No rastro de (pelo menos) duas décadas de história
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No rastro de (pelo menos) duas décadas de história

Sobre os 20 anos do Movimento Esquerda Socialista.

Isaque Castella 2 nov 2019, 19:11

Em 06 de novembro de 1999, ainda no âmbito do Partido dos Trabalhadores (PT), nascia o Movimento Esquerda Socialista (MES), cuja história, todavia, se confunde com a própria história do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL). Linha de frente na coleta das 500 mil assinaturas para legalizar o novo partido, hoje referência na esquerda brasileira, o MES é um dos autores de seu programa fundacional, calcado no socialismo democrático e na defesa radical da igualdade e da liberdade.

Para além das datas formais, as origens do MES remontam a um passado ainda mais distante. Enquanto uma organização herdeira da tradição trotskista, se organizando na América Latina desde os anos 1940, não é à toa a afirmação de que “viemos de longe”. Outra passagem importante dessa longa história é a construção da Convergência Socialista, no interior do PT, uma corrente política conhecida por seu pioneirismo na articulação das lutas das chamadas minorias políticas à clássica luta dos trabalhadores, que, por muitos anos, foi o único eixo político a mobilizar as diferentes organizações de esquerda.

Nos últimos 20 anos no Brasil, não são tantos aqueles que podem se orgulhar de dizer terem feito tanto como o MES. Além de tendência interna fundadora do PSOL, por se antecipar na percepção dos caminhos que o PT tomaria no topo do poder, e acabar expulsa do partido em 2003, quando da oposição à reforma previdenciária do primeiro governo Lula, a corrente teve uma especial participação nas jornadas de junho de 2013. Enquanto parte da esquerda repudiava as manifestações, uma vez estas terem eclodido no governo de Dilma Rousseff, ou tentava disputar as narrativas sobre o caráter do movimento, de maneira a esvaziar a potência política da indignação que ali se apresentava, o MES apostou nas ruas e esteve presente do início ao fim nas jornadas daquele ano.

Em que pese os rumos políticos do país alguns anos após junho, o Movimento Esquerda Socialista encarou a responsabilidade política de tentar intervir naquela conjuntura, percebendo o poder disruptivo das ruas e a necessidade de canalizá-lo para a construção de uma alternativa política de radicalização democrática. Diferentemente da esquerda institucional, o MES não se colocou a aguardar a força progressista das mobilizações populares ser incorporada a uma movimentação reacionária e conservadora, que surfou na perda de popularidade dos governos petistas de ocasião em face da crise econômica global e das políticas de austeridade elegidas para enfrentá-la.

E essa capacidade de leitura decorreu diretamente de um dos pilares do MES, que é o internacionalismo, a partir do entendimento de que os fenômenos não se desenvolvem de forma isolada e de que a luta por emancipação política, social, econômica não tem condições de se encerrar no interior das fronteiras dos Estados nacionais, sobretudo diante do atual estágio de desenvolvimento do capitalismo. Ao mesmo tempo em que as manifestações de junho eclodiam nas principais cidades brasileiras, a conjuntura internacional era de primavera global antissistêmica, marcada pelo movimento do Occupy Wall Street, de Los Indignados na Espanha, da Primavera Árabe. O Brasil apenas se reconectava ao contexto global de explosão político-democrática.

Me parece que, ao lado do internacionalismo, duas outras são as características fundamentais do Movimento Esquerda Socialista, responsáveis por me trazerem à corrente no primeiro semestre de 2018, sendo já filiado ao PSOL desde 2015, a saber, a ousadia e o ecletismo de fontes teorético-políticas. Com relação ao internacionalismo, talvez ainda caiba destacar que muitas organizações de fato se reivindicam como tal, o que, contudo, não se percebe com tanta clareza na prática. Ao meu ver, internacionalismo é mais do que ter relações internacionais com determinado grupo de pessoas organizadas politicamente em certa localidade. Trata-se, na verdade, de uma percepção acurada das tendências internacionais e de uma capacidade de articulação transnacional com atores políticos relevantemente inseridos nos principais processos políticos em curso. E o MES é consequente com um internacionalismo comprometido com o objetivo de conexão do Brasil ao que existe de mais dinâmico na vanguarda internacional. Um exemplo disso talvez seja as relações desenvolvidas com o DSA nos Estados Unidos, parte importantíssima das movimentações em torno da figura do Senador Bernie Sanders e das novas lideranças progressistas no coração do capitalismo, como Alexandria Ocasio-Cortez e Julia Salazar.

Já no que concerne ao atributo da ousadia, o MES é uma organização conhecida por fazer apostas ousadas, o que inclusive é alvo, por vezes, de muitas críticas dentro da esquerda mais radical. Ocorre que tais setores não conseguem ter a visão mais ampla de que não existe bola de cristal para sabermos de antemão os rumos dos principais fenômenos políticos domésticos e internacionais. Quando embarcamos taticamente na construção ou reivindicação de determinado processo, estamos, sobretudo, nos posicionando de maneira a estarmos aptos a disputarmos também os rumos do mesmo. Ser uma organização com um repertório grande de táticas de intervenção implica na possibilidade de nos conectarmos às principais lutas emancipatórias travadas por todo o mundo e evitarmos uma postura, ao contrário, de sectarismo e isolacionismo, em grande medida irresponsável.

Por último, mas não menos importante, o ecletismo significa beber em diferentes matrizes teorético-políticas no interior do campo da esquerda, uma vez que nenhuma delas sozinha é capaz de nos fornecer todo o arcabouço necessário à elaboração política em tempos cada vez mais complexos. Se os clássicos do marxismo são uma base fundamental, detentores de uma atualidade notável, também não podemos descartar as contribuições da intelectualidade contemporânea, que se debruçam sobre elementos e realidades que não mais correspondem, no mundo contemporâneo, aos primórdios das experiências ditas socialistas no mundo. O século XXI é dotado de complexidades que, na maioria das vezes, não conseguem ser apreendidas a partir de alguns esquematismos já consolidados.

Ademais, faz-se mister salientar que o MES é uma corrente política que encara a história como um processo aberto de aprendizagem social e, assim, carrega suas heranças com muito orgulho, sem, todavia, deixar de aprender com os erros já cometidos, tem suas estratégias para o futuro bem delineadas, mas aposta, principalmente, nesse presente-agora, na atuação concreta na conjuntura política, na disputa real dos projetos de sociedade, na ocupação de todos os espaços, sejam as ruas, as entidades sindicais, estudantis, populares ou o parlamento. Certamente, os tropeços virão, mas a luta é pedagógica e é com eles que a gente vai aprendendo e caminhando. Mas, para além dos tropeços, cada vitória concreta que arrancamos com uma atuação baseada na política acertada é sempre animadora e essencial para nos mantermos vivos por muito mais, já que só a luta muda a vida!

Nesse aniversário de 20 anos do MES, só tenho a desejar vida longa a essa organização que tenho muito orgulho de construir, no rastro daqueles que me antecedem e dedicam suas vidas à construção de futuros outros. Que venham os próximos 20!


Parlamentares do Movimento Esquerda Socialista (PSOL)

Capa da última edição da Revista Movimento
Na 16ª edição, estão disponíveis dois dossiês. No primeiro, sobre o ecossocialismo, podem-se se encontrar as recentes teses de Michael Löwy, além de uma entrevista com o sociólogo e dirigente da IV Internacional. Também publicamos uma entrevista com Zé Rainha, dirigente da FNL, sobre sua trajetória de luta e os desafios dos socialistas no Brasil; uma entrevista com Antônia Cariongo, dirigente quilombola e do PSOL-MA; e artigos de Luiz Fernando Santos, sobre a lógica marxista e a Amazônia, e de Marcela Durante, do Setorial Ecossocialista do PSOL. O segundo dossiê traz algumas análises iniciais sobre a pandemia de coronavírus. Há artigos de Mike Davis e Daniel Tanuro; documentos do MES e do Bureau da IV Internacional; além de uma densa análise de nossas companheiras Evelin Minowa, Joyce Martins, Luana Alves, Natália Peccin Gonçalves, Natalia Pennachioni e Vanessa Couto e de um artigo do camarada Bruno Magalhães. A seção de depoimentos traz um instigante artigo de Pedro Fuentes sobre a história de seu irmão Luis Pujals, o primeiro desaparecido político da história da Argentina. Já a seção internacional traz uma análise do sociólogo William I. Robinson sobre a situação latino-americana.