Luis Pujals, querido hermano, presente!

Luis Pujals, querido hermano, presente!

A vida de um militante argentino morto pela ditadura.

Pedro Fuentes 16 abr 2020, 17:05

Ditadura nunca mais!

  Dentro de poucos dias, a Argentina terá um novo 24 de março. Neste ano, em virtude do coronavírus, não será feita a mobilização que reúne dezenas de milhares de manifestantes. Mas de qualquer forma o povo vai lembrar que há 44 anos começava a mais sangrenta ditadura que o país já conheceu.

  A derrubada dos militares argentinos foi resultado de uma grande mobilização espontânea, uma revolução democrática que abriu as portas para um novo regime político. Graças a elas e outras organizações de direitos humanos, o povo foi tomando consciência das atrocidades cometidas. A queda da ditadura foi um impulso muito grande para suas reivindicações.

  Os governos seguintes à ditadura trataram de manobrar e desviar a exigência de justiça e reparação histórica. Mas não puderam. A mobilização democrática foi crescendo e muitos militares terminaram na cárcere; nela morreu o carniceiro general Videla. Nas massivas mobilizações de todos os dias 24 de março, o povo não deixa apagar a chama do significado dessa ditadura para os trabalhadores e o país. Desta maneira, vem conseguindo bloquear todo caminho de volta a um passado militar.

  É um exemplo importante para nós que no Brasil enfrentamos Bolsonaro, um ex-capitão do Exército que governa com muitos militares em seus gabinetes, que homenageia torturadores e milicianos, fala a favor da ditadura e ameaça com a dissolução do parlamento. É preciso fechar este caminho como foi feito na Argentina. Marx escreveu n’ “O 18 Brumário de Luís Bonaparte” que a história não se repete, a não ser como farsa. Foi um bom exemplo para esse momento, mas agora temos que saber que uma nova ditadura na Argentina como no Brasil não será uma farsa. Seria ainda mais sangrenta.

  Como parte dessa luta permanente, a Faculdade de Filosofia de Rosário (Argentina) iria fazer uma homenagem aos militantes desaparecidos que passaram por ela, entre os quais estava meu irmão. Eu já tinha a passagem comprada, porém a pandemia do coronavírus fez com que o evento fosse postergado. Entretanto, o gesto do Reitor e dos militantes de direitos humanos da Faculdade ficou vivo. E é por esse gesto (e por estar chegando um novo 24 de março) que estou escrevendo este capítulo da minha militância junto a meu irmão Luis Pujals.

  Luis foi um dos primeiros desaparecidos, o caso mais notável durante a ditadura argentina nascida no golpe de 1965. Neste texto quero contar como foi a sua vida e a nossa vida em comum. Meu irmão morreu durante uma sessão de tortura em que arrebentaram seu fígado. Seu corpo foi ocultado para sempre pelo regime assassino, atirando-o ao mar. Entretanto, não é somente este fato que me leva a dedicar um tempo de minha militância para escrever sobre Luis. Este desejo já existente aumentou muito quando Eric Toussaint, dirigente da IV Internacional, e Roberto Robaina, dirigente do MES e do PSOL, me mostraram a importância de escrever este artigo.

  Muitos outros militantes, para os quais conto velhas histórias, também insistem para que eu escreva. Entendo esse desejo e essa necessidade para que os mais novos conheçam as lutas que vimos fazendo há muitos anos os mais velhos. É muito justo, e por isso deixo parte da militância e de escrever sobre a crise mundial e as tarefas dos internacionalistas para me dedicar a contar esta história. 

  A história e a tradição que a militância vai construindo são partes da vida de uma organização militante. Cada um de nós carrega sua história e suas vivências militantes, e estas vão formando uma raiz que se torna cada vez mais firme para sustentar nosso projeto, que, como as árvores, necessitam de fortes raízes para se sustentar e se desenvolver.  

  Por estas razões, tomei esta como uma tarefa importante e, por isso mesmo, faço neste primeiro texto o compromisso de escrever seis capítulos sobre a vida militante, os quais não serão uma autobiografia, mas histórias da luta de classes e a vida nelas. Decidi chamá-los “Histórias de seis entusiasmos”.  Este título é um plágio do primeiro livro da escritora colombiana Laura Restrepo (História de um entusiasmo), militante com a qual compartilhei militância durante muitos anos na Colômbia e na Argentina. Creio que ela não vai ficar aborrecida com isso porque, como um discípulo literário, estes escritos têm traços similares com o seu famoso livro, no qual ela relata o período em que integrou a Comissão de Paz entre o governo colombiano de Belisário Betancourt e a guerrilha do M19 e a afinidade que foi ganhando junto a seus combatentes. 

  O primeiro capítulo desta série é a militância que fiz com Luis até seu desaparecimento. Eu continuei pensando sempre na necessidade de fazer justiça, o que nos exige mudar este sistema no qual vivemos. Esta “primeira história de um entusiasmo” se refere, portanto, ao início de minha militância junto com Luis Pujals no Movimento de Ação Reformista (MAR), ao nosso período no Palabra Obrera e aos primeiros anos do Partido Revolucionário dos Trabalhadores (PRT). O “segundo entusiasmo” seria minha militância no PRT – La Verdad e o Partido Socialista dos Trabalhadores (PST). O terceiro capítulo tratará da militância sob a ditadura de Videla e as primeiras tarefas internacionalistas nas quais participei. A quarte parte será o entusiasmo com o Movimento al Socialismo (MAS) que foi o maior partido trotskista do mundo – à esta alutra pretendo contar sua construção e a tragédia de sua ruptura. A quinta seção abordará a nova etapa que fiz na atividade internacionalista quando se produziu a ruptura do MAS, em que procuramos em outras experiências internacionais explicações para a crise. E, finalmente, a última será o entusiasmo do Movimento Esquerda Socialista (MES), organização na qual milito há 20 anos.

  Estes seis entusiasmos não negam os momentos de amargura, desgosto e crises provocados por erros que cometemos e por derrotas em nossos objetivos. Destas ocasiões é necessário extrair lições até que novos fatos aconteçam. Com isso, vamos alimentando o entusiasmo individual e coletivo tão necessários para as novas lutas com as quais nos comprometemos.

História de um primeiro entusiasmo: a vida com Luis no MAR, Palabra Obrera e o PRT

  Durante 14 anos eu fui um discípulo do meu irmão, me iniciei na militância graças a ele e militamos juntos até nos separarmos politicamente pelas opções militantes que cada um tomou. Meu irmão escolheu o caminho de fazer da luta de classes uma luta armada, construindo um exército para tomar o poder. Dentro desta opção, ele foi um grande dirigente, muito importante na construção do “PRT – Combatente” e do Exército Revolucionário do Povo (ERP). Já eu optei por seguir no PRT-La Verdad, militando num partido que aspirava à luta pelo poder ligado às lutas do movimento operário. Não foi por covardia pessoal que não fui pegar em armas. Sentia uma amargura grande por não seguir militando ao lado do meu irmão. Tanto ele como eu seguimos sendo militantes socialistas revolucionários. No desenvolvimento desta história, contarei o que aconteceu. Foi uma dolorosa separação, porque em todos esses anos eu sempre reconheci que foi graças a ele que escolhi o caminho do socialismo.

Infância e adolescência na família

  Iniciamos como militantes muito jovens: ele com 15 anos e eu com 14 anos, ainda quando éramos estudantes secundaristas. Creio que a nossa entrada na luta e no marxismo foi facilitada por uma série de condições que foram se dando já na infância, na vida familiar e na posterior adolescência. De início, falarei um pouco de nossa infância e de nossa família. 

  Minha mãe, Emma Gini, era doutora em Ciências Naturais, depois de ter se graduado com o Diploma de Honra da faculdade. Tinha um pensamento científico e investigativo profundo. Antes de se dedicar a cuidar dos filhos, trabalhou com um dos principais geneticistas da Argentina e localizou o cromossomo onde se aloja o gene que provoca a esterilidade do aparato reprodutor no milho. Esta descoberta foi importante, já que o milho é uma planta hermafrodita (tem os dois sexos na mesma planta) e essa esterilidade – que às vezes é natural – ajuda muito o melhoramento da espécie, pois em vez de autofecundação se abre a possibilidade do cruzamento com outras variedades de milho. Esse cruzamento ajuda a gerar uma variedade de planta mais forte que contém as características de ambas. Isso se chama, em genética, vigor híbrido. Me detive nesta questão do vigor porque também vale para a raça humana. Quanto mais cruzamento entre variedades, quantas mais mesclas haja entre brancos, negros, pardos, índios, etc., a espécie se torna mais vigorosa. Este é também um argumento científico contra os racistas que pensam na raça superior. 

  Meu pai Enrique era um engenheiro agrônomo que estava devotado ao trabalho mais técnico do desenvolvimento das espécies na agricultura. Ele era fitotecnista, ou seja, ele se dedicava ao melhoramento de espécies cultivadas, especialmente milho. Assim, em meu lar a ciência sempre estave presente por estas profissões compatíveis de nossos pais. Nesta sociedade patriarcal, meu pai continuou exercendo-a pelo restante de sua vida, enquanto a profissão de minha mãe foi interrompida para que ela pudesse criar seus filhos. Somente bastante tempo depois retornaria ao trabalho; não mais à pesquisa, senão a dar aulas em colégios secundaristas e escola técnica sobre Botânica. Quando todos nós nos encontrávamos nos jantares, os temas que dominavam a mesa era qual tipo de célula tinha esta ou aquela planta, se tal variedade era desta ou de outra espécie, qual a capacidade de nutrientes que tinha, etc.

  Pela profissão de meus pais, tivemos a sorte de viver nossa infância na estação agrária de pesquisa mais importante do Ministério Nacional de Agricultura, próxima à cidade de Pergamino. Um campo de 360 hectares onde convivíamos em diferentes casas com outras famílias de agrônomos, técnicos, capatazes, mecânicos, ferreiros. Convivíamos diariamente com cerca de dez a quinze meninas e meninos de nossa idade, filhos de agrônomos, técnicos e mecânicos. 

  A vida infantil no campo é muito livre e criativa; nesses 360 hectares havia muitas possibilidades de escolher onde o grupo de oito ou dez garotos da barra brava íamos brincar e fazer travessuras. A tendência a fazer travessuras era enorme! Uma que me recordo muito foi a construção de uma casinha de madeira numa grande árvore ao lado de uma grande tanque australiano, onde nos banhávamos como se fosse uma piscina. Com a ajuda de um carpinteiro, logramos construir nossa morada independente a cinco ou seis metros de altura. Chegava-se pela escada e mais na ponta da copa havia um posto de vigia. Esta casa era um lugar de liberdade, independência e conspiração infantil que podia alojar quatro ou cinco por vez. A maior travessura era fumar aí dentro cigarros que nos passavam alguns trabalhadores. A ala mais autoritária vigilante e reacionária de um dos pais nos descobriu porque saía muita fumaça e, com isso, veio a repressão. Uma alternativa à casa da árvore foi cavar uma cova. Trabalhamos alguns dias tratando de fazer túneis e passagens. Mas não éramos a FNL do Vietnã para encarar uma obra tão complexa na qual pensávamos levar em penitência uma das meninas da família que havia nos delatado.

  Em todas estas aventuras, meu irmão era o mais racional, mas muitas vezes o mais arriscado e terminava sendo o mais vulnerável. Não creio em nenhum destino pré-definido, mas meu irmão parecia o mais vulnerável, por seu caráter e porque nunca mentia, a levar as piores consequências das travessuras. Um dia estávamos jogando nós dois sozinhos acima de um moinho. Ele subiu pela escada uns quatro metros e decidiu a partir dali se jogar num monte de grama. Aí estava uma vara de ferro que se meteu por seu músculo. Foi muito sofrimento e esforço para tirá-lo daí. Tivemos que caminhar sangrando cerca de duzentos metros até que chegamos à quadra de tênis em que meu pai estava jogando para trasladá-lo urgente à cidade que estava a 11km por um caminho de terra. 

  Outra vez, o mesmo grupo de crianças havia organizado uma excursão a cavalo. Era uma concessão grande que tínhamos montar cavalos para andar pelo campo. A brincadeira que inventamos consistia que uma parte de nós ia numa “volanta” (carro tipo diligência modesta) impulsionada por dois cavalos. Íamos dirigindo o carro por um caminho de terra que unia a estação experimental com a cidade de Salto. Outro grupo, como nos filmes, tinha que chegar até nossa diligência, sujeitar os cavalos e assaltá-la. Meu irmão era um dos assaltantes com o lenço de bandido tapando parte da cara como nos filmes de faroeste. Luis foi o primeiro que quis saltar e como a diligência seguia andando em sua tentativa caiu no solo debaixo da volanta e as quatro rodas passaram por cima de suas pernas. Felizmente, dessa pudemos sair até que bem sem maiores lesões. Outra vez, num domingo quisemos montar os cavalos. O galpão das montagens estava fechado, Luis se propôs a pular o portão e, uma vez dentro, iria nos passar as montagens. A má sorte é que caiu na tentativa pular para o lado de dentro. Eu acreditava que havia quebrado o braço. Nós não sabíamos como socorrê-lo, não nos atrevíamos a saltar para dentro. Chamar a vigilância para que abrisse o lugar era nos entregar; não fazer nada era deixar a meu irmão dentro. Ao final, primou a sensatez e com ela os castigos consequentes. 

  Quando ele escolheu o caminho da luta armada, essa sensação de vulnerabilidade me fazia temer muito por seu destino. Cada ano que se passava eu ficava mais aliviado, mas eu sabia intuitivamente que não seria por muito tempo. E infelizmente foi assim.  

  Íamos aos colégios de Pergamino numa pick up com lona e assentos na parte de trás. Iam nos deixando um a um nas diferentes escolas. O caminho da terra se transformava numa nuvem de pó quando não chovia e nos deixava cheios de lama quando chovia; era uma certa odisseia entretida. Havia muitas outras coisas que permitiram a nossa criação num ambiente coletivo, sadio e em contato com a natureza. 

  Alguns anos depois meu pai saiu do ministério da Agricultura e nos trasladamos a uma casa em Pergamino. Uma casa modesta, mas que tinha um grande terreno. No fundo, havia duas peças de depósito e uma grande garagem para dois carros. Aí fomos terminando o período de transição entre infância e adolescência.

  O conjunto de nossa família era muito politizada, como em geral costumam ser as famílias argentinas da classe média. Meus avós paternos Agustin e Ana Maria viviam em Rosário. Toda a nossa família foi muito politizada. Minha avó era francesa, sua família tinha vindo quando o presidente Sarmiento estava implementando a educação laica nas escolas. Junto com uma professora Juana Blanco, ela fundou uma escola para crianças desprivilegiadas. Uma anedota colorida conta o compromisso dela com o seu trabalho. Um dia, o meu avô Agustin ligou para Juana Blanco para dizer que havia quatro crianças desprivilegiadas em sua casa. Se tratava de seus quatro filhos.

  Em alguns de seus escritos minha avó flertava com a revolução russa. Os outros avós maternos, Agustín e Santina eram imigrantes italianos. Se conheciam da Itália e aqui terminaram casando jovenzinhos. Minha avó havia trabalhado em fábrica aos sete anos e nos ensinava a fazer umas tranças de lana como ela fazia na fábrica. Meu avô era trabalhador da construção e anarquista como todos os imigrantes de origem italiano. Minha avó nos contava dos episódios da “Semana Trágica” da Argentina em 1918, quando depois do assassinato de alguns operários em greve das oficinas Vasena explorou a insurreição em Buenos Aires. A mobilização operária derrotou e ocupou todas as delegacias. Santina  nos contava como seu marido saía bem cedo com alguns grupos para fazer um piquete que levantava as vias do trem e fazia barricadas. Meu avó paterno era dono com dois sócios de um grande armazém de ramos gerais em Rosário. Numa casa grande de dois pátios e duas plantas viviam uma de minhas tias com seu marido e seu filho José Luis. Passávamos as férias de verão em Rosário e aí tínhamos também um pequeno grupo com meu primo Jose Luis. Íamos ao country club que era o lugar mais oligárquico, mas não dávamos bola para o ambiente, somente para a piscina de água salgada.

  Meus pais, como bons cientistas que eram, não professavam nenhuma fé. Os dois eram ateus e nunca qualquer rito ou costume religioso entrou em nossa casa. Não estávamos nem batizados, nem fizemos a primeira comunhão. Nos diziam que eram opções que deveríamos tomar quando fôssemos maiores, e obviamente nenhum dos dois pensou nisso. 

  Este ambiente laico e ateu era muito bom para ter um pensamento livre. Eu fui obrigado e defender o ateísmo aos 10 anos. Haviam me separado da escola nacional onde estava meu irmão. Para que pudéssemos estar na mesma escola meus país falsificaram minha certidão de nascimento a fim de que eu entrasse com um ano a menos do exigido na etapa primária. Com poucos dias de aula, uma reitora “gorda” entrou na sala e, apontando para mim disse à professora que eu tinha que sair. Foi um golpe duro para o plano de seguir estudando com meu irmão. Fui parar numa escola provincial, onde o governo para fazer uma concessão à Igreja havia posto a educação religiosa nas aulas. Evidentemente, meu pai se opôs a que eu participasse dessa aula e assim conquistei o “direito” de estar toda a aula do lado de fora da porta fazendo um plantão. Como era o único caso, chamava muito a atenção das pessoas. As professoras e os funcionários vinham ver esse ser curioso e algumas beatas militantes tentavam me convencer a mudar de ideia. 

  Não conseguiram me atingir com o bullying e, ao contrário, isso me radicalizou, obrigando-me a ler e estudar sobre o ateísmo e a religião. Alguns autores me mostraram que tanto o hinduísmo, o cristianismo e a religião islâmica se baseava em pregadores e/ou lutadores que realmente existiram, e que sobre a base de suas lendas logo se construíram os dogmas utilizados pelas instituições religiosas para exercer seu poder opressor, como o fez diretamente a Igreja Católica durante o feudalismo, ou por outras vias.

A divisão do país: peronismo ou antiperonismo; Braden ou Perón

  Esta anedota da escola ocorreu em 1954 num momento no qual o governo de Perón, que estava em conflito aberto com a igreja, tentou conciliar fazendo-lhe essa concessão de inserir o ensino religioso. Não se pode compreender a Argentina, nem nossa formação como militantes na Argentina, sem compreender o peronismo e a divisão produzida nas classes. O peronismo foi e é um movimento que atravessou grande parte da vida política do país e de forma distorcida a luta de classes no país; e assim segue sendo. 

  Foi um movimento nacionalista que ganhou um grande apoio de massas graças à existência de fraturas na burguesia. Surgiu em momentos que a decadência do imperialismo inglês no pós-guerra abria caminho para a hegemonia ianque. Um setor da burguesia, parte dos latifundiários pecuaristas e a burguesia agrícola resistiam a ser um governo dependente e entregar o país aos americanos. Chocavam-se com os interesses econômicos do país imperialista do Norte. Defendiam suas exportações de carnes e grãos argentinos, querendo administrar a boa situação alcançada no país com a guerra. 

  O país saiu da guerra rico. Os lingotes de ouro não cabiam no tesouro e se apinhavam nos corredores do Ministério da Economia graças às exportações de carnes e cereais para a Inglaterra. Diferentemente do Brasil, a Argentina se manteve neutra na segunda guerra para que os barcos de bandeira não fossem atacados pelos navios nazistas e chegar com carne para a Inglaterra, o grande país comprador delas. 

  Para dominar a América Latina, os EUA necessitavam colocar a Argentina sob sua dependência. E a resistência a esse processo se expressou no movimento nacionalista construído ao redor de Perón, que em meio às disputas Inter burguesas, foi encarcerado.

  Uma mobilização operária de 17 de outubro tirou o General Perón da cárcere. O caminho inevitável da disputa foram as eleições nas quais se enfrentaram Perón (que nessa oportunidade concorreu sob a bandeira do Partido Laborista de Cipriano Reyes) e a Unión Democrática, pró-imperialista, que alojava a grande maioria dos partidos burgueses. Ali se somavam o Partido Socialista e o Partido Comunista, dirigido diretamente por Moscou e fiel praticante de suas ordens que visavam assegurar a política de coexistência pacífica com os EUA.

  A grande consigna que dividiu a Argentina foi “Braden ou Perón” e o povo ganhou com Perón. Vale lembrar que o sr. Braden era o embaixador dos EUA na Argentina e era quem comandava a Union Democrática. Para enfrentar o ambicioso imperialismo ianque, de forma análoga ao que Nasser fez no Egito e Lázaro Cárdenas no México, o governo de Perón fez concessões aos trabalhadores. Estes e outros governos foram chamados por Trotsky de bonapartistas sui generis. Eram bonapartistas porque se colocavam acima das classes; e eram sui generis porque a forma de sustentar-se no poder ocorria fazendo concessões ao movimento operário para ter uma base social de chantagem e poder de mobilização. 

  Perón fez importantes concessões ao movimento operário e em especial à sua organização sindical. A guerra fez com que se desenvolvessem no país importantes indústrias antes controladas pelos ingleses, além de uma grande indústria frigorífica. A classe operária argentina era potente. Uma grande parte estava formada pela imigração do início do século. Outra parte, que cresceu no processo de industrialização com base no aumento de mão de obra (e não novas técnicas ou modos de produção), se deu com a imigração interna, a qual majoritariamente se somava ao proletariado industrial têxtil, alimentício e de confecções. Buenos Aires e arredores se encheram do que Perón denominava “cabecitas negras” do norte onde a descendência era predominantemente de origem indígena. 

  Nos grandes sindicatos de indústria, a legislação laboral peronista permitiu a formação do que seriam os comitês de fábricas e os corpos de delegados. Com 30 operários, a seção deveria ter um delegado que formaria o corpo de delegados que se reuniria mensalmente. Por sua vez, o corpo de delegados elegia uma comissão interna que era de fato um comitê de empresa, com local dentro da fábrica e que fazia uma reunião semanal com a patronal para discutir os problemas e reivindicações operárias. Vou voltar a falar muito deste tema, já que Luis era um especialista no trabalho de fábrica e eu me proletarizei numa delas, tendo por muitos anos me dedicado a militar na classe operária com estes riquíssimos organismos de base. Antes disso, porém, tratarei de nosso início de militância no movimento estudantil secundarista.

  O golpe gorila de 1955 dividiu o país. A grande resistência da classe operária peronista se manteve por muitos anos. Sua derrota maior ocorre quando é reprimida e termina a ocupação do frigorífico Lisando de la Torre em 1959. Foi um golpe duro, mas não uma derrota absoluta. Os trabalhadores seguiram travando muitas batalhas nos anos posteriores. Palabra Obrera, que era nossa organização jogou um papel fundamental em todo este período. Meu irmão e eu conhecemos a história desde 55 a 62/63 de forma detalhada pelos cursos, uma vez que nosso ingresso tenha ocorrido em 1960.

Nosso debut: o “Movimiento de Acción Reformista”.

  Nossa grande família composta por avós, os três irmãos e irmãs de meu pai e seu filhos eram, como toda a classe média politizada, antiperonistas. Minha mãe era a filha única de pai anarquista. Como ele morreu antes do “golpe gorila”,  não ficamos sabendo de suas possíveis reações e como elas poderiam ter nos influenciado. Sendo classe média liberal por parte de pai, -como já falei-, não tínhamos nenhuma religião, ninguém ia à missa ou a ritos desse tipo. O antiperonismo era forte na classe média e, evidentemente, nos profissionais de minha família, mas muito mais fanático nas franjas oligárquicas e na alta classe média muito apegada à Igreja.

  O “golpe gorila” não esmagou a classe operária e provocou muito inquietação nos setores de classe média e na juventude. O fim do bonapartismo de traços totalitários teve essa consequência de que, enquanto os operários e suas organizações eram reprimidas, a classe média tivesse mais liberdade para opinar e fazer política. Por influência da minha tia Carmen e de seu filho Jose Luis, nós havíamos tomado bastante contato com esse setor liberal mais à esquerda, afim do socialismo e obviamente ateu. Seguíamos em família as declarações dos partidos políticos e as posições dos diferentes partidos, os quais haviam formado uma junta consultiva, que evidentemente incluía os socialistas e o partido comunista. Os excluídos eram os peronistas.

  Nesse ambiente começamos a nos politizar. E incorporamos duas fontes novas que nos foram distanciando das ideias mais democrático-liberais. Meu irmão frequentava religiosamente ao cabeleireiro Felipe Ripa, um socialista ortodoxo, afeito ao programa socialista, que tinha formação marxista das boas épocas da II Internacional e as primeiras do socialismo na Argentina. Enquanto cortava o cabelo de meu irmão, falava e lhe emprestava algum livro. Talvez o primeiro tenha sido o “Do Socialismo Utópico ao Científico”. A outra influência vinha de uma padaria perto de casa. Ali trabalhava Coco Riera, um anarquista como tantos outros existentes nos sindicatos de panificações. Ele era muito classista e contava as histórias de sua categoria. Nos explicava por que uma sobremesa em forma de bola, ainda hoje feita nas as padarias, se chamava “bola de fraile”, assemelhando-se bastante com os “ovos” genitais dos padres. Outra sobremesa em formato mais alargada tinha o nome oficial de “vigilante”, em alusão à polícia e seu cassetete.

  Nós vivíamos num quarto independente nos fundos de minha casa. Para chegar, era necessário atravessar uns 40 metros de terreno. Nosso portão de entrada e de saída era independente, o que permitia bastante margem de manobra noturna. Quando voltávamos de uma festa bastante alcoolizados, podíamos nos desfazermos no parque, onde aproveitávamos também para realizar uma de nossas necessidades fisiológicas.

  Nesse quarto, tínhamos um escritório onde meu irmão lia e fazia resumos dos livros que ia lendo. O Anti-Düring era nosso livro preferido e nós ríamos lendo como Engels arrebentava de argumentos ao famoso professor Düring, cuja vida deve ter servido apenas para ser o saco de pancadas de Engels. Na parede do quarto tínhamos um ditado de um socialista utópico argentino que dizia: “agora ou nunca, amanhã é a mentira piedosa com que se enganam as vontades mórbidas”.

  Assim como ocorria com nós dois, nos colégios foram se formando jovens inquietos, ávidos por aprender e se introduzir na prática política. Logo, foram sendo criadas em nossa cidade as condições para que, partir de alguns estudantes do quinto ano, surgisse o Movimiento de Acción Reformista (MAR). Era uma organização estudantil independente que com o empenho de todos conseguiu um local ao lado da União Ferroviária em frente à estação de trens. O MAR tinha seu estatuto e programa. Vale dizer que o “Reformista” na sigla não tem nada a ver com que habitualmente chamamos de “reformista”. Éramos reformistas porque nos considerávamos continuadores do movimento de reforma universitária nascido em 1918 na Universidade de Córdoba e que se estendeu por toda a América Latina. Começamos a compreender que foi um movimento em consequência das repercussões da revolução russa, tendo conseguido derrubar a velha Universidade elitista, autoritária, hierárquica e clerical que dominava a Argentina. A nossa referência era o “Insurrexis”, um grupo marxista que queria uma revolução mais radical da educação e do sistema, sendo portanto, mais antissistêmicos.

  O MAR chegou a tirar um jornal que vendíamos nas casas e com o qual pretendíamos ir à porta da fábrica têxtil de nossa cidade, ainda que aí não tivéssemos muita entrada. No primeiro piquete, não tivemos nada. Com o tempo e a partir do Palabra Obrera, conseguimos abrimor trabalho.  

  No MAR, eu era um militante mais de base, meu irmão já era um quadro importante quando cursava o quarto grau e aí estavam os dirigentes do quinto ano que eram os mais avançados. Depois de intensos debates, votamos o programa com o qual nos apresentaríamos na escola. Não me recordo de todos os dez pontos. Os mais de ruptura e dos quais éramos muito entusiastas incluíam a autodisciplina estudantil, nada de zeladores e a autoavaliação das provas pelos próprios alunos. Evidentemente, na linha de frente das nossas demandas estavam o ensino laico, a defesa da educação pública gratuita e a unidade operário-estudantil.

  Os dois mais dirigentes, Zambo Lombardi e José Napolitano, tinham acesso à publicação no jornal diário do povo.. E aí começaram a escrever notas sobre marxismo, materialismo histórico e dialético e a luta de classes. Nos aproximávamos cada vez mais do marxismo e nos separávamos do anarquismo. Meu pai não nos deixava de incentivar a construção do MAR até o dia em que começou a tomar distância quando as declarações deixaram de ser tão teóricas e se tornaram de apoio às lutas operárias, ou seja, à resistência operária peronista. Um dia, numa caminhonete com autofalantes, as 62 organizações peronistas se puseram a saudar na porta do colégio o apoio que o MAR estava dando a suas lutas. Aí com meu pai a coisa foi se tornando ruim, mas não chegou a se tornar péssima. O conflito familiar começaria anos depois quando entramos de cabeça na militância do Palabra Obrera e junto aos trabalhadores.

O batismo de fogo: as mobilizações em defesa do ensino laico

  O peronismo estava proscrito, mas o regime não conseguia parar a resistência dos trabalhadores. O velho partido radical que representava a classe média era o apoio mais forte que tinha. Mas nada estava estático e fácil para a burguesia governar. Esta foi a maneira como surgiu uma nova expressão do radicalismo que parecia mais popular e moderna dentro do velho partido radical antiperonista. A direção era de Arturo Frondizi que rompia bastante com a ortodoxia de partido ligado ao campesinato médio e à classe média urbana. Falava da nacionalização do petróleo. O frondizismo começou a colar na juventude e começou a ficar mais forte nas universidades. Alguns dos jovens que haviam passado pelo MAR, quando foram estudar na Universidade de la Plata, começavam a se encantar. O movimento canalizava uma corrente de classe média que não tinha nenhuma origem gorila antiperonista e que empalmava com o sentimento anti-imperialista. 

A direção de Palabra Obrera já havia posto os olhos nesta radicalização que se dava por dentro do frondizismo e começou a seguir e trabalhar sobre esta radicalização. Como resultado, quando o frondizismo foi deixando de lado suas promessas e subiu ao poder, Palabra Obrera terminou conquistando a direção da Federación de Estudiantes de la Plata (FULP), o segundo centro de estudos depois da FUBA e aonde vinham também a estudar muitos latino-americanos. Entre eles, veio a estudar Agronomia Hugo Blanco, que depois foi líder camponês da Reforma Agrária em Cusco.

  Aqui vale fazer um primeiro aparte. Nossa corrente chamada morenista em todo o seu transcurso militante sempre tentou estudar os novos processos políticos em sua dinâmica com a hipótese que dentro deles poderia haver um processo de radicalização que avançasse para nossas posições. Isso aconteceu primeiro com a vanguarda operária peronista, depois com esse setor dos estudantes que haviam se somado ao frondizismo e vários anos depois com outra poderosa corrente que ganhamos do Partido Democrata Cristão em 1965.

  As ilusões com Frondizi (apoiado nas eleições por Perón), duraram pouco. O ponto de inflexão foi a privatização do ensino. A Igreja golpista e “gorila” reclamava que as universidades privadas, muito minoritárias, pudessem dar os diplomas de graduação sem passar por nenhum trâmite ou exame pela universidade pública como era até então e que limitava muito sua expansão. 

  O ministro da Educação Dell Oro Maine lançou este plano de “liberdade de ensino” para favorecer as instituições privadas e avançar sobre as públicas. Isso fez com que o país se dividisse e, desta vez, não foi peronismo e antiperonismo, mas ensino laico ou ensino livre privado.

  Esta era a segunda grande ofensiva da Igreja depois de ter tirado Perón. Em minha cidade, a polarização foi notável. Toda a ofensiva clerical era dirigida pelo Monsenhor Derisi, sua família e os setores de direita da cidade. Faziam campanha e atacavam meus pais, chamando-os de “comunistas”, porque não eram católicos e não iam à missa. Já conhecemos as mentiras em que vive historicamente a Igreja, mas neste caso eram muito desmedidas já que meu pai era um democrata e ademais um admirador dos EUA, onde havia estudado e feito o mestrado. De nosso lado, se localizavam as famílias de profissionais relacionados à ciência e todos aqueles que passaram pela universidade pública.

  Foi nesse processo que o MAR entrou em ação na defesa da educação laica e se pôs à frente da mobilização. Na ampla garagem de minha casa se começaram a fazer as reuniões que agrupavam os ativistas dos quatro colégios públicos: Nacional, Comercial que funcionavam no mesmo edifício, o Liceu Normal preferentemente com estudantes mulheres que terminavam se graduando como professoras e o Colégio Industrial ou Técnico.

  As reuniões eram muito participativas. Meu irmão era o principal dirigente no colégio nacional eu estava no terceiro do Comercial (meus pais haviam me mandado estudar ali pensando que como era um pouco vago não estudaria na Universidade). Às reuniões de garagem foram se somando as meninas do colégio normal que sem ser um colégio de senhoritas era majoritariamente feminino, já que era onde se graduavam as professoras. 

  O mais rico desse processo ocorreu quando se somaram os estudantes do colégio industrial, lugar em que estudavam a garotada de origem operária. A incorporação deles foi decisiva para fortalecer o processo. O “turco” Saad era o dirigente e atrás dele havia uma coluna de quadros muito forte. Era muito popular porque sendo muito jovem era o melhor goleiro de futebol que havia em Pergamino, defendendo o time das Comunicações. Tinha total hegemonia dentro da escola. No Nacional de meu irmão, havia mais luta e disputas. Era o centro político da juventude e o maior edifício da cidade. No centro, à beira da praça principal, estava o colégio privado de propriedade da Igreja, o qual se chamava Colégio del Huerto.

  Na agitação anterior à mobilizaçãom meu irmão conseguiu ter maioria no Nacional, enquanto que no Industrial o “turco” Saad dirigia hegemonicamente. Nós dizíamos que ali estava o soviete porque todos os delegados de aula estavam conosco. O comercial era mais difícil e no normal havia uma maioria pró-laica. Começaram as mobilizações e a luta política. À noite nós nos dedicávamos a sair a pintar pelo centro e pelos bairros da cidade. O “gordo” Cipolla do industrial e eu éramos os responsáveis por roubar a pintura branca dos poços de cal das obras. Uma vez eu estava com Cipolla fazendo essa operação, quando o balde nos começou a tirar para dentro do poço de cal viva. Cipolla dizia que pelo efeito físico de Magdeburg. O concreto era que o balde cheio nos levava para dentro até que vencemos e chegamos com um suculento balde com pintura super-branca. Com o pó vermelho se fazia a tinta. Num desses dias tivemos uma jornada memorável. Estávamos nos organizando para pintar a praça principal quando por uma esquina aparece um piquete “de la libre” que também havia saído para pintar. A batalha no meio da praça foi violentíssima, choviam os baldes de pintura e os pincéis, enquanto eu e o “gordo” Cipolla íamos alvejando as paredes. O turco “Saad”, que tinha uma letra de arquiteto, pintava as consignas. Discutíamos uma a uma. A que mais destacamos foi a de “abaixo o clericalismo” e “ensino laico”. Subimos o tom anticlerical com um “Fora o ensino religioso das escolas!”. Escrevíamos a consigna e nos dedicávamos a elogiá-la e comentá-la quando apareceu um carro de assalto comandado pelo inspetor Cejas da Polícia Política. Éramos cerca de dez pessoas levadas à delegacia mais próxima. A acusação contra nós era a de profanar edifícios religiosos; nós contestávamos que era uma parede de uma escola como outra qualquer. Não sabíamos se a acusação de profanação era certa, mas o que reclamávamos é que éramos menores que não podíamos passar a noite em cana. Pela manhã, nos soltaram quando os operários do Huerto já estavam limpando as paredes. 

  A mobilização e uma marcha de mil quinhentos estudantes que fizemos na cidade tinham o objetivo de preparar a ocupação das escolas. O operativo no Industrial foi um passeio. Já no Nacional, conseguimos a cumplicidade de um dos porteiros noturnos para entrar. Nessa leva, se somaram os ativistas do Comercial. O grande objetivo era ocupar também o colégio das mulheres do Normal. Tudo ali era mais difícil, porque a diretora, mais espertam havia fechada a única porta de entrada com chave sob sua custodia. Enquanto meu irmão planejava e fazia brigadas para ir visitar os povos vizinhos e estender a ocupação, me ocorreu a heroica ideia de entrar pela claraboia do teto que estava no banheiro descendo por uma corda. Depois ia abrir a porta da escola para que entrem as companheiras que deveriam se esconder nos arredores. Evidentemente, que eu queria aparecer o herói da ocupação frente às meninas, mas meu irmão e o “turco” me atacaram por aventureiro, proibindo o operativo que eu tinha montado em meu imaginário. Para me convencer falaram que eu já tinha feito o bastante como encarregado do grupo de defesa do Nacional.

  Fazer uma ocupação é um salto qualitativo na vida militante. Significa uma ruptura e revolução contra uma instituição do estado onde estudamos e onde nos eram impostas suas regras. É um momento excepcional de organização coletiva e de liberdade coletiva. Significa se apoderar de uma instituição para exercer o poder dentro dela: a organização da limpeza, da comida e da defesa. Estávamos numa militância coletiva que mudava nossas vidas. Estávamos orgulhosos e fortes. Mandamos uma delegação para Buenos Aires com nossa faixa a manifestação em que participaram 200 mil pessoas. Marchou-se do Congresso até a Plaza de Mayo. As 62 organizações sindicais peronistas se somaram à marcha e, obviamente, Palabra Obrera também. A unidade operário-estudantil, palavra de ordem principal do MAR, fazia-se concreta.

  A igreja e a burguesia contra-atacaram com uma mobilização menor. Entretanto, os meses de luta levaram o governo a ceder em alguns pontos, ainda que não nos essenciais. Nós mantivemos a ocupação em nossa cidade por quase um mês. Num desses dias chegou um estudante de arquitetura de la Plata que já era de Palabra Obrera. De maior nível que nós, começou a nos convencer que o importante agora passava a ser a organização das federações de estudantes e que deveríamos pensar em ser parte de uma organização política. Na garagem de minha casa foi feita a última reunião onde se votou o levantamento da ocupação. Salvo algumas companheiras do normal e eu, todos os militantes, entre eles meu irmão, votaram corretamente pelo levantamento. 

  De toda forma, decidimos fazer uma grande resistência para entregar a escola. Para nos desalojar trouxeram corpo de bombeiros de várias cidades que rodearam o colégio. Eu com outros dois aventureiros decidimos resistir, nos escondendo na caixa d’água da escola para o qual tivemos que deixar nossas roupas do lado de fora. Recordo da água tremendo e que quase dava para nadar. Estávamos nessa, quando os bombeiros chegaram com as escadas para fazer o operativo de desocupação. A escola estava rodeada de gente que assistia ao operativo e nós saímos dali como heróis. A reitora era a uma mulher volumosa chamada Miquelares Nos fuzilou com seu olhar, o que me deixou pensando no grande feito que havia sido vencer por bastante tempo sua autoridade.

  Esta mobilização e as ocupações foram históricas para nossa formação militante. Foram uma matriz na qual se forjou uma camada de novos militantes que pensavam por si mesmos e que rompiam com a dicotomia colocada na sociedade entre “antiperonismo ou peronismo”. Como resultado, a maioria ingressou no Palabra Obrera, organização com a qual se encarava uma nova etapa de militância e de vida.

  Os últimos meses no movimento estudantil desse ano estiveram dedicados a tentar formar a Federação Bonarense de Estudantes Secundaristas. O prestígio da atividade do MAR em Pergamino havia se propagado para outras cidades. Meu irmão viajava para San Nicolas (onde captou Gorriaran Melo, que depois foi um dos chefes do ERP), para Junín, Rojas…. Começamos a mandar cartas para todos os centros estudantis da província para construir a federação provincial. Nesse intercâmbio nos demos conta de que o PC estava se intrometendo para controlar a construção da Federação. Nós já havíamos mostrado nossas diferenças com eles e por isso mesmo não nos entregamos a seu aparato burocrático e deixamos morrer o projeto.

Com os trabalhadores e Palabra Obrera

  Meu irmão Luis foi estudar advocacia em Rosário. Eu iria no ano seguinte estudar Agronomia em Buenos Aires. O ingresso de meu irmão e do turco Saad, que também havia partido para Rosário no Palabra Obrera se fez muito rápido. A vida de Luis na faculdade foi muito curta; em poucos meses estavam organizando a Palabra Obrera nas zonas industriais.

Meu irmão rapidamente se fiz um especialista no trabalho no movimento operário. Sua forma de abordar um diálogo com os trabalhadores e sua capacidade militante ganha no movimento estudantil foram suas virtudes.  “Atendia’ a Siderurgia Acindar localizada em Villa Constitución que deu muito o que falar para a família Pujals. Era a siderurgia mais importante da Argentina. Ele havia ganhado um dirigente da seção de matrizes de sobrenome Ferreira. O gordo Ferreira, como era seu apodo, passava cerca de cem exemplares de Palabra Obrera numa seção de 200 companheiros. Nahuel Moreno, nosso dirigente de Palabra Obrera, reconhecia este mérito, mas dizia que talvez tinha que passar menos porque muitos o compravam pelo prestígio de Ferreira e não por convicção..

  A história dos Pujals e Acindar teve vários capítulos. Um tio de segundo grau nosso (primo de meu pais) era o gerente da fábrica e mão direita da família Azevedo que era dona da mesma. Era uma fábrica grande para os padrões argentinos, com cerca de 5000 operários. Um dia enquanto meu irmão panfletava na porta chegou seu tio no carro questionando o que ele estava fazendo ali. Meu irmão com 23 anos não ficou calado: “venho fazer o oposto do que você vem fazer aqui”. Esta foi a primeira história familiar de Acindar que teve outros capítulos com a ocupação de fábrica de 1974 e, posteriormente, com a grande greve de março de 1975.

  Luis era muito magro e por isso não passava nos exames para entrar na fábrica. Nunca trabalhou fisicamente proletarizado, mas era um especialista de nível com o movimento operário a partir do que aprendeu com o gordo Ferreira. Caía como um anel no dedo porque transmitia uma imagem muito séria, de muita vontade, transparência, modéstia e ao mesmo tempo inteligência. Desde fora captou toda a comissão interna da fábrica de tratores John Deere e atendia muitos outros trabalhos.

  Por essa época eu estava no segundo ano de Agronomia. Em Buenos Aires, Palabra Obrera fora dizimada com a derrota da resistência. Palabra Obrera tinha jogado um papel protagonista, de linha de frente, na resistência. Em 1954, nosso dirigente era Nahuel Moreno,  A primeira organização que criou foi o GOM (Grupo Obrero Marxista) em 1943. Moreno e seu grupo haviam entrado em 1954 no Partido Socialista da Revolução Nacional de Dickman que era a única organização socialista que defendia a frente única com o peronismo contra o socialismo. O GOM, organização dirigida por Moreno, havia tido até 1947 uma posição sectária sobre o peronismo. Depois disso, corrigiu seu rumo e passou a dirigir a Federação Bonaerense com peso na zona industrial de Avellaneda, Berisso, e Bahía Blanca. Importantes dirigentes operários, como o Secretário Regional da CGT de Bahía Blanca estavam em suas fileiras.

  Nossa organização foi a que teve o mérito de caracterizar que se vinha um golpe do imperialismo apoiado na Igreja. E levava esta denúncia agitativa a todas as organizações operárias peronistas. Alertava de que a CGT tinha que organizar milícias para parar o golpe. Em junho, se dá a primeira tentativa de golpe. O povo sem armas se concentra na Plaza de Mayo para rechaçar os aviões da marinha que bombardeiam a população. Esta primeira tentativa fracassa, mas três meses depois ocorreria o golpe. As condições do mesmo foram criadas por uma massiva concentração da Igreja no Corpus Christi sob o lema de Cristo Rei.

  Perón não responde aos chamados de armas que pediam os sindicatos. Dizia “esta partida só jogo eu sozinho” e terminou deportado numa canhoneira para o Paraguai de onde partiria ao exílio na Espanha. Apesar da capitulação de Perón, a resistência foi muito forte. Por alguns dias, Rosário foi tomada pelos sindicatos. Nossa corrente se jogou com tudo, inclusive convocou a greve geral durante a paralisação de 17 de outubro, dia no qual se faziam as mobilizações peronistas.

  O prestígio de nossa organização foi crescendo durante esses anos de resistência; Palabra Obrera fazia parte da resistência dos trabalhadores peronistas como parte das 62 Organizações Operárias Peronistas formadas pelos sindicatos na luta contra a ditadura. Nos dizíamos peronistas, ou seja, praticávamos o entrismo. O prestígio de Palabra Obrera chegou a ser muito grande. “Vasco” Bengochea, que era o diretor do jornal, participava da mesa das plenárias da organização. A tiragem de alguns números de Palabra Obrera foi de 50 000 exemplares. Uma cadeia de rádio das mais importantes dos  EUA veio à Argentina a seguir a situação. Fiz três entrevistas ao movimento dos trabalhadores e uma delas foi a Bengochea. A  lista Verde Metalúrgica na qual participava Daniel Pereyra que era o dirigente da Siam, era uma potência que disputava com a burocracia. A organização trotskista Palabra Obrera tinha muitos dirigentes e ativistas operários que continuava a tradição iniciada pelo  GOM (Grupo Obrero Marxista), fundado em 1943, deixou o “trotskismo de café” para militar nos frigoríficos de Avellaneda e ir viver no bairro prole de Crucetitas.

  A entrada minha e de Luis na Palabra Obrera ocorreu depois da derrota do frigorífico Lisandro de la Torre em janeiro de 1959. A onda de mobilizações havia baixado, mas de alguma maneira existia. Em 1962, o governo permite eleições a governadores levantando a proscrição ao peronismo. Na província de Buenos Aires ganha Flamini, um dirigente do sindicato dos têxteis que seguia uma linha à esquerda dentro do peronismo. Em Tucumán, Palabra Obrera estimulou a participação da lista de deputados operários da FOTIA que era a combativa federação dos trabalhadores dos engenhos. Foi eleito deputado operário entre eles Leandro Fote que era membro de Palabra Obrera no engenho San José. 

  Esta tradição parecia se perder em 62-63, quando a organização se debilitava pela perda de dirigentes operários cansados de tantos anos de luta. Era muito importante mantê-la e para isso foi necessário que muitos dos militantes ganhos no ascenso estudantil de 58 tomassem o trabalho operário. Meu irmão foi um dos primeiros, ainda que ele não tenha entrado na fábrica. Houve uma camada de uns dez militantes, entre os quais eu me encontrava, que seguimos nesse caminho. Tive a sorte de poder entrar na fábrica Pirelli La Rosa onde se fabricavam os cabos de alta tensão e os fios telefônicos. Minha seção tinha aproximadamente 500 operários, uma parte majoritária de mulheres para fazer os fios de telefone e outra onde eu estava em que se faziam os cabos de alta tensão. A adaptação foi difícil, mas a assimilação muito grande. Aprendi a entender a classe operária, sua forma de pensar, seu instinto de classe e de ação coletiva. Um estudante pequeno-burguês foi descobrindo o pensamento concreto dos operários, suas necessidades imediatas e sua forma de pensar para resolvê-las. Aprendi a me relacionar com elas a fim compartilhar o caminho da luta e dar passos políticos junto com eles. E nessa também cometi muitos erros.

  A superação da contradição entre uma vida militante mas sem exploração e a vida do explorado é muito grande. Como pequeno burguês que era, eu ficava chocado com o ambiente proletário, mas pouco a pouco fui superando as contradições existentes. A maior delas foi no terreno familiar. Meus pais jamais compreenderam a minha decisão de deixar a carreira de agronomia para ir a fábrica.  A família tinha sido para Luis e eu um lugar de liberdade, na medida em que não chocássemos com os desejos dos meus pais de nos ver graduados e profissionalizados como eles. Quando tomamos a opção de vida militante, o choque foi muito grande. O instinto e desejo de possessão sobre o futuro dos filhos é o aspecto mais ruim da família patriarcal e, no nosso caso, foi muito gritante. Assim que o choque de intenções se produz, vem uma grande crise. No meu caso, me vi obrigado a romper com minha família por mais de um ano até que meu pai veio me encontrar em um bar bem proletário para tentar fazer as pazes comigo.

  Conheci em minha própria carne o que é um corpo de delegados e uma comissão interna, além da importância que esta organização tem para os trabalhadores. O exemplo mais simples de uma espécie de embrião de duplo poder está definido na seguinte questão: a quem se deve obedecer quando se é dada uma ordem? Logicamente que é ao capataz, mas se este te manda a uma tarefa que foge das regras de trabalho, quem decide se é preciso ou não fazê-la é o delegado de seção. Sempre o consultávamos para saber o que tínhamos que fazer ou deixar de fazer. 

  Na Pirelli, onde trabalhavam muitos imigrantes italianos, alguns anos antes que eu entrasse, o líder se chamava Setembrino, muito recordado pelos operários mais velhos. Quando uma onda de ocupações de fábrica estourou no país durante os anos 1950, a Pirelli foi ocupada pelos trabalhadores. Durante a ocupação se decidiu colocá-la em funcionamento sem chefes, capatazes ou diretores. Tudo era decidido pelo corpo de delegados e pela Comissão Interna que presidia Setembrino. Sucedeu que num menor tempo de produção aumentou a qualidade dos produtos. A coisa chegou a tal ponto que o diretório italiano da empresa propôs a Setembrino que este deixasse sua classe e sua organização, passando a ser o diretor. Obviamente não aceitou. Pirelli foi um grande exemplo da capacidade dos trabalhadores e o que seria da produção se não fosse propriedade dos capitalistas para a acumulação de seus lucros.

  Creio que aquilo que aprendi nesses anos de operário e delegado de fábrica foram fundamentais para minha formação militante, tendo jamais abandonado suas lições. Creio também que o mesmo se sucedeu no caso do meu irmão, apesar do caminho diferente pelo qual ele optou.

O impacto da revolução cubana

  Enquanto nós aprendíamos e nos fortalecíamos na militância revolucionária no movimento operário, um grande acontecimento sacudia a América Latina. O movimento 26 de Julho dirigido por Fidel e Che tomavam o poder em Cuba. Depois de um ou dois anos de transição, veio a invasão ianque na baía dos Porcos e Cuba tomou o caminho de expropriar os grandes engenhos em mãos de interesses imperialistas, iniciando o caminho em direção ao estado operário. A revolução cubana nos tocou forte e abriu outro horizonte para a luta contra o imperialismo em nosso continente. Nós da Palabra Obrera e a organização trotskista latino-americana da qual fazíamos parte, denominada Secretariado Latino Americano do Trotskismo Ortodoxo (SLATO), integramos este processo que mudava a situação latino-americana. 

  A revolução cubana foi iniciada pela luta de um movimento popular democrático que tinha à sua frente Fidel Castro. Ganhou força quando o grupo de guerrilheiros vindos do México invadiu a ilha e iniciou um processo de revolução agrária apoiado nos camponeses pobres. O poder foi tomado por este processo de mobilização, o qual foi infligindo derrotas  e mais derrotas ao exército de Fulgêncio Batista, em combinação uma insurreição popular cujo desfecho foi a queda do velho regime e do exército, ou seja, todo o poder de Batista.

  A vanguarda e a esquerda latino-americanas foram sacudidas por este processo. As teorias “etapistas” ou pacifistas dos partidos comunistas e socialistas foram derrotadas, e a revolução tomou um novo horizonte. Uma nova etapa abriu-se na América Latina a partir do triunfo da revolução cubana.  Na Argentina, abriu-se um novo caminho tanto para a vanguarda revolucionária que havia se incubado na resistência peronista quanto para a vanguarda que havia surgido com a “laica o libre” nas ocupações dos colégios e universidades: a revolução socialista como um feito possível, a tomada do poder como uma tarefa realizável.

  Ali também começaram os problemas. Para uma parte dela, parecia que acontecer a revolução somente se tratava de copiar o esquema que possibilitara o triunfo em Cuba. E não era assim. Numerosos contingentes que quiseram fazer isso desta maneira no início dos anos 1960 fracassava, como nos casos das guerrilhas de Uturunco em Tucumán e Masseti em Salta. E o mesmo se sucedia em outros países.

  A revolução era possível, mas o esquema não podia simplesmente ser copiado; era necessário responder às condições objetivas em cada país. Assim entendemos junto com Luis nestes primeiros anos posteriores ao triunfo de Che e Fidel. Vivemos juntos a luta camponesa de Hugo Blanco. Estudante platense e depois operário do setor de carnes, Hugo se deslocou ao Peru para responder a esta nova situação. Os fatos o levaram a Cuzco, onde por sua condição de cuzquenho que dominava o quéchua começou a dirigir o sindicato dos camponeses. Começaram as greves camponesas contra os gamonales e o despejo destes. No Valle de Lares y La Convención, a consigna de “Terra ou Morte! Venceremos!” ganhou força. A reforma agrária se expandia  sob as milícias camponesas que iam se formando. Esta mobilização revolucionária agrária apontava um caminho para todos os camponeses peruanos. A necessidade de dotar este movimento de um apoio logístico e de armamento  era evidente.

  Para tentar levar adiante esta tarefa, vários militantes de Palabra Obrera, encabeçados por Vasco Bengochea, se transferiram para Cuba. À ilha chegavam militantes de todos os lados para fazer instrução na luta guerrilheira. William Cook, um peronista marxista com o qual Palabra Obrera tinha relações fazia os contatos e organizava os grupos que iam da Argentina. A linha discutida pela direção de Palabra Obrera, com a intenção não de ir para fazer uma instrução meramente militar, mas para convencer Fidel e Che da necessidade de apoiar Hugo Blanco. O próprio Moreno, em 1962, viajou para Punta del Este no intuito de conversar com Che, quando este participava de uma reunião da OEA. Ele tentou mostrar a Che que o importante nesse momento era opor-se ao golpe pró-ianque no Brasil e apoiar o “movimento da legalidade” de Brizola. Nos dois lados, tanto em Cuba como no Uruguai, fomos pouco escutados. E em Cuba, Bengochea terminou convencido de que em vez de ir apoiar o Peru, era necessário fazer a guerrilha na Argentina. 

  Ao voltar Bengochea para o velho local de Palabra Obrera de Paseo Colón, foi realizada uma plenária onde se polemizou duramente com Vasco. Luis e sua companheira Susana estiveram presentes, e todos nós fomos convencidos da necessidade de manter nossa estratégia junto ao movimento operário. Pouco tempo depois, Vasco apresentava uma renúncia amigável à Palabra Obrera e um ano depois sofria sua trágica morte, quando no edifício da rua Posadas uma série de explosivos que estavam sendo preparados explodiu e derrubou todo o edifício.

  No entanto, a pressão por pegar as armas e fazer a revolução seguiu se fortalecendo. Palabra Obrera que continuava tendo presença forte nos engenhos tucumanos começou um trabalho conjunto com a FRIP (Frente de Resistência Indo americano e Popular) dos irmãos  Santucho. As conversas foram progredindo e audaciosamente se propôs a unificação para se formar o PRT (Partido Revolucionário dos Trabalhadores).

  Meu irmão havia se fortalecido muito em Rosário. Uma camada universitária havia entrado no partido e havia ganhado também o dirigente do sindicato dos trabalhadores de eletricidade (Luz e Força). Eu havia sido despedido da Pirelli e estava desenvolvendo um trabalho muito bom entre os operários dos frigoríficos de carne de porco. Tínhamos uma boa equipe partidária e dirigíamos ao redor de cinco frigoríficos importantes. A IV Internacional havia se reunificado como resultado do triunfo da revolução cubana. Havia ficado para trás o debate provocado pela política do entrismo sui generis nos partidos comunistas proposta por Pablo.

  Mas as dificuldades de manter um caminho de luta de classes em meio à pressão do guerrilheirismo não eram poucas. No PRT, isso começou a ser forte por parte do grupo de Santucho e uma situação similar se dava na IV.  Esta pressão levou à divisão do PRT. Com o nome El Combatiente ficaram ao lado de Santucho aqueles que queriam iniciar já a luta armada. Em La Verdad, o grupo mais afim a Moreno, defendíamos a estratégia desenhada pela III e IV Internacionais em que se destacava a construção do partido na luta de classes como caminho para a tomada do poder.

  Confesso que fiquei surpreso quando meu irmão tomou o caminho de Santucho. Tudo o que havíamos feito junto, sua prática militante da qual aprendi tantas coisas caíram por terra; era difícil de compreender este giro. Ainda que houvesse algo de Luis que justificasse isso… Sua vida era pura entrega, nada mais que entrega, a uma causa. Muitos dos que se foram com o ERP terminaram como diletantes falando de luta armada, mas sem atirar nem uma só bala. Por isso, reconheço o grande mérito de meu irmão de não pensar assim, de ter uma conduta consequente e mantê-la até que o mataram.

  Também reconheço em meu irmão outro importante mérito. O IX Congresso da IV Internacional reconheceu como seção oficial na Argentina o ERP, apostando com eles na luta armada como política. Mas Santucho e todo o seu grupo com o qual nos unificamos em 1966 nunca se convenceram do trotskismo. Creio firmemente que Santucho e sua equipe usaram a IV e o PRT para ganhar grandes militantes, tais como Luis Pujals e o índio Bonet, para sua política de luta armada. Sempre estiveram longe do trotskismo e da tradição formada por seus militantes na luta de classe.

  Depois da dolorosa ruptura, eu seguia de longe a atividade de meu irmão. Mas o seguia, não a ignorava. Gostei muito de ler num dos jornais do ERP um artigo assinado por ele no qual fazia uma clara diferenciação entre os organismos sindicais e o partido. Nesta diferenciação, ele se referia com muito respeito ao classismo e aos dirigentes sindicais, falando da paciência necessária para se trabalhar com eles. Muito diferente da política de Santucho que percorria a casa dos dirigentes fabris do Cordobazo para lhes dizer que largassem a fábrica e pegassem em armas. O dirigente do Sitrac Sitram (sindicato da Fiat) Francisco Páez nos contou pessoalmente desse encontro, e como depois do mesmo decidiu aparecer em nosso local de Córdoba.

  O PRT El Combatiente não tinha unidade programática. No ERP surgiram três frações que apareceram claras posteriormente, mas que no Congresso de 1971 presidido por meu irmão já estavam presentes. A ala castrista de Santucho denominada ERP Combatiente; o ERP – 22 de Agosto que se inclinava para o peronismo de esquerda/montoneros; e o ERP Rojo onde estavam os militantes internacionalistas que permaneceram na IV Internacional. Meu irmão era um deles. Na última vez em que estive com ele, lhe falei muito do trotskismo. Eu não parava falar para não ter que escutar contradições que nos obrigassem a uma discussão e ele me afirmava positivamente o que eu lhe dizia. Outra vez, nos encontramos, os dois e Baxter (um membro do ERP que havia se radicalizado do grupo nacionalista Tacaura ao trotskismo e que morrera num avião quando viajava para uma reunião da IV Internacional). Depois dessa oportunidade, nunca mais vi Luis. Poderíamos ter nos encontrado no aniversário de minha irmã em 17 de setembro, mas nesse dia ele foi sequestrado. Não o vi mais, porém estou convencido de que seu corpo aguentou até o final a tortura, abraçado à bandeira sem manchas da IV Internacional.

***

  As histórias de meu entusiasmo continuam e seguirão sendo escritas neste espaço. Mas não posso deixar de concluir esta parte sem me retornar ao presente e à luta atual pelo socialismo. Luis e eu sempre fomos dois internacionalistas, e consequentemente da IV Internacional. Nossa organização teve muitas crises e divisões. Não vou entrar aquí nessa história de encontros e desencontros. Mas não posso deixar de relatar uma anedota significativa que quero aquí socializar. Com Roberto Robaina, Tito Prado e os companheiros do MST/Argentina nos demos conta de que a tarefa de reagrupar os internacionalistas passava por nos reunificarmos ingressando na IV Internaciona – Secretariado Unificado. Em 2012 ou 13, fizemos um protocolo com o mais importante dirigente da IV à ocasião, Olivier Sabado, com o qual eu tinha relação, com vistas a formalizar o nosso ingresso, algo que demorou um tempo até sermos aceitos como membros-simpatizantes no último Congresso Mundial. Nesse congresso, tivemos uma reunião com Michael Löwy, a companheira Alda Sauda (Bloco de Esquerda/Portugal) e outro militante mexicano para debater as condições de nossa incorporação. A reunião foi positiva, embora pensamos que colocavam muitos reparos em relação a nós por conta de outros membros da IV no Brasil, cujo seção se dividiu em quatro frações com muitas diferenças políticas entre ellas. Mas, enfim, abriu-se um pouco a porta para a reunificação com os velhos camaradas com quem estivemos juntos durante muito tempo. Eu saí da reunião emocionado, sobre tudo pelo reencontro com Michael Löwy que eu conheci muito tempo atrás, principalmente por estar de novo junto com os camaradas que queriam e respeitavam muito meu irmão. De alguma maneira, trata-se de um reencontro com nossa querida militância conjunta de muitos anos.


Parlamentares do Movimento Esquerda Socialista (PSOL)

Capa da última edição da Revista Movimento
Publicamos a décima sétima edição da Revista Movimento ainda sob o impacto da pandemia da Covid-19. Em todo o mundo, as contradições acumulam-se. Este volume está dedicado à análise de várias dimensões desta verdadeira crise global e de seus desdobramentos. Com destaque, tratamos da mobilização antirracista nos Estados Unidos e no mundo, iniciada após o assassinato de George Floyd, e da situação brasileira, discutindo a crise do governo Bolsonaro e as recentes manifestações dos trabalhadores por aplicativos.