1 ano do rompimento da barragem da Vale – entrevista com Lilian Jacque, moradora de Brumadinho/MG
REUTERS/Adriano Machado

1 ano do rompimento da barragem da Vale – entrevista com Lilian Jacque, moradora de Brumadinho/MG

O rompimento da barragem da Vale, há um ano, promoveu uma mudança na forma como parcela significativa dos municípios enxergava, até então, a atividade minerária.

A dependência econômica do extrativismo mineral de ferro remonta a um contexto ainda anterior à emancipação do Município de Brumadinho, ocorrida em 1938. É o que nos conta a brumadinhense Lilian Jacque. Para a cientista da informação, de 42 anos, o rompimento da barragem da Vale na mina do Córrego do Feijão, em 25 de janeiro de 2019, promoveu uma mudança na forma como parcela significativa dos munícipes enxergava, até então, a atividade minerária. “Trabalhar na Vale era condição de status. Nunca, em nossos piores pesadelos, imaginávamos que o caos se instalaria aqui advindo de um ecocídio dessas proporções”, explica. Ela destaca, todavia, que ativistas ambientalistas já denunciavam e lutavam contra os abusos da mineração predatória e irresponsável.

Apresentamos abaixo uma entrevista especial com Lilian Jacque, conduzida pelo militante ecossocialista Marcos Ferreira.

Marcos – Como você descreveria a experiência de vivenciar o rompimento da barragem em Brumadinho? Quais os principais efeitos sentidos pela comunidade da região?

Lilian: Descrevo a experiência de vivenciar esse crime de perto como a pior experiência da minha vida. Foram dias de sofrimentos tão intensos que era impossível não chorar, dormir, se alimentar. Tudo era muito surreal. Um sentimento de revolta misturada à angústia e compaixão pelas famílias que haviam perdido seus entes. Só na rua em que morava na ocasião, eram seis trabalhadores desaparecidos e gritos de horror e angústia das pessoas que sequer sabiam o que havia acontecido ao certo e a incerteza misturada à esperança de encontrar as pessoas com vida. Não soube fazer outra coisa além de acompanhar profissionais da imprensa de veículos que considero responsáveis com a informação e a questão social da comunicação, como Discovery Channel, National Geographic, Mídia Ninja e TV Al Jazeera. O caos havia se instalado de tal forma que era impossível a vida seguir como antes. O comércio fechou por uma semana, o barulho dos helicópteros era ensurdecedor e remetia a um cenário de guerra. A imprensa chapa Branca e irresponsável, compartilhava aos borbotões, informações inverídicas e deturpadas da realidade, fazendo que o mundo inteiro nos enviasse doações de tudo enquanto há, porque a ideia que se passou era a de que a cidade havia sido arrasada pela lama. Essas doações se transformaram em um dos maiores problemas naquele contexto, porque era preciso armazenar, triar e distribuir aquilo. Enquanto a administração pública, desesperada e despreparada,  tentava aos trancos e barrancos organizar o caos.

Os principais efeitos sentidos a priori foram o adoecimento mental da população, a tristeza que se personificou, a incerteza do que nos restava, a incapacidade perante aquela empresa poderosa, o sentimento de ódio à Vale, a população de três distritos isolada, a propagação da discórdia, o oportunismo cruel de alguns, o sentimento de impotência e, sobretudo, a indagação do que seria o futuro do município e sua gente.

Marcos – Em que medida essa experiência influenciou o seu envolvimento na luta das famílias atingidas, exigindo uma resposta da Vale e do poder público?

Lilian: Percebemos que o que nos esperava era uma incógnita tão grande e que não poderíamos contar com ninguém além de nós mesmos, porque nunca houve um manual de instruções em como proceder diante dessa situação. E nem podia. Era preciso nos unir e nos organizarmos enquanto sociedade civil. Daí, já havia chegado aqui os movimentos populares dessa área, como o MAB e mais discretamente, o MAM. De repente, eram órgãos de tudo enquanto esfera de governo aqui: gabinetes de crise criados, força-tarefa, defensorias públicas, ministérios públicos, exército de Israel, bombeiros, igrejas, ONGs… Era preciso entender tudo isso, fazer uma leitura sobre as reais intenções de cada órgão, ler nas entrelinhas que a maioria estava intrinsecamente subserviente à minério-dependência que assola o Estado de Minas Gerais desde sempre. Minha luta passou a ser entender essa situação, fazer dela objeto de estudo e auxiliar os órgãos que identifiquei estarem contra a Vale, contra a minério-dependência e a favor do município de Brumadinho.

Marcos – Quais as principais ações da comunidade durante 1 ano de luta?

Lilian:As principais ações das comunidades vão ao encontro de serem indenizadas em suas perdas, materiais e imateriais. A tentativa de reconstrução de suas comunidades de forma que a vida volte ao cotidiano anterior ao crime, com melhorias de infraestrutura e a presença dos equipamentos públicos necessários à vida comunitária.

Marcos – Após um ano dos crimes socioambientais em Brumadinho, o que você percebe em medidas concretas adotadas pela mineradora?

Lilian: As medidas, até então, da mineradora estiveram centradas nas indenizações às famílias das vítimas, obras de emergência, como abrir novo acesso para a população que se encontrava isolada, o auxílio emergencial para todos os moradores de Brumadinho e ao longo de 1 km das calhas do rio Paraopeba, a contenção da lama, a contenção dos sedimentos tóxicos do córrego ferro carvão, que deságua no Paraopeba, a distribuição de água potável aos ribeirinhos, o adiantamento do que seria o CEFEM para a prefeitura e a tentativa de imbuir a ideia de que somente as três comunidades consideradas de auto salvamento foram atingidas. Ainda é preciso a reparação de vários itens, como: a reconstrução econômica do município, a indenização aos trabalhadores terceirizados e diretos sobreviventes, a recuperação de atividades laborais como a dos pequenos produtores, a recuperação do rio Paraopeba e outros.


Parlamentares do Movimento Esquerda Socialista (PSOL)

Capa da última edição da Revista Movimento
O MES completa 20 anos. A edição n. 14-15 da Revista Movimento é dedicada por completo ao importante evento que marca duas décadas de nossa história. Apesar de jovens, podemos dizer que poucas organizações na história política da esquerda brasileira alcançaram essa marca com tamanho vigor. Longe de autoproclamação, desejamos transformar nossos êxitos em força social e militante para novos e amplos impulsos. Ainda não cumprimos uma maratona, mas nossa história sem dúvida deixou para trás a visão de curto prazo, que alguns adversários nos chegaram a prognosticar. Diante das muitas provas, vitórias e algumas derrotas, podemos celebrar e somar forças para enfrentar as tarefas imediatas: derrotar a tentação autoritária de Bolsonaro e avançar na construção de uma alternativa socialista.