Ainda não é hora de flexibilizar o isolamento social
Foto: Fernanda Piccolo

Ainda não é hora de flexibilizar o isolamento social

O Brasil está em curva ascendente, não há sequer indícios de achatamento.

Luciana Genro 28 maio 2020, 14:49

A estabilização no número de infectados por coronavírus no Rio Grande do Sul apontada pela pesquisa da UFPEL é uma boa notícia. Entretanto não podemos nos iludir. O aumento de 2000% nas mortes por Síndrome Respiratória Aguda é um indicador sem explicação por parte do governo. No último mês a média desses óbitos foi 6 vezes superior à média dos últimos 2 anos. É o que informa uma pesquisa realizada pela Fiocruz.

A defasagem na contagem de casos dos municípios em relação aos números do Estado também não foi explicada. E a data da volta às aulas é só uma especulação. Ninguém sabe como estaremos daqui a 15 dias, quando o efeito da flexibilização já feita vai estar no auge.

O “Distanciamento Controlado” nada mais é do que uma grande fórmula matemática, composta por onze indicadores que são alimentados por dados oficiais. A decisão sobre quais indicadores comporão a fórmula e qual o peso que será atribuído a cada um deles no cálculo final da bandeira é mero achismo da administração, uma escolha política. A mudança de peso de um dos 11 indicadores ou a sua exclusão pode mudar o cenário de todo Estado.

Além disso, a definição de qual atividade está em uma ou outra bandeira é feita por meio de um cálculo que leva em consideração dois fatores: o contato físico inerente ao seu funcionamento e a sua importância econômica. A inclusão da importância econômica como fator, de cara, descaracteriza a natureza sanitária do índice – o qual, ademais, não é difícil de manipular.

A própria nota metodológica demonstra que se for dado mais peso para um ou outro fator, há alteração nas bandeiras em que seu funcionamento é permitido. Mundo afora, mesmo em países cuja curva de casos despencou, os governos estão receosos em flexibilizar o distanciamento.

O Brasil está em curva ascendente. O Rio Grande do Sul também. Porto Alegre também. Não há sequer indícios de achatamento. Aqui, estamos indo na contramão de tudo. O distanciamento social está sendo flexibilizado, o auxílio emergencial é parco e mal estruturado, o governo federal virou as costas para as micro e pequenas empresas e, ainda, estamos entre os países que menos testam no mundo – e o nosso Estado é um dos que menos testam no país.

Para fechar a desgraça, a Fiocruz divulgou que a subnotificação no Estado gira em torno de seis vezes o número informado. Ademais, organismos internacionais que trabalham com direito de acesso à informação  identificaram que estamos entre os piores estados na divulgação de dados sobre a pandemia.

O Rio Grande do Sul é um dos estados menos transparentes quando o assunto é coronavírus, inclusive no que diz respeito às compras emergenciais feitas pelo governo – em que são informados os valores totais gastos, e não o valor unitário dos produtos. Isso tudo dificulta o controle social, deixa a sociedade refém das interpretações fornecidas pelo governo e favorece até mesmo o surgimento de casos de corrupção.

Ainda não é hora de flexibilizar o isolamento social, mas sim de dar condições para as pessoas ficarem em casa. Infelizmente o governo tem escolhido pelo caminho da flexibilização. A receita para a tragédia está dada. Vamos torcer para que ela não ocorra.

Artigo originalmente publicado no portal Sul21.

Parlamentares do Movimento Esquerda Socialista (PSOL)

Capa da última edição da Revista Movimento
“Enquanto os efeitos sanitários e econômicos da Covid-19 seguem fazendo-se sentir, escancarando a crise global do capitalismo, as lutas na América Latina começam a apresentar importantes conquistas no enfrentamento da extrema-direita continental. Na Bolívia, após meses de enfrentamentos e mobilização popular, a contundente vitória da chapa do MAS pôs fim ao governo ilegítimo e reacionário de Jeanine Áñez. No Chile, após as multitudinárias manifestações de 2019, o plebiscito levou a uma vitória esmagadora em favor de uma nova constituição elaborada por assembleia exclusiva. Na campanha eleitoral estadunidense em curso, está em jogo a possibilidade de derrotar o trumpismo, que anima movimentos neofascistas e racistas naquele país e em todo o mundo. Ao mesmo tempo, as eleições municipais brasileiras abrem a possibilidade de construir uma alternativa nas cidades que contribua para isolar e derrotar o bolsonarismo. A décima oitava edição da Revista Movimento debruça-se sobre esses processos de mobilização nas ruas e de enfrentamento eleitoral em curso”.