A rebelião libanesa como fio de continuidade
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A rebelião libanesa como fio de continuidade

Israel Dutra analisa as manifestações no Líbano.

Israel Dutra 19 Maio 2020, 17:23

O mundo segue em quarentena. Nos distintos países, o movimento de massas tem uma condição particular, não podendo expressar-se na forma mais conhecida dos protestos de massas.  As desigualdades se desenvolvem: alguns protestos de vanguarda no 1 de Maio, ato no centro de Tel Aviv, todos respeitando as regras de isolamento social. Há também atos dos profissionais da saúde, em vários países, como vanguarda das lutas, e bloqueios das carreatas da extrema-direita, com sindicatos da saúde à frente, nos Estados Unidos.  No Brasil e em outros países, acontecem panelaços e atos virtuais de repúdio ao governo. 

Entretanto, um prenúncio do que poderá vir, em breve, se verificou no dia 27 de abril, no Líbano, no evento que ficou conhecido como “Noite dos molotovs”. Com um pequeno levante popular na Trípoli libanesa, com o saldo de um manifestante morto, a revolta acabou se espalhando rapidamente para Beirute, onde o Banco Central foi incendidado, chegando a Saida no sul do país. Um verdadeiro ensaio geral, no Líbano, contudo, colocando em relevo questões de fundo, indicando que se pode resistir à fome, a falta de assistência social e ao desemprego, combatendo os bancos e os partidos da ordem.

O Líbano e as rebeliões de 2019

O mundo “pré-pandemia” estava marcado por uma maior polarização, desigual entre os países. O movimento de rebeliões democráticas se expandiu pelo mundo ao longo de 2019.  Porto Rico e Hong Kong foram dois polos intensos que tocaram os maiores imperialismos do planeta; na Europa, houve manifestações na Catalunha; na América Latina, foram Equador e Chile. O Líbano encaixou-se nesse contexto, nos marcos de retomada das lutas no mundo árabe, após as revoluções que derrubaram os governos do Sudão e da Argélia.

O motor dos levantes envolve a questão democrática e o contraponto aos planos do FMI, o que, no mundo árabe, pode ser visto como a segunda onda das revoltas democráticas que tiveram lugar em 2011, como definiu Achcar, intelectual libanês, em entrevista, respondendo sobre o aprendizado das massas:

“Definitivamente aprenderam. Os processos revolucionários prolongados são cumulativos em termos de experiência e saber-fazer. São curvas de aprendizagem. Os povos aprendem, os movimentos de massa aprendem, os revolucionários aprendem e os reacionários também, claro, todos aprendem. Um processo revolucionário de longo prazo é uma sucessão de ondas de levantamentos e de reveses contrarrevolucionários – mas não são meras repetições de padrões similares. O processo não é circular, tem de avançar ou então degenera. As pessoas entendem as lições das experiências anteriores e fazem o seu melhor para não repetir os mesmos erros ou cair nas mesmas armadilhas. Isto foi muito claro no caso do Sudão, mas também na Argélia e agora no Iraque e no Líbano também”.

O processo de contestação aos planos de ajuste, em uma série de países, colocou a questão da luta de classes a quente, polarizando o conjunto da sociedade. Essa foi uma das marcas de 2019. A maior parte dos governos do mundo goza de apoio durante a primeira etapa da pandemia e seus efeitos; algumas exceções são importantes, como a polarização que o Brasil vive contra o negacionismo de Bolsonaro no poder. Em outros lugares, a paralisação das atividades é funcional para que os regimes ganhem fôlego, como o caso de Piñera no Chile. A raiva social, contudo, começa a ser detectada por baixo, no Equador, por exemplo. O governo de Kosovo foi o primeiro a cair durante o período do coronavírus, após panelaços massivos e insatisfação social.

E, no final de abril, o Líbano foi palco de violentos protestos, contra bancos e autoridades, revivendo as grandes jornadas de 2019, que levaram então ao fim do governo Hariri, abrindo uma nova etapa na luta política no país.

A rebelião libanesa como sintoma?

Entre os dias 21 e 30 de abril, as principais cidades do Líbano conheceram protestos, com o ápice na já referida noite do dia 27. A noite de fúria desafiou as restrições de segurança impostas pelo governo, a partir da crise da moeda local, quando o colapso da lira libanesa foi simbolizado na proibição da retirada de dólares dos bancos e casa de câmbio das grandes cidades. As chamas da rebelião de 2019 voltaram a arder.

A rebelião de 2019 derrubou o governo sunita de Hariri, depois de épicas jornadas de centenas de milhares de pessoas, iniciadas com aumentos de taxas de acesso ao whatsapp transformando-se em rebelião aberta contra os bancos. Na visão de Lina Mounzer:

“Os libaneses protestavam contra suas elites políticas desde outubro e se recusavam a sair dos locais de protesto. Iniciada por uma proposta de imposto sobre as chamadas telefônicas de whatsapp anunciada em 17 de outubro, uma das muitas medidas de austeridade propostas para compensar os espantosos 86 bilhões de dólares da dívida libanesa, os protestos visaram o governo durante décadas de corrupção, divisão sectária do poder e quebras do sistema bancário. Os bancos libaneses emprestaram dinheiro dos depositantes ao governo e não têm mais a liquidez do dólar para corresponder aos números das contas bancárias das pessoas. Até novembro, os bancos colocaram limites rígidos para os saques, alguns permitindo apenas US$ 100 por mês. Esses limites de retirada funcionaram como controles não-oficiais de capital”.

Foi com o imposto sobre a internet que se ativou a ira de centenas de milhares de jovens, a geração “hiperconectada”. Foi a faísca que incendiou o país em outubro, arrastando toda as outras contradições do Líbano, como a questão da saúde e da pobreza generalizada.

Também se pode notar como o Líbano será um laboratório sobre embates de classe. Até quando as massas pauperizadas vão tolerar índices de agravamento nas suas condições de vida? Quais limites e tensões que se abrem no mundo durante e após a pandemia?

O governo fala em até 75% dos libaneses vivendo em condições de pobreza, após os primeiros desdobramentos da Covid-19. As projeções da FAO e da ONU indicam que podemos chegar ao número de 256 milhões de pessoas em situação de fome no planeta.

A luta dos imigrantes e refugiados é um dos centros no atual processo político e social durante a quarentena. O Líbano tem cerca de dois milhões de refugiados, na sua maioria sírios e palestinos. Segundo o jornal El País, o campo (em árabe, “mujayem”) de Sídon, no sul do Líbano, congrega 75 mil palestinos, numa área de dois quilômetros quadrados.  Os imigrantes, também de outra origens, protagonizaram importantes lutas nos dias 10 e 11 de abril, nas empresas onde são contratados de forma precária e sem direitos.

A fúria contra os bancos como ensaio geral

O Líbano ficou conhecido como “Suíça do Oriente Médio” por seus bancos e pelo livre trânsito do mundo das finanças em Beirute, o que, junto com a atividade turística, respondia pelos principais investimentos do país. A crise de 2019 e o colapso de 2020 vão arrastar a ex-colônia francesa para uma das piores crises da sua história, descarregando todo peso sobre as costas dos trabalhadores e do povo pobre. Nem o antigo grupo dirigente, ligado ao clã Hariri, nem os setores xiitas da milícia Hezbollah tem condições de oferecer uma saída diante da catástrofe que assola o país.

Não foi por acaso que o alvo central da rebelião foi os bancos. Algo muito progressivo, pois é um salto de qualidade em relação à consciência média que apenas ataca os agentes políticos, colocando em questão não apenas o poder político do regime, como o modelo econômico, calcado no endividamento e nos interesses do rentismo.

Em seguida do Líbano, também o Iraque retomou as mobilizações, criando certa rota de “rebeliões da fome”, onde centenas de milhares resistem, em condições heroicas, ao genocídio social causado pela pandemia e pela fome. Se até aqui o que primou foi a entrada do discurso de unidade nacional nos principais países do planeta, com o movimento de massas ainda acossado pelas condições sanitárias e pelo medo do maior surto de desemprego da história, o que vamos assistir, de pouco em pouco, remete às noites de revolta que o Líbano viveu no final de abril.

A disputa dos rumos da sociedade “pós-pandemia” passa por fortalecer a auto-organização popular, a defesa dos interesses dos de baixo, a solidariedade com os exemplos que vem de longe e com a necessidade de ordenar um programa de enfrentamento às castas dirigentes e à farra dos banqueiros em escala mundial.


Parlamentares do Movimento Esquerda Socialista (PSOL)

Capa da última edição da Revista Movimento
Na 16ª edição, estão disponíveis dois dossiês. No primeiro, sobre o ecossocialismo, podem-se se encontrar as recentes teses de Michael Löwy, além de uma entrevista com o sociólogo e dirigente da IV Internacional. Também publicamos uma entrevista com Zé Rainha, dirigente da FNL, sobre sua trajetória de luta e os desafios dos socialistas no Brasil; uma entrevista com Antônia Cariongo, dirigente quilombola e do PSOL-MA; e artigos de Luiz Fernando Santos, sobre a lógica marxista e a Amazônia, e de Marcela Durante, do Setorial Ecossocialista do PSOL. O segundo dossiê traz algumas análises iniciais sobre a pandemia de coronavírus. Há artigos de Mike Davis e Daniel Tanuro; documentos do MES e do Bureau da IV Internacional; além de uma densa análise de nossas companheiras Evelin Minowa, Joyce Martins, Luana Alves, Natália Peccin Gonçalves, Natalia Pennachioni e Vanessa Couto e de um artigo do camarada Bruno Magalhães. A seção de depoimentos traz um instigante artigo de Pedro Fuentes sobre a história de seu irmão Luis Pujals, o primeiro desaparecido político da história da Argentina. Já a seção internacional traz uma análise do sociólogo William I. Robinson sobre a situação latino-americana.