A situação brasileira se agrava

As tendências estruturais de aprofundamento da crise no aspecto sanitário e econômico seguem sua toada de agravamento e em breve atingirão níveis críticos.

Gilson Amaro 24 maio 2020, 15:26

O número de mortos por covid-19 segue batendo recordes e já atingiu marcas que ultrapassam 1.188 mortes por dia. Trata-se de um ranking nada desejável. Os números reais devem ser ainda maiores, pois a subnotificação é assustadora. Não existe estrutura para o combate e não há controle da real dimensão da pandemia, apenas as estimativas dos cientistas, que simplesmente são ignorados pelo governo federal.

No cenário internacional o Brasil aprofunda seu isolamento. Bolsonaro nos deixa no mesmo nível de negacionismo e obscurantismo do Turcomenistão e Bielorússia, sim, isto não é um elogio. Os impactos econômicos da confluência de uma crise econômica global, com a pandemia, agravam o cenário e irá certamente produzir alterações substâncias no quadro internacional do sistema do capital. O Brasil não estará bem posicionado neste novo momento que começa a se desenhar.

Após a divulgação do fatídico vídeo da reunião ministerial, o que já sabíamos foi apresentado de forma crua e expôs de modo mais intenso a essência deste governo. Entre interferências, ataques aos demais Poderes da Republica e clara apropriação privada da esfera pública por parte de sua família, fica a certeza de que para avançar seu projeto, que envolve principalmente se livrar da prisão e seguir no modo miliciano de governar, lucrar e justificar isso tudo numa narrativa de revolução conservadora contra o globalismo e os inimigos da família e de Deus (sabe-se lá o que seja isso), Bolsonaro fará de tudo que puder para conseguir seus objetivos. Ele precisa ser detido.

E é aí que entra a nota do serviçal Heleno ameaçando gravemente o Supremo Tribunal Federal. Fato interessante é que o governo Bolsonaro expôs amplos setores das forças armadas como eles realmente são, ou seja, tipos sedentos para se beneficiar em cargos, status e tudo o mais que puder arrancar das posições de poder. Aparelharam o Estado Brasileiro e defenderão duramente suas posições, assim estes setores se ligam umbilicalmente a Bolsonaro e se nivelam pelo mesmo padrão amoral e político do ex-capitão. Temos um ingrediente perigoso nesta mistura.

As tendências estruturais de aprofundamento da crise no aspecto sanitário e econômico seguem sua toada de agravamento e em breve atingirão níveis críticos, gerando profundos impactos na esfera política, já pesadamente afetada por estes elementos. Deste modo o vídeo que sim, mostra mais um lance da batalha das frações burguesas da sociedade brasileira, que com a entrada de Moro em cena ganhou novos lances e configurações, tem importância para entendermos e atuarmos na realidade, mas os elementos centrais da conjuntura seguem as determinações econômicas e os componentes da crise sanitária.

O vídeo em si não resolve para nenhum lado o padrão da crise, seria simplista e precipitado pensar assim. Novos elementos precisam e entrarão em cena para que isso ocorra. Análises impressionistas sobre o vídeo, em que pese sua gravidade, são equivocadas tanto para um lado, quanto para outro.

Uma certeza é que há agravamento da situação e que a deposição de Bolsonaro e seu governo tem de fato um papel civilizatório e deve ser a principal tarefa para avançar no combate a atual crise. Mas sim, não basta que Bolsonaro caia.

O povo deve entrar em cena e com sua força colocar o Brasil no rumo da igualdade, derrotando os algozes da extrema direita, da direita e demais forças da ordem burguesa, que agora querem posar de oposição, mas estão ligados indissociavelmente a tudo que estamos vendo e na gênese da tragédia que vivemos.


Parlamentares do Movimento Esquerda Socialista (PSOL)

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Esta é a vigésima primeira edição da Revista Movimento, dedicada aos debates em curso do VII Congresso Nacional do PSOL. Nela encontram-se artigos de análise, polêmica e discussão programática para subsidiar os debates de nossos camaradas em todo o país e contribuir com a batalha pela pré-candidatura de nosso companheiro Glauber Braga à presidência da República pelo PSOL. A edição também conta com análises de importantes questões internacionais contemporâneas e de outros temas de interesse, como os desafios da luta pelo “Fora, Bolsonaro” e as crises hídrica e elétrica no Brasil. Num ano de 2021 ainda marcado pela tragédia da pandemia da Covid-19 e pelo descaso criminoso de governos em todo o mundo, lamentamos a perda de nosso grande camarada Tito Prado (1949-2021), militante internacionalista e dirigente de Nuevo Perú. A ele dedicamos esta edição de nossa revista e, em sua homenagem, publicamos artigos em sua memória. Boa leitura!