Os norte-americanos também têm “quixotes”:   Paul M. Sweezy (1910-2004)

Os norte-americanos também têm “quixotes”: Paul M. Sweezy (1910-2004)

Sobre um dos mais importantes pensadores sociais do século.

Alberto Unanue Hernández 12 abr 2020, 13:47

Estas notas são um tributo a um dos mais importantes pensadores sociais do século XX; é para que seja recordado pelos que se formaram com sua prédica e a compartilharam, e para os que não o conheceram. As referências principais provêm da revista Monthly Review, sua obra maior.

                                                          I

Em 27 de fevereiro de 2004, a escassos meses de cumprir noventa e quatro anos, faleceu “ o decano dos pensadores marxistas”, nos dizeres de The Wall Street Journal, ou “o mais destacado erudito marxista norte-americano da segunda metade do século XX”, segundo a melhor definição de John K. Galbraith.


Para una plêiade de intelectuais latino-americanos – sociólogos, cientistas políticos, comunicadores e, sobretudo, economistas – durante muitas décadas, a obra mais conhecida de  Paul M. Sweezy, Teoria do desenvolvimento capitalista, foi a fonte fundamental (e às vezes única) para se adentrar no estudo de Marx. Sua excelente prosa, que reconheceu influenciada por Mark Twain, Hemingway, e também por Trotsky (ainda que não o tenha compartilhado politicamente), contribuiu de maneira decisiva para a compreensão do sistema capitalista e a manter vivo o pensamento marxista. 

                                                         II

Nascido em Nova York em 10 de abril de 1910, no seio de uma família acomodada – seu pai foi vice-presidente do First National Bank, antecessor do Citibank-, teve a mais esmerada das educações, iniciando estudos universitários em Harvard entre 1928 e 1932. Eram anos marcados por acontecimentos únicos (a depressão econômica, o ascenso de Hitler e o início dos planos quinquenais soviéticos). Depois passou um ano fazendo cursos de pós-graduação na London School of Economics (LSE), aonde chegou com um sentimento de “confusão e ressentimento pela irrelevância do que havia tratado de aprender durante seus quatro últimos anos”, segundo suas próprias palavras. Confrontou-se pela primeira vez com universitários que debatiam ativamente os temas que aconteciam “num estado permanente de fermento intelectual e político” e teve seu primeiro contato com o marxismo.


Harvard também começava a mudar com a chegada de Joseph Schumpeter, e a influência  do economista austríaco foi decisiva na formação intelectual de Sweezy, que chegou a ser seu aluno, assistente e amigo. Nunca ocultou sua admiração pela obra de Schmpeter, apesar das radicais diferenças ideológicas. Embora ambos compartilhassem de igual visão em relação à inevitabilidade do colapso do capitalismo, diferiam acerca das causas, o que não foi obstáculo para que Sweezy o qualificasse como o melhor economista depois de Marx, por haver sido capaz de entender a condição histórica do capitalismo e o caráter de seus traços e leis próprias. De fato, tanto Teoria do desenvolvimento capitalista como Capitalismo, socialismo e democracia, ambas surgidas nesses anos, tratavam o mesmo tema da depressão econômica e o futuro socialista. Schumpeter argumentava que as inovações deveriam constituir-se no estímulo do lucro e da acumulação que descansavam no papel sociológico do empresário, e Sweezy insistia em que a inovação devia ser considerada subordinada ao processo de acumulação. Os debates que ambos sustentaram, e nos quais participaram outros notáveis como Oskar Lange, Wassily Leontiev e, mais tarde, Paul Samuelson, são memoráveis, o que levou a Samuelson a qualificá-los como a disputa entre “o astuto Merlin e o jovem Sir Galahard” num momento “em que os gigantes caminhavam pela Terra e pelos pátios de Harvard”.


O trabalho docente formal de Sweezy foi breve. Em 1938 era instrutor em Harvard onde ditou  cursos sobre princípios de economia, corporações e economia do socialismo (de cujas notas de  classe tomou corpo Teoria do desenvolvimento capitalista), atividades que interrompeu em 1942 para se alistar no Exército, até se desmobilizar em setembro de 1945. Mas já surgia o macartismo e ainda quando contou com o apoio de Schumpeter para aspirar a uma posição docente permanente em Harvard, resultava impensável que um marxista declarado pudesse conseguir isso. Sweezy depois comentaria o afortunado do incidente, porque ao contar com uma posição econômica independente, não havia tido que sucumbir aos controles e inevitáveis pressões que que se exerciam para os que tiveram que ganhar a vida com a academia.

Ao longo de sua frutífera vida, a própria Harvard e as melhores universidades do mundo o teriam como um conferencista excepcional que fascinava o auditório.

                                                         III

Sweezy foi um marxista de sua época, o que lhe valeu, além de enfrentamentos no terreno das ideias e interpretações – de absoluta validez-, as críticas provenientes da ortodoxia dogmática empantanada na polarização política que, nos fatos, negava a cientificidade originária em Marx. Com certeza, teria subscrito aquela frase anotada por Joan Robinson numa carta aberta à intelectualidade de esquerda: “levo Marx nos ossos e vocês o levam nas bocas”. É daí que surgiu uma corrente que o qualificava – e desqualificava – como keynesiano de esquerda, dado o reconhecimento que Sweezy fazia a Keynes. Separando distâncias, esta ignorante confusão poderia ser assemelhada com a comparação de que Marx era um ricardiano.


A distância que o separava de Keynes era enorme. Em setembro de 1936, Sweezy e Abba Lerner (então uma jovem economista na LSE que depois publicaria a importante Teoria econômica do controle) lhe responderam publicamente a Keynes questionando-lhe sua interpretação de que as inconsistências da política exterior inglesa na Espanha e Etiópia podiam ser explicadas em termos da “estupidez do Foreign Office” e o “incrível pacifismo” do povo inglês (segundo palavras de Keynes), afirmando que esta somente poderia fazer-se nos termos que brindava a panóplia analítica de Marx, ou seja, a prevalência dos interesses da classe dominante no Reino Unido que, embora se opusesse ao fascismo de maneira geral, antepunha a defesa da propriedade privada aos interesses nacionais. A resposta terminava sendo expressa a Keynes a admiração que ambos sentiam por sua obra no terreno econômico.


Isso não era obstáculo para que Sweezy, tendo sido formado nas seráficas ambivalências da teoria da concorrência imperfeita – provavelmente o mais estéril que tenha surgido do pensamento neoclássico -, encontrasse na Teoria Geral (e quase de imediato na obra de Alvin Hansen, recém-chegado a Harvard, o keynesiano da outra Cambridge) a liberação e estímulo intelectuais que lhe fizeram sentir um “renascimento da economia científica”. A obra posterior de Sweezy foi sempre uma crítica aos keynesianos desde a ótica marxista, demonstrando que o problema básico destes era o inadequado de suas soluções para o problema de fundo do capitalismo.

Os aportes de Teoria do desenvolvimento capitalista seguem vigentes. Nos anos setenta, rompendo lanças com a tradição marxista inglesa, começou uma polêmica com Maurice Dobb, seu mais alto exponente, em torno da compreensão da teoria do valor de Marx. Sweezy insistia em distinguir o problema quantitativo do valor (o trabalho concreto) do qualitativo (o trabalho abstrato) para poder ir mais além da produção de mercadorias e identificar o caráter das relações sociais subjacentes. Isto era o que diferenciava de maneira radical Marx de seus antecessores clássicos. A discussão em relação a outros aspectos medulares: o alcance relativo da tendência decrescente da taxa de lucro e suas causas contrarrestantes, a super-acumulação de capital e subconsumo, como explicação das crises do capitalismo e causa da queda da demanda efetiva, foram temas nos quais a agudeza intelectual de Sweezy sobressaía.

                                                    IV

A relação intelectual com Paul A. Baran lhe deu continuidade ao estudo da tendência do capitalismo à depressão e ao desemprego. Michael Kalecki, que havia formulado sua teoria do grau de monopólio – a participação relativa do lucro à medida que cresce o ingresso bruto – em Teoria da dinâmica econômica, foi uma influência decisiva que permitia estabelecer a continuidade entre o monopólio (no nível microeconômico) e o estancamento (no nível macroeconômico), o que se culminado na obra O capital monopolista (dedicado a Che Guevara) que ambos começaram a escrever em 1956 e saiu à luz em 1966. Esta obra se constituiu numa referência obrigatória do movimento radical nos Estados Unidos. Já antes Baran havia terminado um livro transcendente (Economia política do crescimento, publicado em inglês em 1957), cuja edição em espanhol também marcou mais de uma geração de estudiosos do desenvolvimento e o subdesenvolvimento em nossa região, na qual investigava a economia política do subdesenvolvimento, o papel do imperialismo e o fenômeno da transferência do excedente a partir das regiões periféricas. Com uma grande ousadia intelectual havia introduzido as categorias do excedente econômico real e potencial, como derivação da mais-valia de Marx. Baran e Sweezy, insatisfeitos com a escassa atenção que a ortodoxia marxista tradicional lhe concedia à interpretação da opulência do capitalismo presente, se deram à tarefa de reestudar o problema da geração e absorção do excedente nas condições do capitalismo monopólico. O trabalho permitiu chegar a uma interpretação das causas pelas quais não havia voltado a ter lugar uma nova depressão, o papel do alarde  e seus variados componentes e as derivações para a classe operária. Quase dez anos depois, em 1974, Harry Braverman, um ativista social de origem operária vinculado a Monthly Review, publicou Labor and Monopoly Capital que permitiu avançar na interpretação da geração do excedente nas novas condições de trabalho criadas pelo capitalismo contemporâneo. Sweezy, no prólogo, qualificou o livro de uma revelação e da confirmação do poder da crítica de Marx, reconhecendo que o O capital monopolista a havia subestimado.
 

                                                     V

A mais alta expressão do compromisso político em Paul Sweezy está em Monthly Review, a revista que fundara, junto a Leo Huberman, em 1949, depois da ruptura com Harvard. É excepcional que uma revista, sobretudo uma com um traço radical explícito, possa durar mais de duas gerações. É hoje, sem dúvida, uma crônica da história política da humanidade, “o presente como história’, repetindo o título de um grande livro de ensaios seus dos anos cinquenta, muitos deles saídos de Monthly Review.


Desde seus inícios centrou sua linha editorial no aprofundamento da análise acerca do funcionamento do capitalismo dentro da tradição marxista e nos problemas do imperialismo, a revolução no Terceiro Mundo e o socialismo. “O enfoque de Monthly Review segue o espírito de Marx – revolucionário, não reformista e, ao mesmo tempo, não dogmático e não fundamentalista-, e é consciente de que Marx não tem a última palavra em tudo ou, inclusive, em nada”, teria dito Sweezy numa entrevista. Por isso, a revista, embora enfatize os aspectos econômicos, não se limita a isso, e em sua lista de colaboradores apareceram nomes do porte de Albert Einstein, Che Guevara, Malcolm X, C. Wright Mills, Jean-Paul Sartre, Noam Chomsky, Amir Samin, além de Michael Kalecki e Joan Robinson. Uma consequência da revista foi a criação da editora Monthly Review Press, o que permitiu a publicação de obras de reconhecida valia intelectual que, entretanto, era censuradas por razões ideológicas em outras editoras.


Paul Sweezy não escapou da perseguição macartista e em 1953 um tribunal estatal o condenou por desacato. Este juízo chegou até o Tribunal Supremo, que suspendeu a condenação em 1957, no que, segundo Samir Amin, Sweezy havia dado “o mais belo exemplo  de coragem”.


Converteu-se numa figura política cujo renome ultrapassou os limites nacionais. Dentro e fora dos EUA foi um permanente conferencista e expositor, tanto nas mais reconhecidas universidades como em círculos de ativistas, estudantes e operários, o que era fonte de novas ideias que se plasmavam em novos livros. Viajante incansável, esteve em Cuba em 1960 junto com Huberman e Baran, de onde surgiria Cuba: anatomia de uma revolução publicado como um número especial da revista, e em 1969 Socialism in Cuba; a experiência chilena a registrou em Revolution and Counter-Revolution in Chile, da qual foi co-editor com Harry Magdoff; das conferências ditadas na Universidade de Tóqui surgiu Four Lectures on Marxism (1981).


Um aporte que deriva de seus trabalhos se inscreve na teoria da dependência que surgiu com força na década dos sessenta na América Latina. Com efeito, o papel dos países capitalistas desenvolvidos e suas relações com ele (então reconhecido) Terceiro Mundo está absolutamente caracterizado e fortaleceu uma visão teórica que segue mantendo atualidade. Muito antes da queda do Muro de Berlim (em 1971 havia publicado com Charles Bettleheim On the Transition to Socialism, que questionava a preeminência das práticas de mercado que floresciam no mundo socialista europeu) fez uma complexa interpretação e crítica do modelo do socialismo real, em particular das derivações deformantes sucedidas na antiga União Soviética e Europa Oriental. Foi um assíduo visitante da China, o que lhe permitia advertir os perigos de que emergisse uma nova classe que tentasse a restauração do capitalismo.

                                                       VI

Ao ser um dos melhores expoentes da economia política marxista, Paul M. Sweezy foi um visionário convicto do futuro e sentia cada dia mais próximo o socialismo. Entendeu o desenvolvimento como processo histórico e apreendeu os limites do socialismo utópico do século XIX e as vulnerabilidades do socialismo real do século XX. Por isso, estaria presente nas discussões acerca do socialismo do século XXI.

Caracas, outubro de 2005

Fonte: UNANUE HERNANDEZ, Alberto. Los norteamericanos también tienen quijotes: Paul M. Sweezy(1910-2004). CDC [online]. 2005, vol.22, n.60 [citado  2020-04-07], pp. 181-186 . Disponible en: <http://ve.scielo.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1012-25082005000300009&lng=es&nrm=iso>. ISSN 2443-468X.


Parlamentares do Movimento Esquerda Socialista (PSOL)

Capa da última edição da Revista Movimento
Publicamos a décima sétima edição da Revista Movimento ainda sob o impacto da pandemia da Covid-19. Em todo o mundo, as contradições acumulam-se. Este volume está dedicado à análise de várias dimensões desta verdadeira crise global e de seus desdobramentos. Com destaque, tratamos da mobilização antirracista nos Estados Unidos e no mundo, iniciada após o assassinato de George Floyd, e da situação brasileira, discutindo a crise do governo Bolsonaro e as recentes manifestações dos trabalhadores por aplicativos.