Águas de março
Tropa de choque na ALESP - Reprodução

Águas de março

Vamos ocupar as ruas contra o autoritarismo de Bolsonaro e os ataques ao nível de vida do povo. Um calendário de lutas em março começa a ganhar fôlego.

Israel Dutra e Thiago Aguiar 4 mar 2020, 21:27

Após semanas de recrudescimento do autoritarismo de Bolsonaro e de seu entorno, mais isolados politicamente e pressionados pelo pântano da economia estagnada, há uma negociação em curso a respeito dos conflitos recentes entre o Congresso e o Poder Executivo. A burguesia opera para garantir alguma estabilidade pela continuidade do ajuste estrutural promovido por Paulo Guedes. As contradições na economia e na vida cotidiana, no entanto, acumulam-se.

A temperatura aquecida dos últimos dias – após as ameaças de Bolsonaro e Augusto Heleno ao Congresso e ao STF com a mobilização golpista prevista para 15 de março – começa a diminuir com as negociações, apoiadas pela burguesia, entre Rodrigo Maia, Davi Alcolumbre e o governo sobre o “orçamento impositivo”. As más notícias na economia avolumam-se depois de uma virada de ano de promessas. A divulgação do crescimento do PIB pelo IBGE, de pífios 1,1%, mostra a estagnação da renda nacional e a dificuldade da política de ajuste oferecer qualquer saída para o país.

A expansão dos casos de coronavírus, por sua vez, ameaça o crescimento econômico global e o desenvolvimento dos negócios, dado o caráter transnacional da produção. Bancos Centrais manifestam-se a favor de nova onda de cortes de juros e de injeção de capital, nas potências centrais, para impedir uma nova recessão em escala global. A instabilidade demonstra que a burguesia seguirá sua linha de ajuste e de dilapidação dos direitos dos trabalhadores e dos serviços públicos. Fica mais evidente a necessidade de lutar!

A crise social escancarada

Diante da dificuldade de recuperação da economia e de índices de desemprego e subemprego elevados, a precarização do trabalho é uma realidade que se impõe a milhões de trabalhadoras e trabalhadores brasileiros envolvidos na informalidade e na “viração” para sustentar suas famílias.

Nas cidades brasileiras, a crise social é uma chaga visível no aumento da população de rua. Além do empobrecimento do povo, a temporada de chuvas de verão tem castigado milhões de famílias em todo o país. Dessa vez, o Rio de Janeiro, a Baixada Fluminense e a Baixada Santista viveram inundações e deslizamentos de encostas. Na Baixada Santista, no litoral paulista, as chuvas da madrugada da última terça-feira mataram 21 pessoas e ainda há 28 desaparecidos, além de centenas de famílias desabrigadas.

A receita dos governos é mais ataque

A falência dos Estados e municípios, os cortes orçamentários e a orientação privatista e antipopular de governos como os de João Doria e Wilson Witzel expõem milhões de brasileiros a uma crise no saneamento básico e no abastecimento de água ao mesmo tempo em que a vida das famílias trabalhadoras está ameaçada pela habitação em áreas de risco e pela falta de investimentos em moradia e prevenção de risco em áreas vulneráveis.

Os governos locais replicam a orientação nacional de ataque contra o povo, apoiados pela burguesia que exige mais “reformas”. Dessa vez em São Paulo, mais uma reforma da previdência estadual foi aprovada sob presença da truculenta Tropa de Choque da polícia e com uma chuva de bombas e tiros no interior da Assembleia Legislativa contra os servidores públicos. No Metrô de São Paulo, os trabalhadores enfrentam a retirada de direitos e os usuários lidam com a falência dos serviços, como na linha 15-Prata, um monotrilho superlotado recém-privatizado que há dias está parado por falhas na operação, prejudicando dezenas de milhares de trabalhadores da Zona Leste paulistana.

Construir a defesa das reivindicações no Março de lutas

É preciso enfrentar Bolsonaro e os governos locais com uma linha de defesa das reinvindicações mais sensíveis do povo: aumento nos investimentos em saúde e educação; defesa da ciência e tecnologia; combate às privatizações e à falência de serviços públicos de abastecimento de água e de transporte; combate às novas propostas de retirada de direitos trabalhistas; defesa de salários dos trabalhadores da iniciativa privada e do funcionalismo, há anos arrochados; entre outras.

Vamos ocupar as ruas contra o autoritarismo de Bolsonaro e os ataques ao nível de vida do povo. Um calendário de lutas em março começa a ganhar fôlego. Na última segunda-feira dia 2, a Frente Nacional de Lutas organizou uma forte “Jornada Nacional de Lutas por Terra, Trabalho, Moradia e Liberdade” com ações em 6 estados (SP, AL, MS, AP, PA e RN) e no Distrito Federal em passeatas, cortes de rodovias e ocupações de instituições. Nas próximas semanas, será o momento de ampliar a mobilização, com a organização de um forte ato no Dia Internacional das Mulheres em 8 de março, nas manifestações exigindo Justiça para Marielle Franco e Anderson Gomes dois anos após sua execução em 14 de março e na jornada de lutas em defesa da educação e contra os ataques e o autoritarismo do governo Bolsonaro em 18 de março.


Parlamentares do Movimento Esquerda Socialista (PSOL)

Capa da última edição da Revista Movimento
Na 16ª edição, estão disponíveis dois dossiês. No primeiro, sobre o ecossocialismo, podem-se se encontrar as recentes teses de Michael Löwy, além de uma entrevista com o sociólogo e dirigente da IV Internacional. Também publicamos uma entrevista com Zé Rainha, dirigente da FNL, sobre sua trajetória de luta e os desafios dos socialistas no Brasil; uma entrevista com Antônia Cariongo, dirigente quilombola e do PSOL-MA; e artigos de Luiz Fernando Santos, sobre a lógica marxista e a Amazônia, e de Marcela Durante, do Setorial Ecossocialista do PSOL. O segundo dossiê traz algumas análises iniciais sobre a pandemia de coronavírus. Há artigos de Mike Davis e Daniel Tanuro; documentos do MES e do Bureau da IV Internacional; além de uma densa análise de nossas companheiras Evelin Minowa, Joyce Martins, Luana Alves, Natália Peccin Gonçalves, Natalia Pennachioni e Vanessa Couto e de um artigo do camarada Bruno Magalhães. A seção de depoimentos traz um instigante artigo de Pedro Fuentes sobre a história de seu irmão Luis Pujals, o primeiro desaparecido político da história da Argentina. Já a seção internacional traz uma análise do sociólogo William I. Robinson sobre a situação latino-americana.