Em defesa dos que ousam lutar
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Em defesa dos que ousam lutar

Pelo respeito que a unidade na luta contra uma pandemia global e um presidente lunático necessita.

Sandro Pimentel 20 mar 2020, 14:07

A burocracia partidária em tempos de retrocesso da classe trabalhadora produz distorções que talvez só o tempo e um ascenso da classe trabalhadora organizada poderá superar. Juliano Medeiros vem se demonstrando uma expressão bem acabada do que a distorção burocrática pode produzir. Em sua última entrevista, compara Fernanda Melchionna à Tábata Amaral. Fernanda é uma Deputada Federal eleita com 114.302 votos apresentando-se enquanto radical, aguerrida militante que há mais de uma década enfrenta o conservadorismo e o machismo dentro do parlamento. Uma parlamentar que tem o peso nas costas de representar quase 2% da população do Rio Grande Sul.

Sob sua responsabilidade estão os anseios, a esperança em dias melhores, de ter alguém no parlamento lutando pelos direitos do povo, a esperança de uma representante mulher que não abaixe a cabeça e, no caso da crise pandêmica global, que lute por suas vidas.

Sou ex-dirigente sindical nacional, estou parlamentar e assim como todos que militam no cotidiano da classe trabalhadora, sei do tamanho de tal responsabilidade. Uma greve mal articulada não produz apenas perda politica. Cortes de ponto podem deixar trabalhadores e trabalhadoras com dificuldades de colocar alimento em suas casas. Essa situação se replica em todos nós, camaradas que se jogam na luta política e têm a responsabilidade de dirigir nossos pares nesses momentos de crise, são dilemas que todos nós enfrentamos em nosso cotidiano. E tão somente quem já sentiu o peso desse tipo de decisão, sabe o quão difícil é para os revolucionários.

Dirigentes revolucionários são forjados nesses momentos decisivos e práticos, onde a responsabilidade lhes é delegada, onde a cobrança da situação concreta é imperiosa e onde a classe deposita as poucas esperanças, de forma coletiva, em uma representação pública. Esse é o caso da política de hoje, a irresponsabilidade de Bolsonaro frente ao Coronavírus provocará mortes e mortes dos nossos: dos que não terão acesso ao serviço de saúde e que não poderão pagar por testes ou fazer quarentena. Moro na maior periferia de Natal e são os meus vizinhos com maior probabilidade de morrer. São parte dos 2% da população que depositou em Fernanda seus votos que terão maiores riscos de morte. É esse o sentimento inclusive que gerou a amplitude de assinaturas em nossa peça de impedimento a Bolsonaro. Não é um sentimento exclusivo dos dirigentes da esquerda, é a responsabilidade frente ao público que segue influenciadores digitais, que acompanham intelectuais e esperam uma resposta à realidade. Tudo isso está sob cada uma das dezenas de assinaturas no pedido, portanto desqualificar Fernanda é desqualificar todas elas.

Talvez seja da ausência disso tudo que parta a arrogância de Juliano Medeiros ao fazer a comparação que me referi na tentativa de desqualificar Fernanda Melchionna. Não apresenta critica alguma, apenas tenta desqualificá-la publicamente por pura arrogância de quem nunca dirigiu nada na luta de classes. Somente a burocracia não é capaz de produzir essa responsabilidade em “dirigentes políticos revolucionários”, ao que me parece o que Juliano tenta se postular enquanto presidente do PSOL. Essa falta de respeito expressa uma prepotência gerada pelo seu encastelamento burocrático que no movimento sindical conhecemos como peleguismo. Somente as movimentações de palácios, a operação da máquina partidária, os cafés na Avenida Paulista ou em algum bar do eixo central do Distrito Federal não geram o peso que produz o senso de responsabilidade com o povo.

O teste nas lutas, nas greves, nos movimentos e nos parlamentos produzem o peso de ter a quem responder em um sentido mais amplo. A burocracia isolada e o horizonte de carreira nela, produz a arrogância dos holofotes de quem não responde à ninguém, somente à sua posição dentro dos espaços estreitos da burocracia.

Aqui não se trata de silenciar as críticas à tática, mas sim, do respeito às divergências. Se trata de reconhecer, entre nós, revolucionários, o tamanho das tarefas que temos no horizonte e o tamanho de nossa responsabilidade e necessidade de multiplicidade tática e estratégica. Se trata de germinar em nós o respeito que a unidade na luta contra uma pandemia global e um presidente lunático necessita. Todo meu apoio à Fernanda Melchionna que não está sozinha e qualquer ataque a ela, venha de onde vier, é um ataque à democracia e à cada um de nós que temos a compreensão da grave situação atual!


Parlamentares do Movimento Esquerda Socialista (PSOL)

Capa da última edição da Revista Movimento
Na 16ª edição, estão disponíveis dois dossiês. No primeiro, sobre o ecossocialismo, podem-se se encontrar as recentes teses de Michael Löwy, além de uma entrevista com o sociólogo e dirigente da IV Internacional. Também publicamos uma entrevista com Zé Rainha, dirigente da FNL, sobre sua trajetória de luta e os desafios dos socialistas no Brasil; uma entrevista com Antônia Cariongo, dirigente quilombola e do PSOL-MA; e artigos de Luiz Fernando Santos, sobre a lógica marxista e a Amazônia, e de Marcela Durante, do Setorial Ecossocialista do PSOL. O segundo dossiê traz algumas análises iniciais sobre a pandemia de coronavírus. Há artigos de Mike Davis e Daniel Tanuro; documentos do MES e do Bureau da IV Internacional; além de uma densa análise de nossas companheiras Evelin Minowa, Joyce Martins, Luana Alves, Natália Peccin Gonçalves, Natalia Pennachioni e Vanessa Couto e de um artigo do camarada Bruno Magalhães. A seção de depoimentos traz um instigante artigo de Pedro Fuentes sobre a história de seu irmão Luis Pujals, o primeiro desaparecido político da história da Argentina. Já a seção internacional traz uma análise do sociólogo William I. Robinson sobre a situação latino-americana.