Uma agenda própria
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Uma agenda própria

Quais são os problemas das mulheres? Ofensiva feminista contra a espoliação de nossas vidas.

Julia Cámara 10 mar 2020, 15:35

Em 1929 perguntara à escritora britânica Virginia Woolf por que havia tão poucas mulheres de êxito. O que era o que necessitava uma mulher para poder escrever romances? O entrevistador esperava, sem dúvida, uma resposta de tipo emocional ou psicologizante, ao estilo de “sensibilidade artística” ou “personalidade criativa”. O resultado foi, pelo contrário, radicalmente materialista. “Um quarto próprio” (com chave e fechadura, precisa a autora) é ainda hoje um dos clássicos da literatura feminista e um texto crucial para pensar a autonomia pessoal das mulheres e nossa capacidade de aportar intelectualmente. Ter um quarto próprio significa autonomia, não dependência, construção de um espaço com lógicas que não são as mais alheias e impostas. Ter chave e fechadura significa, além disso, o direito a dar ou não a permissão de entrada intimidade pessoal e a possibilidade de viver com base nos ritmos e os tempos que uma mesma decide. Autonomia, independência, controle dos tempos: pré-condições necessárias para todo projeto de êxito.

No lodaçal escorregadiços das aproximações políticas, 2019 foi o ano em que todo o mundo queria ser feminista. Isso está bem, em parte. As lutas não deveriam ser jamais uma etiqueta estética com a qual nos vangloriar de nossa suposta pureza (ideológica?, de atos?) própria de grupo eleito, como prêmio de consolação ante a incapacidade de transcender socialmente. Se o sujeito não se constrói e reconstrói constantemente através da experiência coletiva é que se trata de um sujeito morto, incapaz de portar já nenhuma esperança emancipatória em seu seio. Não é o caso do feminismo, por sorte. O problema não é que todo o mundo quer ser feminista, mas as tentativas de substituição que, com maior ou menor descaramento e melhores ou piores intenções, estamos vendo durante os últimos meses.

As Luis XIV do feminismo (“o Feminismo sou eu”) deveriam lavar a boca antes de atrever sequer a desenvolver semelhante retórica ególatra. As que, por outro lado, se querem aliadas e buscam ver respaldada sua prática política diária pelas ativistas, pecam frequentemente de não querer assumir a diferenciação de espaço. Umas e outras, por diferentes vias, dificultam ou anulam a autonomia, a independência e o controle dos tempos do movimento – pré-condições necessárias para todo projeto de êxito, seja individual… ou coletivo.

A escassos dias do próximo 8 de março e com um panorama muito diferente ao que abriu em 2017 a primeira Greve Feminista, necessitamos ser capazes de imaginar e impulsionar um movimento feminista que defenda com unhas e dentes seu quarto próprio. Ou, se pensamos em termos mobilizadores: que construa e ponha em prática uma agenda própria.

Quais são os problemas das mulheres? Ofensiva feminista contra a espoliação de nossas vidas

A potência acumulada pelo movimento feminista em diferentes lugares do mundo durante os últimos anos não se explica por um simples apelo identitário. Há um fator irmandade-sororidade, evidentemente, mas a explosão responde sobretudo à escalada das violências ante as que nos vemos expostas as mulheres, cada vez mais e mais explícitas, num contexto de crise da reprodução social (que dificulta até o extremo a sustentação da vida) e de estilhaçamento dos velhos consensos sociais. Ante a insuportabilidade da violência, as mulheres respondemos. Desde a ira feminista contra os feminicídios no México ou a greve feminista geral contra Piñera deste 8 de março no Chile, passando pela Itália ou pelo encontro feminista antirracista no qual participaram 300 mulheres há alguns dias em Madrid, o feminismo propõe respostas a estas violências. A identificação coletiva vem depois, quando nos reconhecemos como capazes de propor soluções a nossos problemas. Mas, quais são os nossos problemas?

Ao longo da história do feminismo, houve sempre correntes que pretendiam diferenciar entre problemas “setoriais” ou particulares (que afetariam unicamente a algumas mulheres, distintas em todo caso das quais ocupam o centro da visibilidade pública) e ‘os verdadeiros problemas das mulheres’, que nos afetariam a todas por igual e constituirão o objeto do trabalho feminista. Isto é certo somente em parte. Por um lado, é verdade que as expressões mais óbvias de misoginia, assim como as diferentes formas de violência sexual ou a ausência generalizada de referências e representações femininas positivas, são aspectos que nos tocam a todas. Mas não o fazem do mesmo modo, e aí precisamente está a armadilha.

Uma violação (as pioneiras do feminismo negro o sabiam muito bem) não significa nem leva o mesmo de um homem racializado a uma mulher branca (repúdio do conjunto da comunidade, perseguição racista, etc.) que ao inverso; de fato, as violações cometidas por homens brancos a mulheres racializadas estiveram décadas legitimadas socialmente e inclusive exculpadas por lei. Uma mulher pode sofrer maltrato por sua vez de seu parceiro indistintamente de sua posição social, porém será mais fácil escapara da relação se tem autonomia econômica, nível cultural alto (e portanto, maior conhecimento da administração e da linguagem burocrática) e possibilidade de acesso a uma moradia.

Se algo pôs de manifesto a nova irrupção do movimento feminista é que não existe nada parecido a uma esfera de problemas de gênero isolada do desenvolvimento geral da sociedade capitalista. Se queremos construir realmente a possibilidade de vidas melhores para todas nós, é preciso por em primeiro plano esses problemas ‘setoriais’ que alguns feminismos consideraram periféricos ou tangenciais. O medo de “incluir temas que não nos afetem todas” somente pode vir de quem não tem com que se preocupar com intersecção alguma. Muito ao contrário, o que deveria nos assustar é a possibilidade de converter o movimento feminista é uma casca vazia depois de haver excluído todas as mulheres reais por não querer tratar seus respectivos problemas. Porque resulta que, frente ao mito da universalidade imposta, a soma de todas as parcialidades somamos maioria.

“Ampliar o movimento” tem que significar compreender que para melhorar a vida das mulheres é preciso falar de despejos, de aposentadorias e de demissões. Que no século XXI não se possa ser feminista sem estar contra as fronteiras, o trabalho escravo nas cárceres e das torturas nos Centros de Internamento de Estrangeiros (CIEs). Para que a interseccionalidade não seja uma palavra vazia, o feminismo tem que compreender as imbricações das soluções a nossos problemas: os problemas das mulheres (agora sim, os problemas de todas). Não se trata de uma simples adição nem de uma soma de fatores isolados: urge compreender que não é possível acabar com a opressão de gênero sem abordar também tudo isso. Ao menos, não é assim se pensamos em processos de emancipação coletiva e não em salva-vidas individuais às custas da exploração de outras. Ou, como escrevia uma amiga há alguns dias na esteira do debate sobre a participação das mulheres trans no movimento: é o feminismo um meio para permitir que algumas alcancem a igualdade formal, ou é a luta coletiva de todas para a emancipação de todas?
A cadeia feminista que reuniu mais de 7000 mulheres em Madrid incluía demandas seções como “precariedade laboral” ou “pensões dignas”. Em 15 de fevereiro último, a Assembleia 8M Zaragoza organizou jornadas de debate onde um dos temas era “resposta feminista à extrema-direita” e em outra das mesas falava uma porta-voz de Fridays For Future. Nesta semana, o Eixo Estudantil 8M celebrou na universidade uma jornada “ao redor do bem viver” com apresentações de companheiras da Plataforma de Afetados pelas Hipotecas e do Sindicato de Inquilinas. Cada vez mais, o movimento feminista é consciente de que todos esses problemas pretensamente alheios ao gênero se encontram na própria base da situação da miséria e desespero que vivem centenas de mulheres.

Neste sentido, os gestos amáveis e a legislação em matéria de gênero devem ser bem-vindos, mas sempre sendo conscientes de que as boas intenções não compensam os déficits políticos. Não contribui para o empoderamento das mulheres quem permite que sigam vigentes as duas reformas laborais que facilitam as demissões e favorecem os contratos temporais, dos quais dois de cada três estão assinados por mulheres. Como tampouco se luta contra o tratamento (por mais que repitam isso) sem derrubar uma Lei de Estrangeiros que obriga muitas mulheres a se situar nas margens do mercado laboral, as assedia e criminaliza, as converte em dependentes das pessoas que as ajudam a entrar no país. Construir um feminismo para 99% da população passa por lançar uma ofensiva feminista contra a espoliação de nossas vidas, para dotar-nos de uma agenda própria que ponha no centro a defesa da vida, a justiça reprodutiva e os direitos laborais de todas.

O engano da ação/reação e o estabelecimento de prioridades

Em dezembro de 2018, VOX entrou no parlamento andaluz com inéditos 11,98%. Animadas por um chamado intitulado “Nossos direitos não se negociam, nem uma passagem atrás em igualdade”, feministas de todo o Estado nos concentramos em dezenas de cidades em repúdio ao que podia supor a obtenção oficial de uma cota de poder por parte da extrema-direita. Um ano e alguns meses mais tarde, a situação deixou de ter nada de extraordinário. Um ano e alguns meses mais tarde, a situação deixou de ter nada de extraordinário. Depois de quatro anos de parênteses excepcional, a normalidade voltou a seu curso e as diferentes direitas governam um número de grandes ajuntamentos, e em muitos deles (como é o caso de Zaragoza) com o apoio ou a participação direta de VOX.

O movimento feminista, que durante uma etapa pôde se centrar na autoconstrução e no estabelecimento de algumas bases comuns, se encontra agora a uma sobrevalorização constantes: cortes orçamentários, cancelamento de projetos destinados a meninas e jovens, eliminação de campanhas contra o assédio sexual em festas, e todo uma verborreia machista que se mescla com ataques racistas, piadas ante o sofrimento e um importante desprezo de classe. As provocações se multiplicam e cair na armadilha, gastar tempo e energias em responder a cada uma delas, parece às vezes inevitável. Qual é se não a alternativa? Ficar caladas, seguir ao nosso como se não nos afetasse, deixar que sejam eles quem ocupem as manchetes porque não havia ninguém ali lhes respondendo? E assim, em poucos meses, caímos na armadilha.

No Estado Espanhol, a reativação do movimento feminista pode ser datado no ano 2014 com a demissão do ministro Gallardón e as manifestações (àquela época, massivas) de 28 de setembro: celebrávamos a vitória frente à contrarreforma da lei do aborto. Desde então e até agora, o movimento feminista não deixou de dar resposta a todos os ataques, todas as provocações e todas as ameaças procedentes das instituições. Porém fez isso jogando em seu próprio terreno: com grandes manifestações (como a do 7 de novembro de 2015 em Madri), com ações de apoio mútuo (como as campanhas por Juana Rivas e o “nós sim que somos manada”) e, finalmente, com a Greve Feminista.

A força e a potência do movimento radica aí: em que não pretende ser um lobby de salão nem reivindica a entrar no teatro das aparições institucionais. Se pontualmente é necessário entrar nos salões ou recitar repúdios formais, assim será feito, como tão bem fizeram algumas companheiras em 2014. Mas não podemos cair na armadilha de pensar que esse é o caminho para mudar as coisas, por mais que as amigas que possamos ter no ajuntamentos ou outras instituições necessitem reforçar-se instando-nos a fezê-lo, porque nos esgota e nos distrair do importante. Em três anos, a Greve Feminista fez mais por inclinar a nosso favor a opinião pública e a correlação de forças sociais que mil audiências parlamentares. Nós tiramos Gallardón a partir da rua.
Em 8 de março deste ano será uma demonstração de força. Toca, depois, abrir um processo de debate coletivo nas assembleias enfocado a densificar o programa do movimento, ampliar as bases do feminismo (essa soma de parcialidades) e armar-nos teórica e estrategicamente. Um processo que já se iniciou timidamente em Aragão há algumas semanas com a celebração da jornada “Juntas e fortes, com ganas até 8M” em Zaragoza e o encontro provincial de Teruel em Monreal del Campo, mas cujo desenvolvimento deverá ser longo e pausado caso queiramos fazer isso bem e ter a segurança de não estar nos deixando ninguém de fora.

Ter uma agenda própria significa ser capazes de contrapor propostas feministas para vidas melhores aos ataques e as provocações das direita, manter a independência do movimento ante os abraços de urso, e estabelecer por nós mesmas quais são as nossas prioridades. Ou em outras palavras: autonomia e controle dos tempos. Dizem as feministas chilenas no sumário de seu II Encontro Plurinacional Das que Lutam que “o feminismo não é uma agenda específica, mas uma perspectiva transversal de onde fazer de nossas vidas um problema política”. Nisso estamos.

Reprodução da tradução realizada pelo Portal da Esquerda em Movimento.

Parlamentares do Movimento Esquerda Socialista (PSOL)

Capa da última edição da Revista Movimento
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