento Movimento Movimento: crítica, teoria e ação

O fenômeno Sâmia Bomfim

Sobre a ascensão política da parlamentar paulista.

A vereadora Sâmia Bomfim (PSOL) - Lucas Lima/UOL
A vereadora Sâmia Bomfim (PSOL) - Lucas Lima/UOL

O futuro pede coragem. Não foram tantas as vezes, pelo que me recordo, que um slogan de campanha combinou tão significativamente com os atributos de uma figura pública. Aos 30 anos de idade e eleita deputada federal por São Paulo com 249.887 votos, a oitava mais votada de seu Estado, Sâmia Bomfim esbanja, para além do carisma acima da média, algumas características que podem nos ajudar na tentativa de explicação de sua popularidade crescente: em primeiro lugar, a firmeza, a segurança, a clareza e a versatilidade com que debate assuntos diversos e se coloca em espaços como o da atuação parlamentar e o midiático; sua capacidade de diálogo; o visível comprometimento com seus posicionamentos e pautas progressistas; a maturidade política acumulada por quem se tornou ainda bastante jovem vereadora na capital paulista; e, não menos importante, o didatismo que carrega ao tratar de temas complexos de modo compreensível ao grande público, sem apelações aos lugares comuns e às reduções empobrecedoras.

Em debate promovido pelo quadro Fura Bolha, do canal Quebrando o Tabu, diante do também deputado Kim Kataguiri (DEM e MBL), situado em campo político completamente diverso daquele da deputada psolista, parece nítido o fato de Sâmia ter se tornado, em curto intervalo de tempo, um dos melhores quadros políticos da esquerda brasileira. Não se acanhando em face do interlocutor, ela consegue, de forma sotifiscada, estabelecer as polarizações necessárias e salientar as diferenças existentes entre os projetos vocalizados pelos debatedores, sem perder, por um segundo sequer, a capacidade de reconhecer pontes, mesmo quando minimamente possíveis em relação a pautas que eventualmente os unificam, manter o respeito e o tom de voz durante toda a conversa, apresentar, com sutileza e sagacidade, as contradições de seu adversário e sinalizar, sem titubear, em quais pontos precisamente discorda por completo ou em partes de Kim.

Especialmente interessante no debate talvez seja o momento em que o deputado do Democratas admite a força da comunicabilidade que Sâmia estabelecesse com o público mais jovem. De fato, a psolista tem o mérito de representar uma juventude que está cansada do modo tradicional de se fazer política, que vai desde rituais de comportamento e relacionamento até os tão conhecidos conchavos. Não disposta a entrar em “jogos de comadre” ou deixar de lado aquilo que considera princípio em prol de determinadas negociatas ou de consensos estabilizadores, sua coerência é notável. Mas, por outro lado, Sâmia parece não cair no lugar caricatural típico de figuras mais ideológicas. A consciência de seu cargo parlamentar, das responsabilidades políticas com o Estado brasileiro e das necessidades conjunturais do atual contexto é fortemente presente na postura da deputada paulista.

Estética e politicamente, Sâmia é a cara da esquerda renovada, sobretudo a partir dos novíssimos movimentos sociais e de processos mundiais de contestação política desencadeados após a crise econômica global de 2008, os quais a antropóloga Rosana Pinheiro-Machado já chamou de “primavera global antissistêmica”. Menos comprometida com um locus burocrático, a jovem psolista ganhou grande projeção e foi eleita vereadora pelo movimento Bancada Ativista, que, de forma bastante sintética, se constitui enquanto uma espécie de plataforma política, reunindo ativistas comprometidos com agendas progressistas e dispostos a participar da construção de uma São Paulo mais democrática, inclusiva e diversa.

Subvertendo a lógica da política partidária tradicional e formal, a Bancada Ativista tem caráter suprapartidário e apresenta um modelo de mandatos coletivos. O velho personalismo que historicamente colonizou a tradição política brasileira aqui não encontra espaço, uma vez que um projeto comum se sobrepõe à individualização tão cultuada até então. Com forte inspiração em plataformas políticas desenvolvidas no contexto do municipalismo espanhol, uma nova forma de se organizar politicamente parece ter se proliferado também no Brasil.

Nos últimos dias, o nome de Sâmia Bomfim começou a ser cogitado com maior fôlego para a disputa municipal de São Paulo em 2020. A partir de uma reportagem de um veículo midiático, o que se percebeu, inicialmente, foi uma boa recepção de tal possibilidade entre militantes do PSOL e aqueles que se reivindicam progressistas ou de esquerda. De minha parte, penso ser Sâmia a figura pública natural para o referido pleito, haja vista sua expressiva votação em 2018, sendo o grande destaque da esquerda paulista hoje. Acredito realmente se tratar do melhor e mais preparado nome para 2020. Sem dúvidas, seria uma alegria ver Sâmia disputando uma eleição majoritária no principal município do país. Capital político para isso não falta. Só nos resta, entretanto, aguardar as cenas dos próximos capítulos e reiterar a necessidade de este processo decisório ser devidamente desenvolvido nas instâncias competentes para tanto.

Movimento - Crítica, teoria e ação

Apresentação

A décima terceira edição da Revista Movimento dedica-se ao debate sobre os desafios da esquerda socialista no Brasil diante da crise nacional que se desenrola há anos e do governo Bolsonaro. Para tanto, foram convidados dirigentes do PSOL, do MES e de outras organizações revolucionárias que atuam no partido. O dossiê sobre a estratégia da esquerda e o PSOL reflete os desafios da organização de um polo socialista no interior do partido. Há também, na seção nacional, reflexões sobre a crise econômica brasileira, as revelações de The Intercept e as lutas da juventude e da negritude. As efemérides do centenário da escola Bauhaus e do cinquentenário do levante de Stonewall também aparecem no volume, além da tese das mulheres do MES para o Encontro de Mulheres do PSOL.

Ilustração da capa da Revista Movimento

MES: Movimento Esquerda Socialista MES: Movimento Esquerda Socialista