Educadores do Rio: é hora de lutarmos por nossos direitos e pelas nossas vidas!
AF Rodrigues

Educadores do Rio: é hora de lutarmos por nossos direitos e pelas nossas vidas!

A falta de compromisso com a população carioca daquele que prometeu “cuidar das pessoas” mostra para quem Crivella governa.

Marcelo Santanna e Thais Coutinho 29 maio 2020, 17:02

A Rede Municipal do Rio, maior rede da América Latina, atende mais de 641 mil alunos, e conta com mais de 53 mil educadores. Esses números são importantes para dimensionarmos o efeito sobre a população carioca ao se pensar qualquer política para a Educação em época de pandemia.

Sabemos que infelizmente no Brasil, o governo federal luta com todas as suas forças para rechaçar as orientações da Organização Mundial da Saúde, mostrando que nem mesmo num período de pandemia abre mão do obscurantismo que prevalece em seu governo, e assim, continua ignorando a ciência. O presidente na tentativa de manter os lucros de grandes empresários prefere que os trabalhadores paguem mais uma vez, só que diferente de outras crises. Anteriormente o preço era a retirada de direitos e a precarização de nossas condições vida e trabalho, agora pagaremos com nossas próprias vidas. E assim, Bolsonaro tenta a qualquer custo manter uma normalidade impossível para a conjuntura atual. Para fazer valer o seu discurso, joga com todas as suas cartas. Pressiona e ameaça prefeitos e governadores que sensatamente mantém a quarentena e lança um discurso que “o Brasil não pode parar” tentando convencer a classe trabalhadora a retornar a seus postos, mesmo que esse seja o caminho de suas próprias mortes. E para que os trabalhadores aceitem arriscar suas próprias vidas, o governo mantém a situação de miséria e pobreza da população. Ao invés de propor medidas que garantem uma redistribuição de rendas e garantia da sobrevivência dos trabalhadores (o que poderia ser garantido se taxássemos as grandes fortunas, etc.), o presidente dificulta até mesmo o auxílio emergencial, cuja proposta inicial do governo era de apenas 200 reais. O veto do presidente em ampliar o auxílio para outras categorias tirou a possibilidade de vários trabalhadores reivindicarem esse auxílio. A burocracia e erros em torno do auxilio deixam até mesmo as pessoas aptas a reivindicar, sem conseguir usufruir o auxílio de fato. O governo cria o cenário perfeito para que as pessoas (sem renda alguma) se submetam a voltar ao trabalho e assim garantir a tão querida abertura das atividades não essenciais.

É nesse contexto que o prefeito Crivella se reúne com Bolsonaro, no dia 21 de maio, e passa anunciar a reabertura do comércio, logo no ápice da pandemia. A pressão econômica gerada na falta de renda é concreta. Muitos cariocas não conseguiram receber o auxilio emergencial do governo federal. E até mesmo o cartão de alimentação de 100 reais (para o período em que as aulas estão suspensas) as famílias de nossos alunos encontram diversas dificuldades em receber. Em um primeiro momento elas seriam apenas para mil dos mais de 640 mil alunos, depois aumentando em mais 50 mil para atender os beneficiários dos programas Bolsa família e Bolsa carioca, e na etapa atual estendendo a outras famílias através de cadastro em link. Mas o concreto é que após mais de dois meses de suspensão de aulas, muitas famílias não receberam qualquer auxílio. Algumas dessas famílias encontram dificuldades em fazer cadastro na internet, por falta de acesso à rede e outras nem sequer sabem que é preciso fazer o cadastro para recebê-lo. Sem uma proposta que garanta a todos a alimentação, também no Rio, essas dificuldades levam a faltar comida nas mesas de nossos alunos. E diante desse problema imediato, o risco de contrair Covid-19, na condução lotada, rumo ao trabalho para garantir o sustento da sua família, pode parecer uma alternativa plausível. A manutenção da miséria é um elemento fundamental para aqueles que querem privilegiar os lucros ao custo da vida. Pois só ela torna possível levar o trabalhador aceitar a caminhar rumo a sua morte, garantindo o lucro dos patrões que continuarão no conforto de seus lares. E por tabela, Crivella, com essa política, agrada o presidente, garantindo apoio e alianças para a próxima eleição.

O descaso com nossos alunos é semelhante ao descaso com os servidores. O educadores que não recebem reajuste há 2 anos, e portanto sofrem um processo de precarização, na pandemia veem suas condições de vida serem ainda mais debilitadas com cortes de auxílios: transporte e difícil acesso. Além da suspensão das duplas regências dos professores em projetos de extensão de currículo: NAM, Heróis do Tabuleiro, Vôlei, Núcleos de Artes e Esporte. A justificativa apresentada foi o fato da municipalidade não considerar tais atividades como regência de turma desmerecendo os profissionais que atuam nesses projetos. É bom ressaltar que os supracitados projetos são de extrema relevância aos alunos que lá se encontram e que é o trabalho do professor nesses projetos é regência de turma, uma vez que planejam pedagogicamente e executam suas atividades com grupamentos regulares (turmas) para as diferentes oficinas e, ainda, há supervisão pedagógica de suas atividades docentes. Para uma categoria de profissionais há dois anos sem reajuste, qualquer acréscimo em sua folha de pagamento faz parte do salário. Vale transporte, difícil acesso e dupla regência fazem parte do vencimento mensal, logo não podem ser retirados.

Toda essa falta de compromisso com a população carioca daquele que prometeu “cuidar das pessoas” mostra para quem Crivella governa.

Além das medidas anunciadas que tantos prejuízos trazem aos Educadores do Rio de Janeiro, o governo Crivella joga com a política de “bode na sala”, criando especulações de medidas absurdas que quando geram indignação e descontentamento, o governo recua, e joga a culpa na mídia, ou em um mal entendido. Mas o fato concreto é que diversas notícias veiculadas na mídia, somadas a circulares internas, assédio à categoria, levam a um clima de grande tensão entre os educadores cariocas. A falta de comunicação só piora a situação. Assim o governo vai pressionando a categoria, entre ameaças e assédio. Exemplo disso é a CI 02-2020 que afirma que as duplas serão pagas a todos que estiverem exercendo atividades pedagógicas em caráter remoto. Mesmo sem nenhum documento (com peso legal) que estabeleça o ensino em caráter remoto como obrigatório para os professores da rede, a circular atua fazendo pressão sobre os professores que já sofrendo cortes temem ainda mais a diminuição de sua renda e sem contar com todas as peculiaridades que os profissionais podem estar vivenciando nesse momento de pandemia e isolamento social.

Mas com certeza o pior caso foi a notícia que circulou na mídia sobre a possibilidade de abertura de escolas (a partir de 1º de junho com as creches). Interessante observar que a mesma circulou poucos dias após a reunião de Crivella com Bolsonaro, e na mesma semana em que as escolas iniciaram um processo de limpeza de suas unidades. Nenhum pronunciamento da SME, e somente após muita demonstração de insatisfação da categoria nas redes e logo uma nota do SEPE que falava da possibilidade de greve, que o prefeito nega a abertura de escolas.

Assim Crivella vai tocando o seu governo em plena pandemia, precarizando ainda mais os trabalhadores de educação, seja por piorar suas condições materiais devido a cortes, seja por ameaças e assédios, deixando sempre a instabilidade pairando no ar.

Nós, educadores da rede municipal do Rio, que há muitos anos defendemos e lutamos pelo direito de uma Educação de qualidade para os filhos dos trabalhadores, precisamos agora lutar pelo adiamento do ano letivo! No momento atual, mais que defender a Educação para todos, precisamos defender a própria vida de nossos alunos e nossas alunas! Precisamos lutar para que todos nossos alunos recebam alimentação sem furar a quarentena! Precisamos lutar contra os cortes que precarizam ainda mais nossas condições de vida! Devemos lutar para que as pressões do mercado (lucro) não levem a cogitar abertura de escolas arriscando nossas vidas!

Pelo direto à Educação! Pelo direito à vida!


Parlamentares do Movimento Esquerda Socialista (PSOL)

Capa da última edição da Revista Movimento
Publicamos a décima sétima edição da Revista Movimento ainda sob o impacto da pandemia da Covid-19. Em todo o mundo, as contradições acumulam-se. Este volume está dedicado à análise de várias dimensões desta verdadeira crise global e de seus desdobramentos. Com destaque, tratamos da mobilização antirracista nos Estados Unidos e no mundo, iniciada após o assassinato de George Floyd, e da situação brasileira, discutindo a crise do governo Bolsonaro e as recentes manifestações dos trabalhadores por aplicativos.