As superpotências impotentes
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As superpotências impotentes

O policial do mundo nada pôde fazer além de tentar esconder a realidade.

Kennedi de Oliveira 8 abr 2020, 20:37

A crise do novo coronavírus chacoalhou o mundo. Do Oriente ao Ocidente, no hemisfério norte e no hemisfério sul, um esforço homérico tem sido feito pela sociedade para combater a nova doença. Tamanho é esse esforço que já tem causado cenas e momentos que entrarão para a história, como o lockdown de mais de um terço do mundo com mais de dois bilhões de pessoas confinadas em casa seja em regime de auto-isolamento ou de quarentena oficial. E é justamente nesse momento que tudo que a indústria cultural e Hollywood nos contaram durante décadas vai por água abaixo. O policial do mundo, a superpoderosa nação que em tese deveria guiar o mundo em seus momentos de dificuldade, nada pôde fazer além de tentar esconder a realidade: Os EUA estão impotente.

Durante todo o período recente, pós queda da União Soviética e subsequente consolidação do neoliberalismo no mundo, duas verdades nos foram impostas sobre a geopolítica mundial: primeiro, o líder do mundo é os EUA. Segundo: as comunidades econômicas (como a UE) são as que efetivamente tem condições de avançar com a cooperação internacional (emprestar dinheiro para um país afogado em sua dívida pública ao custo de impor uma agenda draconiana de austeridade como a UE fez com Portugal, Grécia e Itália é cooperação segundo o establishment, mas Cuba enviar médicos para países terceiromundistas não).

A crise da Covid-19 mostra que essas duas premissas estão erradas.

Primeiro: os EUA, tinham toda a capacidade de se preparar não só para enfrentar de forma muito melhor a pandemia, mas também de cumprir o seu “papel” de líder mundial. Desde a muito a comunidade científica se debruça sobre a possibilidade de uma pandemia como a atual surgir. Seja no pós-epidemia da SARS em 2003, seja por relatórios próprios dos EUA que agora pipocam na internet mostrando que setores do governo norte-americano pensavam sim em contingência para eventuais crises como a atual. O Que parou esses setores governamentais e travou o preparo de uma resposta hábil e ágil para a crise?

A resposta é: o Neoliberalismo.

Primeiro, simplesmente não cabe na conta neoliberal que o Estado use do seu poder de coerção para conseguir preços baixos na produção local de respiradores. Ou que fizesse a conversão de setores da produção industrial para esse fim. Também não havia lucratividade para avançar nos estudos para uma vacina contra a SARS (que dada a semelhança genética entre o Vírus causador da epidemia de 2003 com o causador da pandemia de 2020 certamente seria meio caminho andado para uma vacina contra o novo coronavirus). Que indústria farmacêutica iria apostar em fazer vacina para uma epidemia que “já passou”?

E se da iniciativa privada nada viria, seria uma ingenuidade ainda maior imaginar que essa doutrina politico-econômica permitisse que o Estado desenvolvesse a vacina sem patentes para poder ser produzida e usada pelo mundo todo. Existe uma tirania privada mais potente que a própria democracia.

Por fim, com a crise já instalada em casa, o que os grandes líderes estadounidenses fazem?

Um esforço de guerra a altura? Reconvertem parques industriais para produzir o que o mundo precisa? Presta auxílio para os países que estão em sua zona de influência? Não, os EUA roubam as máscaras e outros EPIs que viriam para o Brasil e para a Europa, além de respiradores e outros itens de extrema necessidade. De policial do mundo passa para Robin Hood as avessas, rouba de países como o Brasil que a duras penas mantém seu sistema de saúde pública para acudir o rico e irresponsável setor de saúde privada americano.

A outra premissa que a crise desmonta é de mais simples comprovação: Qual papel a União Europeia tem tido em toda essa crise? Basicamente nenhum. Os aliados europeus estão literalmente disputando insumos entre si, apreendendo máscaras e equipamentos uns dos outros, preocupados com quanto os países do sul e do leste europeu vão pedir emprestados para a rica Europa Central. A Alemanha se senta sobre as montanhas de reservas que acumularam em anos de exploração econômica dos países da periferia europeia e se gaba da baixa taxa de mortalidade. Esquece que essa taxa baixa foi a custa das aterradoras taxas da Espanha e da Itália.

Nesse cenário, de potências impotentes, um velho (Nem tão velho assim) debate volta a tona: a potência em ascensão (China) irá se sobrepor a potência estabelecida (EUA)?

Se a resposta dependesse unicamente da gestão da crise do novo coronavirus certamente seria sim. Para além de todas as críticas quanto a gestão chinesa da crise no início, a ditadura de Xi Jipin conseguiu lidar bem com a pandemia. Porém, nada leva a crer nisso. É óbvio que os EUA e os países ricos da Europa Central já não mandam em nada, já não lideram mais nada. Os próprios EUA vão precisar muito da ajuda humanitária que a China vai distribuir, já que estão atingindo hoje a terrível marca de quase dois mil mortes por dia da Covid-19. Mas é importante destacar duas coisas:

Primeiro, e tendo como base as preocupações que os revolucionários tem em relação ao vácuo no poder global: Trocar um imperialismo ocidental por um oriental é simplesmente trocar seis por meia dúzia. Que busquemos nós apontar saídas para a classe trabalhadora mundial, que não pode mais ficar refém dos interesses geopolíticos dessa ou daquela potência. E digo isso com uma urgência que nasce do segundo ponto a ser destacado:

Os chacais da guerra não dormem. Enquanto os rosnados entre Washington e a aliança Moscou/Pequim diminui de intensidade por conta da calamidade que vivemos, os ministros da guerra não param um minuto. São novas armas entrando em produção, novos soldados entrando em treinamento. Os orçamentos militares tem crescido em ritmo estratosféricos nos últimos tempos, especialmente os chineses, russos e, claro, americanos.

A chance de um conflito armado de grandes proporções, que pode escalar para uma autêntica guerra mundial, não saiu da ordem do dia. As escaramuças entre os EUA e a China são amostras do que pode nos aguardar quando conseguirmos sair da crise sanitária atual. Nas palavras de Noam Chomsky em recente entrevista para o filósofo Srecko Horvat:

“O coronavírus é algo sério o suficiente, mas vale lembrar que há algo muito mais terrível se aproximando, estamos correndo para o desastre, algo muito pior que qualquer coisa que já aconteceu na história da humanidade e Trump e seus lacaios estão à frente disso, na corrida para o abismo. De fato, há duas ameaças imensas que estamos encarando. Uma é a crescente ameaça de guerra nuclear, exacerbada pela tensão dos regimes militares e claro pelo aquecimento global”


Parlamentares do Movimento Esquerda Socialista (PSOL)

Capa da última edição da Revista Movimento
Publicamos a décima sétima edição da Revista Movimento ainda sob o impacto da pandemia da Covid-19. Em todo o mundo, as contradições acumulam-se. Este volume está dedicado à análise de várias dimensões desta verdadeira crise global e de seus desdobramentos. Com destaque, tratamos da mobilização antirracista nos Estados Unidos e no mundo, iniciada após o assassinato de George Floyd, e da situação brasileira, discutindo a crise do governo Bolsonaro e as recentes manifestações dos trabalhadores por aplicativos.