As expectativas do mercado e dos governos chocam-se com o Brasil real
Roberto Robaina e Fernanda Melchionna apoiam a luta dos rodoviários

As expectativas do mercado e dos governos chocam-se com o Brasil real

O discurso triunfalista do mercado choca-se com a realidade brasileira e a temperatura das lutas aumenta.

Israel Dutra e Thiago Aguiar 7 fev 2020, 12:05

Nestas primeiras semanas de 2020, o governo Bolsonaro, porta-vozes empresariais e analistas burgueses têm repetido à exaustão a expectativa de retomada do crescimento econômico. Baseadas no apoio à reforma da previdência e aguardando uma nova rodada de ataques aos direitos dos trabalhadores, uma reforma tributária regressiva e mais ataques às carreiras do funcionalismo, as associações patronais somam-se ao discurso de Paulo Guedes e aguardam a recuperação da atividade econômica.

O discurso triunfalista de agentes do mercado em apoio a Bolsonaro, no entanto, choca-se com a realidade brasileira. A anunciada redução do desemprego, como mostram os especialistas e se verifica facilmente nas ruas de nossas cidades, baseia-se no aumento da informalidade e na condenação de milhões de trabalhadoras e trabalhadores à “viração”, em busca do sustento diário de suas famílias, edulcorada como “empreendedorismo”.

O dados da indústria em 2019 também lançam dúvidas sobre as promessas de crescimento: a queda de 1,1% na produção industrial em comparação com 2018 mostra a deterioração da economia e os efeitos nefastos da política econômica de Bolsonaro e Guedes para os trabalhadores e o povo brasileiro.

Não por acaso, começa a aumentar a temperatura das lutas sociais, como mostra a importante greve nacional dos petroleiros, além das greves na Casa da Moeda, no Serpro (sob ameaça de privatização) e os conflitos locais, como os enfrentamentos às reformas da previdência estaduais que se espalham pelo país. Diante desse cenário, a oposição a Bolsonaro precisa ter uma política de apoio concreto e decidido às lutas para resistir aos ataques dos governos e da burguesia, e para construir uma alternativa para o Brasil. A recente luta dos rodoviários de Porto Alegre mostra um exemplo do que pode ser feito.

A vitória dos rodoviários em Porto Alegre e as lições para a luta social

Em 3 de fevereiro, os vereadores de Porto Alegre, por 23 votos a 9, rejeitaram o projeto do prefeito Nelson Marchezan Jr. (PSDB) que abria brecha para a demissão de centenas de cobradores do transporte público municipal. Fruto da intransigência do prefeito, a articulação do bloco de oposição para rejeição do projeto foi impulsionada pela mobilização das ruas. Como parte de um chamado “pacote” para supostamente modernizar o transporte na cidade, mas que escondia um grande ataque aos rodoviários e aos trabalhadores de aplicativos, abriu-se a chance de unificar a luta de todos os setores atingidos. Isso colocou a prefeitura na defensiva e mostrou que os governos não são invencíveis.

A luta de Porto Alegre, ainda que esteja longe de expressar a complexidade da situação nacional, traz elementos importantes: como lograr a unificação das categorias, num momento defensivo da luta social? Como lutar contra o desemprego e o argumento da “modernização tecnológica”? Qual o lugar da esquerda no apoio e coordenação das lutas? Num momento onde outras lutas acontecem, é vital buscar as lições da vitória de Porto Alegre.

O lugar do PSOL e da oposição

Em Porto Alegre, o PSOL cumpriu um papel ativo na luta contra os ataques de Marchezan. Encabeçado pela atuação firme de Roberto Robaina – na Câmara de Vereadores e no apoio à mobilização da categoria –, o partido teve contribuição fundamental na coordenação das lutas.

Diante dos desafios enfrentados pela classe trabalhadora, fica clara a necessidade de uma atuação enraizada da esquerda socialista. São evidentes, também, as contradições dos setores majoritários da oposição no plano federal, que não apenas não buscam estimular, apoiar e coordenar as lutas como, por vezes, atuam para atacar e retirar direitos dos trabalhadores, como mostrou a reforma da previdência imposta pelo governo de Rui Costa (PT) na Bahia.

O PSOL, por sua vez, deve colocar-se a serviço do enfrentamento ao ajuste dos governos e aos ataques da burguesia, apoiando e participando das lutas no nível local e colocando seu prestígio e seus mandatos à disposição destes conflitos. A bancada nacional do partido, que tem cumprido um papel importante nesse sentido, será liderada, em 2020, pela deputada Fernanda Melchionna, que certamente terá um papel fundamental para vocalizar a luta contra Bolsonaro, Guedes e seus ataques.


Parlamentares do Movimento Esquerda Socialista (PSOL)

Capa da última edição da Revista Movimento
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