Janelas abertas, olhos vendados
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Janelas abertas, olhos vendados

Convocado simultaneamente nas capitais, o “janelaço”, marcou a entrada do movimento de massas, ainda incipiente, na presente crise nacional.

Israel Dutra 19 mar 2020, 09:16

Os panelaços, que surgiram de forma espontânea na terça-feira, 17/03, em várias cidades do país, marcaram a noite de ontem, quarta-feira, dia 18, como parte de um grande protesto contra Bolsonaro. Convocado simultaneamente nas capitais, o “janelaço”, marcou a entrada do movimento de massas, ainda incipiente, na presente crise nacional. A ação, desigual em todo país, teve força nos bairros da classe média, sendo massivo, chegando em alguns locais da periferia, ainda que não tenha sido essa a tônica. Cidades como Porto Alegre chegaram a ter dezenas de bairros protagonizando panelaços e apitaços, sempre associado ao grito de Fora Bolsonaro. Foi um importante pronunciamento social, sem uma coordenação centralizada, em oposição ao modo como o governo vem lidando com a pandemia do Coronavírus.

O governo sentiu o golpe. A outra imagem do dia foi a preparação da entrevista coletiva de Bolsonaro, onde de forma patética, acabou se atrapalhando no manuseio da máscara, numa metáfora tragicômica do desgoverno nacional. O conteúdo da entrevista foi defensivo, tentando ora aceitar o protesto, ora confundir, convocando um panelaço a favor do governo, meia hora depois do “janelaço”.

A ação desastrosa, negacionista da ciência, que teve como ponto alto, a ida do presidente ao encontro dos manifestantes no ato do dia 15, vai levando o governo a um rápido isolamento. A semana serviu para que a irresponsabilidade de Bolsonaro fosse sendo descoberta mesmo por setores que antes o apoiavam. A cada dia, novas medidas, mais urgentes, são tomadas pelos governantes, a medida que são notificados mais casos e mortes, numa escalada veloz.

A bolsa de valores despencou e o dólar subiu. O governo não cumpriu com as mínimas recomendações da OMS para a prevenção da pandemia e abriu uma fissura entre o ministro da saúde e o núcleo ligado ao presidente. O país está parando sem nenhum plano concreto: demissões em massa na indústria e no setor de serviços. O receituário ultraliberal de Guedes, que antes tinha falado que as reformas eram mais importantes do que um tratamento para a crise, vai jogar o país numa verdadeira decomposição social. Os dois supostos “pacotes” anunciados não são capazes de resolver a crise, nem do ponto de vista dos patrões. Contudo, para os trabalhadores e a maioria do povo representam ataques históricos, como a redução salarial e a falta de um plano de proteção aos trabalhadores que vivem na informalidade.

O cenário social não é nada alentador. A preparação para dias piores parece ser uma das poucas certezas da situação. As rebeliões em presídios são sintomas de que virão cenas ainda mais grotescas para os próximos dias. A dúvida sobre o isolamento social, inculcada pelos setores negacionistas que estão no poder, apenas alastra a epidemia, deixando milhões desprotegidos num momento de gravidade extrema.

Esses são os motivos para a indignação popular contra o governo. De olhos vendados, Bolsonaro conduz o país rumo a um desastre anunciado. Centenas de milhares inauguraram uma nova forma de protesto, na noite de ontem, abrindo caminho para uma ação coletiva independente, em tempos difíceis. Um movimento embrionário e inédito.

A discussão no seio da esquerda sobre o que fazer diante da crise também polariza as redes. Protocolamos um pedido de impeachment, encabeçado por Fernanda, Samia, David e Luciana, apoiado em centenas de intelectuais, parlamentares, lideranças sociais e políticas do país; o abaixo-assinado em apoio a tal iniciativa deve estar superando a marca de 100 mil apoios. Foi um gesto corajoso — contestado por setores moderados do próprio PSOL — que aponta um caminho para seguir em meio a uma crise que está nos seus primeiros desdobramentos. A crise poderá se transformar em tragédia em pouco tempo. E em tempos de decomposição social, pela primeira vez em muitos anos, temos uma extrema-direita com base de massas no planeta e um polo fascista claramente organizado no Brasil. Isso aumenta a responsabilidade da esquerda socialista na disputa dos rumos de uma ampla unidade baseada na defesa da ciência e de uma saída solidária e racional para o que se aproxima.

Com a autoridade de quem não aceita a legitimidade de Bolsonaro e de Guedes como dirigentes de um país à deriva, precisamos avançar em duas grandes tarefas, mais do que necessárias, diante do que está posto: colocar no centro um programa que defenda a vida da ampla maioria do povo, com medidas emergenciais, como as que já estamos defendendo, onde se inclua a garantia da renda e da saúde, sobretudo dos mais vulneráveis; e junto a isso, aproveitar a energia social crescente para apostar na auto-organização, mesmo não presencial, criando novas referências e laços de comunidade. Sem essa solidariedade ativa, qualquer programa ou medidas são palavras ao vento.

Como parte do programa emergencial, além do fim do teto de gastos, liberação imediatas de recursos para a saúde, a defesa do salário e contra qualquer medida que signifique atacar direitos dos trabalhadores da iniciativa privada e do funcionalismo público; o cancelamento da cobrança de água, luz e transporte para os desempregados; a garantia de uma renda digna para os trabalhadores informais.

Apenas transformando a indignação contra Bolsonaro em medidas concretas vamos poder disputar um sentido comum para lutar contra a catástrofe.


Parlamentares do Movimento Esquerda Socialista (PSOL)

Capa da última edição da Revista Movimento
Na 16ª edição, estão disponíveis dois dossiês. No primeiro, sobre o ecossocialismo, podem-se se encontrar as recentes teses de Michael Löwy, além de uma entrevista com o sociólogo e dirigente da IV Internacional. Também publicamos uma entrevista com Zé Rainha, dirigente da FNL, sobre sua trajetória de luta e os desafios dos socialistas no Brasil; uma entrevista com Antônia Cariongo, dirigente quilombola e do PSOL-MA; e artigos de Luiz Fernando Santos, sobre a lógica marxista e a Amazônia, e de Marcela Durante, do Setorial Ecossocialista do PSOL. O segundo dossiê traz algumas análises iniciais sobre a pandemia de coronavírus. Há artigos de Mike Davis e Daniel Tanuro; documentos do MES e do Bureau da IV Internacional; além de uma densa análise de nossas companheiras Evelin Minowa, Joyce Martins, Luana Alves, Natália Peccin Gonçalves, Natalia Pennachioni e Vanessa Couto e de um artigo do camarada Bruno Magalhães. A seção de depoimentos traz um instigante artigo de Pedro Fuentes sobre a história de seu irmão Luis Pujals, o primeiro desaparecido político da história da Argentina. Já a seção internacional traz uma análise do sociólogo William I. Robinson sobre a situação latino-americana.