As eleições no Peru
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As eleições no Peru

Sobre as eleições ocorridas no final de janeiro.

Tito Prado 5 fev 2020, 14:03

As eleições realizadas no último 26 de janeiro foram atípicas, pois elegeram um novo Congresso de curta duração em substituição ao que o presidente Vizcarra fechou em 30 de setembro, cedendo aos 80% dos peruanos que reivindicaram tal medida porque a instituição havia sido assumida por partidos que se revelaram fortemente comprometidos com a mega corrupção que Lava Jato expôs.

Ainda falta se apurar 100% das atas, mas já parece difícil para Juntos pelo Peru (JP) alcançar os 5% dos votos, segundo os primeiros dados resultados das pesquisas de boca da urna. Essa é a barreira mínima necessária para se eleger uma bancada no Congresso. A sorte parece ter sido lançada, a menos que sejam legitimados os atos que foram desafiados pelas autoridades de direita em sua ânsia de fechar a passagem para o JP. Aos 99% do escrutínio oficial, o JP está em 4,76% e, se não ultrapassar a barreira, a aliança eleitoral em que o Novo Peru – liderado por Verónika Mendoza – é convidada não obteria congressistas no novo Legislativo. Isso representa um sério revés que deve ser cuidadosamente avaliado para recuperar as terras perdidas e ser uma alternativa de governo como em 2016.

Nessas eleições, os partidos da corrupção foram fortemente derrotados. O Força Popular do fujimorismo passaria de 73 congressistas para 12; seu parceiro, o APRA, partido histórico de Haya de la Torre, não alcança qualquer representação; e Contigo, partido no qual dissidentes do atual governo se refugiaram para flertar com a oposição, também foi relegado para as últimas posições. Encabeça, com 10% dos votos, a Ação Popular do ex-presidente Fernando Belaunde e atual prefeito da capital que goza de boa aceitação nas pesquisas. É seguido por partidos igualmente defensores do modelo econômico, sendo a surpresa o desempenho do FREAPAP com uma forte identidade religiosa evangélica que chega ao 2º lugar e a União para o Peru de pregação anti-sistema radical, mas de corte autoritário, que arrasou preenchendo o vazio deixado por a ausência de Verónika Mendoza na disputa. A Frente Ampla (FA), grupo do qual o Novo Peru rompeu, obtém 6% e alcança 12 assentos, sendo a melhor colocada à esquerda, colhendo a identidade do símbolo associado até a Verónika, mas também por sua boa atuação no congresso dissolvido. O problema da FA é que ela está ligada à candidatura de seu líder Marco Arana, que não aceita uma primária entre organizações de esquerda para definir a próxima candidatura presidencial.

Como nenhum partido vence com uma maioria significativa, a crise do regime vai continuar ainda que o Presidente Vizcarra seja fortalecido e, embora ele não tenha tido sua própria lista eleitoral, quase todos os eleitos lhe garantiram colaboração. Isso abrirá um novo cenário de disputa à medida que o governo, agora com o apoio da nova maioria do Congresso, continuará em seus esforços para impor novas privatizações, realizar os megaprojetos extrativistas e aplicar outros ajustes trabalhistas, todos os quais serão respondidos por organizações populares, criando um novo ciclo da crise do regime que é vivida no Peru. Esse é outro desafio para as forças da mudança, porque alcançar e sintonizar essas lutas é a tarefa mais estratégica à qual as táticas eleitorais devem ser subordinadas.

Embora diferentes analistas minimizem ou ignorem o papel da mobilização social, a verdade é que esta foi decisiva para abrir um processo de conquistas democráticas, embora parciais e limitadas, que incluíram o fechamento do Congresso, como já foi dito. Isso não poderia ser capitalizado pela esquerda naquele momento, mas o processo ainda está aberto com uma forte polarização à esquerda de quase um terço do eleitorado, o que garantiria um segundo turno nos próximas eleições generais, se forem revertidas as condições atuais de dispersão Mas estamos em uma encruzilhada porque, se não revertermos os erros, a divisão e o destaque do Novo Peru, outros se beneficiarão dessa situação excepcional de crise da direita tradicional.

Note-se que, embora a partir do Novo Peru tenhamos desenvolvido uma política de sucesso durante toda a crise do regime que abalou o Peru pelo menos desde 2016, com foco na luta democrática e contra o modelo, insistindo em uma saída substantiva por meio de uma nova constituição, a verdade é que não foi possível conduzir o processo de união entre a esquerda que começou com o projeto “Vozes da Mudança” em Huancayo e depois em Cusco com grandes atos de milhares de participantes, incluindo partidos, sindicatos e organizações populares. A direita acusou o golpe e iniciou um ataque sistemático tentando desmantelar aquele novo reagrupamento que poderia se tornar uma alternativa séria. O Novo Peru, que teve um peso político decisivo, não sabia como direcionar esse processo e ampliou as definições oportunistas, abaladas pela pressão de certos setores que viram como melhor uma virada para o centro. Por fim, decidiu-se afirmar uma proposta da esquerda, buscando capitalizar a polarização social. Mas como o Novo Peru carece de registro eleitoral desde a ruptura com a FA, teve que se preparar para ir como força convidada a uma aliança com o Peru Libre do ex-governador de Junín Vladimiro Cerrón e do JP beneficiado pelo registro eleitoral do Partido Humanista de Jehude Simon, ex primeiro-ministro do último governo da APRA durante uma dura repressão aos povos indígenas chamada El Baguazo.

Esse projeto unitário mereceu um ataque impiedoso da direita acusando o NP de concordar com os corruptos Simón e Cerrón, em particular o último, apesar do fato de que ambos saíram de cena enquanto duram os processos. Mas a pregação hostil da mídia ecoou em um setor de congressistas e militantes do NP que optaram por deixar a organização. Foi o custo que a NP teve que pagar por sua determinação em participar, mesmo sem seu próprio registro, nessas eleições para fechar o caminho para os corruptos e abrir caminho para o governo do povo em 2021. A perda de companheiros valiosos deve nos chamar em reflexão, para fazer o máximo esforço para esclarecer as diferenças e evitar que objetivos mais estratégicos sejam perturbados por questões táticas. Finalmente, já à beira do registro, a tríplice aliança não foi consumida por problemas administrativos do PL que optaram por continuar por si próprios. É assim que o NP acaba entrando como um convidado nas fileiras do JP, que agrupa vários partidos da chamada velha esquerda. Então, na conformação da lista, sob a premissa errada de que 2020 não tem muito efeito em 2021, ficamos sem a participação de Verónika na lista de candidatos.

Agora, resta apenas insistir no registro do MNP buscando confirmar 24.000 afiliados e manter a identidade como uma nova esquerda democrática, ampla e confluente, contra qualquer compromisso que enfraquece sua proposta programática de ruptura com o regime político vigente e o modelo neoliberal. Estaremos em melhores condições para liderar, a partir da esquerda, um bloco social e político que pretende ser um governo para fornecer ao país uma nova constituição e um novo estado, verdadeiramente soberano, democrático e popular em ruptura com um modelo econômico que 30 anos beneficiam apenas as transnacionais imperialistas e os grandes negócios nacionais que buscam usar seu poder econômico para colocar e retirar autoridades políticas, sempre com base em seus interesses. O que está em jogo no final do dia é a continuidade de um modelo que, como expressão do capitalismo de crise, sujeita países ainda menos desenvolvidos, apropriando seus recursos naturais, tornando os trabalhadores e os povos suas principais vítimas. Isso deve terminar e ficou evidente à luz das recentes eleições que acabaram, é necessário montar uma poderosa alternativa social e política ligada às lutas populares e isso, em grande medida, depende do que fazemos no Novo Peru.


Parlamentares do Movimento Esquerda Socialista (PSOL)

Capa da última edição da Revista Movimento
Na 16ª edição, estão disponíveis dois dossiês. No primeiro, sobre o ecossocialismo, podem-se se encontrar as recentes teses de Michael Löwy, além de uma entrevista com o sociólogo e dirigente da IV Internacional. Também publicamos uma entrevista com Zé Rainha, dirigente da FNL, sobre sua trajetória de luta e os desafios dos socialistas no Brasil; uma entrevista com Antônia Cariongo, dirigente quilombola e do PSOL-MA; e artigos de Luiz Fernando Santos, sobre a lógica marxista e a Amazônia, e de Marcela Durante, do Setorial Ecossocialista do PSOL. O segundo dossiê traz algumas análises iniciais sobre a pandemia de coronavírus. Há artigos de Mike Davis e Daniel Tanuro; documentos do MES e do Bureau da IV Internacional; além de uma densa análise de nossas companheiras Evelin Minowa, Joyce Martins, Luana Alves, Natália Peccin Gonçalves, Natalia Pennachioni e Vanessa Couto e de um artigo do camarada Bruno Magalhães. A seção de depoimentos traz um instigante artigo de Pedro Fuentes sobre a história de seu irmão Luis Pujals, o primeiro desaparecido político da história da Argentina. Já a seção internacional traz uma análise do sociólogo William I. Robinson sobre a situação latino-americana.